sexta-feira, 24 de abril de 2026

O altar e as expectativas

 ⁷ "Apareceu o Senhor a Abrão e lhe disse: Darei à tua descendência esta terra. Ali edificou Abrão um altar ao Senhor, que lhe aparecera." Gênesis 12.

    O que se espera quando se ergue um altar? Pelo menos, há  duas expectativas: a de quem ergue o altar e aquela de a quem se ergue o altar.

   Abrão ergueu o altar ao Deus que lhe aparecera. Ainda prevalecem expectativas. Deus tem uma intenção, com relação a Abrão, assim como com relação a nós e a cada um.

   A experiência de Agar foi deparar Deus, para o qual estava muito distraída. Talvez porque sua ansiedade era muito grande. Mas Deus desde antes não a havia abandonado.

¹³ "Então, ela invocou o nome do Senhor, que lhe falava: Tu és Deus que vê; pois disse ela: Não olhei eu neste lugar para aquele que me vê?" Gênesis 16.

   Deus sempre vê, sempre está junto, sempre se pode invocar Seu nome. A vocação de Deus é o amor e deseja que a nossa também o seja.

   Não há distância e não há tamanho. Por isso Paulo diz que, conhecer o amor de Cristo, que excede todo o entendimento, é ser tomado de toda a plenitude de Deus.

¹⁸ "...a fim de poderdes compreender, com todos os santos, qual é a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade
¹⁹ e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus." Efésios 3.

   O altar, como a igreja, são lugar de comunhão.  Trata-se de individualidade, no trato com Deus, e não individualismo.  Paulo nos ensina isso:

²⁷ "Ora, vós sois corpo de Cristo; e, individualmente, membros desse corpo."
1 Coríntios 12.

   E também:  ¹⁷ "Porque nós, embora muitos, somos unicamente um pão, um só corpo; porque todos participamos do único pão." 1 Coríntios 10.

   Somente com Deus somos coletiva e individualmente corpo de Jesus Cristo, em comunhão como igreja.  Ser igreja é andar em Cristo:

⁶ "Ora, como recebestes Cristo Jesus, o Senhor, assim andai nele, ⁷ nele radicados, e edificados, e confirmados na fé, tal como fostes instruídos, crescendo em ações de graças." Colossenses 2.

   Deus conduziu tanto a história de Abrão, o homem que ergueu o altar, quanto a história de Agar, a mulher distraída da presença de Deus.

   As promessas de Deus a Abrão podem ter gerado nele uma expectativa ainda não bem compreendida. Seu neto Jacó, por exemplo, na visão da escada, esteve ainda imaturo para compreender.

²⁰ "Fez também Jacó um voto, dizendo: Se Deus for comigo, e me guardar nesta jornada que empreendo, e me der pão para comer e roupa que me vista, ²¹ de maneira que eu volte em paz para a casa de meu pai, então, o Senhor será o meu Deus". Gênesis 28.

   É assim. Com Deus, expectativas para menos ou para mais, imaturidade, dimensão do amor, intensidade da comunhão, sempre mais se acrescenta.

  Porque o Deus insondável se dá a conhecer.  Revela-se inteiramente em Jesus, o Filho, que guarda perfeita e completa identidade com o Pai.

   ¹⁹ "Então, lhes falou Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que o Filho nada pode fazer de si mesmo, senão somente aquilo que vir fazer o Pai; porque tudo o que este fizer, o Filho também semelhantemente o faz." João 5.

  Por isso o Filho nos convida à mesma comunhão. E isso é igreja. Não somos nós que escolhemos ter comunhão. Deus escolhe, busca e a forma em nós.

   Por isso Paulo nos convida a ser imitadores de Cristo, aliás, imitadores do Pai, tanto faz:

¹ "Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo." 1 Coríntios 11

¹ "Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados; ² e andai em amor, como também Cristo nos amou e se entregou a si mesmo por nós, como oferta e sacrifício a Deus, em aroma suave." Efésios 5.

    Expectativas de Deus. A Bíblia ensina que, na igreja, Deus compartilha conosco sua identidade. Jesus Cristo é o rosto de Deus. E ele também espera que, em nossa passagem por este mundo, possamos refletir Sua glória. 

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Isaías 53 - entrelinas - dores e padecimento

 ³ "Era desprezado e o mais rejeitado entre os homens; homem de dores e que sabe o que é padecer". Isaías 53.

     Nem sempre. Há quem mencione o nome "Jesus" como clichê, para angariar fama para si mesmo. Vai ser assunto para o juízo final:

²² "Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? ²³ Então, lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade." Mateus 7.

  Sim, muitos, diz o texto. Porque o que Jesus revela e representa ao ser humano, por isso é rejeitado. Ninguém almeja, voluntário, ter revelada sua perversidade.

    Estampada na face de Cristo suas dores e padecimentos por Sua opção de envolvimento com as mazelas humanas. Mas quem deseja ver associada a si, intencionalmente, suas mazelas?

   Jesus é homem de dores, homem das nossas dores, porque toma para si o pecado que é nosso, purga o preço, ainda que seja tido como intruso.

   Porque os instrumentadores de sua própria maldade não a querem denunciada, para não perder o que, para eles, é pura vantagem.

   As dores que Cristo toma sobre si serão atendidas somente para quem é, por Deus, entristecido para arrependimento e, então, reconhece seu pecado.

¹⁰ "Porque a tristeza segundo Deus produz arrependimento para a salvação, que a ninguém traz pesar; mas a tristeza do mundo produz morte." 2 Coríntios 7.

   Porque é a bondade de Deus que conduz ao arrependimento e não a simulação de bom caráter, como máscara pública de hipocrisia.

⁴ "Ou desprezas a riqueza da sua bondade, e tolerância, e longanimidade, ignorando que a bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento?" Romanos 2.

   Quem rejeita Jesus, o autêntico, não o inventado, assim procede porque não deseja que sua máscara seja desvelada.

  Quem se solidariza com Jesus em Sua dor e padecimento, é porque enxerga nEle o pecado do qual é portador. A dor e o padecimento de Jesus são por minha causa. Por isso não o rejeito.

   Porque Jesus eliminou-me a culpa, revelando Seu amor, não somente por mim, mas por tantos e quaisquer que nEle creem.

   ¹³ "E a vós outros, que estáveis mortos pelas vossas transgressões e pela incircuncisão da vossa carne, vos deu vida juntamente com ele, perdoando todos os nossos delitos; ¹⁴ tendo cancelado o escrito de dívida, que era contra nós e que constava de ordenanças, o qual nos era prejudicial, removeu-o inteiramente, encravando-o na cruz; ¹⁵ e, despojando os principados e as potestades, publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz." Colossenses 2.

terça-feira, 14 de abril de 2026

Isaías 53 - entrelinhas - o conceito de beleza

 ²...como raiz de uma terra seca". Isaías 53.

   Que importância ou destaque a uma raiz de terra seca. Esse foi o conteúdo da pregação? Que marketing para esse renovo?

  Segue a qualificação correspondente: raiz de terra seca não tem perspectiva.  1.sem aparência; 2. formosura; 3. ou beleza. Trata-se de Jesus.

  Sua visão é preciosa aos olhos do Pai:
⁴ "Chegando-vos para ele, a pedra que vive, rejeitada, sim, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa". 1 Pedro 2.

  É necessário enxergar em Jesus o que o Pai vê. O valor de Jesus para o Pai precisa ser o mesmo valor que dermos. Crer consiste em incorporar para si mesmo tudo o que Jesus representa.

   Não havia beleza. Mas sim, havia beleza. Não enxergar beleza é ter a visão nua e crua do pecado. Por essa condição Jesus, o Servo Sofredor, entrega sua própria vida, ou seja, para redimir do pecado.

⁴⁵ "Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos." Marcos 10.

   E é mais sublime enxergar em Jesus o valor do ato da cruz, o sentido eterno de sua entrega, o sacrifício vivo que Deus acolhe em favor de todo o que crer.

⁸ "Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo". Filipenses 3.

   Entre o conceito divino de beleza e o reducionismo humano. Na filosofia, a definição de arte inscreve-se no capítulo da moral. Arte seria:

  Perfeita condição sob que corresponde, de maneira perfeita, à intenção do artista. Deus, o artista, criou-nos para o que é belo. Desse modo, belo está associado à moral, ao verdadeiro e ao prático.

   Ao agir. Por isso Jesus, no sermão do monte, assim chamado, exortou a não somente ouvir, mas praticar sua palavra:

²⁴ "Todo aquele, pois, que escuta estas minhas palavras, e as pratica, assemelhá-lo-ei ao homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha; ²⁵ E desceu a chuva, e correram rios, e assopraram ventos, e combateram aquela casa, e não caiu, porque estava edificada sobre a rocha." Mateus 7.

   Para as Escrituras, a Bíblia, o conceito de belo está definivamente associado a Jesus. Ele restaura o belo e o verdadeiro na condição humana. Vale a pena ouvir-lHe as palavras. 

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Isaías 53 - estrelinhas - a pregação

 ¹ "Quem creu em nossa pregação?" Isaías 53.

      Pregação é feita para se crer. Tem conteúdo e público. No caso, vai definir o personagem do famoso capítulo 53 de Isaías, cognominado "Servo Sofredor".

    Também identificado como "braço do Senhor". Nos versículos anteriores, definido como alvo de pasmo para tantos reis, mas do que desinformados. Verdadeiros "reis de nada", em Isaías 52:

¹³ Eis que o meu Servo procederá com prudência; será exaltado e elevado e será mui sublime. ¹⁴ Como pasmaram muitos à vista dele (pois o seu aspecto estava mui desfigurado, mais do que o de outro qualquer, e a sua aparência, mais do que a dos outros filhos dos homens), ¹⁵ assim causará admiração às nações, e os reis fecharão a sua boca por causa dele; porque aquilo que não lhes foi anunciado verão, e aquilo que não ouviram, entenderão."

    Cegos para essa perspectiva, não creram na pregação. "A quem foi revelado o braço do Senhor", pergunta seguinte?

¹⁶ "Viu que não havia ajudador algum e maravilhou-se de que não houvesse um intercessor; pelo que o seu próprio braço lhe trouxe a salvação, e a sua própria  justiça o sustenta." Isaías 59.

   Deus, desde o Éden, tem uma proposta. O primeiro casal falhou, assim comprometendo toda a sua descendência e frustrando os propósitos inclusivos de Deus para comunhão íntima dele com o ser humano, homem e mulher que criou.

   Então Deus mesmo se faz homem. Paulo, aos Romanos, denomina "segundo Adão", Isaías, aqui, nomeia em detalhes personalidade e sofrimento do Servo Sofredor.

¹⁷ "Se, pela ofensa de um e por meio de um só, reinou a morte, muito mais os que recebem a abundância da graça e o dom da justiça reinarão em vida por meio de um só, a saber, Jesus Cristo." Romanos 5.

   É prudente pôr vista nessa personagem. Percorrer, passo a passo, com o profeta etapa a etapa do drama pessoal desse Servo Sofredor. Porque ele é o "braço do Senhor".

    O quanto custa crer numa pregação? Há uma carga de preconceito, em função da denúncia de mediocridade associada à qualquer pregação. Mas essa assinalada acima é a voz de Deus.

   E essa pregação anuncia Jesus, o braço do Senhor, Servo Sofredor, a solução de Deus para a falha do casal primordial.

   O que Adão e Eva não alcançaram diante de Deus, torna-se possível a quem decide dar ouvidos à pregação. E vai descrito, passo a passo, o processo que torna possível, por meio de Jesus, alcançar o padrão de Deus.

   Tal pregação tem conteúdo, fonte segura e finalidade precípua. Creia na pregação. Não apenas dar crédito que exista, em sua originalidade. Mas que produz efeito, segundo adverte a própria qualificação do profeta.

   ¹⁰ "Porque, assim como descem a chuva e a neve dos céus e para lá não tornam, sem que primeiro reguem a terra, e a fecundem, e a façam brotar, para dar semente ao semeador e pão ao que come, ¹¹ assim será a palavra que sair da minha boca: não voltará para mim vazia, mas fará o que me apraz e prosperará naquilo para que a designei." Isaías 55.

terça-feira, 7 de abril de 2026

Em tom suave

¹⁵ Perguntou-lhe Jesus: Mulher, por que choras? A quem procuras? Ela, supondo ser ele o jardineiro, respondeu: Senhor, se tu o tiraste, dize-me onde o puseste, e eu o levarei. ¹⁶ Disse-lhe Jesus: Maria! Ela, voltando-se, lhe disse, em hebraico: Raboni (que quer dizer [meu] Mestre)! João 20.

    O detalhe narrado por João nessa abordagem intencional a Maria nos faz imaginar o tom de voz de Jesus.

   Revela-se intimista e personalizado. Refletimos sobre a personalidade dela. A presença no túmulo, o choro e sua ansiedade pela solução do dilema.

    Quem somos, qual nossa(s) experiência(s) com Jesus e o que nos angustia. Há muitas "Marias", mesmo na Bíblia. Essa poderia até ser chamada "Maria dos sete demônios".

   Marcos assim se refere à ela. Não que a discrimine, mas porque ressalta o que Jesus nela havia operado.

⁹ "Havendo ele ressuscitado de manhã cedo no primeiro dia da semana, apareceu primeiro a Maria Madalena, da qual expelira sete  demônios." Marcos 16.

  Jesus escolheu aparecer primeiro a essa Maria. João, na sua narrativa, descreve a pergunta que os anjos do túmulo fizeram a ela. Qual a razão do choro.

  A ansiedade dela foi tamanha que nem notou o inusitado, ora, anjos, dois deles, bem ali onde morte nunca mais. O túmulo que esvaziou todos os outros.

   E então Jesus lhe aparece. Mas perdura a ansiedade dela. Tanto que ainda pergunta, em desespero: ¹⁵ "... respondeu Senhor, se tu o tiraste, dize-me onde o puseste, e eu o levarei."

    Então ouve-se e, no nosso caso, imagina-se o tom pelo qual Jesus chama. Porque o chamado de Jesus é igual para todos. Audível, numa mesma intensidade.

  Talvez Marcos não precisasse destacar a vida pregressa de Maria. Mencionar a quantidade de demônios que lhe privavam a intimidade talvez motive preconceito contra ela.

   O que seria um erro, porque quem foi liberto por Jesus, estava na mesma carente condição de Maria. E nem sabemos do número de demônios pelos quais já fomos tentados.

   Mas certamente reconhecemos quantas vezes cedemos a tais tentações. Aliás, quem nos revelou ter sido alvo da influência deles foi o próprio Jesus.

  Definitivamente, não nos cabe diminuir Maria. Mas pôr vista no tamanho da ação de Jesus na vida dela e na mesma proporção de sua gratidão.

   A ansiedade de Maria por Jesus precisa ser marca de nossa personalidade. A pergunta dela por Ele, desejando reassumir o papel de Jesus em sua vida, a companhia de Jesus, representa outra lição a se aprender.

   E ouvir com que tom Jesus pronuncia nosso nome. Pelo menos uma razão do chamado de Jesus e da tonalidade que usou foi advertir Maria de Sua presença ali, bem ali, ao lado.

   E que estava distraída para o mais inusitado, o novo, o cúmulo da profecia, que é a ressurreição. A nossa ressurreição. Jesus adianta para Maria, primeiro a ela, o efeito da ressurreição.

   Ouvir esse tom de Jesus é reconhecer que Ele sempre chama, sempre está perto, e que sempre estamos distraídos para menos do que representa Sua presença.

  Ponha seu nome nesse chamado. Proposital Jesus aparecer primeiro a uma mulher, a mulheres, para que fizessem o anúncio da ressurreição. 

¹⁰ "E, partindo ela, foi anunciá-lo àqueles que, tendo sido companheiros de Jesus, se achavam tristes e choravam. ¹¹ Estes, ouvindo que ele vivia e que fora visto por ela, não acreditaram." Marcos 16.

  Talvez, esquecendo que foram mulheres nossas mães, como homens, decidimos não acreditar nelas. Sempre redunda em prejuízo, principalmente quando são sábias. 

   Paulo ora para que reconheçamos o chamado de Jesus, a glória desse chamado e a experiência do poder dessa ressurreição atuante em nós. Consideremo-mos advertidos, em tom suave.

¹⁸ "...iluminados os olhos do vosso coração, para saberdes qual é a esperança do seu chamamento, qual a riqueza da glória da sua herança nos santos ¹⁹ e qual a suprema grandeza do seu poder para com os que cremos, segundo a eficácia da força do seu poder; ²⁰ o qual exerceu ele em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos e fazendo-o sentar à sua direita nos lugares celestiais." Efésios 1.

terça-feira, 31 de março de 2026

João Evangelista não sinótico

    João apóstolo de destaca em relação aos outros evangelistas. Este são chamados sinóticos, porque seguem um escopo igual, possível de se definir comparativamente entre os três.

   Marcos foi o idealizador. Lucas e Mateus seguiram o modelo dele, acrescentando material exclusivo de cada um deles. Mas também é verificável ter Mateus e Lucas disposto material deles dois, que Marcos desconhecia ou não utilizou.

   Especula-se ter havido uma fonte de Logia (palavras) a respeito de Jesus, que Marcos tenha usado, e esse material comum a Lucas e Mateus é denominado fonte Quelle, "comum" a esses dois evangelistas.

   João é um intelectual versado em filosofia grega e conhecedor do contexto religioso do mundo grego de sua época. Eram as "religiões de mistério", das quais o gnosticismo era a crença top de linha.

   Constituiu-se numa séria ameaça externa à doutrina da igreja primitiva, porque sutilmente distorcia a doutrina da revelação de Deus em Cristo Jesus, comprometendo a identidade de Deus no Antigo Testamento e a de Jesus no Novo Testamento.

    João, já na introdução do seu Evangelho, cai de sola, rebuscando, de modo provocativo e inteligente, no próprio ambiente da filosofia grega o ponto de partida de sua argumentação teológica.

   Por isso João alcançar o conceito filosófico do logos e o incorporar, definindo de uma vez a incerteza que havia, no contexto filosófico, de sua definição. Afirma, como qualquer grego de seu tempo que, sim, "No início era (havia) o logos". Então incorpora-o em sua teologia.

   Deus tem consigo o logos, João afirma, dizendo em seguida: "O logos estava com Deus", para logo concluir, eliminando a identidade incerta, na filosofia, do que seria o logos, afirmando: "O logos era (é) Deus".

    Retorna à filosofia, para dizer que sim, o logos está no princípio, e que, segundo a filosofia da época pressupunha, a partir do logos tudo foi criado. Mas em João a identidade desconhecida do logos é revelada, foi Deus que criou todas as coisas.

    E então João introduz outro conceito muito usado na época, porém de contornos indefinidos, como a identidade do próprio logos, que é luz. Para as religiões de mistério luz é conhecimento, ilustração, revelação mística.

  Para João, Deus é luz, porque ilumina, no sentido de ser verdadeira e única revelação, assim como, segundo está dito no Gênesis, Deus é quem separa luz e trevas.

    E João direciona sua introdução para o ponto central de seu Evangelho, no que diferencia-se dos demais evangelistas, quando afirma: "O logos se fez carne e habitou entre nós". Aqui João introduz a Pessoa de Jesus.

   E já aqui identifica Deus e Jesus como a mesma Pessoa, Deus espírito, como Jesus mesmo ensina à samaritana, e Deus homem, a Pessoa de Jesus, o logos feito carne.

    João segue em seu Evangelho demonstrando como Deus encarna o Filho para a salvação pela fé. Vai escolher 7 sinais (semeia, no grego), bem significativos do poder de Deus em agência no Filho.

   E vai selecionar os principais discursos de Jesus com o rivais saduceus, fariseus, sacerdotes e doutores da lei, no período da ação pública do Mestre, em Jo capítulos 1-12, assim como a fala específica aos discípulos, em Jo 13-17.

    Em 18-21 sua narrativa da paixão e ressurreição de Jesus, trecho no qual situa sua afirmativa do propósito geral de seu Evangelho:

³⁰ "Na verdade, fez Jesus diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. ³¹ Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome." João 20.

   A síntese de João bem ilustra o amplo espectro do ministério de Jesus, assim como a plena suficiência do texto bíblico. Não foi tudo abordado ou dito, mas na economia do que segue anotado, está o registro suficiente para a fé: "Para que crendo, tenhais vida em seu nome."

domingo, 29 de março de 2026

Encontros com Jesus: um grito, um pedido e uma denúncia

⁶ "Timeu, estava assentado à beira do caminho ⁴⁷ e, ouvindo que era Jesus, o Nazareno, pôs-se a clamar: Jesus, Filho de Davi, tem misericórdia de mim!." Marcos 10.

    Houve uma novela, de 1975, transmitida pela Rede Globo, escrita pelo paulista Jorge Andrade, denominada O Grito.

    Era a história de um menino com problemas mentais que, durante a noite, emitia gritos lancinantes no edifício onde residia, na cidade de São Paulo.

   No caso de Timeu, a fama de Jesus havia chegado a ele. E quando soube que Jesus passaria por sua cidade, manteve o plantão e, mal chegando a turba ao alcance de seu grito, não vacilou.

    Com ele aprendemos que, em qualquer emergência, podemos gritar. Ainda que seja no íntimo, como na oração de Ana, haverá prontidão em ouvir. Tiago ensinou assim:

¹⁶ "Confessai, pois, os vossos pecados uns aos outros e orai uns pelos outros, para serdes curados. Muito pode, por sua eficácia, a súplica dos justos." Tiago 5.

   Os encontros com Jesus, narrados nos Evangelhos, ilustram sua personalidade bem como a natureza do que conosco é compartilhado.

   À mulher samaritana, em seu encontro com ela, pediu água. Jesus era carente de sede, como qualquer um de nós, mas tinha consigo uma água da qual todos são carentes, para saciar uma sede universal.

   Paulo, no caminho para Damasco, já mais perseguido do que perseguidor, defronta-se com Jesus que dele cobra as razões por que ele mesmo, Jesus, era perseguido por Paulo.

   As três situações se aplicam, com diferente intensidade, a todos os que creem. Porque o evangelho corresponde a uma ansiedade desconhecida, porém urgente na vida de todo ser humano.

  O cego Bartimeu reconheceu isso, em função de uma necessidade premente, que foi a cegueira física, mas todo ser humano é carente por cegueira espiritual.

   E com relação ao diálogo com a samaritana, no caso, foi Jesus que lhe fez um pedido. Podemos supor que pedidos ou quais pedidos nos faria. As Escrituras, por si, elencam vários deles, que se constituem num fardo leve.

²⁸ "Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. ²⁹ Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma.³⁰ Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve." Mateus 11.

   E na experiência da conversão de Paulo, talvez digamos que nunca perseguimos seguidores de Jesus, como Paulo fez. Mas, certamente, a perseguição de Jesus havia antes alcançado Paulo.

  Sem dúvida, o conteúdo do evangelho pregado pelos irmãos da igreja primitiva, alvo da ação persecutória de Paulo, ele conheceu logo e de antemão. Seu nível intelectual pressupõe isso.

   Mas do que ansiosos, sedentos ou perseguidores, antecipadamente nossa necessidade é reconhecida por Deus, que depara para cada um o momento do encontro.

   Em sua condição atual, o testemunho de Jesus, indubitavelmente autenticador de sua presença e da verdade do evangelho, reside na realidade visível da Igreja.

   Nós estamos no mundo para testemunhar Jesus. A diferença nossa para todo o restante da humanidade é somente a realidade e consciência dessa verdade: Jesus nos converteu ao Pai, batizando-nos no Espírito, para nos tornar testemunhas dEle neste mundo.

⁸ "...mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra." Atos 1.

¹⁵ "Senhores, por que fazeis isto? Nós também somos homens como vós, sujeitos aos mesmos sentimentos, e vos anunciamos o evangelho para que destas coisas vãs vos convertais ao Deus vivo, que fez o céu, a terra, o mar e tudo o que há neles." Atos 14.