quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Uma questão de competência

 ¹ "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus." João 1.

   João está no início de seu Evangelho. Começa alto, de onde antes nenhum outro evangelista pretendeu. E faz uma concessão à filosofia.

   Logos, no grego, traduzido Verbo, no vernáculo, para a filosofia antiga seria hoje equivalente a "design inteligente".

   Porque pressupõe-se, a partir da complexa configuração do universo, seja tanto macro, quanto microscopicamente, uma organização não aleatória.

    Daí João admitir, logo de início, em seu Evangelho, acolher a máxima filosófica de seu tempo, pois assim já propunha diálogo com seus ouvintes, assim como introduzia sua argumentação.

   Mas também logo João se afasta da filosofia.  Porque sua afirmação seguinte introduz uma polêmica que seria notória, em sua época, por introduzir (um) Deus. Então João, aqui, assemelha-se a Paulo, em Atenas.

   E afirmar que o Logos estava com Ele. Mas, como assim, estar? Pertencia, de antemão? Possuía-o? Era seu (de Deus) conselheiro, como o foi a sabedoria, na mentalidade do sábio, em Provérbios 8?

    Para logo então João cancelar a ideia de (um) Logos. Deus é Logos. Não existe Logos, existe tão somente Deus. Aqui João assume o que afirma Paulo em 2 Coríntios, ou seja, "conduzir cativo todo o pensamento à obediência de Cristo".

   Aqui a filosofia fica para trás, dando lugar ao específico da revelação, que vem por meio das Escrituras.  Não que a filosofia seja, de todo, nula. Não é, pois assim como ensina, também aprende.

   E o mesmo pode-se dizer da ciência. Esta tanto ensina, quanto aprende. O que tem a ciência a dizer sobre o ponto fundamental da fé? Vejamos o que diz Paulo:

¹³ E, se não há ressurreição de mortos, então, Cristo não ressuscitou. ¹⁴ E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã, a vossa fé". 1 Coríntios 15.

   O que tem a ciência a dizer sobre ressurreição? Ressurreição, por definição, é um milagre. Milagres pertencem, tão somente, ao âmbito de Deus. Somente Deus realiza milagres.

   E Deus autentificou o Filho concedendo-lHe que, em nome do Pai, realizasse milagres. Senão, vejamos:

²² "Varões israelitas, atendei a estas palavras: Jesus, o Nazareno, varão aprovado por Deus diante de vós com milagres, prodígios e sinais, os quais o próprio Deus realizou por intermédio dele entre vós, como vós mesmos sabeis, ²³ sendo este entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos; ²⁴ ao qual, porém, Deus ressuscitou, rompendo os grilhões da morte; porquanto não era possível fosse ele retido por ela." Atos 2.

   Esta longa citação acima a um só tempo afirma que os milagres realizados por Jesus autenticaram-no, como também afirma ter Deus ressuscitado o Filho.

   As Escrituras não são nem contra a filosofia, nem contra a ciência. Apenas é recomendável não sair, nenhuma das duas, do seu óbvio limite conceitual. 

     E que deixem com as Escrituras seus cacoetes, quais sejam, o que nem filosofia, nem ciência alcançam, por ser por demais sublime e inteiramente fora de sua (delas) competência. 

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