A história de Ester, a judia anônima do exílio que se tornou rainha da Pérsia, cerca de 482-478 a.C., revela o modo como Deus age, por meio de Sua providência, sem que seus desígnios sejam frustrados. E, para isso, lança mão de servos fiéis que, exercendo sua fé, deixam-se conduzir sob Sua benéfica vontade.
1. Banquetes do Oriente Antigo
¹ Nos dias de Assuero, o Assuero que reinou, desde a Índia até à Etiópia, sobre cento e vinte e sete províncias [...] ² no trono do seu reino, que está na cidadela de Susã, ³ no terceiro ano de seu reinado, deu um banquete [...] no qual se representou o escol da Pérsia e Média, e os nobres e príncipes das províncias estavam perante ele." Ester 1.
Aplicação: Na Antiguidade, operava-se o inverso, o Oriente era riquíssimo e o Ocidente paupérrimo. Os Medo-Persas, em aliança, haviam vencido os babilônios e, no ano 536 a.C. haviam libertado para Jerusalém o povo de Israel cativo. A história de Ester ocorre com o remanescente que escolheu permanecer na Mesopotâmia.
2. Vasti, uma feminista fora de hora
¹⁰ Ao sétimo dia, estando já o coração do rei alegre do vinho, mandou [...] os sete eunucos [...] ¹¹ que introduzissem à presença do rei a rainha Vasti [...] para mostrar aos povos e aos príncipes a formosura dela [...] ¹² Porém a rainha Vasti recusou vir por intermédio dos eunucos, segundo a palavra do rei; pelo que o rei muito se enfureceu e se inflamou de ira." Ester 1.
Aplicação: Olhando de nossa época, para trás, vamos dizer, ora, Vasti não se prestava a ser objeto da vaidade de um rei beberrão. Mas olhando de lá, para cá, o fato de ser rei, cercado por centenas de homens prepotentes e machistas, levando em consideração também a volatilidade da condição de rainha, naqueles dias, Vasti adiantou-se muito em seus direitos.
3. Um concurso de beleza
"Então, disseram os jovens do rei, que lhe serviam: Tragam-se moças para o rei, virgens de boa aparência e formosura. [...] ⁴ A moça que cair no agrado do rei, essa reine em lugar de Vasti. [...] na cidadela de Susã havia certo homem judeu, benjamita, chamado Mordecai [...] que fora transportado de Jerusalém com os exilados que foram deportados com Jeconias [...] ⁷ Ele criara a Hadassa, que é Ester, filha de seu tio [...] e era jovem bela, de boa aparência e formosura. [...] Mordecai a tomara por filha [...] ⁸levaram também Ester à casa do rei, sob os cuidados de Hegai, guarda das mulheres. ⁹ A moça lhe pareceu formosa e alcançou favor perante ele". Ester 2.
Aplicação: O rei da Pérsia escolhe Ester, não por acaso. Vamos constatar que a providência de Deus para com Seu povo não cochila. Uma exilada, cativa e residente distante de sua terra vai superar todas as outras candidatas, certamente muitas delas persas de origem. Também vai se revelar o contexto de onde provém, origem da educação recebida do primo que a tomou por filha. A fé que compartilharam os preparou para uma tamanha vocação que logo se vai revelar.
4. A virtude de Ester em destaque
¹⁷ "O rei amou a Ester mais do que a todas as mulheres, e ela alcançou perante ele favor e benevolência mais do que todas as virgens; o rei pôs-lhe na cabeça a coroa real e a fez rainha em lugar de Vasti." Ester 2.
Aplicação: Pode-se dizer que um rei do porte deste seria volúvel em seu amor. Mas Ester vai se destacar por sua sabedoria. Portanto, o rei, mesmo sem que o soubesse, amou a pessoa certa. E ainda sem o saber, a providência de Deus operava a seu favor, assim como a favor de Ester e todos o seu povo. A fé de Ester e sua vocação, ainda que, a essa altura, não plenamente percebida, habilitava-a para cumprir plenamente a vontade de Deus.
5. Mordecai e sua postura decisiva
²¹ "Naqueles dias, estando Mordecai sentado à porta do rei, dois eunucos do rei, dos guardas da porta, Bigtã e Teres, sobremodo se indignaram e tramaram atentar contra o rei Assuero. ²² Veio isso ao conhecimento de Mordecai, que o revelou à rainha Ester, e Ester o disse ao rei, em nome de Mordecai. ²³ Investigou-se o caso, e era fato; e ambos foram pendurados numa forca. Isso foi escrito no Livro das Crônicas, perante o rei." Ester 2.
Aplicação: Servos fiéis, bem amadurecidos e atentos, onde estiverem podem ser usados por Deus. A posição de Mordecai era estratégica, ao mesmo tempo próximo a Ester, com percepção aguçada sobre a notícia dos fatos e nunca alheio ao propósito de Deus. Houve apenas um ensaio inicial da articulação que seria o instrumento de Deus para preservar todo o povo. A memória desse livramento será decisiva. Aguardem.
6. Hamã, escolha equivocada do rei
¹ "Depois destas coisas, o rei Assuero engrandeceu a Hamã, filho de Hamedata, agagita, e o exaltou, e lhe pôs o trono acima de todos os príncipes que estavam com ele. ² Todos os servos do rei, que estavam à porta do rei, se inclinavam e se prostravam perante Hamã; porque assim tinha ordenado o rei a respeito dele. Mordecai, porém, não se inclinava, nem se prostrava." Ester 3.
Aplicação: Se foi sábia a escolha da rainha, não foi a do "primeiro ministro". Logo vai se revelar mestre de intrigas. Dele será a ideia de subverter todos os judeus. Para não se dobrar perante ele, Mordecai se revela judeu. Esse detalhe Hamã vai usar para generalizar maldade contra todos os judeus. Deus em sua providência cercou o rei persa de duas personalidades decisivas: servos fiéis do Senhor são referencial em qualquer lugar ou condição.
7. A perseguição ao povo de Deus
⁸ "Então, disse Hamã ao rei Assuero: Existe espalhado, disperso entre os povos em todas as províncias do teu reino, um povo cujas leis são diferentes das leis de todos os povos e que não cumpre as do rei; pelo que não convém ao rei tolerá-lo. ⁹ Se bem parecer ao rei, decrete-se que sejam mortos, e, nas próprias mãos dos que executarem a obra, eu pesarei dez mil talentos de prata para que entrem nos tesouros do rei." Ester 3.
Aplicação: O povo de Deus sempre será perseguido. Jesus garantiu aos apóstolos que haveria ódio contra eles, por extensão, contra a igreja. Aqui uma intriga de um líder com desvio de personalidade, muito próximo ao rei típico de seu tempo, facilmente influenciável, fomenta intriga e obtém autorização para exterminar os israelitas. E uma ordem expedida pelo monarca persa seria irredutível.
8. Mordecai clama, solidariza-se e avisa Ester
¹ "Quando soube Mordecai tudo quanto se havia passado, rasgou as suas vestes, e se cobriu de pano de saco e de cinza, e, saindo pela cidade, clamou com grande e amargo clamor [...] ³ Em todas as províncias aonde chegava a palavra do rei e a sua lei, havia entre os judeus grande luto, com jejum, e choro, e lamentação [...] Então, vieram as servas de Ester e os eunucos e fizeram-na saber [...] e mandou roupas para vestir a Mordecai e tirar-lhe o pano de saco; porém ele não as aceitou. Então, Ester chamou a Hataque [...] e lhe ordenou que fosse a Mordecai para saber que era aquilo [...] Mordecai lhe fez saber tudo quanto lhe tinha sucedido". Ester 4.
Aplicação: Para testemunho legítimo da fé em Deus não se precisa mencionar (ou escrever) o nome dEle, decorar um credo ou explicar doutrinas. Basta agir. Assim procedeu Mordecai. Sua atitudes, por si, solidárias com a de seu povo, em todas as aldeolas ao redor, indicavam a fé no Deus que não é nem mencionado, por escrito, no livro de Ester, mas reconhecido por testemunho coerente de fé. Começa a prevalecer conduta fiel de Mordecai e sua influência positiva a filha que adotara.
9. A exata intenção de uma vocação
¹⁰ Então, respondeu Ester a Hataque e mandou-lhe dizer a Mordecai: ¹¹ Todos os servos do rei e o povo das províncias do rei sabem que, [...quem] sem ser chamado, entrar no pátio interior para avistar-se com o rei, não há senão uma sentença, a de morte [...] e eu, nestes trinta dias, não fui chamada para entrar ao rei. ¹² [...] ¹³ Então, lhes disse Mordecai[...]: Não imagines que, por estares na casa do rei, só tu escaparás entre todos os judeus. ¹⁴ Porque, se de todo te calares agora, de outra parte se levantará para os judeus socorro e livramento, mas tu e a casa de teu pai perecereis; e quem sabe se para conjuntura como esta é que foste elevada a rainha? Ester 4.
Aplicação: Mordecai fala na posição de autoridade, como conselheiro de Ester desde sempre, exortando-a a uma resposta de fé. A vocação para agir segundo o chamado de Deus é permanente e geral a todos os que creem. E a posição de Ester, como rainha da Pérsia, não foi casual, não mero capricho do rei ou destaque de um concurso de beleza: porém, um chamado específico do Senhor. Todos os que creem devem viver de modo digno, condizente e na plenitude desse chamado.
10. A decisão correta diante de Deus
¹⁵ "Então, disse Ester que respondessem a Mordecai: ¹⁶ Vai, ajunta a todos os judeus que se acharem em Susã, e jejuai por mim, e não comais, nem bebais por três dias, nem de noite nem de dia; eu e as minhas servas também jejuaremos. Depois, irei ter com o rei, ainda que é contra a lei; se perecer, pereci. ¹⁷ Então, se foi Mordecai e tudo fez segundo Ester lhe havia ordenado." Ester 4.
Aplicação: Mordecai e Ester mantiveram comunhão entre si e com Deus. O que traziam em maturidade, de sua vida com Deus, agora punham em prática no exílio. Sem que se percebesse, o que ia no coração deles era expressão da sabedoria de Deus. Aqueles que vivem por fé, em fidelidade e comunhão, sempre haverão de agir e manifestar, em sua vidas pessoal e coletiva, a decisão e vontade de Deus em suas vidas.
11. O estratagema de Ester
² "Quando o rei viu a rainha Ester parada no pátio, alcançou ela favor perante ele; estendeu o rei para Ester o cetro de ouro que tinha na mão; Ester se chegou e tocou a ponta do cetro. ³ Então, lhe disse o rei: Que é o que tens, rainha Ester, ou qual é a tua petição? Até metade do reino se te dará. ⁴ Respondeu Ester: Se bem te parecer, venha o rei e Hamã, hoje, ao banquete que eu preparei ao rei." Ester 5.
Aplicação: Mais do que o favor do rei, Ester alcançou a graça de Deus. O alerta de Mordecai, a intercessão em jejum e oração dele, dela e todo o povo, predispõe para que a graça de Deus se manifeste. Com sabedoria, ela vai agendar dois banquetes: no primeiro, atiça a curiosidade do rei e a vaidade de Hamã. No segundo, vai denunciar o inimigo deles todos, clamando por clemência ao rei e por justiça e punição ao intrigante.
12. Nesse meio tempo, a insônia do rei
¹ "Naquela noite, o rei não pôde dormir; então, mandou trazer o Livro dos Feitos Memoráveis, e nele se leu diante do rei. ² Achou-se escrito que Mordecai é quem havia denunciado a Bigtã e a Teres, os dois eunucos do rei, guardas da porta, que tinham procurado matar o rei Assuero. ³ Então, disse o rei: Que honras e distinções se deram a Mordecai por isso? Nada lhe foi conferido, responderam os servos do rei que o serviam." Ester 6.
Aplicação: Muito aprendemos com insônias. E no livro de Ester, a cada passo, percebemos na entrelinhas o agir de Deus. Desta vez, numa insônia que revela a Assuero (Xerxes I, nos livros de história) que faltava honrar Mordecai, por sua sagacidade em perceber conspiração na atitude dos funcionários do palácio. E o rei vai se revelar perspicaz, quase que de propósito justamente perguntando a Hamã o que fazer para, de modo justo, honrar a quem merece.
13. Ironia na conduta planejada pelo algoz
¹¹ "Hamã tomou as vestes e o cavalo, vestiu a Mordecai, e o levou a cavalo pela praça da cidade, e apregoou diante dele: Assim se faz ao homem a quem o rei deseja honrar. ¹² Depois disto, Mordecai voltou para a porta do rei; porém Hamã se retirou correndo para casa, angustiado e de cabeça coberta. ¹³ Contou Hamã a Zeres, sua mulher, e a todos os seus amigos tudo quanto lhe tinha sucedido. Então, os seus sábios e Zeres, sua mulher, lhe disseram: Se Mordecai, perante o qual já começaste a cair, é da descendência dos judeus, não prevalecerás contra ele; antes, certamente, cairás diante dele." Ester 6.
Aplicação: Zeres, esposa de Hamã, não estava prognosticando, mas analisando com sabedoria. Hamã fez o que sugeriu ao rei e este ordenou, julgando que honraria a si mesmo. E quanto a Mordecai, em nenhum momento se elevou, permanecendo na condição de servo fiel ao seu (anônimo, no livro) Deus: sentado à porta do rei: humilde, atento, tanto à conspiração dos eunucos, quanto à intriga de Hamã, e intercessor com o povo em toda a crise. A tudo está pronto um servo fiel ao Senhor.
14. A denúncia do segundo banquete
² No segundo dia, durante o banquete do vinho, disse o rei a Ester: Qual é a tua petição, rainha Ester? E se te dará. Que desejas? [...] ³ Então, respondeu a rainha Ester e disse: [...] dê-se-me por minha petição a minha vida, e, pelo meu desejo, a vida do meu povo. ⁴ Porque fomos vendidos, eu e o meu povo, para nos destruírem, matarem e aniquilarem de vez [...] ⁵ Então, falou o rei Assuero e disse à rainha Ester: Quem é esse e onde está esse cujo coração o instigou a fazer assim? ⁶ Respondeu Ester: O adversário e inimigo é este mau Hamã. Então, Hamã se perturbou perante o rei e a rainha." Ester 7.
Aplicação: Ester, sábia e virtuosa conseguiu, pelo suspense planejado no banquete de duas etapas, aguçar a curiosidade do rei, para denunciar Hamã. Este será flagrado por Asuero aos pés de Ester suplicando, covardemente, clemência. Mas será enforcado no patíbulo que havia erguido para Mordecai. O rei persa não poderá revogar a ordem que havia dado. Então, os judeus, em todas as províncias, foram armados para se defender. E os que se revelaram seus inimigos, foram derrotados. Mordecai ocupou a função do intriguento, os judeus venceram seus inimigos e instituiu-se a Festa do Purim, em ações de graça pelo livramento.
Conclusão: Num tempo distante, ainda no país do exílio, levantou-se contra o judeus restantes um inimigo que os quis exterminar. Deus, em sua providência, deparou servos seus maduros, fiéis e diligentes em sua fé. Apenas por meio de seu procedimento, marcaram decisivamente a história de seu povo e do reino da Pérsia. Mordecai, estratégico nos bastidores do palácio, intercepta uma conspiração. Ester, ao inverso do feminismo inoportuno de Vasti, foi mansa e sábia, honrando o rei, desmascarando o inimigo e sendo usada por Deus na salvação de seu povo. Este o valor de servos fiéis, maduros na fé, sábios e perseverantes em oração.