sábado, 22 de agosto de 2026

Essencial ser Congregacional

   Antes de tudo, a Bíblia. Na minha vida, encontrei um casamento misto: Ha Ha Ha. Explico: meu pai pastor Batista e minha mãe Congregacional.

   Aliás, congregacionais os dois. Explico de novo: Batistas são congregacionais no regime de governo e nós, Congregacionais, tomamos esse termo como título da denominação.

   E o que é denominação? Apenas isso, denominação: ou seja, o nome que foi dado. Protestantes que somos, herdeiros da Reforma que tem esse nome, nós nos subdividimos.

   E isso tem a ver com a liberdade de exame das Escrituras, conquistada, exatamente, na época da Reforma. Mas jamais a ortodoxia denominacional deve ser entendida como acima das Escrituras.

  As ortodoxias denominacionis, diferentes entre si, devem ser entendidas como leituras personalizadas das Escrituras. Porque estas continuam prevalecendo sobre aquelas. E se assim não for entendido, surge o fundamentalismo, que é a estupidez de alguma denominação se achar superior.

   Desculpem. Vocês não são superior, apenas são diferentes. E a particular leitura feita a partir das Escrituras é contingente. Caso individualmente avaliem como única e a mais certa, estarão imitando certa Igreja que, antes da Reforma, achava-se maioral. Esperamos ter ela aprendido a lição.

   Congregacionais porque postulam ser a congregação aquela que se autogoverna. Ela que, com a Bíblia aberta, vai decidir seus rumos. Sem hipocrisia, é óbvio sempre ocorrer uma tensão entre pastor, que simboliza Jesus, em meio à congregação, e ela mesma.

   Porque se o pastor quiser autonomia em relação à congregação, usurpando para si direitos que não lhe pertencem, ou o contrário, a congregação entender que pode tomar decisões sempre à revelia do pastor, ambos perderam sua vocação.  Diante das Escrituras, terão exercido violência ao dom de Deus recebido.

   Há um versículo clássico que Jesus usou para autodefinir-se:

⁴⁵ "Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos." Marcos 10.

   Ora, se Jesus se coloca como servo, e temos toda a certeza de que Ele nunca foi um demagogo, se há pastores que, diante do rebanho, imitam de Jesus a virtude, serão servos. Pastores não existem para ser servidos (ou para servir-se a si mesmos: saia fora a ideia de ser lobo do rebanho).
   
    Mas a congregação também deverá ser de servos, seguindo o mesmo raciocínio, jamais servir-se a si mesma, usurpando fama para si mesma.  Esse deve ter sido o espírito do raciocínio de Jesus, no Apocalipse, ao criticar a Igreja de Éfeso.  Tornara-se orgulhosa do perfil alcançado e, desse modo, fracassou no amor.

⁴ "Tenho, porém, contra ti que abandonaste o teu primeiro amor." Apocalipse 1.

     Talvez o primeiro amor seja o serviço. Quem sabe, ser Congregacional signifique (ou carece de significar) servir. Assim, desse modo, imitar Cristo.  Quem sabe seja, tanto para congregação, quanto para pastores, essencial imitar Cristo.  E isso, embora não sendo tão fácil assim, seja essencial. 

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Ser (menos) humano

  Deixa ser as Escrituras o referencial para a existência de Deus. Ainda que se negue qualquer possibilidade, o mais aferrado ateu jamais negará que as Escrituras continuem-se nesse referencial, ainda que não acredite numa letra dela.

     E tomada, vêm os textos principais dela, ou seja, os que, pode-se dizer, sem eles todo o restante seria irrisório. Pelo começo, no Gênesis estar escrito: ¹ "No princípio, criou Deus os céus e a terra." Gn 1.

   Se temos Escrituras que não registram que Deus tenha criado céus e terra, com tudo o que lhes compõe, incluídos homem e mulher, não serão Escrituras e não será Deus.

   Isso posto, vamos logo ao crucial, o ponto central das Escrituras, esse sim, sem o qual ela nada seria: a revelação de Deus no Filho Jesus Cristo. Um Deus alienado do homem para nada também serviria. E qual, então, seria a relação Deus-homem?

   O mesmo argumento: se não existe tal relação ou se, existindo, não for íntima, então é blefe. Será um deus inventado para uma relação fictícia. Portanto, tudo o que nas Escrituras define a relação Deus-homem precisa ser, em essência, verdadeiro.

    Agora será necessário, digamos, sair das Escrituras, ou seja, do texto para dentro da realidade. Por outra forma de dizer, o que se constata, a olhos vistos, ser ação de Deus no mundo.

    O mundo está repleto de realizações humanas. Aliás, podemos aqui recorrer ao método do ateu, para dizer que a realidade está aí, está posta, em nada dependendo da existência de Deus. Ela pode ser definida por vários modos, sendo talvez o método científico o mais preciso entre os demais.

    Pois se Deus não ou nunca interfere ou interferiu na história, de nada adianta supostos nem Deus ou Escrituras. Mas elas apontam para a suprema intervenção divina: Deus se fez homem.

   Deus encarnou na virgem de Nazaré. Ainda que se suponha algo comum ou vulgar, similar em tudo a todas as religiões ou desgastadas ideias de encarnações divinas, esse Deus dessa fé monoteísta, plástico de sua história nas Escrituras, torna-se o homem Jesus Cristo, o Filho.

    Essa a ação essencial de Deus. Isso, nas Escrituras, não é  religião.  Deus se encarna no Filho para resgatar a humanidade inteira de sua condição errática, no sentido moral, e entrópica, no sentido existencial.

   Segundo as Escrituras, sempre elas, a ação principal, de Deus, Ele a efetuou e efetivou no Filho e pelo Filho. A restauração de tudo reside nessa definitiva ação. Porque restaurando o ser que criou, a sua imagem e semelhança, "homem e mulher os criou", Deus já começou a tudo restaurar.

   Este é outro ou mesmo o ponto central da história registrada nas Escrituras.  Caso Deus fosse criador, mas a história do ser humano fosse prisioneira da conduta humana degradada ou terminasse na morte, nem Deus seria. Como disse Jesus aos saduceus:

²⁶ "Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó? ²⁷ Ora, ele não é Deus de mortos, e sim de vivos. Laborais em grande erro." Marcos 12.

   Portanto, Deus não é de mortos. Daí as Escrituras atestarem a ressurreição. E por ela, também a restauração da natureza está demarcada. Os impérios humanos, como sempre ocorreu, vão caducar. Nem sua atual ostentação, que se lhes assemelha ser permanente, vai impedir sua derrocada.

¹⁵ "Eis que as nações são consideradas por ele como um pingo que cai de um balde e como um grão de pó na balança; as ilhas são como pó fino que se levanta." Isaías 40.

    Portanto, recapitulando: as Escrituras, e nelas, a criação, a ação de Deus na encarnação no Filho, os efeitos diretos dela na vida de quem crê são dados essenciais. Negue-se um deles, para se desconectar o novelo da revelação de Deus.

      Finalizando, homens (e mulheres) foram autores do livro:

²⁰ "...sabendo, primeiramente, isto: que nenhuma profecia da Escritura provém de particular elucidação; ²¹ porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens [santos] falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo." 2 Pedro 1.

    Se se dissesse "anjos escreveram", seria nada crível.  Homens (e mulheres) como eu e você registraram a ação de Deus. E Deus não é homem. Mas Quem mais torna exequível a ação humana. Exatamente por ser menos divino, desprovido deste adjetivo, por abdicar da ação de Deus em sua vida, esse ser se tem tornado menos humano.

sábado, 15 de agosto de 2026

Há uma notícia nas ruas

 Há uma notícia nas ruas:

¹⁴ "Depois de João ter sido preso, foi Jesus para a Galileia, pregando o evangelho de Deus, ¹⁵ dizendo: O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho." Marcos 1.

   Essa manchete acima. Muito antiga, que esse sujeito chamado Marcos divulgou. Atribui ao nome que aparece estampado: Jesus.

  Para muitos, nada representa. Caducou. É loucura. Mas para outros tantos, que nela acreditam, é sabedoria. A respeito disso outro sujeito escreveu:

¹⁸ "Certamente, a palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós, que somos salvos, poder de Deus." 1 Coríntios 1.

   Ele confirma: "certamente, é loucura". Mas ele reafirma para quem é loucura: "para os que se perdem". Isso lembra a gíria do vulgo meliante: "Perdeu". Para quem acredita, esse outro sujeito acima, Paulo Apóstolo, afirma: "sonos salvos".

   Em outro texto ele chama de alienado a quem não dá crédito. Classifica por 5 (cinco) categorias quem não está nem aí para a notícia que corre. Sim, a notícia tem mais de 2000 anos de idade.

   E está valendo. Para quem nela acredita.  Mas voltemos às 5 categorias. Veja abaixo:

¹¹ "Portanto, lembrai-vos de que, outrora, vós, gentios na carne, chamados incircuncisão por aqueles que se intitulam circuncisos, na carne, por mãos humanas, ¹² naquele tempo, estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança e sem Deus no mundo." Efésios 2.

   1. Estar sem Cristo; 2. Separado da comunidade dos que creem; 3. Estranhos (alienado) aos textos das Escrituras; 4. Sem nenhuma esperança; 5. Sem Deus no mundo.

   Confirma-se a notícia. Por insistir nela, crucificaram o cara que a começou divulgando. Ele mesmo, Jesus. Vale a advertência: está valendo a notícia:

¹⁵ "O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho." Marcos 1.

   No texto das 5 categorias, menciona-se um ritual: "circuncisão". Para quem gosta de religião, essa aí, desse ritual, foi o judaísmo bíblico do Antigo Testamenro. Mas até hoje pratica-se a circuncisão em meninos judeus recém-nascidos.

   Mas esse ritual é um aviso profético. Porque quem cicuncuda é Deus e não é na carne do prepúcio, ou seja, não é no tecido morto retirado da glande do recém-nascido menino judeu: é no coração.  Já dizia Jeremias, o profeta:

⁴ "Circuncidai-vos para o Senhor, circuncidai o vosso coração, ó homens de Judá e moradores de Jerusalém, para que o meu furor não saia como fogo e arda, e não haja quem o apague, por causa da malícia das vossas obras." Jeremias 4.

    Isso aí acima que Jeremias diz, no século 7⁰ antes de Cristo, é o que Paulo Apóstolo ecoa abaixo, na sua carta aos Romanos, sobre o que, na verdade, é circuncisão:

²⁸ "Porque não é judeu quem o é apenas exteriormente, nem é circuncisão a que é somente na carne. ²⁹ Porém judeu é aquele que o é interiormente, e circuncisão, a que é do coração, no espírito, não segundo a letra, e cujo louvor não procede dos homens, mas de Deus." Romanos 2.

   Circuncisão com a mão de Deus é o milagre que somente Deus efetua. É o despojamento da corrupção do pecado, somente  possível pela união, efetivada pelo Espírito Santo, ao corpo morto e ressuscitado de Jesus Cristo. Circuncisão pela não de Deus no corpo de Jesus Cristo. Isso se chama batismo do Espírito Santo. 

¹¹ "Nele, também fostes circuncidados, não por intermédio de mãos, mas no despojamento do corpo da carne, que é a circuncisão de Cristo, ¹² tendo sido sepultados, juntamente com ele, no batismo, no qual igualmente fostes ressuscitados mediante a fé no poder de Deus que o ressuscitou dentre os mortos" Colossenses 2.

   Se liga, literalmente, na notícia. Última chamada.  Assuste-se: o Apocalipse já está nas ruas. Batize-se, pelo Espírito, em Jesus Cristo. Se oriente, rapaz. 

domingo, 9 de agosto de 2026

O quão perto de Deus

 ²¹ "Disse mais o Senhor: Eis aqui um lugar junto a mim; e tu estarás sobre a penha." Êxodo 33.

Em meio à preparação do Tabernáculo, para a instituição do culto, irrompe uma crise de identidade do povo em relação à vocação que, para eles, Deus propunha. 

O culto do Tabernáculo deveria ser contínuo, racional e coerente. Tal qual Paulo define aos Romanos:

¹ Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. ² E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus. Rm 12.

Intencionalidade divina

⁴ Tendes visto o que fiz aos egípcios, como vos levei sobre asas de águia e vos cheguei a mim⁵ Agora, pois, (1) se diligentemente ouvirdes a minha voz e (2) guardardes a minha aliança, então, (3) sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos; porque toda a terra é minha;.⁶ vós me sereis reino de sacerdotes e nação santa. São estas as palavras que falarás aos filhos de Israel… Êxodo 19:4-6a.

A igreja de Jesus cumpre essa intenção 

⁹ Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz; ¹⁰ vós, sim, que, antes, não éreis povo, mas, agora, sois povo de Deus, que não tínheis alcançado misericórdia, mas, agora, alcançastes misericórdia. 1 Pedro 2

Moisés emissário autorizada: instrução do ministério profético 

⁹ Disse o Senhor a Moisés: Eis que virei a ti numa nuvem escura, para que o povo ouça quando eu falar contigo e para que também creiam sempre em ti. Porque Moisés tinha anunciado as palavras do seu povo ao Senhor. Êxodo 19.

A igreja de Jesus profetiza no mundo 

¹ Segui o amor e procurai, com zelo, os dons espirituais, mas principalmente que profetizeis.
1 Coríntios 14.

Santificação preordenada diante da presença do Senhor 

¹⁰ Disse também o Senhor a Moisés: Vai ao povo e purifica-o hoje e amanhã. Lavem eles as suas vestes ¹¹ e estejam prontos para o terceiro dia; porque no terceiro dia o Senhor, à vista de todo o povo, descerá sobre o monte Sinai. Êxodo 19.

Presença solene do Senhor

¹⁸ Todo o monte Sinai fumegava, porque o Senhor descera sobre ele em fogo; a sua fumaça subiu como fumaça de uma fornalha, e todo o monte tremia grandemente. Êxodo 19.

Autor de Hebreus comparando as duas épocas

²¹ Na verdade, de tal modo era horrível o espetáculo, que Moisés disse: Sinto-me aterrado e trêmulo! ²² Mas tendes chegado ao monte Sião e à cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestial, e a incontáveis hostes de anjos, e à universal assembleia ²³ e igreja dos primogênitos arrolados nos céus, e a Deus, o Juiz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados, ²⁴ e a Jesus, o Mediador da nova aliança, e ao sangue da aspersão que fala coisas superiores ao que fala o próprio Abel Hebreus 12.

Institui-se Moisés como profeta

¹⁹ Disseram a Moisés: Fala-nos tu, e te ouviremos; porém não fale Deus conosco, para que não morramos. ²⁰ Respondeu Moisés ao povo: Não temais; Deus veio para vos provar e para que o seu temor esteja diante de vós, a fim de que não pequeis. ²¹ O povo estava de longe, em pé; Moisés, porém, se chegou à nuvem escura onde Deus estava. Êxodo 20.

³ Veio, pois, Moisés e referiu ao povo todas as palavras do Senhor e todos os estatutos; então, todo o povo respondeu a uma voz e disse: Tudo o que falou o Senhor faremos. ⁴ Moisés escreveu todas as palavras do Senhor e, tendo-se levantado pela manhã de madrugada, erigiu um altar ao pé do monte e doze colunas, segundo as doze tribos de Israel. Êxodo 24.

⁷ E tomou o livro da aliança e o leu ao povo; e eles disseram: Tudo o que falou o Senhor faremos e obedeceremos. Êxodo 24.

¹³ Levantou-se Moisés com Josué, seu servidor; e, subindo Moisés ao monte de Deus [...]  ¹⁶ E a glória do Senhor pousou sobre o monte Sinai, e a nuvem o cobriu por seis dias; ao sétimo dia, do meio da nuvem chamou o Senhor a Moisés... Êxodo 24.

O quanto Deus está perto de nós 

⁷ Pois que grande nação há que tenha deuses tão chegados a si como o Senhor, nosso Deus, todas as vezes que o invocamos?

⁸ E que grande nação há que tenha estatutos e juízos tão justos como toda esta lei que eu hoje vos proponhoDeuteronômio 4.

1. A ponto de não somente ver mas compartilhar da Sua glória: transmitir glória para que sejamos um:

²² Eu lhes tenho transmitido a glória que me tens dado, para que sejam um, como nós o somos; ²³ eu neles, e tu em mim, a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade, para que o mundo conheça que tu me enviaste e os amaste, como também amaste a mim. João 17.

2. A ponto de experimentar a plenitude do Seu amor:

¹⁸ a fim de poderdes compreender, com todos os santos, qual é a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade ¹⁹ e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus. Ef 3.

(Ironicamente escrito a Éfeso, comparar com At 2,42-47)

3. A ponto de ser imitadores de Deus como filhos amados 

¹ Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados; ² e andai em amor, como também Cristo nos amou e se entregou a si mesmo por nós, como oferta e sacrifício a Deus, em aroma suave. Ef 5.

¹ Vede que grande amor nos tem concedido o Pai, a ponto de sermos chamados filhos de Deus; e, de fato, somos filhos de Deus. Por essa razão, o mundo não nos conhece, porquanto não o conheceu a ele mesmo. ² Amados, agora, somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que haveremos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque haveremos de vê-lo como ele é. 1 João 3.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Dorcas e Cid: um arco de virtudes e mea culpa no tempo.

                                  Cid, Dorcas e o recém nascido               Cid Mauro, em 1957.

   Escrever tornou-se compulsão. Mas também, por assim dizer, escrever é uma forma de oxigênio.    E direto no sangue. 

    O que me impulsiona, bem, nem sei o que me impulsiona. Mas o pretexto deste texto é conta inteira, menos 1: 30 anos em que meu pai se foi, abrupto, em 19 de agosto de 1996.

   E 10 anos para Dorcas, que também se foi, agora em 6 de junho de 2016. O menos 1 é para mim que, por menos 1, ainda não fiz 70 anos.

  Sou o quarto parto de Dorcas. Acho que herdei uma sina, nem culpa minha, nem culpa dela, mas o único que vingou, aliás, verbo este de múltiplos sentidos.

   Em 12 de março de 1956, Dorcas completou 26 anos nesse mesmo dia que sepultava Cid Araujo de Oliveira, terceiro parto, único vivo até ali nascido. Deus foi bom para ela, o que, em termos de Deus, é rotina ser bom.

   Porque ela engravidou, a tempo de eu nascer em 6 de maio de 1957. Digo sina, porque todo mundo me apontava como o que, enfim, vingou. De novo o verbo. Múltiplos sentidos.

   Foram extraordinários. Não mimaram o menino. Um atropelamento brutal em 27 de junho de 1967, na esquina da Ernani Cardoso, em Cascadura, com a Pe Manso, pura ironia, na saída da Escola Paraná.

  Mesmo assim vitimado, Cid e Dorcas não aprisionaram o menino. Sequelado, porém de novo livre e solto. Eles acalentaram em amor essa única e máxima, para eles, dádiva de Deus.

  Ainda não fiz a terapia, mas au acho que, os arranhões nesta minha fugaz existência, até agora, não devem, com justiça, ser reputados à educação deles recebida. São de minha exclusiva autoria.

   E, ora, nessa idade, haja reflexão sobre eles. E fui pela vida a fora, sentença esta, para o meu pai, que sempre a repetia, quando me instruía, uma advertência para aquela continuidade que, hoje, nessa altura, já é estrada já quase toda percorrida.

   Já dizia Chico Buarque, desculpem a irreverência (dele), "Deus é um cara gozador, adora brincadeira", além dos pais extraordinários, deu-me esposa outro tanto de especialíssima e filhos o triplo exponencial.

   Porque Deus faz tudo por Sua graça. Graça sobre graça.  Cid provém da roça, zona rural de Itaocara, e Dorcas da (dita) periferia, Nilópolis (com muita honra), do antigo Estado do Rio. Roça e periferia indicam nível social. A herança do evangelho os enriqueceu.

   Se eu fosse melhor, muito melhor do que me fiz, teria herdado e enxergado muito mais os valores desse casal. Vejam bem, não os estou dourando mais do que se deve. Apenas dizendo que foram, para mim, matriz não somente biológica.

   Fé é cousa que se vive em simplicidade. Não combina com ostentação. Ser humano não vive sem ostentar. O mais ridículo possível é quando, ainda que sutilmente imperceptível, usa-se fé para ostentação.

   Cid me ensinou apego à Bíblia, Dorcas apego à igreja. Não que uma inversão não fosse aqui cabível.  É.  Cid tinha na igreja, como Jeremias, o profeta, a "estalagem no meio do caminho". E Dorcas preenchia rodapés e margens de textos de sua Bíblia com inúmeras anotações de repetidas leituras.

  Amavam e viviam esse livro. E havia coerência entre vida dentro e fora da igreja. E não avaliem que jogo confetes. Evidente que defeitos havia. Mas para isso há a cruz, e atrás dela se escondiam.  Melhor, com marca assumida da cruz expunham-se.

   Herdei deles apego às Escrituras e vivência na igreja, lendo delas muito menos do que eles e menos ainda coerente no meu proceder. Mas, para isso, existe e também asumi e me exponho carregando "a vergonha da cruz". E veio Regina, mais uma unanimidade de virtudes.

  Já disse e não vou repetir de novo, desfilam aqui, neste texto, seres humanos imperfeitos. Mas refiro-me a suas (deles, literalmente) virtudes e como delas fui e sou testemunha, faltoso em incorporá-las, na medida que devia, em meu viver.

   E vieram Isaac e Ana Luísa, nessa ordem. Têm a ver com Cid e Dorcas. No dia em que, por uma forma tão estúpida, por lei da física, carro e Cid se encontraram, numa colisão, em 19 de agosto de 1996, Dorcas contou que ele comentou com ela, na que foi sua última oração em vida: "Pedi a  Deus uma netinha".

   E Isaac já havia sido milagre. Cesariana em 21 de abril de 1994, à qual assisti, menino em sofrimento, oligrodamnia, imperceptivel absorção do líquido amniótico pelo organismo da gestante.

     Milagres em minha vida. Em torno dela. Pérolas de pessoas, Deus nos ama, Deus me ama e me empareda cercado, por todos os lados, de crentes virtuosos. Deus não cessa Suas tentativas para comigo. 70 - 1 = 69 anos de tentativas. Reconheço ser conversão algo muito difícil e penoso para mim.

  Demoro a entender isso. Por isso anda em (doloroso) curso. E Deus continuou a enriquecer, acrescentando Amanda e Asafe. Graça sobre graça. As contas continuam. Deus ensinando a contar o tempo: a mãe aniversaria agora, 14 de agosto, o menino em 15 de setembro.

    Na foto abaixo, Ana Luísa, Amanda com Asafe ao colo, ao lado de Regina, eu e Isaac atrás. 
      
    Deus nos ensina a contar o tempo. Alcançarmos coração sábio, ainda é mais por nossa conta.  Mas Ele está mais perto do que imaginamos como, certa vez, disse a Moisés:

²¹ "Disse mais o Senhor: Eis aqui um lugar junto a mim; e tu estarás sobre a penha." Êxodo 33.

     Mantenha-nos, Senhor junto a Ti e sobre a Rocha.

    Na foto abaixo, Cid, Dorcas e Isaac, em 1994.
      

domingo, 2 de agosto de 2026

APEC em Moçambique

 Abençoado final de domingo

Estou nos últimos preparativos para a viagem à Moçambique. 

Por favor, interceda para que, “no abrir da minha boca, me seja dada a palavra, para com ousadia tornar conhecido o mistério do evangelho” (Efésios 6.19).

Ore também pelo cuidado do Senhor em todos os deslocamentos que farei, e para que Deus, como só ELE MESMO, sabe e pode fazer, desembarace o caminho e permita que todas as Bíblias de Recursos da APEC, que estarei levando, cheguem ao seu destino sem dificuldades. 

Serão seis malas extras, com 23 quilos cada uma, contendo 62 Bíblias, além de livros que serão utilizados nas conferências que farei em Gaza e Inhambane. 

É um grande desafio, mas confiamos na fidelidade do Senhor. E que todos os frutos sejam tão somente para a glória do Eterno Deus!

Estou imensamente grato ao Senhor pela oportunidade de viajar para Moçambique, onde participarei de reuniões, encontros, palestras e pregações para pastores, obreiros, professores e crianças, em três províncias: Maputo, Gaza e Inhambane.

Pela graça e bondade de Deus, levarei as Bíblias para presentear os 49 missionários da APEC de Moçambique e os 13 missionários da APEC de Angola, que participarão da Conferência Regional da APEC da África Austral, que reunirá obreiros de doze nações desta região do continente africano.

Sairei de Guarulhos (SP) às 1h55 do dia 29 de julho. O voo fará uma escala em Doha, capital do Catar, onde chegarei às 22h15. No dia 30 de julho, à 1h, embarcarei para Maputo, com chegada prevista para as 7h55.

Na capital moçambicana ministrarei na Conferência Regional da APEC da África Austral. As mensagens abordarão os temas “Os Ataques Espirituais às Crianças” e “Chega de Abusos contra as Crianças”.

Na Província de Inhambane, estarei nas cidades de Maxixe e Mambone, ministrando conferências sobre “A Verdade de Deus e a Nova Geração – a batalha pela mente das crianças numa sociedade decadente”.

Na Província de Gaza, estarei com *imensa alegria em Macia*, Distrito de Bilene, falando sobre “Excelência no Cuidado com Crianças – Orientações Bíblicas para quem forma crianças dentro e fora da sala de aula”. *Essa alegria tem uma razão especial*: foi em Macia que, em 2007, a APEC do Brasil realizou o primeiro Instituto de Liderança em solo africano, em língua portuguesa, formando 16 alunos — 11 moçambicanos e 5 angolanos —, muitos dos quais hoje servem como missionários e líderes da APEC. Nesta ocasião estive mais de três meses nesta localidade e dirigia este Instituto.

Obrigado por suas orações e apoio, tão fundamental, para que estes alvos sejam alcançados! 

Há uma frase do Samuel Grandjean, que já ministrou no Congresso Nacional da APEC e que tem 4 (quatro) livros publicados pela APEC, que é inspiradora: *"Somos os espectadores maravilhados das intervenções do Senhor"*

Que assim seja, e que as crianças africanas conheçam e recebam a Cristo Jesus como Seu Senhor e Salvador!

Gilberto Celeti

De volta a Macia, Moçambique. 🇲🇿

Há 19 anos, em 2007, Deus nos permitiu realizar aqui o primeiro *Instituto de Liderança em língua portuguesa na África*. Voltar a este lugar é recordar a fidelidade do Senhor.

Também pude revisitar o poço onde tantas mulheres e crianças ouviram o Evangelho e entregaram suas vidas a Cristo. Hoje ele está desativado, mas a obra de Deus continua viva.

Macia cresceu muito, porém as necessidades espirituais cresceram ainda mais.

Infelizmente, a Conferência Teológica que aconteceria hoje foi impedida pelas autoridades locais. Mais de 100 líderes já estavam reunidos. Se Deus permitir, retornaremos no dia 12 de agosto.

🙏 Peço que orem por Moçambique. O país ocupa a *37ª posição* entre os países onde os cristãos enfrentam maior perseguição.

Uma alegria especial desta viagem foi reencontrar o casal que hoje lidera a APEC na Província de Gaza. Eles se conheceram durante o ministério realizado aqui em 2007. Ver os frutos permanecerem é um presente de Deus.

Muito obrigado por caminhar conosco em oração!

#Moçambique #Missões #Evangelismo #OrePorMoçambique

quinta-feira, 23 de julho de 2026

(Pre)posição em Cristo

 A Bíblia apresenta diversos textos que indicam a nossa identidade. Há também aqueles que o fazem indiretamente. Porque, decisivamente, as Escrituras são o texto que nos coloca dentro delas.

   Aos Efésios há, em 2,11-22, um desses textos de afirmação direta. Inicia com "lembrai-vos". Signfica lembrar do que éramos antes, para reconhecer o que somos agora.

   Não será, talvez, ameno lembrar. Mas é necessário. E se trata da feição bíblica. Isso quer dizer que nem sempre se valoriza, ou se desconhece, ou nem importa.

   Mas começa com 5 indicações do que foi o passado, quer dizer, antes de Cristo, como segue abaixo:

¹¹ "Portanto, lembrai-vos de que, outrora, vós, gentios na carne, chamados incircuncisão por aqueles que se intitulam circuncisos, na carne, por mãos humanas, ¹² naquele tempo, estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança e sem Deus no mundo". Efésios 2.

   Podemos descrever a condição nova, em Cristo, por indicação inversa do que foi exposto.  Estar sem Cristo foi substituído por estar em Cristo. Não se trata, apenas, de uma sutil substituição de preposições.

    Mas do milagre do batismo em Cristo. Isso mesmo, essa é a palavra. Com Deus e por Deus somente milagre. E este primeiro é que o Espírito Santo nos una a Jesus, na morte e ressurreição dEle (Jesus), para firmar nossa comunhão em Cristo (atente bem nesta preposição).

    Antes separados da comunidade, agora o lugar da comunhão é em (de novo a preposição do milagre) comunidade. Porque a conversão a Cristo, o batismo em Cristo nos torna igreja. Esta é o corpo de Cristo. Signfica dizer comunhão (de novo, observe as preposições) por, com e em Cristo, com Ele, com o Pai, pelo Espírito, e com os demais crentes em Cristo.

    E de estranhos, passamos a ter identidade. Porque passamos a constar como personagens do Livro. As "alianças da promessa" estão elencadas e notificadas na Bíblia.  Éramos estranhos, desconhecendo o que constava nessas Escrituras. Agora inteirados, partícipes pela fé, tornamo-nos o povo do Livro.

    Desesperados. Quem somente acalenta a perspectiva da morte, pode até tentar disfarçar, mas não tem acalanto e, sim, desespero.  Raízes de nossa esperança residem na Pessoa de Jesus. Ele é o lugar, por meio de Sua cruz, de nossa salvação.  Jesus, Autor e Consumador de nossa fé, é a nossa garantia, raiz de nossa esperança, âncora de nossa alma.

¹⁸ "...para que, mediante duas coisas imutáveis, nas quais é impossível que Deus minta, forte alento tenhamos nós que já corremos para o refúgio, a fim de lançar mão da esperança proposta; ¹⁹ a qual temos por âncora da alma, segura e firme e que penetra além do véu, ²⁰ onde Jesus, como precursor, entrou por nós, tendo-se tornado sumo sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque." Hebreus 6.

    E com Deus no mundo. A situação de desespero configura-se somente, pelo detalhe (e que detalhe!) de se pensar na expressão "sem Deus no mundo". Como, se "No princípio criou Deus os céus e a terra"? Como, absoluto absurdo, estar "sem Deus no mundo".

   Deus dentro.  Trata-se de invocar o nome do Senhor: ¹³ "Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo." Romanos 10. Mas é (tristemente) natural, no ser humano, rejeitar Deus. No mundo, rejeitando Deus.  Extremo desespero. 

   Mas o que segue, aos Efésios, 2,13-22 expressa com detalhes o que muda tal situação. É necessário, a toda hora, retomar essa memória. E todo o compromisso que ela representa.  Afinal, ser (autêntico) cristão, que natureza, alcance e profundidade de compromisso representa?

    E é essa a oração de Paulo para que compreendamos:

¹⁴ "Por esta causa, me ponho de joelhos diante do Pai [...] ¹⁸ a fim de poderdes compreender, com todos os santos, qual é a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade ¹⁹ e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus." Efésios 3.

sábado, 18 de julho de 2026

O Salmo da alegria - Salmo 1 - Parte 1

 Um Salmo da alegria.  Dizia-se que Aristóteles, filósofo e preceptor privado de Alexandre, o Grande, da Macedônia, a partir de 343 a. C., que espalhou pelo mundo a cultura grega, provocando a primeira globalização da história, conhecida como helenismo, esse filósofo afirmava que o objetivo da filosofia é a felicidade.

   Embora não fosse exatamente essa a afirmação desse filósofo, a filosofia referia a vida humana, ponderando suas escolhas e ações, visando precipuamente a felicidade. Duas correntes filosóficas, epicurismo e o estoicismo, com ênfases diferentes em sua abordagem, são decorrentes dessa ideia de escolhas e posturas, diante da vida, visando o bem-estar e a felicidade.

    O Salmo 1 menciona exatamente atitudes de escolhas acertadas que produzem felicidade. O homem (ou mulher) postos em evidência neste Salmo fazem escolhas certas. Estão diante do que a vida externa, no contexto social das influências, pode oferecer.  Então é posta, diante deles uma opção que orienta a correta seleção do que é bom e confere toda a alegria.

   Começa com uma expressão que, no hebraico, pode ser traduzida como um título: "Toda a alegria do homem (ou da mulher)". E, com a continuidade do texto, vem então: "Toda a felicidade ou alegria do homem/mulher está em que ou é que ou quando", e vem então a exposição do que o Salmo adverte.

   Pode ser considerado um Salmo de Sabedoria, em função de sua personalidade de prescrição, anônimo e muito provavelmente posto ou até mesmo composto para figurar neste início do Saltério, como advertência a que a todo o conjunto dos Salmos fosse concedida sua real importância.

   Seguem-se três "nãos". A escolha correta para a alegria plena reside em não admitir três círculos de influência negativa, que corrompe, sendo necessário a quem acolher para si mesmo este conselho, não permitir que, gradualmente, caminhe para o desvio danoso dessa escola do mal.

     Mesmo em português, percebe-se claramente que os verbos "andar", deter-se" e "assentar-se" implica uma progressão fatal, no caso da denúncia deste Salmo. E três são os círculos de influência, caracterizados por seus membros que, tanto quanto o leitor, transitam pelo mesmo circuito social. Convivem, ao certo, mutuamente atraem-se ou se repelem em sua convivência.

   Esses círculos de influência podem ser ampliados não somente pensando-se nos representantes indicados no Salmo, mas nas influências reinantes, seja no tecido social, como um todo, seja atualmente no poder das mídias digitais ou como prioridades consensuais, porém iníquas reinantes neste século. O salmista vai indicar um contraponto a essas opções.

   As denúncias se referem a 1. "não andar no conselho de ímpios", 2. "não se deter no caminho de pecadores", 3. "não se assentar na roda de escarnecedores". São três modalidades de pessoas que optam, acolhem e praticam o que é danoso, por isso são assim classificadas, e sua influência ou filosofia de vida produzem uma escola de atitudes as quais, caso não sejam evitadas sua aderência e companhia, fatalmente haverá gradação de sua influência.

   Qual seria o antídoto? O salmista vai indicar. 

sexta-feira, 17 de julho de 2026

De novo os Salmos

  Os Salmos, nas Escrituras, são de autores que falam com Deus ou falam a respeito de Deus. Podemos ler e reler, porque sempre será preservado, ao mesmo tempo que renovado o seu sentido.

    Deus se revela nesses textos. Porque o que conduziu esses homens (e mulheres) a escrever foi o Espírito, que é o único a conhecer o íntimo de Deus.  Os Salmos não dizem tudo, mas dizem muito.

   Aliás, todas as Escrituras falam muito a respeito de Deus.  Mas não dizem tudo a respeito de Deus. E podemos dizer que um dos seus valores são exatamente as inferências sobre Deus.

   Pois os Salmos são exclusivos em suas falas, exatamente por expor Deus em suas linhas poéticas. Poesia tem três elementos em sua composição.

   O significado, o ritmo e a imagem poética compõem, segundo o poeta Ezra Pound, a estrurura de composição do poema. Tecnicamente são, respectivamente, a logopeia, melopeia e fanopeia.

   Significado é aquele expresso em hebraico, a língua original dos Salmos, que chega a nós por muito competentes traduções. O ritmo é aquele da poesia hebraica, à parte da rima, tão íntima do nosso modelo.

   A poesia hebraica lança mão de outros recursos para marcar esse ritmo poético da linguagem como, por exemplo, o paralelismo. E a imagem poética, esta bem típica e associada à cultura da época e contexto social daquele povo.

    Por isso a leitura repetida dos Salmos, tão costumeira e devocionalmente praticada, tem tremendo poder de renovar e recontextualizar sua mensagem. Inclusive há Salmos mais fáceis e frequentemente lidos e entendidos.

   Também outros, às vezes mais extensos, ou de conteúdo mais complicado de ser entendido, outros até mais dramáticos. Porém todos se referem a Deus.

   Há variados gêneros literários, como se fosse a personalidade de cada Salmo. Por exemplo, os que são flagrantemente orações, outros são confissões, alguns históricos, outros régios, há os messiânicos e até os imprecatórios, assim como os mais amenos, de louvor.

    Há subgêneros também, ou aqueles mesclados, reunindo características de dois gêneros diferentes.  A leitura deles muitas vezes coincide com a necessidade específica do leitor.

   Por isso eles são francamente procurados. Talvez seja o Saltério, em meio à coleção de todos os demais livros da Bíblia, aquele mais popular e procurado por razões as mais variadas.

   Esta a razão por que dialogam com o leitor. Qualquer comentário sobre eles muito enriquece a experiência em ler. E devido ao estilo poético, sugerem sobre Deus dimensões de intimidade, acolhimento e consolo.  Vamos a sua leitura. 

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Aprendendo com o sofrimento

 Os pais que mais aprenderam. Talvez a lição, assim de chofre, de impacto, sem pedir licença para se impor, é que a realidade é assim.

   Tem data, início, meio e fim, tem cronômetro, enfim, tem história e narrativa. Tem memória. E tem marcas. Mas são marcas ao inverso. Isso também é inesperado.

   Mas previsível. A fé é sempre previsível.  E para ela, não há impossíveis.  Porque por detrás da fé, está Deus. Sem fé, é impossível agradar a Deus. Alguém diria, por que agradar a Deus, se e quando, ainda que a realidade me golpeia?

   Haverá duas realidades, uma da fé e outra, nua e crua, factível, documental? Como sobrepor a realidade da fé a essa? Ora, Deus está distante, longe, invisível, insensível, enfim, alheio.

   Mas a fé ensina que Deus encarnou. E sofreu. Sofreu na sua própria carne, assim como sofreu (e sofre) quando sofremos. Viu então, Deus, meu sofrimento?

   Deus também sofreu pelo Filho. Quando mataram o Filho de Deus.  E a intenção da morte do Filho frequenta meu pecado. E o de cada um. A opção pela condição humana sofrida foi de nossos pais.

   Porque nos ensinaram a fazer a escolha errada. Como num combo, ninguém nos disse que a escolha pelo pecado traria, com ela, o sofrimento.  Fomos enganados.

    Sofrimento que atingiu até o Filho de Deus. Que podia decidir o que não podemos. O Filho sofreu o sofrimento dEle e o nosso. E pôde escolher sofrer por nós, para que nunca mais sofrêssemos.

   O Filho veio para esta vida em que estamos. Sofreu o sofrimento que sofremos. Viveu plenamente esta vida, assumindo o que não era Seu, o quê, o nosso pecado. É um combo.

   Com ele vem a morte. Que começa ainda em vida. O sofrimento é o gosto antecipado da morte. Mas Jesus é vida. A morte não vence. O gosto de Jesus é esse de todas as promessas decorrentes da fé e por fé. 

    O agrado por Deus se resgata na fé e por fé. Agrada crer. Alegra crer. Consola crer. O Consolador está ainda mais perto. O Consolador está dentro.  O Consolador está mais perto do que todo e qualquer sofrimento.

Achar graça diante de Deus

 ⁸ "Porém Noé achou graça diante do Senhor." Gn 6.

³⁷ "Pois assim como foi nos dias de Noé, também será a vinda do Filho do Homem." Mateus 24.

   Se fosse manchete do que, antes, chamava-se jornal, seria sensasionalista. Mais ou menos deste jeito: JESUS DECLARA-SE PESSIMISTA QUANTO AO FINAL DOS TEMPOS.

   Com o seguinte subtítulo: "Para os que acreditam no 'fim dos tempos', Jesus é um pessimista: previne que, como nos dias de Noé, vai de mal a pior".

   Porque a tendência é focar no destaque negativo. Ou reforçar, com cores ainda mais sombrias, as situações alarmantes. 

   Inegável que Jesus faz uma advertência. E destaca, ainda que não se contentem com isso somente, mas que a maldade humana cresce exponencialmente.

   Supondo-se, por uma espécie de redução ao absurdo, de que Deus (e nem Jesus) existam, como realidade factual, realmente, para atestar que a maldade humana se multiplica, será impossível negar.

   A época de Noé coincide com a narrativa bíblica do dilúvio. O bom senso deste século, pós-moderno, iluminista, era das luzes da razão, desmistificam e negam a história da arca.

   Mas os relatos nomeados científicos, por seu lado, atestam várias eras antigas na formação do planeta, nas quais sucedem invernos brutais, enchentes inomináveis, choques de asteroides, enfim, não seria de todo prudente negar o dilúvio.

  Nem descartar que a arca, ainda que não literal, repreenta um escape que preservou a humanidade daqueles dias. Mas o que menos atrai a percepção é a declaração de que Noé achou graça diante de Deus.

    A história do dilúvio não existe para demonstrar o sadismo divino em destruir a humanidade inteira afogada.  Nem precisa existir Deus:  a humanidade vai dar conta de si mesma por si própria.

    Mas encontrar graça diante de Deus é encontrar a cura para a multiplicação da maldade.  Esta se confirma como a principal característica da condição humana.

   Não se acredite no dilúvio, ou nem em Noé, nem em Deus. Mas a maldade humana é insofismável. A história do dilúvio é a da depressão de Deus.

⁵ "Viu o Senhor que a maldade do homem se havia multiplicado na terra e que era continuamente mau todo desígnio do seu coração; ⁶ então, se arrependeu o Senhor de ter feito o homem na terra, e isso lhe pesou no coração." Gênesis 6.

   Impossível negar a maldade humana.  Imprescindível achar graça diante de Deus. Essa é a maior oferta. Porque  a humanidade, na pós-modernidade nuclear, pode ser inundada por fogo. E Deus nada terá a ver com isso. 

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Expectativas tipo José

 ² "O Senhor era com José, que veio a ser homem próspero; e estava na casa de seu senhor egípcio." Gênesis 39.

   Lemos no Gênesis, todo o tempo, que "o Senhor era com José".  Não seria o caso de, como foi com os irmãos, acusar ser privilégio só dele, como paparicava Jacó.

   Não.  Pelo que as Escrituras definem, é vocação de Deus ser com todos. Porque, por e para amor, deu seu Filho unigênito, como afirma João:

¹⁶ "Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna." Jo 3.

   E como diz Paulo, este sim um outro apóstolo, se quem, como Deus, concede o Filho, como não daria, junto com Ele, tudo o mais?

³² "Aquele que não poupou o seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura, não nos dará graciosamente com ele todas as coisas?" Romanos 8.

    E mais, se fosse impossível ser, mas não é, Deus busca comunhão conosco como a tem com o Filho. Isso Jesus afirma na oração registrada em Jo 17:

²¹ "...a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste."

    Compete a nós ser como José. Porque a disposição de Deus em ser tão íntimo, requer contrapartida. José foi, desde muito cedo, fiel a sua fé, constituindo-se modelo.

     Evidente que Deus já o adestrava para desempenhar o ministério que tinha a desempenhar. Mas para Deus e com Ele todos têm ministério a desempenhar.

   José, chamado pelos irmãos sonhador, reunia em si o que competia a Deus realizar, como por exemplo, os sonhos que teve, mas também reunia aspectos de sua personalidade também trabalhados por Deus nele mesmo.

⁶ "Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus." Filipenses 1.

   Exemplo disso era que, mesmo paparicado por Jacó, que amava Raquel (que costumava roubar os ídolos de seu pai) e não Lia, de quem, por Judá, diretamente descende Jesus, ele não ensoberbeceu-se por isso.

   Bastava a preferência incômoda e flagrante do pai, que despertava inveja e aversão entre os demais irmãos, mas José mantinha postura imparcial. Embora sua ética, ao transmitir ao pai os deslizes dos irmãos, mais aprofundasse o ódio deles e acentuasse sua conduta padrão.

   Jogaram-no numa cova, venderam-no como escravo, embora a intenção fosse matar, José conquistou a confiança de Potifar, foi assediado pela mulher dele, foi encarcerado, conquistou a confiança do carcereiro.

³ "Vendo Potifar que o Senhor era com ele e que tudo o que ele fazia o Senhor prosperava em suas mãos, ⁴ logrou José mercê perante ele, a quem servia; e ele o pôs por mordomo de sua casa e lhe passou às mãos tudo o que tinha." Gênesis 39:3,4.

⁵ "E, desde que o fizera mordomo de sua casa e sobre tudo o que tinha, o Senhor abençoou a casa do egípcio por amor de José; a bênção do Senhor estava sobre tudo o que tinha, tanto em casa como no campo." Gênesis 39:5.

²¹ "O Senhor, porém, era com José, e lhe foi benigno, e lhe deu mercê perante o carcereiro;
²² o qual confiou às mãos de José todos os presos que estavam no cárcere; e ele fazia tudo quanto se devia fazer ali. ²³ E nenhum cuidado tinha o carcereiro de todas as coisas que estavam nas mãos de José, porquanto o Senhor era com ele, e tudo o que ele fazia o Senhor prosperava." Gênesis 39.

   José permanece impassível. Fosse na cova ou, desde a cova, fosse ma casa do comandante das guarnições egípcias, fosse no cárcere e ainda onde, adiante, sempre adiante José vai alcançar.

   Porque no que punha sua mão, o Senhor fazia prosperar. Podemos imaginá-lo inteligente, sim, assim como espiritual, em suas prioridades diante do Senhor.  Obediente, certamente, é vitorioso na batalha íntima contra seu próprio ego.

   Por isso que, no ponto máximo, ao desvendar o sonho, na verdade, o pesadelo de Faraó, assim mesmo testificando não haver em si nenhum mérito, o soberano do Egito enxergou que nele agia, com liberdade, o Espírito do Senhor.

¹⁵ "Este lhe disse: Tive um sonho, e não há quem o interprete. Ouvi dizer, porém, a teu respeito que, quando ouves um sonho, podes interpretá-lo. ¹⁶ Respondeu-lhe José: Não está isso em mim; mas Deus dará resposta favorável a Faraó." Gênesis 41.

³⁷ "O conselho [de José] foi agradável a Faraó e a todos os seus oficiais. ³⁸ Disse Faraó aos seus oficiais: Acharíamos, porventura, homem como este, em quem há o Espírito de Deus?" Gênesis 41.

   Basta ser como José. Difícil ser como José. Possível ser como José. Deus é sempre com cada um que crê. Porém, com quem tipifica José, seguindo-lhe o exemplo, tem expectativas muito maiores.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Vergonha autêntica

 ¹³ "Saiamos, pois, a ele, fora do arraial, levando o seu vitupério." Hebreus 13.

    Aí reside o problema. Em que proporção esse vitupério, essa vergonha ou afronta? Assumir-se cristão, mas em que sentido?

  Pulverizou-se o significado de se afirmar cristão, ou crente, evangélico, protestante, "os Bíblia", no meu tempo de criança.

   A cruz é uma afronta. Uma das razões alegadas por judeus para não reconhecer Jesus como Messias consta nas Escrituras:

²³ "...porquanto o que for pendurado no madeiro é maldito de Deus". Deuteronômio 21.

   Ora, mas isso Paulo afirma aos Gálatas, que o crucificado Jesus se fez maldito, porém para que a maldição que carregamos, fosse nEle exaurida, e a santidade dEle a nós fosse atribuída, com e por justiça.

¹³ "Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar (porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado em madeiro), ¹⁴ para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios, em Jesus Cristo, a fim de que recebêssemos, pela fé, o Espírito prometido." Gl 3.

    Esse sentido da cruz é o original. Para se associar a ele, isto é, ver-se incluído nessa troca de maldição por bênção, ou seja, herança individual trazida do berço trocada pela santidade imputada pelo sacrifício do Filho,  é necessário assumir-se o combo.

   Com tudo que inclui, ser tido por ridículo, em acreditar nessas coisas, ou assumir-se marcado por pecado, ou ainda discriminado por autodeclarar-se cristão. Porque ser cristão traz uma enorme carga de vergonha assumida, mas somente de um tipo original.

   Que é a constatação da realidade do pecado no viver. E este representa a condição de que algo muito ruim, que sempre pôde ser evitado, ocupou a parcela completa do ser e do viver.

   Na conversa com Caim, Deus lhe revela a natureza do mal.  Pelo menos, três conceitos fundamentais referentes a esse  mal estão assim definidos:

⁷ "Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo."  Gênesis 4.

   1. O pecado (sub)jaz, como numa emboscada, dentro e pronto a nos subverter; 2. O desejo do pecado não é aprovado por Deus e é homicida (contra Deus, contra o portador e contra o interlocutor); 3. Somos responsáveis por dominar, evidentemente, se e quando recorremos a Deus.

    Deus revela o pecado. O arrependimento provém de Deus, por uma tristeza que, diante do pecado, somente Deus possui.  E tudo isso pela bondade de Deus, que conduz ao arrependimento a quem ama. E Deus a todos ama.

     ¹⁰ "Porque a tristeza segundo Deus produz arrependimento para a salvação, que a ninguém traz pesar; mas a tristeza do mundo produz morte." 2 Coríntios 7.

⁴ "Ou desprezas a riqueza da sua bondade, e tolerância, e longanimidade, ignorando que a bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento?" Romanos 2.

    Assuma a tua vergonha. A original. Enxerga o teu pecado pela tristeza de Deus. Arrepende-te. Saia, fora da porta, ao encontro do crucificado. E carregue contigo, pelo restante de tua existência e pelo viés autêntico, a vergonha do evangelho.

¹⁶ "Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego; ¹⁷ visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá por fé." Romanos 1.

   E, uma vez sendo autêntico, nunca te envergonhes de admitir.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

O saber do Filho do carpinteiro

 ⁸ "O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai". Jo 3.

  Muito não se sabe, tornando-se deveras problemático para os viventes. Imagine, em plena vigência do "século da luzes", dizer a alguém: "Não sabes".

   Jesus, de quando em vez, usava essa expressão. Como na única parábola que somente Marcos registra:

²⁶ "Disse ainda: O reino de Deus é assim como se um homem lançasse a semente à terra; ²⁷ depois, dormisse e se levantasse, de noite e de dia, e a semente germinasse e crescesse, não sabendo ele como." Mc 4.

     Você não sabe. Num século onde há requintes por se inventariar tudo o que se conhece, sob regras rígidas, em forma infinitamente digital, dizer "não sabe" passa por pura provocação.

    Talvez seja Jesus que não sabe. Porque o filho de um carpinteiro, sem formação acadêmica, seria convictamente desmerecido. E quanto à natureza do que se sabe?

   Especialista nos dois assuntos, numa das falas Jesus se refere ao Espírito Santo que, como o vento, não se entende o mover. Na outra fala, floresce  imperceptível o reino de Deus, como brota na terra uma semente.

        O que dizer, diante do ceticismo deste século, sobre a relevância desses dois assuntos? Vivemos, desde o século XVIII, os efeitos do Iluminismo. É a idade da razão.

   Para o século atual, nenhuma relevância. E o método científico dominante. Ninguém deseja se sentir ridículo, acolhendo como plausível o que escapa aos parâmetros do século.

    Daí a irrelevância da temática abordada pelo Filho do carpinteiro. Ainda porque o que provém desse viés argumentativo cheira a cristianismo, religião depreciada ao máximo, no rol das demais, pelo alegado compromisso dela com o colonizador.

   ¹ "O saber ensoberbece, mas o amor edifica. ² Se alguém julga saber alguma coisa, com efeito, não aprendeu ainda como convém saber." 1 Co 8.

    Essa afirmtiva acima pertence a Paulo. No que depende do Filho do carpinteiro, não será o saber, nem por sua quantidade, seja por sua celebridade, ou qual critério for. Ele pretende entender de amor.

     Paulo, a Timóteo, mais uma vez se supera, ao classificar que modalidade está reservada a quem escapa do essencial, quando o assunto beira, de perto, o que interessa a Jesus:

⁶ "Desviando-se algumas pessoas destas coisas, perderam-se em loquacidade frívola, ⁷ pretendendo passar por mestres da lei, não compreendendo, todavia, nem o que dizem, nem os assuntos sobre os quais fazem ousadas asseverações." 1 Tm 1.

   Eu acho o máximo as expressões "loquacidade frívola" e ironia requintada dizer "ousadas asseverações". Para Paulo, na mesma linha de raciocínio do Filho do carpinteiro, falar do que não se sabe é pura loquacidade frívola.

    E o saber não tornou melhor a humanidade. Talvez seja essa uma missão para o amor. E Talvez seja esse o saber no qual o Filho do carpinteiro se exercita. Porque o saber ensoberbece. O amor edifica.
   
     Não sabes. Jesus causou de afirmar. Não se sabe como o reino de Deus floresce. E também não de onde vem e nem para onde vai o Espírito. 

Frutificando na Melhor Idade

     

    Escrevo sobre Neli por absoluta gratidão a Deus por sua vida e de seu esposo. Gerson Coelho conheci ainda em Cascadura, pelos idos de 1966, quando os três irmãos, ele, Josias e Sérgio cerravam fileiras entre o grupo daquela geração. O pai deles, Clauderval, e a mãe, Madalena, nos davam carona, de Cascadura a Ricardo de Albuquerque, onde residiam, todos os domingos que eu e Dorcas, minha mãe, esticávamos para o almoço em Nilópolis, a famosa e charmosa casa da avó.

    Neli e Gerson foram fundamentalmente importantes em meu início de ministério, na Congregacional de Curicica, em 1982. Eu ainda não era ordenado, somente o fui a partir de 2 de janeiro de 1983. Mas eles já me conduziam, no heróico e desbravador Fiat 147 de Gerson, por carona, da Magalhães Couto, no Meier, via serra da Grajaú-Jacarepaguá, até a Estrada do Guerenguê, em Curicica.

    Somente juntos na eternidade vamos relembrar os assuntos dessas viagens. Mas o substrato que ficou, decorrente dessa parceria, fundamentava, camada por camada minha hesitante vocação. Gerson conduzia-nos por todos os escaninhos de Jacarepaguá, a partir do Largo da Taquara, para visitar pessoas. Fosse na Colônia Juliano Moreira, na Buiuna, enfim, cantos que se perderam nos recantos de minha memória.

    Curicica foi herança que Cascadura herdou, quando ninguém mais acreditava que fosse à frente. Exceto Gerson e Neli, com mais uns 10 irmãos. Pastor Maurillo Moreira delegou a eles o desafio. Esse casal sempre foi fagulha. Com eles, nunca deixou de haver braseiro. Convidaram-me, Gerson e Valdemir, em nome do grupo, para segui-los lá em Curicica. Eu fiz como Saul, escondendo-me, tentativa vã. Gerson e Valdemir me acharam, sentado no antigo coral de Cascadura, que ficava por detrás do púlpito do pastor.

    Curicica foi uma escola, por causa do traço de personalidade daqueles notáveis, como diz o salmista. Com essa gente, Gerson e Neli ombreavam. Há pouco tempo ela me falou da visita que fez a um desses, Diac. Pedro Regis, quase centenário, lá por Duque de Caxias, no Rio. O Fiat 147 era incansável no rastro desses operários do reino. Aliás, onde não ia Gerson, mesmo quando ainda tinha o Fusca 1200, antes desse moderno 147? Conheci também.

    Certa vez foram, ele contava, à inauguração da Transamazônica, isso mesmo, conduzindo junto com a família, Gielson criança, o velho Cabral, pai de Neli. Por todas e por muitas estradas. Muita gente recebeu os efeitos dos benefícios desse casal. Envolveram-se com Missões. Cascadura, desde 1972, tornou-se uma igreja missionária. Promovia ofertas de maio e julho, lanches missionários, até um hino autoral havia: "Ó, missionários, ide, marchai! Atendei à ordem do Senhor/Jesus Cristo salva, proclamai corajosos, firmes, sem temor./Missionários Cascadurenses, nosso lema consiste em servir./Propalemos que somos crentes, na esperança do eterno porvir."

    Isso contagiou a todos. E teve continuidade na disposição desse casal. Certa vez brigamos. Quer dizer, houve um conflito de ideias. Em 1986, numa viagem a Campo Grande, MS, Gercino, mais um desses heróis de fé, e eu espiamos aquela capital e, por providência de Deus, nessa primeira viagem, adquirimos o imóvel onde hoje está a Igreja Evangélica Congregacional de Campo Grande, no bairro Copavila II.

    Curicica, Cascadura, Piedade, na época filiada à denominação, e Vicente de Carvalho, hoje responsável por esse campo, juntaram-se para adquirir o imóvel e sustentar o misionário que se sentisse desafiado a ir. Eu sugeri um casal de Curicica, o melhor deles, Valdemir e Elzair. Neli discordou. Ora, Cid Mauro, como você quer enviar nossos melhores obreiros para Campo Grande? Eu contra-argumentei, ora, irmã, temos de enviar os melhores. Ela replicou, mas aqui há poucos. Eu contra-repliquei: mas lá não há ninguém.

    Ela então deu xeque-mate: Por que, então, não vai você? Viemos. Todos nós viemos. Neli e Gerson vieram sempre e vieram primeiro. Quem vem para Missões, desde Paulo, membro em Antioquia, vem primeiro. E ele era entre os melhores. Porque anos depois, não para Campo Grande, a 1500 km do Rio, mas para Rio Branco, 2700 km depois, viemos eu e minha família. E por ironia, veio Gielson também, filho único deles. E Neli e Gerson nunca descansaram de missões, nunca se cansaram de missões, enquanto estiveram entre nós. Por isso ela descansa, agora, aqui no Acre, neste chão, de percorrer tantos outros motivando gente a ser missionária.

    Por terminar, certo dia preguei na igreja onde filho, nora e netos dela congregam. Cheguei, deparei a cuidadora, ainda com a farda verde do hospital, e Neli descendo do veículo que as conduzia. Neli, nessa fase, intermitentemente necessitando ser hospitalizada, estava ansiosa lá na internação: ora, haveria de perder o culto na igreja. Então a médica, embora desconhecesse a causa dessa aflição, alegrou Neli com o diagnóstico, a melhora dela permitiria a alta, para ir para casa, é lógico.

    Qual não foi a surpresa da médica: não, vou para a igreja. Leve-me para a igreja. Eu assisti à cena da cuidadora transmitindo umas recomendações de praxe, no estacionamento da igreja. Então fiquei entendendo que ali, naquele momento, Neli vinha direto do hospital para a igreja. Desde 1966 conheço Gerson e os pais dele. Inesquecível o sorriso de Madalena, mãe dele. Refletia a mansidão dela. Neli, na época de Curicica, me levou a Mato Alto, mais de uma vez, para visitar os Cabral, pai e mãe dela. Conduzia-me a visitar os irmãos dela, e muito mais gente, para trazer todos para a igreja.

    Toda essa gente privilegiava estar na igreja. Minha mãe também era assim. O último domingo dela, meu último telefonema a Dorcas, foi por teimosia. Eu liguei, daqui do Acre, para dizer que não fosse, naquele domingo, à igreja, não, que não estava bem, que era melhor repousar. Ela disse, na igreja há quem cuide de mim. E foi a última vez que ela esteve na igreja, naquele domingo. Essa gente valoriza igreja. Parece que essa geração que valoriza igreja está indo embora.

    Muito mais há para falar desse casal. Eu poderia lembrar outras cenas, como essa da estrada, na foto acima. Mas fica marcada a gratidão a Deus pelo exemplo que deixam. E pela exortação que perdura: não desprezem igreja e sejam plenamente missionários.