sexta-feira, 3 de julho de 2026

Expectativas tipo José

 ² "O Senhor era com José, que veio a ser homem próspero; e estava na casa de seu senhor egípcio." Gênesis 39.

   Lemos no Gênesis, todo o tempo, que "o Senhor era com José".  Não seria o caso de, como foi com os irmãos, acusar ser privilégio só dele, como paparicava Jacó.

   Não.  Pelo que as Escrituras definem, é vocação de Deus ser com todos. Porque, por e para amor, deu seu Filho unigênito, como afirma João:

¹⁶ "Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna." Jo 3.

   E como diz Paulo, este sim um outro apóstolo, se quem, como Deus, concede o Filho, como não daria, junto com Ele, tudo o mais?

³² "Aquele que não poupou o seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura, não nos dará graciosamente com ele todas as coisas?" Romanos 8.

    E mais, se fosse impossível ser, mas não é, Deus busca comunhão conosco como a tem com o Filho. Isso Jesus afirma na oração registrada em Jo 17:

²¹ "...a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste."

    Compete a nós ser como José. Porque a disposição de Deus em ser tão íntimo, requer contrapartida. José foi, desde muito cedo, fiel a sua fé, constituindo-se modelo.

     Evidente que Deus já o adestrava para desempenhar o ministério que tinha a desempenhar. Mas para Deus e com Ele todos têm ministério a desempenhar.

   José, chamado pelos irmãos sonhador, reunia em si o que competia a Deus realizar, como por exemplo, os sonhos que teve, mas também reunia aspectos de sua personalidade também trabalhados por Deus nele mesmo.

⁶ "Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus." Filipenses 1.

   Exemplo disso era que, mesmo paparicado por Jacó, que amava Raquel (que costumava roubar os ídolos de seu pai) e não Lia, de quem, por Judá, diretamente descende Jesus, ele não ensoberbeceu-se por isso.

   Bastava a preferência incômoda e flagrante do pai, que despertava inveja e aversão entre os demais irmãos, mas José mantinha postura imparcial. Embora sua ética, ao transmitir ao pai os deslizes dos irmãos, mais aprofundasse o ódio deles e acentuasse sua conduta padrão.

   Jogaram-no numa cova, venderam-no como escravo, embora a intenção fosse matar, José conquistou a confiança de Potifar, foi assediado pela mulher dele, foi encarcerado, conquistou a confiança do carcereiro.

³ "Vendo Potifar que o Senhor era com ele e que tudo o que ele fazia o Senhor prosperava em suas mãos, ⁴ logrou José mercê perante ele, a quem servia; e ele o pôs por mordomo de sua casa e lhe passou às mãos tudo o que tinha." Gênesis 39:3,4.

⁵ "E, desde que o fizera mordomo de sua casa e sobre tudo o que tinha, o Senhor abençoou a casa do egípcio por amor de José; a bênção do Senhor estava sobre tudo o que tinha, tanto em casa como no campo." Gênesis 39:5.

²¹ "O Senhor, porém, era com José, e lhe foi benigno, e lhe deu mercê perante o carcereiro;
²² o qual confiou às mãos de José todos os presos que estavam no cárcere; e ele fazia tudo quanto se devia fazer ali. ²³ E nenhum cuidado tinha o carcereiro de todas as coisas que estavam nas mãos de José, porquanto o Senhor era com ele, e tudo o que ele fazia o Senhor prosperava." Gênesis 39.

   José permanece impassível. Fosse na cova ou, desde a cova, fosse ma casa do comandante das guarnições egípcias, fosse no cárcere e ainda onde, adiante, sempre adiante José vai alcançar.

   Porque no que punha sua mão, o Senhor fazia prosperar. Podemos imaginá-lo inteligente, sim, assim como espiritual, em suas prioridades diante do Senhor.  Obediente, certamente, é vitorioso na batalha íntima contra seu próprio ego.

   Por isso que, no ponto máximo, ao desvendar o sonho, na verdade, o pesadelo de Faraó, assim mesmo testificando não haver em si nenhum mérito, o soberano do Egito enxergou que nele agia, com liberdade, o Espírito do Senhor.

¹⁵ "Este lhe disse: Tive um sonho, e não há quem o interprete. Ouvi dizer, porém, a teu respeito que, quando ouves um sonho, podes interpretá-lo. ¹⁶ Respondeu-lhe José: Não está isso em mim; mas Deus dará resposta favorável a Faraó." Gênesis 41.

³⁷ "O conselho [de José] foi agradável a Faraó e a todos os seus oficiais. ³⁸ Disse Faraó aos seus oficiais: Acharíamos, porventura, homem como este, em quem há o Espírito de Deus?" Gênesis 41.

   Basta ser como José. Difícil ser como José. Possível ser como José. Deus é sempre com cada um que crê. Porém, com quem tipifica José, seguindo-lhe o exemplo, tem expectativas muito maiores.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Vergonha autêntica

 ¹³ "Saiamos, pois, a ele, fora do arraial, levando o seu vitupério." Hebreus 13.

    Aí reside o problema. Em que proporção esse vitupério, essa vergonha ou afronta? Assumir-se cristão, mas em que sentido?

  Pulverizou-se o significado de se afirmar cristão, ou crente, evangélico, protestante, "os Bíblia", no meu tempo de criança.

   A cruz é uma afronta. Uma das razões alegadas por judeus para não reconhecer Jesus como Messias consta nas Escrituras:

²³ "...porquanto o que for pendurado no madeiro é maldito de Deus". Deuteronômio 21.

   Ora, mas isso Paulo afirma aos Gálatas, que o crucificado Jesus se fez maldito, porém para que a maldição que carregamos, fosse nEle exaurida, e a santidade dEle a nós fosse atribuída, com e por justiça.

¹³ "Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar (porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado em madeiro), ¹⁴ para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios, em Jesus Cristo, a fim de que recebêssemos, pela fé, o Espírito prometido." Gl 3.

    Esse sentido da cruz é o original. Para se associar a ele, isto é, ver-se incluído nessa troca de maldição por bênção, ou seja, herança individual trazida do berço trocada pela santidade imputada pelo sacrifício do Filho,  é necessário assumir-se o combo.

   Com tudo que inclui, ser tido por ridículo, em acreditar nessas coisas, ou assumir-se marcado por pecado, ou ainda discriminado por autodeclarar-se cristão. Porque ser cristão traz uma enorme carga de vergonha assumida, mas somente de um tipo original.

   Que é a constatação da realidade do pecado no viver. E este representa a condição de que algo muito ruim, que sempre pôde ser evitado, ocupou a parcela completa do ser e do viver.

   Na conversa com Caim, Deus lhe revela a natureza do mal.  Pelo menos, três conceitos fundamentais referentes a esse  mal estão assim definidos:

⁷ "Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo."  Gênesis 4.

   1. O pecado (sub)jaz, como numa emboscada, dentro e pronto a nos subverter; 2. O desejo do pecado não é aprovado por Deus e é homicida (contra Deus, contra o portador e contra o interlocutor); 3. Somos responsáveis por dominar, evidentemente, se e quando recorremos a Deus.

    Deus revela o pecado. O arrependimento provém de Deus, por uma tristeza que, diante do pecado, somente Deus possui.  E tudo isso pela bondade de Deus, que conduz ao arrependimento a quem ama. E Deus a todos ama.

     ¹⁰ "Porque a tristeza segundo Deus produz arrependimento para a salvação, que a ninguém traz pesar; mas a tristeza do mundo produz morte." 2 Coríntios 7.

⁴ "Ou desprezas a riqueza da sua bondade, e tolerância, e longanimidade, ignorando que a bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento?" Romanos 2.

    Assuma a tua vergonha. A original. Enxerga o teu pecado pela tristeza de Deus. Arrepende-te. Saia, fora da porta, ao encontro do crucificado. E carregue contigo, pelo restante de tua existência e pelo viés autêntico, a vergonha do evangelho.

¹⁶ "Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego; ¹⁷ visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá por fé." Romanos 1.

   E, uma vez sendo autêntico, nunca te envergonhes de admitir.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

O saber do Filho do carpinteiro

 ⁸ "O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai". Jo 3.

  Muito não se sabe, tornando-se deveras problemático para os viventes. Imagine, em plena vigência do "século da luzes", dizer a alguém: "Não sabes".

   Jesus, de quando em vez, usava essa expressão. Como na única parábola que somente Marcos registra:

²⁶ "Disse ainda: O reino de Deus é assim como se um homem lançasse a semente à terra; ²⁷ depois, dormisse e se levantasse, de noite e de dia, e a semente germinasse e crescesse, não sabendo ele como." Mc 4.

     Você não sabe. Num século onde há requintes por se inventariar tudo o que se conhece, sob regras rígidas, em forma infinitamente digital, dizer "não sabe" passa por pura provocação.

    Talvez seja Jesus que não sabe. Porque o filho de um carpinteiro, sem formação acadêmica, seria convictamente desmerecido. E quanto à natureza do que se sabe?

   Especialista nos dois assuntos, numa das falas Jesus se refere ao Espírito Santo que, como o vento, não se entende o mover. Na outra fala, floresce  imperceptível o reino de Deus, como brota na terra uma semente.

        O que dizer, diante do ceticismo deste século, sobre a relevância desses dois assuntos? Vivemos, desde o século XVIII, os efeitos do Iluminismo. É a idade da razão.

   Para o século atual, nenhuma relevância. E o método científico dominante. Ninguém deseja se sentir ridículo, acolhendo como plausível o que escapa aos parâmetros do século.

    Daí a irrelevância da temática abordada pelo Filho do carpinteiro. Ainda porque o que provém desse viés argumentativo cheira a cristianismo, religião depreciada ao máximo, no rol das demais, pelo alegado compromisso dela com o colonizador.

   ¹ "O saber ensoberbece, mas o amor edifica. ² Se alguém julga saber alguma coisa, com efeito, não aprendeu ainda como convém saber." 1 Co 8.

    Essa afirmtiva acima pertence a Paulo. No que depende do Filho do carpinteiro, não será o saber, nem por sua quantidade, seja por sua celebridade, ou qual critério for. Ele pretende entender de amor.

     Paulo, a Timóteo, mais uma vez se supera, ao classificar que modalidade está reservada a quem escapa do essencial, quando o assunto beira, de perto, o que interessa a Jesus:

⁶ "Desviando-se algumas pessoas destas coisas, perderam-se em loquacidade frívola, ⁷ pretendendo passar por mestres da lei, não compreendendo, todavia, nem o que dizem, nem os assuntos sobre os quais fazem ousadas asseverações." 1 Tm 1.

   Eu acho o máximo as expressões "loquacidade frívola" e ironia requintada dizer "ousadas asseverações". Para Paulo, na mesma linha de raciocínio do Filho do carpinteiro, falar do que não se sabe é pura loquacidade frívola.

    E o saber não tornou melhor a humanidade. Talvez seja essa uma missão para o amor. E Talvez seja esse o saber no qual o Filho do carpinteiro se exercita. Porque o saber ensoberbece. O amor edifica.
   
     Não sabes. Jesus causou de afirmar. Não se sabe como o reino de Deus floresce. E também não de onde vem e nem para onde vai o Espírito. 

Frutificando na Melhor Idade

     

    Escrevo sobre Neli por absoluta gratidão a Deus por sua vida e de seu esposo. Gerson Coelho conheci ainda em Cascadura, pelos idos de 1966, quando os três irmãos, ele, Josias e Sérgio cerravam fileiras entre o grupo daquela geração. O pai deles, Clauderval, e a mãe, Madalena, nos davam carona, de Cascadura a Ricardo de Albuquerque, onde residiam, todos os domingos que eu e Dorcas, minha mãe, esticávamos para o almoço em Nilópolis, a famosa e charmosa casa da avó.

    Neli e Gerson foram fundamentalmente importantes em meu início de ministério, na Congregacional de Curicica, em 1982. Eu ainda não era ordenado, somente o fui a partir de 2 de janeiro de 1983. Mas eles já me conduziam, no heróico e desbravador Fiat 147 de Gerson, por carona, da Magalhães Couto, no Meier, via serra da Grajaú-Jacarepaguá, até a Estrada do Guerenguê, em Curicica.

    Somente juntos na eternidade vamos relembrar os assuntos dessas viagens. Mas o substrato que ficou, decorrente dessa parceria, fundamentava, camada por camada minha hesitante vocação. Gerson conduzia-nos por todos os escaninhos de Jacarepaguá, a partir do Largo da Taquara, para visitar pessoas. Fosse na Colônia Juliano Moreira, na Buiuna, enfim, cantos que se perderam nos recantos de minha memória.

    Curicica foi herança que Cascadura herdou, quando ninguém mais acreditava que fosse à frente. Exceto Gerson e Neli, com mais uns 10 irmãos. Pastor Maurillo Moreira delegou a eles o desafio. Esse casal sempre foi fagulha. Com eles, nunca deixou de haver braseiro. Convidaram-me, Gerson e Valdemir, em nome do grupo, para segui-los lá em Curicica. Eu fiz como Saul, escondendo-me, tentativa vã. Gerson e Valdemir me acharam, sentado no antigo coral de Cascadura, que ficava por detrás do púlpito do pastor.

    Curicica foi uma escola, por causa do traço de personalidade daqueles notáveis, como diz o salmista. Com essa gente, Gerson e Neli ombreavam. Há pouco tempo ela me falou da visita que fez a um desses, Diac. Pedro Regis, quase centenário, lá por Duque de Caxias, no Rio. O Fiat 147 era incansável no rastro desses operários do reino. Aliás, onde não ia Gerson, mesmo quando ainda tinha o Fusca 1200, antes desse moderno 147? Conheci também.

    Certa vez foram, ele contava, à inauguração da Transamazônica, isso mesmo, conduzindo junto com a família, Gielson criança, o velho Cabral, pai de Neli. Por todas e por muitas estradas. Muita gente recebeu os efeitos dos benefícios desse casal. Envolveram-se com Missões. Cascadura, desde 1972, tornou-se uma igreja missionária. Promovia ofertas de maio e julho, lanches missionários, até um hino autoral havia: "Ó, missionários, ide, marchai! Atendei à ordem do Senhor/Jesus Cristo salva, proclamai corajosos, firmes, sem temor./Missionários Cascadurenses, nosso lema consiste em servir./Propalemos que somos crentes, na esperança do eterno porvir."

    Isso contagiou a todos. E teve continuidade na disposição desse casal. Certa vez brigamos. Quer dizer, houve um conflito de ideias. Em 1986, numa viagem a Campo Grande, MS, Gercino, mais um desses heróis de fé, e eu espiamos aquela capital e, por providência de Deus, nessa primeira viagem, adquirimos o imóvel onde hoje está a Igreja Evangélica Congregacional de Campo Grande, no bairro Copavila II.

    Curicica, Cascadura, Piedade, na época filiada à denominação, e Vicente de Carvalho, hoje responsável por esse campo, juntaram-se para adquirir o imóvel e sustentar o misionário que se sentisse desafiado a ir. Eu sugeri um casal de Curicica, o melhor deles, Valdemir e Elzair. Neli discordou. Ora, Cid Mauro, como você quer enviar nossos melhores obreiros para Campo Grande? Eu contra-argumentei, ora, irmã, temos de enviar os melhores. Ela replicou, mas aqui há poucos. Eu contra-repliquei: mas lá não há ninguém.

    Ela então deu xeque-mate: Por que, então, não vai você? Viemos. Todos nós viemos. Neli e Gerson vieram sempre e vieram primeiro. Quem vem para Missões, desde Paulo, membro em Antioquia, vem primeiro. E ele era entre os melhores. Porque anos depois, não para Campo Grande, a 1500 km do Rio, mas para Rio Branco, 2700 km depois, viemos eu e minha família. E por ironia, veio Gielson também, filho único deles. E Neli e Gerson nunca descansaram de missões, nunca se cansaram de missões, enquanto estiveram entre nós. Por isso ela descansa, agora, aqui no Acre, neste chão, de percorrer tantos outros motivando gente a ser missionária.

    Por terminar, certo dia preguei na igreja onde filho, nora e netos dela congregam. Cheguei, deparei a cuidadora, ainda com a farda verde do hospital, e Neli descendo do veículo que as conduzia. Neli, nessa fase, intermitentemente necessitando ser hospitalizada, estava ansiosa lá na internação: ora, haveria de perder o culto na igreja. Então a médica, embora desconhecesse a causa dessa aflição, alegrou Neli com o diagnóstico, a melhora dela permitiria a alta, para ir para casa, é lógico.

    Qual não foi a surpresa da médica: não, vou para a igreja. Leve-me para a igreja. Eu assisti à cena da cuidadora transmitindo umas recomendações de praxe, no estacionamento da igreja. Então fiquei entendendo que ali, naquele momento, Neli vinha direto do hospital para a igreja. Desde 1966 conheço Gerson e os pais dele. Inesquecível o sorriso de Madalena, mãe dele. Refletia a mansidão dela. Neli, na época de Curicica, me levou a Mato Alto, mais de uma vez, para visitar os Cabral, pai e mãe dela. Conduzia-me a visitar os irmãos dela, e muito mais gente, para trazer todos para a igreja.

    Toda essa gente privilegiava estar na igreja. Minha mãe também era assim. O último domingo dela, meu último telefonema a Dorcas, foi por teimosia. Eu liguei, daqui do Acre, para dizer que não fosse, naquele domingo, à igreja, não, que não estava bem, que era melhor repousar. Ela disse, na igreja há quem cuide de mim. E foi a última vez que ela esteve na igreja, naquele domingo. Essa gente valoriza igreja. Parece que essa geração que valoriza igreja está indo embora.

    Muito mais há para falar desse casal. Eu poderia lembrar outras cenas, como essa da estrada, na foto acima. Mas fica marcada a gratidão a Deus pelo exemplo que deixam. E pela exortação que perdura: não desprezem igreja e sejam plenamente missionários.



sábado, 20 de junho de 2026

Sempre um gesto de amor

 ⁶ "...lembro-me, portanto, de ti, nas terras do Jordão, e no monte Hermom, e no outeiro de Mizar." Salmo 42.

    O outeiro de Mizar foi marcante memória para o salmista [Salmo 42]. Porque Deus o soergueu de seu abatimento. Em qualquer lugar e todo o tempo Deus pode resgatar do abatimento.

   Para o salmista, foi Mizar. Será que, como Elias no Horebe, foi lá buscar refúgio? Lugar aprazível, na região próxima ao Hermon, monte de 2184 m, com neve no cimo na maior parte do ano.

    Situa-se próximo às Colinas de Golã, atualmente ocupadas por Israel, ao norte, fronteira com a Síria. Tornou-se uma experiência marcante para o salmista.

   Quantas iguais já tivemos? Não precisa sentir abatimento, nem se deslocar ao outeiro de Mizar. Mas será essencial orar. O próprio salmista reconhece isso.

⁸ "Contudo o Senhor, durante o dia, me concede a sua misericórdia, e à noite comigo está o seu cântico, uma oração ao Deus da minha vida."

   Para orar, temos Jesus, o Filho, como (único) Mediador, e o Espírito Santo para assistir-nos na oração, por uma razão simples, porém flagrante.

²⁶ "Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira, com gemidos inexprimíveis." Rm 8.

⁵ "Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem". 1 Tm 2.

   Toda oração, pela mediação do Filho e assistência do Espírito constitui-se numa experiência estilo Mizar. Aliás, esta palavra significa "pequeno". Típico de Deus: gestos sempre simples, pequenos, porém notáveis. Marcantes. 

   Sempre será uma experiência especial. É claro que a urgência de qualquer oração, diante dos dilemas e, até como o próprio Jesus preveniu, diante das aflições, serão proporcionalmente mais marcantes.

    Mas o Deus será sempre o mesmo. E a prontidão sempre igual. Ainda que haja qualquer tipo de distração, como foi a de Agar:

¹³ "Então, ela invocou o nome do Senhor, que lhe falava: Tu és Deus que vê; pois disse ela: Não olhei eu neste lugar para aquele que me vê?" Gn 16.

    Ore agora.  Por gratidão ao Deus que sempre vê.  E que está também sempre perto e pronto a ouvir.  Deve ser muito lindo e aprazível o outeiro de Mizar. 

⁷ "Tendo-a achado o Anjo do Senhor junto a uma fonte de água no deserto, junto à fonte no caminho de Sur". Gn 6.

   Mas também aprazível a fonte do caminho de Sur, no deserto. Onde Deus o achar. Sempre perto. Sempre pronto a ouvir. Por mediação do Filho e assistência do Espírito.  Toda Trindade cabe num mesmo gesto de amor.

Nosso Grande Amigo Armando

Gratidão a Deus pela preciosa vida de Armando Escamilha Macedo. Grande amigo de meus pais. E a fidelidade de sua amizade se estendeu a mim e minha família.  A entrevista abaixo realizamos numa visita muito agradável a sua casa e família, ainda em dias da pandemia. Esse sorriso foi sua marca a vida inteira. E o testemunho de sua fé o maior consolo, para ele, para sua família e para nós, neste momento de despedida, mas na certeza de que continua sorrindo, agora ao lado do sorriso de Jesus. 

 Como foi a encrenca do Neném Costa? Mas o Armando já contou alguma coisa? Não. Está pedindo para vc contar.

Nessa época éramos muito crianças. Para saber alguma coisa... A gente ouvia falar por alto. Mas o que eu sei é que foi por causa de umas espigas de milho.

Parece que o Zezé pegou umas espigas de milho do tio Neném. Plantava, assim, na beira da estrada. Fosse amendoim, fosse milho. Vinha do baile, das festas, passava a mão, assim, macio, e começava a comer.

Houve a afronta, de tio Neném, então foi a casa, pegou da espingarda e acertou o pulmão do tio Neném.  E tio Neném pobre, casado, cheio de filhos, ferido, em cima da cama. Diz que o cheiro da infecção ia longe...

Foi por pouco que ele não morreu. Tio Zezé contava isso chorando, anos e anos depois. Eu vi. Contava para meu pai e começava a chorar. Meu pai dizia, Zezé, isso era coisa de quem não era crente. Mas Cid, como fui fazer isso? Mas você agora é convertido, Zezé.

Ele ficou bom e viveu muitos anos. Convertido também. Isso não sei. Mas a Dercília, a filha mais velha de Zezé, contou-me essa história. Mas sim, parecida com essa minha.

Vai que seja, porque essa do milho surrupiado ela não contou. Lado ruim do pai... Hahahaha...Nada, emenda Luzia: Não era ruim. Era comum. Você vinha, de madrugada, de uma festa em que não comeu nada, aí, passa na beira da estrada, aquela espiga bonitona ali, nem leva pra casa, para assar, nem nada.

Essa história da espiga não contou. Mas a do sitiante que tinha seus cachorros ela contou. E um deles mordeu dois dos filhos de Zezé. Ora, na casa de tio Neném tinha cachorros. Certo. Mas acho que, desta vez, não foram eles não.

Aí a encrenca cresceu. Que vai acertar contas, essas coisas, e o dono dos cachorros matou o que mordeu. Embora sem nada demais, uma mordida na altura do pulmão em Delacir, e uma dentadinha nas nádegas de Dinair, mas nada demais, estão vivos e sadios até hoje.

E o cara disse que sobrava uma bala para quem mais viesse resolver. Mas Zezé nessa época, já conta meu pai, estava agarrado com a Bíblia, virou um cara manso, decidido e corajoso, mas manso.

Mas conta que Dianair, muito bonita, como eram todas as filhas de Zezé, acho que minha avó era mistura de negra com índio, o que dizem, vocês que a conheceram? Não. Já falecera quando nascemos. 

Tarde em Itaocara:

Guetos de ortodoxia

 ³ "Amados, quando empregava toda a diligência em escrever-vos acerca da nossa comum salvação, foi que me senti obrigado a corresponder-me convosco, exortando-vos a batalhardes, diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos." Judas.

     Meu professor de hermenêutica em 1978, Martineis Anjo Gonçalves, de saudosa memória, disse certa vez que podemos começar entendendo um texto fazendo (inteligentes) perguntas a ele.

   Poderíamos perguntar, então: Como pôde Deus, de sã consciência (permissão para falar assim), pensar em entregar aos santos (no caso, aos que creem) a fé santíssima?

²⁰ "Vós, porém, amados, edificando-vos na vossa fé santíssima, orando no Espírito Santo".

   Preciosa, de extremado valor, entregue alhures. Por ela (ou a ela, não se sabe o que ocorre primeiro) temos acesso ao evangelho. Paulo (ele, sim, apóstolo) esclarece isso no clássico texto de Romanos 5:

¹ "justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo; ² por intermédio de quem obtivemos igualmente acesso, pela fé, a esta graça na qual estamos firmes; e gloriamo-nos na esperança da glória de Deus."

   Em minha congregação cansaram de me ouvir mencionar outro texto clássico, em Marcos 1, onde ele afirma quem primeiro pregou  o "evangelho de Deus": Jesus.

¹⁴ "Depois de João ter sido preso, foi Jesus para a Galileia, pregando o evangelho de Deus, ¹⁵dizendo: O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho."

    Por esse texto, indica-se: 1. O Apocalipse já começou; 2. Arrependimento está vigente e é urgente; 3. O reino de Deus está próximo, ou seja, ao alcance por acesso, mas também cronológica, histórica e iminentemente perto.

   Uma vez tendo recebido fé e evangelho, era então para saber: o que fé e evangelho são capazes de fazer conosco, operantes em nossas vidas?

   E não o contrário, ou seja, o que somos (ou fomos, até aqui), capazes de fazer deles. Cada um tem o evangelho que merece.
   
    Inversão  da Reforma. Saímos dela, dizemos, tendo resgatado as Escrituras de seu cativeiro na ortodoxia romana. O erro deles, dissemos, foi desprezar as Escrituras.

    Elevaram sua ortodoxia acima das Escrituras, ao estipular que é o Magistério da Igreja que lê e que normatizava o que vai escrito.

   Aí, formamos nossos guetos de ortodoxia. As Escrituras ensinam fé e aprofundam vivência do evangelho. Ortodoxia atiça vaidades.

   Em cada gueto, supõe-se ortodoxia superior a todas as outras. Enquanto isso, o que cabe às Escrituras ensinar, fica obscurecido. Cada um tem o evangelho que merece.

    Desprestigiadas, as Escrituras nada têm a ensinar. E as ortodoxias também nada ensinam. As Escrituras estão acima de todas elas. O Sola Scriptura prevalece como princípio, mas não como método. 

EVANGÉLICOS NO BRASIL

SÉRIE: EVANGÉLICOS NO BRASIL
Número 2


[Se você ainda não leu o Número 1, recomendo começar por ele: “Evangélicos no Brasil: o que os dados do Censo realmente revelam?”]

Os números chamam atenção.
Mas talvez eles não contem a história mais importante.

Enquanto boa parte do debate religioso brasileiro continua concentrada nas grandes capitais do Sudeste, os dados do Censo revelam que algo diferente está acontecendo na Amazônia.

Por que justamente o Norte se tornou a região mais evangélica do país?

O que migração, urbanização, mobilidade social e busca por pertencimento têm a ver com isso?

E, mais importante:
Estamos apenas observando estatísticas ou aprendendo a interpretar as transformações profundas da sociedade brasileira?

Minha proposta não é discutir quem está crescendo mais.
Não se trata de competição. Muito menos de estabelecer qualquer oposição aos católicos.

Meu interesse é refletir sobre o que os números podem revelar a respeito da missão da igreja em um Brasil que está mudando rapidamente.

Suas opiniões são muito bem-vindas.

Faço um convite especial aos irmãos e irmãs da Região Norte, incluindo alunos e graduados da FTSA: compartilhem suas percepções, experiências e discernimentos.

Vocês vivem uma realidade que muitos de nós observamos apenas à distância.

Talvez tenham muito a nos ensinar sobre o que está acontecendo nessa importante região do país.

Deslize e participe da conversa.

#DescomplicandoaTeologia #EvangelicosNoBrasil #MissaoUrbana #Censo2022 #TeologiaPublica
 você ainda não leu o Número 1, recomendo começar por ele: “Evangélicos no Brasil: o que os dados do Censo realmente revelam?”]

Os números chamam atenção.
Mas talvez eles não contem a história mais importante.

Enquanto boa parte do debate religioso brasileiro continua concentrada nas grandes capitais do Sudeste, os dados do Censo revelam que algo diferente está acontecendo na Amazônia.

Por que justamente o Norte se tornou a região mais evangélica do país?

O que migração, urbanização, mobilidade social e busca por pertencimento têm a ver com isso?

E, mais importante:
Estamos apenas observando estatísticas ou aprendendo a interpretar as transformações profundas da sociedade brasileira?

Minha proposta não é discutir quem está crescendo mais.
Não se trata de competição. Muito menos de estabelecer qualquer oposição aos católicos.

Meu interesse é refletir sobre o que os números podem revelar a respeito da missão da igreja em um Brasil que está mudando rapidamente.

Suas opiniões são muito bem-vindas.

Faço um convite especial aos irmãos e irmãs da Região Norte, incluindo alunos e graduados da FTSA: compartilhem suas percepções, experiências e discernimentos.

Vocês vivem uma realidade que muitos de nós observamos apenas à distância.

Talvez tenham muito a nos ensinar sobre o que está acontecendo nessa importante região do país.










Deslize e participe da conversa.

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Ver na net:

sábado, 13 de junho de 2026

Muitos cristianismos, fé e Fake News

"... penduraram Jesus de Nazaré na véspera da Páscoa, pois praticava a feitiçaria e levava Israel à perdição." Talmude babilônico, Tratado Sinédrio, 43b.

³³ "Quando chegaram ao lugar chamado Calvário, ali o crucificaram". Lucas 23.

   Talmude, no hebraico, signfica "estudo" ou "aprendizado". Tanto que a palavra "talmid" significa aluno.

   Desde o exílio em Babilônia, em 605 a.C., os religiosos judeus desenvolveram longa tradição de interpretação da Lei de Moisés, o que restou após as grandes perdas de 587 a.C.: queimado o Templo, toda Jerusalém e deposto e morto seu último rei.

    Pois o trecho inicial acima, é de fonte judaica, é um testemunho extrabíblico da crucificação de Jesus. O texto seguinte, um testemunho bíblico, fonte lucana neotestamentária.

   Ambos fazem a mesma afirmação. Trata-se da história do mais famoso galileu, assim reconhecido, assassinado sem nenhuma acusação justificada, por volta do ano 33 de nossa era.

   Nele se baseia toda a história da religião cristã. O que se constrói, ao longo de séculos, denominado cristianismo, provém de uma longa evolução a partir do que dele se conta nos chamados Evangelhos.

   E o que mais se diz em todo o restante do chamado Novo Testamento. O sistema religioso decisivo na emolduração de toda a cultura ocidental, com reflexos no restante do mundo, tem origem na crucificação desse homem.

    Paulo Apóstolo, alguém de quem já se disse ter sido, por causa da influência de seus escritos, inventor da religião cristã, afirma ser a ressurreição de Jesus a principal, senão a única âncora dessa religião.  Eis o que ele diz:

¹⁶ "Porque, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. ¹⁷ E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados". 1 Coríntios 15.

    Por incrível que parece, nesse trecho ele argumentava com crentes da igreja de Corinto, dentro dela porém descrentes da ressurreição.  Tremendamente influenciados pela filosofia grega, que admitia ser um absurdo essa crença.

   Mas ressurreição é o esteio do cristianismo. Se por acaso, pelo efeito de sua dimensão histórica, não há como negar o cristianismo como religião, ele continuará sendo, apenas, religião, caso seja negada a ressurreição.

   Se o crucificado às vésperas da Páscoa, acusado de feitiçaria e de conduzir Israel à perdição, de fato, não ressuscitou ao terceiro dia, do modo como afirmam os quatro Evangelhos e mais Paulo, a fé é  vã.

   Há, definivamente, distinção entre fé e religião. A fé diz respeito a fatos de Deus. Desde o Gênesis afirma-se "No princípio, Deus". Ele diz e acontece, ele faz e aparece. Outro autor neotestamentário, desta vez anônimo, afirma:

⁶ "De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam. "Hebreus 11.

   De fato. A fé é um fato. Deus é um fato. A ressurreição de Jesus é um fato. Assim como também foi a sua crucificação.  Sim, de fato, cremos no galileu assassinado crucificado e na sua ressurreição.

   Cristianismos há muitos. Quanto ao evangelho, cada um tem o que merece. Deveria ser mais o que o evangelho pode fazer por nós, do que o que nós fazemos dele. E quanto ao judeu assassinado morto na cruz, não é Fake, é fé: aquele judeu, queiram ou não queiram, é salvador do mundo.

domingo, 7 de junho de 2026

Igreja, alegria de Deus

 ⁴ "Tenho, porém, contra ti que abandonaste o teu primeiro amor." Apocalipse 2.

    Éfeso era uma megaigreja.  Tão ao feitio de muitas de nossos dias. Aliás, há uma penca de crentes que, se não for numa delas, não serve para eles.

   Mas pode ocorrer que nem haja, por parte de (algumas dessas) igrejas, uma síndrome de grandeza, o que seria muito perigoso. Afinal, soberba não combina com Jesus.

   E sabemos da parte de quem provém soberba e a falência que representa. E ela pode ser coletiva e/ou individual. Amor também, só que, na igreja, identitariamente, precisa ser individual e coletivo. E somente tem única origem.

   Em Éfeso, quando Jesus afirma que era emergencial retornar ao primeiro amor, foi porque toda a igreja havia perdido o alvo. Que houvesse crentes nela que mantinham amor, mas a maioria doente superou e comprometeu, para si, o testemunho dessa minoria injustamente desprezada.

   Se considerarmos que as características descritas por Lucas, em 2,42-47, definem o modo saudável dessa igreja nascente de Atos se desenvolver, e que foi uma descrição completa, nenhuma igreja sadia pode abrir mão de nenhum dos itens que Lucas menciona.

   Portanto, vamos entender que, inegavelmente, a observação feita por Jesus a Éfeso, não se aplicaria à igreja descrita por Lucas. E que elementos eram prática comum nesta igreja de Atos? Eram perseverantes em:

   Doutrina: cuidado com isso. Lucas se refere à dos apóstolos. Que signfica, hoje, o que temos na Bíblia.  O erro tem sido o que antes, na Reforma, criticamos na Igreja única que existia: pôr o que hoje se chama doutrina acima das Escrituras.

   Nenhuma doutrina ensina amor. As Escrituras ensinam amor. Avaliar que a doutrina de uma igreja ou grupo o coloca acima das outras ou de outros não é Escritura, não é  "doutrina dos apóstolos", não é amor.

   Comunhão: mais um conceito das Escrituras. Aliás, o principal personagem das Escrituras, Jesus, é Deus feito homem para estabelecer uma comunhão perfeita com o Pai. E é ele que afirma: "Edificarei a minha igreja".

      Comunhão define igreja. E não é comunhão estilo Éfeso, na qual a competência do grupo passou a definir as atividades da igreja. A lista que Jesus enumera, incluído até o fato de terem suportado afrontas por causa de sua fé, não lhes garantiu identidade, porque faltava amor.

   E se falta amor, a comunhão é falsa. Jesus expressa na sua assim denominada oração sacerdotal:

²¹ "... a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste." João 17.

   Comunhão é resultado de ação do Espírito na vida individual de cada membro, assim como o resultado final promovido em todos, por todos, em comunhão com o Pai, em Cristo, por esse mesmo Espírito. E o resultado é ação no mundo.

   Oração: essa igreja, denominada primitiva, tão mencionada como exemplo, orava junto, rapartia seu tempo juntos, participavam de refeições juntos, visitavam-se casa a casa, atividades que mantinham ininterrupta sua comunhão.

   A vida moderna apresenta fatores que, ao mesmo tempo, podem aproximar ou afastar, podem incrementar ou anular comunhão. Mas não se pode confundir estratégias de consumo, qualquer associação de grupo, seja que finalidade for, com a comunhão de ser igreja.

   Igrejas não são ONGs. Elas existem como resultado da cruz, que proporciona perdão do pecado, santificação em Jesus e ação do Espírito, para testemunho ao mundo.

   Qualquer outra finalidade para a igreja, distorce sua identidade. O problema atual principal é seu desvio de função. Os que se ajuntam, não mais se identificam pela redenção pelo sangue de Jesus, mas como reunião de afago do ego pessoal de cada um ou uma identidade qualquer que os defina como grupo.

   Temor: nenhuma outra identidade se aplica à igreja. Em cada alma havia temor, representa seriedade e santidade perante Deus. Pode-se dizer que Lucas descreve características gerais e práticas da igreja. Mas todas são teológicas.

   Onde mais aprender temor senão nas Escrituras? E como aplicar isso ao viver, senão aplicando as Escrituras ao viver? Elas também serão o manual prático-teológico do amor e da comunhão.

   E a igreja, no seu dia a dia, será escola de amor, comunhão e temor ao Senhor. Cuja cartilha será a Bíblia.  Quando Atos afirma que dia a dia assim procediam, pode ser que a rotina de vida daqueles irmãos lhes permitisse, diariamente, encontrar-se.

   Pois na nossa realidade, pode ser improvável (não impossível) reunir-se todo o dia, mas viver igreja todo dia, a todo instante, onde estiver, é absoluto, necessário, insubstituível.  Daí prodígios e sinais. Tudo decorrente da igreja ou da vida individual de cada membro é prodígio e sinal.

   Porque igreja é ação de Deus no mundo, por meio da vida dos que creem. E para aqueles irmãos, viver igreja era o essencial. Por isso que, para nós, precisa ser essencial viver igreja.  E justo e especificamente neste nosso contexto de vida.

    O fruto:  louvar a Deus, contar com a simpatia de todo o povo e acolher os que o Senhor lhes acrescentava, era fruto, resultado natural dessa experiência que somente Deus proporciona.

   Igreja é a inédita experiência de Deus na vida daquele que crê. Com alegria e singeleza de coração, de parte a parte.  Alegria de Deus é segurança para nós. 

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Afinal, com quem caminhar junto?

 ²¹ "Disse mais o Senhor: Eis aqui um lugar junto a mim; e tu estarás sobre a penha." Êxodo 33.

   Quando Moisés pede a Deus que lhe mostre a sua (de Deus) glória, provável ter sido insegurança dele (de Moisés). Então Deus decide, ao mesmo tempo, mostrar e esconder.

   Porque ver a face de Deus nunca ninguém. Proferir um nome para Deus, assim como ver face a face não pertence à condição humana.

   Mas compreender as intenções de Deus, vivendo por fé, sim, compete aos que creem. Por isso Deus afirma a Moisés o que se lê acima. E isso basta.

   E o contexto dessa cena, com Moisés, tratava especificamente da necessidade de Deus estar junto. De um polo a outro, Arão e a permissividade da adoração ao bezerro de ouro, a orgia resultante, a consequente guerra civil no arraial, quase 3 mil mortos e todo o processo de reconciliação com Deus estiveram na agenda.

   Moisés foi o mediador. Surpreendeu Deus, positivamente, por sua reação, assim como foi por Deus surpreendido. E também nos surpreende com sua afirmação da identidade do povo de Deus, fosse a congregação do (daquele) deserto, seja a congregação (do deserto) de hoje, que é a igreja.

   ¹⁶ "Pois como se há de saber que achamos graça aos teus olhos, eu e o teu povo? Não é, porventura, em andares conosco, de maneira que somos separados, eu e o teu povo, de todos os povos da terra?" Ex 33.

   O mundo é o deserto. E Jesus afirma, sim, a igreja está no mundo, mas a igreja não é mundo. Cada vez que a igreja, no mundo, assumir mais nitidamente a identidade de Jesus, mas reação contrária a si vai amealhar, abarcar, assumir.

   ¹⁵ "Não peço que os tires do mundo, e sim que os guardes do mal. ¹⁶ Eles não são do mundo, como também eu não sou." João 17.

   Por, então, caminhar no mundo, há uma presença que segue conosco. Deus não substitui por ninguém mais o que a Ele é exclusivo realizar. Moisés nos surpreende quando afirma isso.

   Distingue-nos o fato de Deus seguir conosco. Somos separados, significa dizer somos santificados pela ação de Deus em nossa vida. O Novo Testamento cansa por mencionar ser imitadores de Deus.

¹ "Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados; ² e andai em amor, como também Cristo nos amou e se entregou a si mesmo por nós, como oferta e sacrifício a Deus, em aroma suave." Efésios 5.

   E o Filho viveu, neste mundo, agindo deste modo. Jesus manteve comunhão perfeita com o Pai, não somente para ser vago modelo dessa comunhão, mais do que isto, para realizar nEle e por Ele nossa comunhão com o Pai.

¹⁹ "Então, lhes falou Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que o Filho nada pode fazer de si mesmo, senão somente aquilo que vir fazer o Pai; porque tudo o que este fizer, o Filho também semelhantemente o faz." João 5.

   Tudo que Deus realizou em Cristo e por meio dEle, de modo pleno, visa nos alcançar, mais do que somente sensação de um vaga presença, mas inteira e verdadeira comunhão.

  A igreja é o lugar dessa comunhão. E o lugar da igreja, onde Deus habita, está em nós. Deus segue conosco, estamos sobre essa penha, a Rocha, que é Jesus, edificados sobre Ele como pedras que vivem.

⁵ "...também vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo." 1 Pedro 2.

    Pedro compreendeu o sentido de dizer que a Pedra é Jesus.  Afirmar "tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo" significa reconhecer e assumir para si mesmo tão grande salvação.

    Este é o lugar junto a Deus, edificados sobre Jesus, caminhando neste mundo, como povo distinguido por Deus, para testemunho entre todos. 

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Feliciano Amaral: cantor de várias gerações

 

Feliciano do Amaral, conhecido carinhosamente como o “Rouxinol do Sertão”, foi um lendário pastor batista e o precursor absoluto da música gospel no Brasil. Consagrado internacionalmente, ele entrou para o Guinness Book em 2013 como o cantor mais velho do mundo em atividade musical.Origem e Início de VidaNascimento: 20 de outubro de 1920, na cidade de Miradouro, Minas Gerais.Juventude: Antes de se dedicar exclusivamente ao ministério, trabalhou como músico, sapateiro e cantor popular.Conversão: Foi batizado em 7 de março de 1943 na Igreja Batista de Muriaé.Pioneirismo Histórico na MúsicaPrimeiro Registro Gospel: Em 1948, gravou o que é considerado o primeiro disco de música evangélica do país em 78 RPM pelo Serviço Noticioso Atlas, contendo os hinos “Mensagem Real” e “Vem a Cristo”.Show Histórico no Maracanã: Em 1974, alcançou um marco inesquecível ao ser o único cantor de música sacra a se apresentar para mais de 35 mil pessoas no Maracanã, durante a histórica cruzada do evangelista americano Billy Graham.Ministério Pastoral e Grandes HinosAtuou fortemente como pastor, liderando igrejas tradicionais ao longo das décadas de 50 e 60, como a Igreja Batista de Croslândia e a Igreja Batista da Pavuna. Suas interpretações eram famosas por soarem como verdadeiras pregações em forma de melodia.Entre suas interpretações e canções mais emblemáticas estão:”O Rosto de Cristo””O Eterno Fanal””Eu Preciso de Ti””Lindo Céu””A Cada Passo”Falecimento e LegadoApós morar em Recife e ser membro da Igreja Batista da Capunga, Feliciano mudou-se para Porto Velho (Rondônia) por motivos de saúde.O pastor faleceu em 7 de julho de 2018, aos 97 anos de idade.

Depoimentos:

Roberto Guimarães
Eu tive o privilégio de estar no Maracanã em 1974 e me converter na igreja da Pavuna (pastoreada por ele), em 09/09/1979, e fui batizado (depois de frequentar e ser secretário da classe dele)em 16/03/1980, meus filhos foram ninados com seus hinos e quando choravam , somente o hino dele acalmava-os. Era muito maravilhoso!
Quem o denominou: "Rouxinol dos Evangélicos" acertou , pois era mesmo!

Paulo Francisco Alves
Tive o privilégio de convidá-lo para cantar no aniversário de 80 anos de minha mãe, irmã Rita Alves, que gostava muito dele e de seus hinos. Ele veio e cantou 5 hinos. Quando terminou de cantar os 5 hinos, ele pediu pra eu ligar para o motorista e dizer que viesse buscar ele depois, pois , ele queria cantar mais. E cantou mais 4 hinos. Nesse tempo, ele e irmã Rubenita estavam morando em Recife.

Antonio Neto da Silva
O saudoso irmão em Cristo e cantor evangélico deixou um grande legado na obra do senhor e salvador Jesus Cristo! Feliciano Amaral cantava de coração para Deus.Sua voz era muito privilegiada e bonita através das suas canções.
Sempre gostei muito de ouvir Feliciano Amaral cantando desde a minha infância até os dias atuais.

Eunice Luiza Johnson Batista
Foi meu pastor na PIB em Rondônia. Voz maravilhosa . A igreja lotava aos domingos à noite para ouvir suas mensagens cantada. Mesmo após seu período de Pastorado oficial da PIB/Porto Velho Rondônia foi membro da PIB/RO até a sua volta para a Casa do Pai no lar Celestial que tanto mencionou em suas canções. Dou Glórias a Deus por sua vida e canções.

Clineu Ananias
Que tive o prazer de ouvi-lo a partir de 1950, com 8 anos de idade. Hoje estou com 83 anos, e quando ouço o cantor e pastor Feliciano, sinto algo muito forte e maravilhoso na minha alma. A palavra cantada pelo irmão Feliciano é uma mensagem linda e inspiradora.

Edson Silva
A primeira vez que tive o privilégio de ouvir o pastor Feliciano foi na 1a. Igreja Presbiteriana de Nova Iguaçu, por ocasião do aniversário da Igreja, na década de 70.

Brigida Garcia
Muita unção na voz , seus louvores verdadeiras profecias cantada que falam a nossa alma. Realmente foi muito linda a comparação da sua voz ao canto do Rouxinol, sua voz seus louvores alcançam as gerações.. Minha mãe gostava dos louvores do Feliciano Amaral , escutava no rádio o programa do Josias Menezes Peça o seu hino preferido!! Eu cresci ouvindo essas maravilhas meus filhos e hoje uma das minhas netas só dorme ouvindo o louvor Sou feliz com Jesus de Feliciano Amaral !!

Arão Alves da Silva
Gostaria de fazer uma ressalva nesse contexto, porque Feliciano Amaral, durante sua trajetória , pastoral e musical, nunca fez afirmação de que fazia parte desse mundo moderno conhecido por gospel, isso é coisa nova de linguagem um tanto moderna, sendo ele conservador. Porém, nos idos dos anos 2000, o colocaram como sendo desse meio, sem contudo, ele próprio fazer tal referência. Gospel, é modernismo, nunca divino, com todo respeito. Deveríamos termos mais zelo com as coisas relacionadas a Deus. Nem tudo que fala em nome de Deus, é prá louvor d'Ele.

Sinesio Vilaça
Tive o Privilégio de Conhecer Croslandia, um município no norte de Minas, proximo a Grão Mogol, onde ele criou uma igreja Batista nós anos 40, e um trabalho social que arranjei toda a região , hoje o templo construído por ele e tombado pelo Patrimônio estadual , uma obra prima em pleno sertão .

Enoque Ferreira
Meu saudoso pai ouvia muitos LPs dele. Seguimos seu exemplo e o ouvimos ainda, mesmo que pelo YouTube e como mp3. Edificantes canções e voz ungida no louvor do Senhor.

Cid Mauro
Sim, o meu também: no dia em que nos deixou, vitimado por um brusco acidente, esteve ouvindo na sala de casa um dos hinos que falava, exatamente, sobre o céu. Despediu-se ouvindo Feliciano Amaral.
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Aqui ele canta o meu preferido: