sábado, 13 de junho de 2020

Contar dias

"Um novo dia raiou".
   Nasci a 6 de maio de 1957, no Hospital dos Servidores do Estado - HSE, Estado da Guanabara. O título acima é retirado do livro de Jair Pereira Ramalho, o pediatra que me atendeu após nascido e, como eu, filho de pastor. 
     Acordei no dia de hoje pensando no dia. Uma rápida conta aqui, na calculadora do smarth, me informa que já vivi 22995 deles. Sem contar os anos bissextos e o mês que fechou em 6 de junho, agora, no exato último dia de minha mãe entre nós, há 1460 dias atrás. 
     Então, somando esses 37 dias, até  hoje, dá o total de 23032 dias, por coincidência, ora vejam só, um palíndromo, quer dizer, número lido também de trás para a frente. 
    Esse dia de meu nascimento, vida de Dorcas, quando já vivera 9855 dias, com mais 54 dias, foi o seu segundo parto, esse vingou, pois houve 2 abortos espontâneos antes. 
      Contava no ano anterior, com exatos 365 dias a menos, quando sepultou Cid, do primeiro parto, com apenas 12 dias de nascido. Então, comemorou o aniversário com o sepultamento do filho. Que dia!
    Um dos salmistas escreveu um trecho de oração rogando a Deus que nos ensinasse a contar os dias. "Ensina-nos a contar os nossos dias, de tal maneira que alcancemos coração sábio".
    Será essa conta aí? Há dias que marcam nossa existência. Esse aí, do meu nascimento, já mencionei: que marca na vida de Dorcas! O da profissão de fé, já falei dele mais de uma vez. Mas houve outro em 1967.
     Contava eu 3650 dias de vida e mais 51 quando, em 27 de junho de 1957, fui atropelado, esquina de Pe Manso (que ironia) com Av. Ernani Cardoso, saindo da Escola Paraná, na época. 
     O anjo que Deus enviou pôs, sobre o seu colo, o molambo de perna esquerda que restou da fratura exposta. Esse cara se melou todo com o meu sangue, amparando-a no carro que me levou ao Carlos Chagas, em Mal Hermes, deitado no colo da vice-diretora. Outro anjo. Que dia!
     Outra ironia, minha esposa tinha nesse dia exatos 83 dias de nascida. Deus escreve os dias, diz outro salmista. Mas não como prognóstico ou ludomania: faz isso como arte.
   A gente também pode e deve olhar para trás, numa obra conjunta, para saber o que os dias vividos, no conjunto todo da obra, ensinam. Vai depender de um dia. Que dia?
    Houve uma tarde horripilante de sexta-feira. Encostando num sábado, perto da 12a hora, como se contava por lá as 18h, que o céu se encobriu ameaçadoramente.
    Misturaram-se efeitos dos elementos da natureza, coisas maravilhosas ocorreram, como pessoas mortas que apareceram vivas, enfim, que dia! Nesse dia Jesus morreu na cruz.
   Esse, sim, o dia que muda todos os outros dias. Passa imperceptível para muitos, como incompreensível. Para outros, ponteado como fundamental na conta dos dias.
    Nesse dia, Deus resgatou todos os meus dias. Toda a minha existência. Só posso aqui responder por mim. Desculpem. Nesse caso, cada um responde por si.
    Se ensinar a contar os dias inclui os erros, no atacado e no varejo, pois Deus, que conhece todos os meus dias, contou todos e pôs tudo na conta do crucificado.
     Essa é a matemática de Deus. Deus conta os dias. Conta esses dias sombrios que vivemos. Igual ao Egito, tem de ficar em casa. Diferente do Egito, não é "anjo da morte" e não adianta ter ou não ter a marca do sangue.
    Dias sinistros. Vamos contar esses dias. Daqui a muitos dias, contados como múltiplos de 365, vamos dizer fulano, beltrano, que sobreviveu à pandemia de 2020. Ou sicrano, que ficou por lá, vitimado pelo COVID-19.
     Que dias! Cada história. Todas as histórias. Até agora, 97 dias dela no Brasil. Algum desconto por meses de 30/31 e até 29 dias, neste ano bissexto. Como foi bissexto o ano de 1956, quando Dorcas, minha mãe, sepultou Cid Araujo de Oliveira no seu dia de 26 anos: 9490 dias, aproximadamente.
     Certamente, contar os dias é mais do que, simplesmente, essa conta matemática. Seria bom viver contando cada dia. A vida moderna nos empurra a viver sem contar os dias.
     Às vezes, absortos por segundos, até, esperando carregar um arquivo, esquecemos o arco maravilhoso desse novo dia que raiou. Diz o outro salmista, o sol sai como um noivo e percorre seu trajeto, como um rei, até entrar na tenda de seu domínio. 
    Cada dia. Todos os dias. Ensina-nos, Senhor, a contar os nossos dias.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Lição 12 - At 13,22-41 - O 1° sermão de Paulo

O 1° sermão de Paulo

At 13,22-41

    "Depois da leitura da lei e dos profetas, os chefes da sinagoga mandaram dizer-lhes: Irmãos, se tendes alguma palavra de exortação para o povo, dizei-a.
Paulo, levantando-se e fazendo com a mão sinal de silêncio, disse: Varões israelitas e vós outros que também temeis a Deus, ouvi.
O Deus deste povo de Israel escolheu nossos pais e exaltou o povo durante sua peregrinação na terra do Egito, donde os tirou com braço poderoso;
e suportou-lhes os maus costumes por cerca de quarenta anos no deserto;
e, havendo destruído sete nações na terra de Canaã, deu-lhes essa terra por herança,
vencidos cerca de quatrocentos e cinquenta anos. Depois disto, lhes deu juízes, até o profeta Samuel.
Então, eles pediram um rei, e Deus lhes deparou Saul, filho de Quis, da tribo de Benjamim, e isto pelo espaço de quarenta anos.
E, tendo tirado a este, levantou-lhes o rei Davi, do qual também, dando testemunho, disse: Achei Davi, filho de Jessé, homem segundo o meu coração, que fará toda a minha vontade.
Da descendência deste, conforme a promessa, trouxe Deus a Israel o Salvador, que é Jesus,
havendo João, primeiro, pregado a todo o povo de Israel, antes da manifestação dele, batismo de arrependimento.
Mas, ao completar João a sua carreira, dizia: Não sou quem supondes; mas após mim vem aquele de cujos pés não sou digno de desatar as sandálias.
Irmãos, descendência de Abraão e vós outros os que temeis a Deus, a nós nos foi enviada a palavra desta salvação.
Pois os que habitavam em Jerusalém e as suas autoridades, não conhecendo Jesus nem os ensinos dos profetas que se leem todos os sábados, quando o condenaram, cumpriram as profecias;
e, embora não achassem nenhuma causa de morte, pediram a Pilatos que ele fosse morto.
Depois de cumprirem tudo o que a respeito dele estava escrito, tirando-o do madeiro, puseram-no em um túmulo.
Mas Deus o ressuscitou dentre os mortos;
e foi visto muitos dias pelos que, com ele, subiram da Galileia para Jerusalém, os quais são agora as suas testemunhas perante o povo.
Nós vos anunciamos o evangelho da promessa feita a nossos pais,
como Deus a cumpriu plenamente a nós, seus filhos, ressuscitando a Jesus, como também está escrito no Salmo segundo: Tu és meu Filho, eu, hoje, te gerei.
E, que Deus o ressuscitou dentre os mortos para que jamais voltasse à corrupção, desta maneira o disse: E cumprirei a vosso favor as santas e fiéis promessas feitas a Davi.
Por isso, também diz em outro Salmo: Não permitirás que o teu Santo veja corrupção.
Porque, na verdade, tendo Davi servido à sua própria geração, conforme o desígnio de Deus, adormeceu, foi para junto de seus pais e viu corrupção.
Porém aquele a quem Deus ressuscitou não viu corrupção.
Tomai, pois, irmãos, conhecimento de que se vos anuncia remissão de pecados por intermédio deste;
e, por meio dele, todo o que crê é justificado de todas as coisas das quais vós não pudestes ser justificados pela lei de Moisés.
Notai, pois, que não vos sobrevenha o que está dito nos profetas:
Vede, ó desprezadores, maravilhai-vos e desvanecei, porque eu realizo, em vossos dias, obra tal que não crereis se alguém vo-la contar". 

     Introdução
     Não sabemos se Paulo, no período em que, recém-convertido, ainda em Damasco, lançou-se a evangelizar, "E logo pregava, nas sinagogas, a Jesus, afirmando que este é o Filho de Deus", At 9,20, se já elaborava sermões como o que Lucas registrou, esse já na primeira viagem missionária,  na sinagoga de Antioquia da Pisídia.
    Em Jerusalém, Barnabé (sempre ele), ciceroneou Paulo entre os apóstolos, para que desse testemunho de sua conversão e já da atividade em Damasco, ocasião em que ele também não perdeu tempo mas, de novo, lançou-se a "pregar ousadamente":
"Mas Barnabé, tomando-o consigo, levou-o aos apóstolos; e contou-lhes como ele vira o Senhor no caminho, e que este lhe falara, e como em Damasco pregara ousadamente em nome de Jesus. Estava com eles em Jerusalém, entrando e saindo, pregando ousadamente em nome do Senhor", At 9,27,28.
      Pois nessa 1a viagem missionária, Paulo já passou por toda a fase em que aprimorou sua visão a respeito da Bíblia de seu tempo, o Antigo Testamento, entendendo-o pela ótica da promessa do Messias, cumprida em Jesus. E será o anúncio desse evangelho que vai publicar por todo o mundo.
      Além de focar, aqui, o sermão de Paulo, vamos compará-lo ao de Pedro, em At 3,11-26, quando naquela circunstância foi anunciado, em outro contexto, o evangelho de Jesus. Paulo tem uma assistência homogênea numa sinagoga, pronta para ouvir, enquanto que Pedro tem um grupo maior de patrícios, sob o impacto da cura do paralítico, nas dependências do complexo do Templo de Jerusalém. Vamos analisar, comparativamente, esses dois sermões.
   
     O 1o sermão de Paulo
     Lucas assinala o 1o sermão pregado por Paulo, na sinagoga de Antioquia da Pisídia, no início das jornadas missionárias desse apóstolo.
    Uma sinagoga era um centro irradiador do judaísmo. Os séculos, e até milênio, de tradição judaica estavam ali concentrados, incluídas a tradição dos costumes e os registros das Escrituras.
    Para se ter ideia da importância da sinagoga,  basta dizer que o modelo de culto que as igrejas hoje praticam é sinagogal. Aqui mesmo, At 13,15, Paulo atende a um convite do chefe da sinagoga, como oportunidade para que falasse:
"Depois da leitura da lei e dos profetas, os chefes da sinagoga mandaram dizer-lhes: Irmãos, se tendes alguma palavra de exortação para o povo, dizei-a".
    Portanto, leitura da Bíblia e sermão, num contexto de uma assistência atenta, é herança do culto sinagogal. Essa tradição sadia tem sido desprezada em muitas igrejas, nos dias atuais, ou por não ter quem seja capacitado, e/ou quantos tenham interesse por pregar sermões, ou ainda pela qualidade e concentração do auditório, em relação a desejar ouvir.
     O sermão de Paulo vai fugir um pouco da organização simplificada que costumamos observar nos sermões de Pedro. Evidentemente, por se tratar de outro contexto de ouvintes, assim como pela diferença de abordagem, feita por Paulo.
     Ele fará um histórico da providência de Deus, na história e vocação do povo de Israel, do êxodo no Egito à entrada na Terra Prometida, concentrando sua atenção na transição dos juízes à monarquia, focando em Samuel, Saul e Davi, para indicar Jesus como descendente direto deste rei-herói dos judeus.
      E com referência a sua assistência, em At 13,16 há um detalhe muito relevante. Havia judeus, é claro, como maioria, na sinagoga, mas também "vós outros que temeis a Deus", ou seja, eram gentios. E a própria receptividade, ao final do sermão, At 13,42-44, indica que essa sinagoga estava aberta a ouvir o evangelho.
     Expondo aqui uma proposta de subdivisões, vamos ter:
1. Introdução histórico-doutrinária: At 13,17-22 - Paulo discorre sobre as ações de Deus em favor do povo, desde o resgate no Egito, até à entrada na terra prometida. E pontua as estações percorridas: libertação do cativeiro no Egito, "maus costumes" no deserto, 7 nações derrotadas na conquista da terra e o período dos juízes, até a liderança de Samuel, Saul e Davi;
2. Corpo do Sermão: Jesus, descendente de Davi e o kerigma cristão: At 13,23-37 - Neste trecho, Paulo introduz a pessoa de Jesus, descendente direto de Davi: "Da descendência deste, conforme a promessa, trouxe Deus a Israel o Salvador, que é Jesus", v.23, assim como define as etapas de sua argumentação:
2.1. At 13,23-25: João Batista dá destaque a Jesus, sendo seu profeta precursor, que veio pregando batismo de arrependimento e anunciando Jesus como superior a si mesmo. Vale lembrar que havia ainda quem desse destaque a esse profeta, At 19,1-4, desconhecendo os fatos específicos do evangelho, como o núcleo central do kerigma, que Paulo vai agora indicar.
2.2. At 13,26-31: kerigma: Paulo indica como a prisão, condenação e morte de Jesus contrariam a promessa das Escrituras, essa mesma lida todos os sábados nas sinagogas. Mas que a morte e ressureição eram também cumprimento dela. Os trechos "pediram que fosse morto", v. 28, "puseram-no num túmulo", v. 29, "mas ressuscitou", v. 30, expressam os três pontos do kerigma.
2.3. At 13,32-37: Testemunho autorizado: aqui, neste trecho do sermão, Paulo reafirma a autoridade da igreja no testemunho dado a respeito da ressurreição de Jesus. De novo evoca seus ouvintes para lhes explicar que anunciam o evangelho. E vai indicar o referencial de sua mensagem nas Escrituras. Vai referenciar nelas a ressurreição.
a) vai citar dois salmos, "Tu és meu filho, eu hoje te gerei", Sl 2,7, e textos aos quais Pedro também recorreu no sermão do dia de Pentecostes, At 13,33, com At 2,26-27, ref. Sl 16,10, assim como a argumentação recorrente de At 13,36 e At 2,29, certamente por estar associada a uma declaração de Davi, esta uma confitmação escriturística da ressureição de Jesus, em salmos de Davi, a quem Pedro chama profeta;
3. Conclusão: At 13,38-41: Paulo fará três afirmações fundamentais à fé que, no futuro, vão se constituir em pontos centrais de sua doutrina nas epístolas que vai escrever: At 13,37 e Rm 1,4, ressurreição como garantia da santidade de Jesus e vínculo da filiação de Jesus ao Pai; At 13,38 e Rm 6,11, remissão dos pecados por meio do batismo na morte e ressurreição em Jesus; At 13,39 e Gl 2,16, a justificação unicamente pela fé em Jesus, independentemente das obras da lei. Também fará, ao final, uma solene advertência que seja valorizada e ouvida a palavra do testemunho da igreja, citando mais um profeta, Habacuque, como referencial das Escrituras, Hc 1,5.

      Sermão de Pedro no Templo
     Pedro se viu num contexto totalmente diferente daquele de Paulo. Não havia uma assistência pronta para ouvir o seu sermão. Ele e João subiram ao Templo para orar, numa hora programada, At 3,1.
     Inesperado o pedido do paralítico, talvez mais ainda a ousadia e autoridade de Pedro ao ordenar que, em nome de Jesus, saltasse, At 3,4-6, imediatamente entrando com Pedro e João no Templo, At 3,7-11.
     Acercaram-se de Pedro e João a multidão, naquela área externa do complexo arquitetônico do Templo, e Pedro mais uma vez tem chance de indicar qual foi a função da cura do paralítico, sinal profético que aponta e cria oportunidade de fé no evangelho.
     Da mesma forma, subdividimos nas três clássicas partes o sermão da Pedro:
1. Introdução: At 3,12, de modo magistral Pedro opera a inversão que, até hoje em dia, prevalece e atrapalha a ênfase principal do ministério da igreja: o "Por quê?" de Pedro opera essa inversão: o milagre em si, a cura do paralítico não é o ponto central, mas sim o poder no nome de Jesus e o específico da fé no evangelho para a salvação.
2. Corpo do sermão: At 13-24, Pedro vai trabalhar num efeito de contrastes, comparando a ação de Deus frente à cumplicidade que houve entre autoridades judaicas e parcela do povo que rejeitou Jesus. O "Deus de Abraão, Isaac e Jacó glorificou Jesus", enquanto que o povo "nega e trai Jesus perante Pilatos", At 3,13; continua Pedro afirmando que "negaram o Santo e o Justo", Jesus, pedindo em troca um homicida, At 3,14; a seguir, sua argumentação avança, definindo com maior clareza a pessoa de Jesus, "dessarte mataste o Autor da vida", em contraste com Deus, que "ressuscitou-o dentre os mortos", At 3,15.
      Chegando a esse ponto, Pedro está pronto a trazer a atenção de todos a Jesus, reafirmando que, em nome dele, o paralítico andou. E não para indicar que todo paralítico vai voltar a andar, pelo poder de Jesus, mas que todo o que crer no poder do ressuscitado, terá perdoado seus pecados, At 3,16-18.
3. Conclusão do sermão: At 3,19-26, nesse contexto já é possível para Pedro apelar ao arrependimento, conversão e cancelamento do pecado, At 3,19. E Pedro, desta vez, alonga-se em sua conclusão, ao demonstrar que Moisés anuncia um profeta semelhante a ele, Jesus, testemunho este também dado por todos os demais profetas, At 3,22-24, esse mesmo  Jesus  ressuscitado e acolhido no céu, até o tempo propício para a Sua volta, At 13,20-21. Com uma advertência final, a que a palavra profética desse evangelho seja acolhida, At 13,25-26, porque são descendentes desses profetas, herdeiros da aliança com Deus, agora manifesta no sangue de Jesus, Jr 31,31 com Mt 26,27-28, escolham o perdão do pecado, pelo Servo a quem Deus ressuscitou, v. 26, e não se permitam excluir, v. 23, não ouvindo a voz desse Profeta e dessa profecia anunciada desde Moisés.

     Conclusão
     A confrontação de dois entre os sermões desses dois gigantes, Pedro e Paulo, transmitem lições muito importantes:
1. O sermão é um gênero textual próprio da pregação do evangelho. Consagrado por uso na Bíblia, como indicado aqui na modalidade de púlpito, por Paulo, na sinagoga, e no confronto positivo com o grupo de Pedro, na porta Formosa do Templo, não deve ser menosprezado pela igreja. Constam como registro escrito por Lucas, com riqueza de detalhes e fidelidade de testemunho;
2. A palavra "sermão" costuma ser vista com rejeição: ou significa uma exortação mal aceita, "Já vai me dar um 'sermão'?", ou, no contexto dos cultos atuais, é a parte do culto menos apreciada. Eu já ouvi: "Irmãos, infelizmente vamos terminar o 'louvor', para ouvir o sermão". Isso representa, caso parta de evangélicos, a desvalorização de um dos principais recursos de proclamação do evangelho, essencial estratégia e trincheira da missão da igreja;
3. Na ordem ou liturgia do culto, o mínimo de tempo é reservado a ele, como indicado acima: hora e meia de "cantoria", para 10 ou, no máximo, 15 min para o sermão, com toda a "equipe de louvor" fora do templo e concentração mínima de uma assistência já cansada de tanto tempo em pé cantando. Nenhuma parte do culto deve ser desvalorizada ou aumentada em detrimento de outras. Todas exercem sua finalidade e equilíbrio, lição que deve ser aprendida e praticada. Porém, se no culto o período do sermão for menosprezado, a qualidade de todo o culto estará comprometida, pela principal parte que lhe confere conteúdo. 
4. Culto, como dizia o Bispo anglicano Robson Cavalcante, é mais aula do que entretenimento. Se no futebol, "paixão nacional", temos 15 min de intervalo, a igreja é 1h30, pelo menos, de instrução para a batalha que travamos, do lado de fora dela, contra as forças do mal. Se instrução e preparo forem ruins, haverá derrotas, com certeza.
4. Sermões precisam ser bem entregues, o que exige ser bem preparados. Debruçado sobre as Escrituras, evidentemente, mas em preparo acadêmico e espiritual. Como Deus falou a Josué, Js 1,7-8, e Paulo a Timóteo, 1 Tm 4,11-15, há um conjunto de fatores que contribuem para a construção de bons sermões: desde a aplicação em conhecer e cumprir as Escrituras, para poder pregar, até a aplicação à leitura e preparo pessoal no estudo, para se pregar com conteúdo, consciência e proveito;
5. Lucas registra em Atos vários sermões: Pelo menos 3 de Pedro, em Pentecostes, na porta Formosa, no Templo, e na casa de Cornélio. Incluídos os libelos de defesa dele, duas vezes, diante das autoridades judaicas. De Paulo, são 3 também, em Antioquia da Pisídia, em Atenas e aos presbíteros de Éfeso, em sua despedida. Incluídos também os 3 libelos de defesa, em Jerusalém, ao povo, e duas vezes em Cesareia: diante de Festo e diante do rei Agripa. E ainda o sermão de Estêvão;
6. Portanto, fácil constatar a importância que Lucas dá a esse gênero de fala e de texto. Se, cuidadosamente, pesquisou, de forma acurada, como diz, e anotou os sermões, é porque reconhece o seu potencial de testemunho. E o seu cuidado, a providência de Deus e diligência do Espírito permitiram que todos esses textos se tornassem Escritura;
7. Os auditórios influenciam na opção consciente do pregador. Para Paulo, como se fosse uma aula, no contexto de uma sinagoga, um grupo homogêneo já à espera de uma fala desse género. Pedro, um grupo heterogêneo, ao ar-livre, como que pego de surpresa. Nem todos terão o dom de preparo e entrega de sermões. O diácono Estêvão apresentou um, também libelo de defesa, mas não há registro de nenhum do outro diácono evangelista Felipe. Mas seja de supetão ou com antecedência, precisamos sempre estar acadêmica, espiritual e escrituristicamente prontos.

terça-feira, 2 de junho de 2020

Lição 10 - Estratégia de Paulo - At 16,1-10

Lição 10 - Estratégia de Paulo

Chegou também a Derbe e a Listra. Havia ali um discípulo chamado Timóteo, filho de uma judia crente, mas de pai grego;
dele davam bom testemunho os irmãos em Listra e Icônio.
Quis Paulo que ele fosse em sua companhia e, por isso, circuncidou-o por causa dos judeus daqueles lugares; pois todos sabiam que seu pai era grego.
Ao passar pelas cidades, entregavam aos irmãos, para que as observassem, as decisões tomadas pelos apóstolos e presbíteros de Jerusalém.
Assim, as igrejas eram fortalecidas na fé e, dia a dia, aumentavam em número.
E, percorrendo a região frígio-gálata, tendo sido impedidos pelo Espírito Santo de pregar a palavra na Ásia,
defrontando Mísia, tentavam ir para Bitínia, mas o Espírito de Jesus não o permitiu.
E, tendo contornado Mísia, desceram a Trôade.
À noite, sobreveio a Paulo uma visão na qual um varão macedônio estava em pé e lhe rogava, dizendo: Passa à Macedônia e ajuda-nos.
Assim que teve a visão, imediatamente, procuramos partir para aquele destino, concluindo que Deus nos havia chamado para lhes anunciar o evangelho.

Atos 16:1-10

Introdução 
      A estratégia de Paulo: a igreja precisa de uma estratégia ou estratégias inteligentes. A autenticidade de sua mensagem, bem como o específico dessa mensagem não podem ser confundidos com outras vozes e outras prioridades, sob pena de dissolver sua identidade e, como dizia Jesus, tornar-se sal insípido, At16,9.
      O chamado de Paulo: a vocação específica para o ministério requer (1) autenticidade por confirmação do Espírito e (2) reconhecimento, autoridade e envio pela igreja. Falsos ou equivocadamente vocacionados têm promovido e espalhado grade prejuízo, enfraquecendo e envergonhando o ministério da igreja. At 13,1-3.

1. Estações na vida de Paulo 
1.1. Compreensível que, logo após sua conversão, como indica Lucas que, literalmente, caíssem todas as escamas que cegavam o jovem, Paulo iniciasse pregando e, destemidamente, testemunhasse o poder de Deus em sua vida, At 9,20-25. A descrição que os judeus de Damasco tinham dele era de que "exterminava em Jerusalém os que invocavam o nome de Jesus" e viera àquela capital para levar "amarrados" os novos crentes da Síria aos principais sacerdotes em Jerusalém.
1.2. Mas, diz o texto, santa confusão, quando percebiam "atônitos" a mudança que Deus havia realizado na vida dele: "logo pregava, nas sinagogas, a Jesus, afirmando que este é o filho de Deus". Mas muitos dias depois, era provocação demais, o homem que fora um bem sucedido perseguidor dos cristãos, agora pregava como qualquer deles. Providenciada foi, pelos discípulos, sua fuga, à noite, descido por um cesto, junto à muralha da cidade, em direção a Jerusalém. 
1a estratégia: Paulo sempre, em suas viagens, irá procurar a sinagoga dos judeus, posto avançado e estratégico, centro de culto, com preservação da Torah, Antigo Testamento, e também preservação da cultura judaica em suas colônias, pelo mundo grego.
1.3. At 9,26-30, em Jerusalém também não lhe deram sossego e a gana por matá-lo o alcançou ali. Foi importante, na vida de Paulo, Barnabé associar-se a ele. Levou-o aos apóstolos, discorreu sobre seu testemunho de conversão, mas logo verificaram a necessidade de tirar Paulo do cenário a ele desfavorável: definitivamente, a conversão do líder máximo da perseguição à igreja era demais para os judeus. Encaminharam-no a sua terra natal, onde deveria ficar por um tempo.
2a estratégia: Paulo vai construir uma rede de auxiliares próximos, o que será poderoso instrumento de comunicação e transmissão de ensino, orientações e instruções. Para ele, para a igreja, de um modo geral, e para cada auxiliar, será decisivo fator de fortalecimento, assistência e expansão do ministério da igreja. 
1.4. Nessa fase de sua vida, Paulo esclarece na carta aos Gálatas 1,18-24, que havia partido em viagem para as "regiões da Arábia" e, 3 anos depois, retornou a Jerusalém. Por 15 dias, encontrou Pedro e Tiago, este O "irmão do Senhor", quer dizer, Irmão de Jesus por parte de mãe, e relata que essa estada foi para assuntos genéricos, ainda era um desconhecido para as igrejas, somente correndo boca a boca o espanto do contraste, típico do milagre da conversão.
3a estratégia: Paulo preparou-se para exercer o seu ministério. Além de leitor assíduo, como mostram os textos 2 Tm 4,13, quando pede "livros e pergaminhos", At 17,28, citação do discurso em Atenas, em At 19,9-10, quando escolheu a escola de Tirano, em Éfeso onde, durante 2 anos, "discorria diariamente", Tt 1,12, quando menciona um dos profetas de Creta que ele conhecia, em 1 Ts 5,21, quando sugere um filtro constante para o que é bom, em 1 Tm 4,13, quando recomenda ao jovem pastor "aplicar-se à leitura, à exortação e ao ensino", tudo e sempre relacionado ao preparo acadêmico.
1.5. Há um intervalo, em Atos, da descrição da viagem de Paulo para Tarso, sua terra de origem, até a descrição de sua vocação, em At 13,1-3. Após o avivamento em Samaria, no qual os apóstolos deram cobertura à atividade de Felipe, este sobe em direção a Cesareia, At 8,40, enquanto os apóstolos percorrem Samaria, At 8,25. Pedro chegará a Cesareia também, para pregar na casa de Cornélio, quem sabe alguma influência do mistério de Felipe o havia alcançado. Esse trecho também narra o triste martírio de Tiago, irmão de João, estes os dois filhos de Zebedeu, e o livramento milagroso que Deus proporcionou a Pedro, mantido preso por Herodes Agripa I, que também o queria matar, At 12,6-11.

2. Chamado missionário de Paulo
    Aqui em At 13,1-3 aprendemos algumas lições relevantes com relação à vocação de Deus:
2.1. A igreja é o celeiro permanente de onde Deus sanciona a vocação. A menção de uma relação de nomes indica a variedade entre a qual Deus escolhe, segundo dons, talentos e aptidão, aqueles a quem vai enviar: "Havia na igreja em Antioquia profetas e mestres".
2.2. A igreja, os crentes, antecipadamente, desde sempre, devem estar preparados e se preparar para essa disponibilidade. A relação de nomes indicava aqueles(as) prontos(as), que não se descuidavam, nem eles e nem a igreja, em seu preparo. 
2.3. "Servindo e jejuando", não que isso fosse novidade ou extraordinário, vinham naturalmente praticando e reconheceram o chamado do Espírito Santo. Na conversão, na escolha, preparo e chamado para o ministério, o Espírito Santo é agente, aliás, com as duas outras Pessoas da trindade. 
2.4 . "Separai-me, agora, Barnabé e Saulo". Não existe chamada isolada, vocação ou ministério individual. O Espírito sabe que caminham juntos. Que precisam uns dos outros. A tendência pastoral atual de autossuficiência, seja de pastores, "ministérios" ou igrejas, não é autorizada, abençoada ou motivada por ação do Espírito Santo. Barnabé, em vários aspectos, nessa fase da vida de Paulo, era fundamental para solidificar a experiência do apóstolo, dar-lhe suporte e servir como mediador nesse início de ministério dele. Aliás, Barnabé é também apóstolo, At 14,14.
2.5. A igreja dá suporte, em toda a formação inicial, contexto de comunhão, ensino e prática ministerial. Aqui vale lembrar o perfil da igreja definida em Atos dos Apóstolos. O Espírito Santo autentica. Nessa fase, Paulo já havia cursado o seu "seminário". Muito provavelmente não havia, na época de Paulo, as escolas de teologia como temos hoje. Mas Paulo se preparou, discípulo que foi de um dos mais sábios mestres do judaísmo, Gamaliel, At 22,3 e At 5,34, ver também Fp 3,4-6, trechos estes que confirmam o seu preparo acadêmico prévio. Porém, após a sua conversão, o tempo de exílio voluntário em sua terra natal, assegurou-lhe todo o preparo, revisão e releitura necessários.
4a estratégia: Paulo ampliava o seu preparo acadêmico, 1 Co 2,6. Há uma lista imensa de absurdos que, constantemente, são divulgados e criam escola, principalmente entre quem é preguiçoso e desleixado com relação ao preparo para o ministério. Algumas orientações:
4.1. Um é o preparo no contexto da igreja, como vimos acima no chamado de Paulo, outro será o preparo no seminário. Quem adquiriu maturidade em sua vida como igreja, certamente será um autêntico vocacionado, quando confirmado pelo Espírito Santo.
4.2. Não existe a dicotomia entre ação do Espírito, poder de Deus, carisma, oração, dons, "sobrenatural", de um lado, e livros, pesquisa, teologia, disciplinas de currículo, escola de teologia de outro. As pessoas ficam selecionando trechos das Escrituras que, lidos e repetidos, querem provar com eles que Deus "usa" mais quem não é inteligente e que estudos e inteligência acadêmica trabalham contra a fé. 
4.3. Os próprios perfis de ministros e vocacionados da Bíblia indicam o que evita o mal entendido acima mencionado. Deve-se compreender a extensão do dom que receberam. Exemplo: Pedro e João, amigos íntimos no início de ministério, como Barnabé e Paulo, tiveram ênfase e ministérios distintos, dali para o final de suas vidas. Pedro pregava, João não era pregador; Pedro lia, esforçava-se para entender e recomendava leitura, 2 Pe 3,14-18, sendo a menção de At 14,13 uma expressão do preconceito contra ele e não um dado de sua biografia. João foi teólogo e escritor de Evangelho, Epístolas e do Apocalipse. Mas Pedro também foi pastor e escritor de Epístolas e, certamente, depoente por detrás do Evangelho de Marcos. Portanto, dizer como Paulo diz, em 1 Co 1,26-29, não significa livre curso a gente relaxada para se autorizar vocacionada, mas que a primazia do poder pertence a Deus, que usa poderosamente a quem escolhe. Os verdadeiros vocacionados sempre buscam perfeição.

3. Primeira viagem missionária de Paulo, Atos 13,4-14,27, assim chamada, define seu primeiro percurso descrito no livro de Atos. Embora o apóstolo, certamente, tenha percorrido outros lugares apenas nominal ou genericamente indicados, e outros circuitos, mencionados ou não, Lucas descreve esta e mais duas, além da viagem a Roma, em Atos 27.
3.1. "Enviados, pois, pelo Espírito Santo", essa era a convicção da igreja e o comando do Espírito Santo, havendo perfeita sincronia. Descem ao porto em Selêucia, navegam até a ilha de Chipre e chegam a Salamina. Dali atravessam até a outra ponta, em Pafos. navegando então, de novo, até o continente, na Ásia Menor, atual Turquia, alcançado Perge, na província romana da Panfília. Dali, chegam à chamada Antioquia da Pisídia, para diferenciar daquela da Síria, próxima à região de origem de Paulo, onde situava-se a igreja que o enviou. Prega na sinagoga dessa cidade o seu primeiro sermão. 
5a estratégia: Paulo usou planejar e realizar viagens missionários, num tempo em que estradas romanas por terra e rotas marítimas comerciais garantiram a ele cobrir todo o entorno do Mediterrâneo, sempre retornando à igreja-base, em Antioquia da Síria, e passando pela igreja-mãe, em Jerusalém. Ao decidir, como menciona em 2 Co 1,15-22, não deliberava por palpite, mas buscava a orientação do Senhor, o respaldo da igreja e a companhia de outros servos do Senhor.

Conclusão

    Para encerrar, desejo lembrar minha experiência com viagens missionárias, respaldo da igreja e companhia de servos do Senhor. 
    Em 1986, indo de ônibus para uma reunião da União Feminina, de Cascadura a Anchieta, bairros do subúrbio do Rio de Janeiro, Gercino da Silva, pernambucano meu irmão em Crsiro e companheiro, mostrou-me uma revista de escola dominical que trazia um mapa do Brasil estampado e, como em relevo, estados onde não havia igrejas congregacionais implantadas.
    Ponteou Mato Grosso do Sul e afirmou conhecer, porque já fora caminhoneiro. E, para minha surpresa, disse que ele e sua esposa estavam dispostos a ir para aquela cidade iniciar um trabalho missionário. Destaque-se que, na época, o casal residia em Madureira, bairro ao lado daquele de nossa igreja, sendo ambos já de terceira idade. Imediatamente lembrei do texto em que Jesus exorta orar por obreiros e deduzi: se temos obreiros, temos tudo o mais.
      Gercino passou a insistir, sem esmorecer, que fôssemos a Campo Grande, a capital do estado, a 1500 km de distância, 22h de ônibus da Rodoviária Novo Rio até àquela da cidade, na época pela empresa Andorinhas, com baldeação e troca de motoristas em São Paulo e Presidente Prudente. Fizemos a primeira viagem em meados de 1987.     
      Amanhecendo, visto termos saído do Rio no ônibus das 16h30min, Gercino havia se deslocado à frente, para conversar com o motorista. Sua estrutura biológica, acostumada a plantões ao volante, permitia. Descemos, procuramos um hotel encostando à antiga rodoviária daquela capital, indicação do Presb. Arlindo, que guiava excursões a Corumbá, por aquele circuito. 
     No hotel indicado, o moço me recebeu indiferente, sem nem me encarar, dizendo não haver nenhuma vaga. Agradeci, estávamos cansados da noite mal dormida, e cruzei com Gercino, eu me dirigindo à saída, ele indo argumentar com o atendente. Chamei-o da porta, ironizando: "O moço está muito ocupado, Gercino, vamos procrurar outro rumo".
     E meu essencial companheiro de viagem mencionou o nome "Arlindo, foi ele que me mandou aqui". Eu repliquei que o moço não vai saber quem é, Gercino. Mas o amigo e irmão mencionou, para o atendente do hotel colado na rodoviária, a palavra mágica: "aquele que faz excursão". Não precisou outra palavra.
    E para este último parágrafo, essa foi a primeira de uma série de viagens a Campo Grande, MS. Envolveram-se 4 igrejas. Nessa primeira viagem, compramos o imóvel onde hoje a igreja se reúne: aquela conversa matinal, ainda no ônibus, definiu a ida a esse bairro. Três pastores por lá já passaram. Um deles adquiriu a casa pastoral, bem defronte à igreja, do outro lado da dupla avenida. Com essa viagem, fomos despertados para abrir em Porto Velho. Visitamos o Acre, 4 pastores, em agosto de 1993. Para cá eu vim em janeiro de 1995. Minha chegada aqui definiu a ida do missionário Nelson Rosa e sua esposa para abrir Porto Velho. Cumpria-se a profecia. E aqui estou no Acre há 25 anos . 
     Que venham mais viagens missionárias. Que nem falei daquelas de Antonio Limeira Neto que, na década de 80, viajou e implantou no Acre, onde estou, no Amazonas e em Roraima. Orientação do Senhor, respaldo da igreja e companhia de irmãos em Cristo.

terça-feira, 19 de maio de 2020

Lição 8 - A conversão de Paulo - At 9,1-19

At 19,1-19

Saulo, respirando ainda ameaças e morte contra os discípulos do Senhor, dirigiu-se ao sumo sacerdote
e lhe pediu cartas para as sinagogas de Damasco, a fim de que, caso achasse alguns que eram do Caminho, assim homens como mulheres, os levasse presos para Jerusalém.
Seguindo ele estrada fora, ao aproximar-se de Damasco, subitamente uma luz do céu brilhou ao seu redor,
e, caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues?
Ele perguntou: Quem és tu, Senhor? E a resposta foi: Eu sou Jesus, a quem tu persegues;
mas levanta-te e entra na cidade, onde te dirão o que te convém fazer.
Os seus companheiros de viagem pararam emudecidos, ouvindo a voz, não vendo, contudo, ninguém.
Então, se levantou Saulo da terra e, abrindo os olhos, nada podia ver. E, guiando-o pela mão, levaram-no para Damasco.
Esteve três dias sem ver, durante os quais nada comeu, nem bebeu.
Ora, havia em Damasco um discípulo chamado Ananias. Disse-lhe o Senhor numa visão: Ananias! Ao que respondeu: Eis-me aqui, Senhor!
Então, o Senhor lhe ordenou: Dispõe-te, e vai à rua que se chama Direita, e, na casa de Judas, procura por Saulo, apelidado de Tarso; pois ele está orando
e viu entrar um homem, chamado Ananias, e impor-lhe as mãos, para que recuperasse a vista.
Ananias, porém, respondeu: Senhor, de muitos tenho ouvido a respeito desse homem, quantos males tem feito aos teus santos em Jerusalém;
e para aqui trouxe autorização dos principais sacerdotes para prender a todos os que invocam o teu nome.
Mas o Senhor lhe disse: Vai, porque este é para mim um instrumento escolhido para levar o meu nome perante os gentios e reis, bem como perante os filhos de Israel;
pois eu lhe mostrarei quanto lhe importa sofrer pelo meu nome.
Então, Ananias foi e, entrando na casa, impôs sobre ele as mãos, dizendo: Saulo, irmão, o Senhor me enviou, a saber, o próprio Jesus que te apareceu no caminho por onde vinhas, para que recuperes a vista e fiques cheio do Espírito Santo.
Imediatamente, lhe caíram dos olhos como que umas escamas, e tornou a ver. A seguir, levantou-se e foi batizado.
E, depois de ter-se alimentado, sentiu-se fortalecido. Então, permaneceu em Damasco alguns dias com os discípulos.

Introdução 
A conversão de Paulo: como toda e qualquer conversão, demonstração explícita do poder de Deus. Precisamos resgatar o poder desse ato fundante da fé no indivíduo e seu potencial de testemunho e poder, nas mãos de Deus. At 9,15-16.

1. Antecedentes 
     A conversão é o início da vida com Deus. A palavra já indica: homem/mulher são um/uma até o encontro com Deus e, a partir dali, outro/outra. 
    A Bíblia compara, na verdade, define, e não por metáfora, a conversão a um novo nascimento, morte/ressurreição em Cristo e a uma cirurgia pelo poder de Deus. 
    A herança que o ser humano traz de sua ruptura com Deus somente vai resolver-se no retorno a Deus, no ato da conversão. Nela se cumpre a cruz de Jesus Cristo, naquele que crê. 
    Com relação a Saulo de Tarso, vinha alimentando um ódio ativo em relação à igreja. Líder entre os fariseus, em Fp 3,4-7 há um resumo de sua biografia, destacava-se, agora, com pleno sucesso na perseguição ao Caminho. 
    Lucas usa a expressão "assolava", elymaineto, no grego, que significa "ultrajar", "maltratar com violência" ou "provocar estrago". E o ensaio inicial foi perpetrado na morte engendrada de Estêvão. 
     Em At 6,9, entre os membros da Sinagoga que liderou toda a intriga contra Estêvão, estavam "os da Cilícia", ou seja, conterrâneos de Paulo e, sem dúvida, ele incluído.  
     Após a consumação de toda a urdidura, as vestes esfarrapadas e ensanguentadas do mártir foram depositadas pela "testemunhas" forjadas aos pés do jovem Saulo de Tarso, At 7,58: sem dúvida, prestavam conta de uma tarefa finda e bem-sucedida. 
     O jovem apenas não contava que sua queda-de-braço era com o próprio Deus, a quem ele avaliava conhecer e em nome de quem perseguia a igreja de Jesus Cristo.

2. O processo da conversão 
      O impacto da morte de Estêvão teve efeito duplo na vida de Saulo. Enquanto, por um lado, tudo ocorreu conforme planejado, por outro, qualquer relato a respeito da reação da vítima, do sermão ao momento do apedrejamento, enquadraria o jovem algoz em toda a incoerência de tudo o que ocorreu. 
     Saulo era inteligente demais para não levar em conta a contradição entre relato e caráter do diácono Estêvão. Começou a fazer essas duas leituras simultâneas e, como relata, posteriormente, quando fala de sua conversão, era sincero, incrédulo e, ao mesmo tempo, ignorante, em 1 Tm 1,13. Mas não era, absolutamente, ingênuo.
     Colocar os farrapos do que sobrou das roupas de Estêvão aos pés de Saulo simbolizava o fim de um ciclo. Ao mesmo tempo que relatavam a parte em que Saulo não esteve presente, certamente representaram as perguntas pelos detalhes. Isso combinava com a personalidade de Saulo.
     Vejamos como tais respostas, certamente, vão contribuir para o emparedamento e posterior conversão de Paulo.
2.1. Certamente ouviu sobre o sermão de Estêvão. Pelo que conhecemos de Paulo, mesmo antes de sua conversão era inteligente. E a comparação entre a postura que, como autoridades judaicas corruptas, engendraram contra Estêvão e a postura deste, haverá um flagrante contraste que colocará, em xeque, o jovem Saulo, frente a frente com essa contradição, consequentemente, com Deus. 

2.2. Cada detalhe do sermão, sem nenhuma dúvida, Saulo procurou sondar. A leitura de Estêvão, a respeito da tradição judaica, era oposta à leitura que, com todo o zelo, grandeza e vaidade, a "casta" judaica, a que Paulo pertencia com tanto zelo farisaico, também fazia. Por isso, quiseram calá-lo.

2.3. Mas chegou a Saulo cada detalhe do sermão. Com toda a certeza, quem lhe contou, rilhava os dentes, enquanto o jovem Saulo entrava em imperceptível conflito interno. A leitura que Estêvão fazia das Escrituras fazia dele um profeta deslocado no tempo, mas em tudo em dia com sua vocação. 

2.4. Por mais que houvesse rejeição, a clareza da tese de Estêvão, de que, em sua história, Israel tinha um lado obscuro de resistência ao Espírito Santo, representado por lideranças que, como patriarcas, quiseram matar José, rejeitaram ao próprio Moisés e patrocinaram a idolatria, perseguindo e matando os profetas, definitivamente essa era a versão que latejava na mente de Paulo. 

2.5. Internamente, para Saulo que, como qualquer maioral na linhagem farisaica, conhecida a lei de Moisés, conferia a principal afirmação de Estêvão, de que o principal anúncio de Moisés era a profecia sobre o Justo, Jesus, profeta semelhante a ele: rejeitar Jesus, tornar-se "traidor e assassino" dEle, como afirmou Estêvão, At 7,52-53 o que, definitivamente, era não guardar a lei. 

2.6. As testemunhas que deixaram aos pés de Paulo as vestes de Estêvão, prova de que o circuito engendrado desde a farsa previamente montada, At 6,13, correspondeu ao planejado, contrariavam de modo flagrante o nono mandamento, Ex 20,16: "Não dirás falso testemunho contra o teu próximo". Mais uma confirmação do que Estêvão dissera, que todas as autoridades eram uma desonra para a Lei de Moisés, uma afronta e patente contradição. 

2.7. Mas, certamente, o xeque-mate foi quando informaram Saulo da reação final de Estêvão. Nenhuma maldição, Rm 12,14, nenhum impropério proclamado por ele. Até no momento da morte, foi imitador de Jesus, 1 Co 11,1, lições que o futuro apóstolo colocará em prática na sua vida. Estêvão afirmou o que Jesus já havia dito, que estaria na presença de Deus, Mt 26,64, assim como ele vê e enuncia esta cena, At 7,55-56 e ainda, do mesmo modo que Jesus, Lc 23,34, Estêvão rogou a Deus perdão para seus algozes, At 7,59-60.
        Esse testemunho, esse sim, involuntário, dado pelos emissários da Sinagoga ao jovem Saulo, sim, certamente, foi decisivo em sua conversão. Aqui começava, na consciência do futuro apóstolo, a ação dos aguilhões de Deus, At 26,14.
     
3. A última ou primeira viagem 
      Saulo parte da Palestina em direção à Damasco, capital da província romana da Síria, internacionalizando a perseguição contra a igreja. 
     Oficializa por meio de cartas específicas solicitadas ao sumo-sacerdote, destinadas às sinagogas daquela cidade. A influência dos fariseus espalhava-se a partir das sinagogas. 
    Como saiu para esse viagem, está bem expresso e definido por Lucas, em At 9.1, para repetir, naquela capital, At 9,2, o que fizera em seu país, At 8,3, desmembrado famílias, arrastando-as ao cárcere, separando pais e filhos, esposos de suas esposas.
    Vale destacar, no intervalo que se situa em At 8,4-40, a reação da liderança da igreja a essa mesma perseguição:

1. Não se intimidaram: por onde foram dispersos, anunciavam o evangelho, At 8,4;

2. Outro diácono, Felipe, extrapolou sua vocação e, seguindo o e exemplo de Estêvão, além de pregar a palavra, Deus lhe concedeu que operasse os mesmos sinais e prodígios, como sinal profético para ouvir e crer, At 8,5-8;

3. Pedro seguiu a iniciativa de Felipe, interessante como quem definiu a agenda foi o diácono, sinal da operação do Espírito, idepeendentemente de "hierarquia", At 8,14;

4. E essa agenda incluiu Samaria. Não pensem que a resistência e distanciamento preconceituoso e discriminatório entre judeus e samaritanos havia arrefecido. Não foi isso, mas foi a ação do Espírito Santo aproximando e derrubando essa barreira, como Jesus havia ensinado em Jo 4,4, "era necessário" (de novo) passar por Samaria;

5. Aqui é interessante destacar a verdadeira conversão, a respeito do tesoureiro da rainha de Candace, na Etiópia, e a falsa, que foi a simulação do mágico Simão:
5.1. Simão vivia de iludir o povo e, como se vai confirmar, não estava interessado em conversão sincera ou experiência do poder de Deus: queria, apenas, especializar-se, ainda mais, em iludir, At 8,5-9;
5.2. Seus seguidores foram libertos de sua nefasta influência, o que lhe chamou a atenção. Por isso, acercou-se de Pedro e demais apóstolos, que haviam ido em direção ao avivamento em Samaria, orientar Felipe e os novos convertidos, At 8,9-16, para descobrir o "segredo";
5.3. Percebeu Pedro impor as mãos, At 8,18, para que os novos convertidos recebessem o Espírito Santo e, então, achou ser essa o "truque de audiência" que os apóstolos praticavam. Mas os apóstolos não estavam praticando nenhum artifício de mídia;
5.4. Ainda repousava sobre eles a autoridade de impor as mãos, como sinal de batismo no Espírito Santo. Como dissemos, era novo que irmãos como Estêvão e, agora, Felipe, manifestassem os mesmos sinais que, até há pouco, eram tidos como "exclusivos" dos apóstolos, quais eram, At 8,6 e 6,8, "prodígios e sinais" entre o povo;
5.5. Pois a autoridade dos apóstolos ainda era visivelmente requerida, por providência de Deus, de modo a marcar esse início de testemunho da igreja com respeito a Jesus. Era o referencial de autoridade que, por meio do Espírito Santo, Jesus concedia à igreja, tendo o ministério apostólico como transição;
5.6. Não é definitivo que, para que alguém se converta, outro alguém, hoje, precise impor mãos para que se receba o Espírito Santo. Por isso afirmamos aqui que era transitório e existia como reforço à autoridade dos apóstolos. Aliás, este texto justo confere o autêntico dom do Espírito comparado à farsa de um charlatão chamado Simão, identificado pela proposta que fez, At 8,19;
5.7. Pedro alinha, em sua argumentação e denúncia do charlatanismo e falsa conversão de Simão 5 (cinco) características para identificação do falso ministro de Jesus Cristo e, consequentemente, do falso ministério:
(a) nenhum dom ou nada no ministério de Jesus é negociável por nenhum tipo de moeda, At 8,20, senão unicamente pela graça de Deus;
(b) essa proposta ou essa sugestão de troca denuncia quem a prática ou sugere como mercenário e o predispõe à perdição eterna, At 8,20;
(c) essa postura indica que aquele que pratica, sustenta ou lidera qualquer iniciativa mercantilista dessa natureza não tem parte nenhuma no autêntico ministério de Jesus, assim como não tem reto o coração, diante de Dsus, At 8,21;
(d) tal sugestão parte de alguém incrédulo, segundo identifica Pedro, que denuncia essa intenção como maldade explícita e propõe uma única saída honrosa e possível: arrependimento é conversão, At 8,22;
(e) a análise do apóstolo Pedro enxerga em que cilada está quem partilha e/ou compartilha esse e desse tipo de "ministério" ou o promove: está em "fel de amargura e laço de iniquidade", At 8,23, duras palavras, certamente conferem com 2 Tm 2,26. 
       Embora Simão tenha perdido intercessão por ele, não sabemos se veio a, de modo legítimo, arrepender-se, At 8,24, enquanto que Pedro e seus companheiros prosseguiram em sua campanha evangelística por toda a Samaria, At 8,25.
     Felipe experimenta uma outra ação do Espírito Santo inédita, que bem ilustra, a partir da providência de Deus, a urgência da pregação do evangelho.
   Neste trecho, At 8,26-40, conheceremos uma verdadeira conversão e batismo baseada na leitura das Escrituras, por um expediente inusitado, em que num anjo envia Felipe a uma estrada deserta, porém com endereço definido para a evangelização.
     Ao final da conversa com o Eunuco, Felipe é arrebatado pelo Espírito Santo, e ganha o rumo de evangelização até chegar a Cesareia, a cidade de Cornélio.

4. A conversão propriamente dita
      Em At 9,3-6 está descrita, objetivamente, a maneira como Deus resolveu confrontar Paulo. Ele viu um brilho que o cegou fazendo-o, literalmente, cair. E ouviu a voz de Jesus que com ele falava. Paulo vai, pelo restante de sua vida, lembrar dessa sua experiência, associando-a também ao chamado específico de Jesus em sua vida.
      A mesma voz soergue o apóstolo é lhe indica um endereço, em Damasco, onde será mais detalhadamente orientado. O que ocorre em At 9,8-19. Está parte se subdivide entre a relutância de Ananias, At 9,10-16, as orientações dadas ao novo convertido,, At 9,17-20.
      Como destaque, vale lembrar a justificativa de Deus para o argumento de Ananias, pelo medo que nutria por Saulo, At 9,15-16:
"Mas o Senhor lhe disse: Vai, porque este é para mim um instrumento escolhido para levar o meu nome perante os gentios e reis, bem como perante os filhos de Israel;
pois eu lhe mostrarei quanto lhe importa sofrer pelo meu nome".
       E plenamente Paulo correspondeu, como a continuidade da história em Atos indica, assim como as cartas de mais da metade do Novo Testamento confirmam. 


terça-feira, 12 de maio de 2020

Lição 7 - At 6,7-15 - O sermão de Estêvão

Atos 6:7-15

Crescia a palavra de Deus, e, em Jerusalém, se multiplicava o número dos discípulos; também muitíssimos sacerdotes obedeciam à fé.
Estêvão, cheio de graça e poder, fazia prodígios e grandes sinais entre o povo.
Levantaram-se, porém, alguns dos que eram da sinagoga chamada dos Libertos, dos cireneus, dos

Introdução
    A pergunta do sumo-sacerdote a Estêvão desencadeia todo um processo: 
"Então, lhe perguntou o sumo sacerdote: Porventura, é isto assim?", At 7,1.
    O caráter dele já estava definido, "Estêvão, cheio de graça e poder, fazia prodígios e grandes sinais entre o povo", At 6,8, e, por isso, foi preso, injuriado e agora comparecia perante a autoridade maior entre os judeus. 
  Estava armado um "circo" para caluniá-lo e incriminá-lo. Mas não alterou a marca principal de sua personalidade. E o seu sermão, registrado por Lucas, vai confirmar também diante dos nossos olhos. 

1. Clímax da perseguição 
      Destacamos que, pelo menos antes desta prisão de Estêvão, em duas outras oportunidades os apóstolos haviam sido conduzidos perante as autoridades judaicas. 
     A primeira, após a cura do paralítico, postado à porta Formosa do templo, quando Pedro e João subiam para orar. Pedro ainda pregava, quando os emissários do sumo-sacerdote, o capitão do templo e os saduceus para prendê-los, At 4,1-3.
     Na segunda prisão, a igreja seguia em sua rotina, quer dizer, plenamente envolvida no seu ministério quando, novamente, foram recolhidos ao cárcere e, desta vez, ainda que o afamado Gamaliel aconselhasse prudência às autoridades, os apóstolos foram punidos com açoites, At 5,17-18 e 40.
     Mas nem o conselho de Gamaliel foi ouvido. E as perseguições intensificaram-se até o clímax dessa prisão e julgamentos forjados. Somente assim poderiam enquadrar um homem como Estêvão: em tudo imitador de Cristo.
     A partir desse fato, e já por influência da liderança de Saulo de Tarso, a perseguição vai recrudescer. Dado o relatório da morte de Estêvão a Saulo, At 7,58, Lucas detalha que ele planejou se deslocar até Damasco , capital da Síria, ela sim Província Romana à qual a Palestina estava subordinada.
       Além de "assolar a igreja", como está descrito em At 8,1, e "respirar ameaças e morte contra os discípulos", At 9,1, Saulo separava famílias de seus filhos, At 8,3 e pretendia trazer arrastados até Jerusalém os que prendesse em Damasco, At 9,2.
     Nas próximas lições vamos ver como Deus resolveu esse problema. Aqui, vamos agora nos debruçar sobre a vocação, o trabalho e a pregação de Estêvão. 

2. Um homem para além de sua vocação 

       Um problema surgido na igreja, entre viúvas de judeus helenistas e aquelas de hebreus, conduziu Pedro a tomar uma atitude sábia, delegando autoridade e retirando de sobre seus ombros a responsabilidade.
      Resolveu indicar diáconos, "servidores", que foram homens selecionados, sob a própria recomendação de Pedro, At 6,3-4, careciam de uma formação espiritual, de talento e caráter a toda a prova, em meio aos irmãos. 
     Esse conflito era antigo, desde épocas em que se instituiu uma questão de identidade e valor entre judeus que permaneceram na dispersão e os que retornaram à Jerusalém.
    Portanto, qualquer tipo de diferenças ou desentendimento, levado em conta que era uma polarização e rixa antiga, desde os tempos ainda da família dos Macabeus, cerca de 168-90 a. C., era necessária uma diplomacia e sabedoria do Espírito que somente homens bem preparados poderiam administrar.
      Pois entre esses homens, destaca-se Estêvão, para além da tarefa que sobre ele recaiu, na mesma reserva de caráter, na plenitude do Espírito, mas avançando para o ministério que, até aquele momento, parecia ser exclusividade dos apóstolos, At 6,8-10.
      Estêvão destaca-se, movido pelo Espírito, no ministério da palavra, em meio às questões propostas pelos judeus e que, diante dele, não obtinham sucesso. Também sinais e prodígios, marca característica do ministério de Jesus, At 2,22, reserva de autoridade transmitida aos discípulos, At 5,12, e agora indicado como característica idêntica no ministério de Estêvão, At 6,8.
      Essa transição assinala uma característica do ministério da igreja que se confirma já na observação feita por Pedro, na introdução de seu sermão em Pentecostes, At 2,17-18.
    Define-se que, para a igreja, não existe monopólio de nenhum ministério, assim como não existe hierarquia de mistérios, mas distribuição de dons do Espírito. 
    Segundo a própria Escritura diz, como num corpo, as diferenças se articulam e todo a igreja efetua o seu próprio aumento, Ef 4,15-16. Apóstolos não são uma casta superior aos demais, porém a definição do serviço que prestam a toda a igreja.
    Daí que, se temos um diácono movido pelo Espírito Santo, para além da expectativa que todo o grupo promoveu para ele, mais à frente teremos Saulo, convertido, e Barnabé, At 14,14, ambos chamados apóstolos. 
     Não há monopólio ou hierarquia de ministérios  no contexto de ação da igreja é distribuição de dons do Espírito.

3. O sermão de Estêvão 

      Estêvão não fala a um auditório ou grupo de pessoas interessadas em ouvir sobre salvação. Mas a um grupo que contexta sua autenticidade como testemunha de Jesus, forja acusações falsas contra ele e desejo ouvi-lo apenas para justificar a iniquidade que já antecipadamente decidiram praticar.
      Portanto, Estêvão mais para um libelo profético se denúncia de pecado, do que um sermão de edificação espiritual ou oferta de arrependimento, embora esses tópicos não estejam ausentes de todo em sua prédica.
     Estêvão escolhe traçar uma linha contínua, pelo Antigo Testamento, de Abraão a Moisés e deste a Salomão, quando menciona a contrição do Templo de Jerusalém, a partir da planta do Tabernáculo do deserto.
     Com isso, ele demonstra conhecer as Escrituras mas, ao lado do orgulho e soberba das autoridades que tem diante de si, Estêvão vai ressaltar os aspetos negativos e de rejeição à vocação que Deus tinha para com Israel.
     Essa tese de Estêvão de que eram um povo que resistia ao Espírito Santo, de que a circuncisão, considerada por eles marca de sua identidade e vínculo a Abraão era falsa, que eram uma geração reafirmada de algozes de profetas e, para coroar, eram assassinos do Justo, profetizado por Moisés, foi a gota d'água de razões, além da que procuravam. Não suportaram toda a verdade.
    As etapas do sermão de Estêvão são:
1. Autenticidade da vocação, da fé e da aliança com Deus em Abraão: At 7,2-8;
2. Livramento de José, em família e no Egito, como marca da providência de Deus: At 7,9-15;
3. Levantamento do profeta que lidera a libertação do Efeito e profetisa sobre o Messias que virá: At 7,17-30;
    Aqui Estêvão se detém, propositalmente, num tempo maior, porque para os judeus Moisés era o maior dos profetas, o mediador da lei e provedor do sacerdócio da tribo de Levi. 
    Estêvão vai estabelecer, como faz ao longo de todo o sermão, a história da providência e cuidado de Deus, ao lado da rejeição e rebeldia do povo, como bem caracteriza neste trecho, com Moisés. 
4. Egito, Sinai e Deserto: três momentos decisivos sob a liderança de Moisés, At 7,35-43;
5. Liderança de Josué: o Tabernáculo, símbolo da presença de Deus no meio do povo: At 7,44-50.

Conclusão 
1. Estêvão, em sua homilética e hermenêutica desenha uma mancha na honra e na biografia da história dos judeus, confirmada no gestão de rejeição ao Messias;
2. Coloca todas sequelas autoridades no rumo e quilate de todos os que, na história de Israel, rejeitam o Senhor e se rebelam contra Ele;
3. Menciona patriarcas fatricidas contra José, contestadores da vocação e liderança de Moisés, massa de povo que, no coração, ficaram no Egito e, no deserto, revelaram a idolatria que jamais haviam abandonado;
4. Rejeitam a principal palavra de Moisés, a profecia sobre o Messias, At 7,37, têm no currículo a deportação para a Babilônia por escolher não Deus, mas a idolatria, At 7,43 e, ao longo de toda a sua história são conhecidos não por aceitar, mas por rejeitar o Espírito Santo, At 7,51;
5. Ao final, a marca com que Estêvão classifica os líderes religiosos em Israel, inclui:
5.1. Falso senso se aliança com Deus, sem compreender o papel da fé na aliança da circuncisão: cahma-os incircuncisos, At 7,51 com Jr 4,4;
5.2. Resistentes ao agir do Espírito Santo em suas vidas, esse mesmo que vinha sobre os profetas e demais servos do Senhor, como sobre todo o povo: At 7,51 com Na 9,20;
5.3. Dura cerviz, quer dizer, não se dobram diante de Deus, replicando a mesma rebeldia dos pais e perseguição aos profetas, que agora são todos os crentes e não somente os dentre os judeus: At 7,51 com 1 Co 14,1 e At 2,17-18;
5.4. Chama-os não semente traidores e assassinos dos profetas e da profecia, mas do Justo, coroa de todas as Escrituras, vocação e história de Israel: At 7,52;
5.5. Estêvão antecipa Paulo que, aos Romanos 10,4 diz que a finalidade da lei é Jesus, aos Gálatas diz que a lei é o aio que nos conduz a Cristo: At 7,53, com Rm 10, 4 e Gl 3,24.

       A pergunta do sumo-sacerdote foi mais do que plenamente respondida e a identidade deles mais do que confirmada no justiçamento iníquo que promoveram contra Estêvão.

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Pastoral de quarentena

     Dizem as Escrituras que o Espírito Santo intercede por nós, com gemidos inexprimíveis. Eu até posso entender "gemidos" e também "inexprimíveis".
     Mas quando se juntam na expressão "gemidos inexprimíveis" e associado a Espírito Santo, como diz o outro, "viajo na maionese".
     E aí entra a seguinte explicação, esta sim, bem minha, eu entendo completa: "Porque não sabemos orar como convém". Finalmente, uma parte mais clara da coisa. 
    A quarentena joga o cara na oração. Até leitura de Bíblia. Deve ser pelo medo do vírus. De repente, fica-se mais, digamos, espiritual. 
    Se bem que o salmista diz que, à alma, sempre ocorre buscar o Senhor. Ainda bem que a gente tem alma. Pelo menos, uma parte bem íntima, dentro da gente, que conserva, abriga e, ainda que remotamente, nos lembre a fé. 
    Deve ser aí que o Espírito se abriga. Sim, porque numa parte íntima nossa ele deve residir, como inquilino ocasional, quando, como dizem de novo as Escrituras, quando não o entristecemos ou até apagamos. 
    Só mesmo uma Pessoa da Trindade, assim, sutil, para nos reconstruir por dentro. A coisa foi tão avassaladora, o estrago foi tão grande que, para o amor entrar de novo, na gente, os três têm de se empenhar: Pai, Filho e Espírito.
    Trabalho individual e conjunto, ao mesmo tempo. Depois ainda tem gente que não acredita na Trindade. Cúmulo do cinismo: se olha no espelho, como dizem de novo as Escrituras que o nosso espírito sabe de nós e, num dia de faxina, também chamada "confissão de pecado", dê uma "olhada interior" e veja bem, sem falsa modéstia como nos tornamos, mais ou menos recauchutados, por obra da Trindade. 
     Deus, distante como sempre, Jesus, o dublê perfeito que veio ao encontro de nós, e o Espírito, que entra dentro. Podemos dizer que deixaram o "serviço limpo" para ele. Tá entendendo, agora, por que ele geme?  Deixa de ser cínico. 
    Daí, deve ser a quarentena, de novo acordei com vontade de orar. Deve ser o medo, de novo. Não há virtude nesse meu gesto. Mas, quando lembrei desse texto acima, que interessa ao Espírito que oremos, que parte dEle essa iniciativa que Ele emplaca em nós, legitimando ou, pelo menos, na tentativa de, resolvi orar e incluir você.
    Faço um convite à oração. Ore por mim. Eu estou orando por você. Não demore na oração por mim. Demore na oração por você. Deixe-se conduzir pelo Espírito Santo. Pode ficar nu ou nua na presença dEle. Não apenas fisicamente, sempre mais fácil, mas também intimamente, sempre mais doloroso.
    Ele intercede por nós. Geme por nós. Torna autêntica nossa oração. Torna autêntica nossa existência. O nosso culto. A nossa adoração. A nossa fé. O nosso amor. Como disse Jesus àquela mulher, o Espírito Santo sacia a nossa sede.
     Pretensão minha orar por você. Não tenho assim tanta sensibilidade. Nem essa virtude. Mas tive essa vontade. Por isso escrevi. Onde chegar este texto, é para dizer que o Espírito Santo intercede por você com todo o foco. 
    O que te aflige, o que sensibiliza tua alma, ainda  que nem nossa alma tenha escapado à influência do que, em nós, não é assim tão digno, a partir desse recôndito tão íntimo, o Espírito quer interceder por nós, em nós, conosco, sondando, tornando a gente mais sensível ao que de Deus ele conhece tão intimamente. 
     Convido a orar. 
     Que sejam todos os problemas de uma vez. Que seja oração por outros. Fugaz. Sensível ou não. Soberba ou humilde. Nós vamos do ruim ao bom muito rápido. Conceda ao Espírito. Ele é sensível. 
     No início, lá na Criação, dizem as Escrituras que Ele perambulava. Vinha de bisbilhotar o Altíssimo. Mas dEle, sem novidades: já conhece tudo. Agora, anseia por nós. Deseja ficar íntimo. Ainda que seja doloroso e, até mesmo, sempre vergonhoso, fique nu/nua, por dentro e por fora, e faça assim sua oração.

sábado, 2 de maio de 2020

Atenção, regente: chegou o sorriso.

      Acho que é minha idade. Eu já vi alguns clãs desaparecerem. Acho até que deveria ver outros. Mas a distração me condena. 
      Mas falo dos que atravessaram meu caminho. Vou aqui mencionar um, como introdução, e outro, como tema. 
      O clã de minha prima, em segundo grau, Alerte, o marido Manoel Rangel e o filho Vanderlei. Prima de minha mãe por parte de meu avô Baldomero.
      Parentada meio distante. Mas se tornou próxima porque, a partir de 1967, Rangel passou a tratar com Cid, meu pai, os trâmites para morarmos no Méier.
     Rangel construíra o conjugado, garagem no térreo, terraço acima, ele 201 e nós no 301, este era para o Vanderlei, mas ele desfez o noivado em cima da hora.
     Bem, ficamos em cima, no 301. Morreu Rangel.  Morreu Vanderlei. Morreu, por último, Alerte. Um clã parecido com o de Dorcas, Cid e eu: resta um.
    E ontem soube que se foi o caçula do clã dos Spiller: Cláudio. Visitei a mãe, Eunice, em casa dele, na estrada do Pau Ferro, na Freguesia, Rio, RJ. Eunice foi minha diaconisa predileta. 
     Eunice Spiller, alma da Congregacional de Copacabana. Eu patoreei três IECCs: Igreja Evangélica Congregacional de Curicica, Cascadura e Copacabana. 
       A gente traz marcadas as experiências que vive nas igrejas que pastoreia. Sigo o rastro do Limeira, amigo de meu pai, cuja esposa, Clovelina, era amiga de minha mãe, na Congregacional de Nilópolis, desde que tinham 3 anos de idade.
     Certo dia, Limeira foi ao Méier me convidar para ser pastor em Copacabana. Só saí de lá, porque foi ordem de Deus. Ali encontrei Eunice Spiller. Uma das maiores mulheres que conheci. 
       Tinha sua alma na igreja e a igreja em sua alma. Fuçava pessoas que visitássemos em Copacabana. Amigas suas, crentes antigas, como as duas irmãs já idosas, filhas de um antigo pastor presbiteriano dos anos 30.
     Os problemas e angústias da igreja estavam guardados dentro dela. Queria resolver todos de uma vez. Foi com ela e com outro ancião, diácono Pedro Campelo, 85 anos, mas de uma energia diuturna, que compramos a kitnet da igreja. Claro que houve mais ajuda. Destaque para esses dois. E ainda menciono o pastor José Remígio, regente com Campelo. 
       D. Eunice deu, literalmente, 1 ķg de ouro: saí no ônibus para o Centro do Rio com a Barra dentro do bolso da calça, embrulhada num saquinho de supermercado. Eu havia dito a ela: não posso aceitar. Sua idade não permite. Há os filhos.
        Mas sobressaiu seu gênio: eles resolvem os problemas deles, sem me consultar. Eu vou resolver este, sem consultá-los. Está bem. A igreja assumiu. Semana seguinte, ela me disse que Cláudio a procurara, porque tinha destino para o quilo do ouro: precisavam investir. Eu arregalei olhos. Ela sorriu. Disse a ele que doei à igreja. E ele, angustiei perguntando. Sorriu, disse ela, e falou: "Mãe, não podia ser destino melhor".
        De Copacabana eu trago comigo, além da lembrança ativa da atividade incansável de Eunice Spiller, cada grupo com quem nos envolvemos naquele breve, mas intenso período de ministério. 
      Somente iria para o Acre, seguindo no rastro que Limeira desenhou, porque foi ordem de Deus. Se não, eu não sairia nunca. Ali Eunice me colocou no centro de seu zelo pela igreja e pelo amor de sua família. Cláudio, caçula dela, inesquecível o seu sorriso misto. 
    Matreiro, irônico, enigmático, ha ha ha, moleque mesmo, tudo se misturava nele. Uma síntese daquela época áurea da Congregacional de São João de Meriti, RJ. Ali foi gestada Copacabana, na mudança da família Spiller para aquele bairro. Foi gestada Copacabana na visão de Limeira. Foi gestada Copacabana na alma de Eunice Spiller. 
     Seguiam rastro, pioneirismo e arrojo de Limeira, que alcançou Manaus, AM, Boa Vista, RR, e Rio Branco, AC, onde estou há 25 anos. Somente deixei sozinhos meus diáconos Eunice e Pedro Campelo porque foi ordem de Deus. 
    Copacabana e seus grupos: Emocionais Anônimos, numa tarde, na salinha da igreja; mulheres da colônia judaica, com algumas católicas, estudando o Primeiro (ou Antigo) Testamento; os "rapazes", um deles, introduziu-me no grupo da Pastoral Carcerária, dentro do antigo presídio da Frei Caneca, hoje implodido.
     Histórias densas de testemunho das Escrituras e do evangelho. Com as "meninas", estudamos Jó, Isaías, Jeremias, alguns dos Profetas Menores e Salmos esparsos. No Anexo da Frei Caneca, com ex-policias apenados, fazíamos os encontros, eu e Eneias, uma vez a cada semana.
    Com a mocidade da Congregacional de Cascadura, fazíamos uma vigília de dois turnos: oração das 20 às 21h30; beira-mar, no testa a testa, na noite infindável de Copa, até as 5h da manhã. Pelo menos, umas quatro vezes foi assim. Todas as pessoas da noite ouviam o evangelho. 
      Numa delas, lembro da roupa, tamanho da barriga e da garoa fina que caía quando, já amanhecendo, eu e Regina, grávida de Isaac, começamos a combinar o regresso para o ap do Campinho. Estava encerrada mais aquela vigília em Copa. 
       Ontem soube que o último do clã Spiller se foi. Claro que a legenda da família está preservada. Não conheço com detalhes os nomes de todos. Claro que d. Eunice apresentou-me os netos e netas, um a um, na medida em que eu visitava, com ela, Paulo, Marli e Cláudio.
     Mas de minha geração e convívio em Copa foram mesmo o clã completo de pai, mãe e três filhos: Geraldo, Eunice, Paulo, Marli e Cláudio. Sentado na cama do ap da Tonelero, lembrei ao Patriarca Spiller, para animá-lo em sua enfermidade, a semelhança com Jó.
     O senhor tem facilidade financeira, agradeça a Deus, tem filhos amorosos, que se preocupam e cuidam do Sr, e a esposa que administra os seus cuidados. Jó, além da perda da saúde, perdeu todos os filhos e todos os bens.
    Cantamos juntos um hino de sua preferência. Oramos juntos. Eunice Spiller participando ali conosco. Ela insistia que nos víssemos e que orássemos juntos, para animá-lo. Assisto, com tristeza, antes ainda de minha ida para o lar, na mesma viagem, à partida de mais esse clã.
     Mas tenho certeza que, agora, todos juntos sorriem. Atenção, maestro: para o ensaio, que chegou a nota afinada regida pelo sorriso do caçula. Gargalhada de Marli ressoando com a de Jesus. Livres e leves, sem precisar de Paulo como piloto.
       Meio que calada, d. Eunice Spiller, minha super diaconisa, neste momento, folga e também sorri: todo o clã está unido com Jesus.  Eunice, alma de minha época em Copa. Paulo dizia que, em sua preocupação e afazeres com a igreja, dava continuidade ao sofrimento de Cristo. Eu pensava que era pretensão dele dizer isso, até que encontrei essa mulher que fez o mesmo.
   Na minha memória fica o sol de Copacabana, nem pela praia em si, dentro da qual, por ironia, nunca entrei. Mas pelo circuito que me levava a pé, por suas ruas, eu e minha diaconisa Eunice Spiller.
     N.Sra. de Copacabana, República do Peru, atravessa-se Barata Ribeiro, alcança-se a Tonelero, ligeira dobra à esquerda, segundo edifício. Uma rápida refeição ou pequeno lanche porque, hoje à tarde, tem visita.