quinta-feira, 2 de julho de 2026

Velho Douglas no Aeroporto Velho

 

DOUGLAS | Esta imagem histórica registra um lendário Douglas C-47 da Força Aérea Brasileira (FAB) na pista de tijolos do antigo aeroporto Salgado Filho, o primeiro de Rio Branco, em área hoje correspondente aos bairros Aeroporto Velho e Pista.

A serviço do então Correio Aéreo Nacional, o C-47 tornou-se um dos grandes ícones da aviação militar e civil no Brasil. Reconhecido por sua robustez, versatilidade e capacidade de operar em pistas rústicas ou pouco preparadas, foi decisivo no transporte de passageiros, cargas, medicamentos e correspondências para regiões remotas, muitas vezes de difícil acesso, como o Acre e outros pontos da Amazônia.

Mais que uma aeronave, o Douglas C-47 simbolizou uma época em que a aviação encurtava distâncias, integrava territórios e ajudava a romper o isolamento de cidades do interior brasileiro.

📸 O registro, de meados da década de 1960, é de autoria do saudoso ex-padre Orlando Testi.

INFORMAÇÃO SOBRE IA ⎯ Imagem histórica originalmente em preto e branco, colorizada com auxílio de inteligência artificial, com preservação da composição original, para fins de valorização visual e difusão da memória histórica.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Vergonha autêntica

 ¹³ "Saiamos, pois, a ele, fora do arraial, levando o seu vitupério." Hebreus 13.

    Aí reside o problema. Em que proporção esse vitupério, essa vergonha ou afronta? Assumir-se cristão, mas em que sentido?

  Pulverizou-se o significado de se afirmar cristão, ou crente, evangélico, protestante, "os Bíblia", no meu tempo de criança.

   A cruz é uma afronta. Uma das razões alegadas por judeus para não reconhecer Jesus como Messias consta nas Escrituras:

²³ "...porquanto o que for pendurado no madeiro é maldito de Deus". Deuteronômio 21.

   Ora, mas isso Paulo afirma aos Gálatas, que o crucificado Jesus se fez maldito, porém para que a maldição que carregamos, fosse nEle exaurida, e a santidade dEle a nós fosse atribuída, com e por justiça.

¹³ "Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar (porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado em madeiro), ¹⁴ para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios, em Jesus Cristo, a fim de que recebêssemos, pela fé, o Espírito prometido." Gl 3.

    Esse sentido da cruz é o original. Para se associar a ele, isto é, ver-se incluído nessa troca de maldição por bênção, ou seja, herança individual trazida do berço trocada pela santidade imputada pelo sacrifício do Filho,  é necessário assumir-se o combo.

   Com tudo que inclui, ser tido por ridículo, em acreditar nessas coisas, ou assumir-se marcado por pecado, ou ainda discriminado por autodeclarar-se cristão. Porque ser cristão traz uma enorme carga de vergonha assumida, mas somente de um tipo original.

   Que é a constatação da realidade do pecado no viver. E este representa a condição de que algo muito ruim, que sempre pôde ser evitado, ocupou a parcela completa do ser e do viver.

   Na conversa com Caim, Deus lhe revela a natureza do mal.  Pelo menos, três conceitos fundamentais referentes a esse  mal estão assim definidos:

⁷ "Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo."  Gênesis 4.

   1. O pecado (sub)jaz, como numa emboscada, dentro e pronto a nos subverter; 2. O desejo do pecado não é aprovado por Deus e é homicida (contra Deus, contra o portador e contra o interlocutor); 3. Somos responsáveis por dominar, evidentemente, se e quando recorremos a Deus.

    Deus revela o pecado. O arrependimento provém de Deus, por uma tristeza que, diante do pecado, somente Deus possui.  E tudo isso pela bondade de Deus, que conduz ao arrependimento a quem ama. E Deus a todos ama.

     ¹⁰ "Porque a tristeza segundo Deus produz arrependimento para a salvação, que a ninguém traz pesar; mas a tristeza do mundo produz morte." 2 Coríntios 7.

⁴ "Ou desprezas a riqueza da sua bondade, e tolerância, e longanimidade, ignorando que a bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento?" Romanos 2.

    Assuma a tua vergonha. A original. Enxerga o teu pecado pela tristeza de Deus. Arrepende-te. Saia, fora da porta, ao encontro do crucificado. E carregue contigo, pelo restante de tua existência e pelo viés autêntico, a vergonha do evangelho.

¹⁶ "Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego; ¹⁷ visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá por fé." Romanos 1.

   E, uma vez sendo autêntico, nunca te envergonhes de admitir.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

O saber do Filho do carpinteiro

 ⁸ "O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai". Jo 3.

  Muito não se sabe, tornando-se deveras problemático para os viventes. Imagine, em plena vigência do "século da luzes", dizer a alguém: "Não sabes".

   Jesus, de quando em vez, usava essa expressão. Como na única parábola que somente Marcos registra:

²⁶ "Disse ainda: O reino de Deus é assim como se um homem lançasse a semente à terra; ²⁷ depois, dormisse e se levantasse, de noite e de dia, e a semente germinasse e crescesse, não sabendo ele como." Mc 4.

     Você não sabe. Num século onde há requintes por se inventariar tudo o que se conhece, sob regras rígidas, em forma infinitamente digital, dizer "não sabe" passa por pura provocação.

    Talvez seja Jesus que não sabe. Porque o filho de um carpinteiro, sem formação acadêmica, seria convictamente desmerecido. E quanto à natureza do que se sabe?

   Especialista nos dois assuntos, numa das falas Jesus se refere ao Espírito Santo que, como o vento, não se entende o mover. Na outra fala, floresce  imperceptível o reino de Deus, como brota na terra uma semente.

        O que dizer, diante do ceticismo deste século, sobre a relevância desses dois assuntos? Vivemos, desde o século XVIII, os efeitos do Iluminismo. É a idade da razão.

   Para o século atual, nenhuma relevância. E o método científico dominante. Ninguém deseja se sentir ridículo, acolhendo como plausível o que escapa aos parâmetros do século.

    Daí a irrelevância da temática abordada pelo Filho do carpinteiro. Ainda porque o que provém desse viés argumentativo cheira a cristianismo, religião depreciada ao máximo, no rol das demais, pelo alegado compromisso dela com o colonizador.

   ¹ "O saber ensoberbece, mas o amor edifica. ² Se alguém julga saber alguma coisa, com efeito, não aprendeu ainda como convém saber." 1 Co 8.

    Essa afirmtiva acima pertence a Paulo. No que depende do Filho do carpinteiro, não será o saber, nem por sua quantidade, seja por sua celebridade, ou qual critério for. Ele pretende entender de amor.

     Paulo, a Timóteo, mais uma vez se supera, ao classificar que modalidade está reservada a quem escapa do essencial, quando o assunto beira, de perto, o que interessa a Jesus:

⁶ "Desviando-se algumas pessoas destas coisas, perderam-se em loquacidade frívola, ⁷ pretendendo passar por mestres da lei, não compreendendo, todavia, nem o que dizem, nem os assuntos sobre os quais fazem ousadas asseverações." 1 Tm 1.

   Eu acho o máximo as expressões "loquacidade frívola" e ironia requintada dizer "ousadas asseverações". Para Paulo, na mesma linha de raciocínio do Filho do carpinteiro, falar do que não se sabe é pura loquacidade frívola.

    E o saber não tornou melhor a humanidade. Talvez seja essa uma missão para o amor. E Talvez seja esse o saber no qual o Filho do carpinteiro se exercita. Porque o saber ensoberbece. O amor edifica.
   
     Não sabes. Jesus causou de afirmar. Não se sabe como o reino de Deus floresce. E também não de onde vem e nem para onde vai o Espírito. 

Frutificando na Melhor Idade

     

    Escrevo sobre Neli por absoluta gratidão a Deus por sua vida e de seu esposo. Gerson Coelho conheci ainda em Cascadura, pelos idos de 1966, quando os três irmãos, ele, Josias e Sérgio cerravam fileiras entre o grupo daquela geração. O pai deles, Clauderval, e a mãe, Madalena, nos davam carona, de Cascadura a Ricardo de Albuquerque, onde residiam, todos os domingos que eu e Dorcas, minha mãe, esticávamos para o almoço em Nilópolis, a famosa e charmosa casa da avó.

    Neli e Gerson foram fundamentalmente importantes em meu início de ministério, na Congregacional de Curicica, em 1982. Eu ainda não era ordenado, somente o fui a partir de 2 de janeiro de 1983. Mas eles já me conduziam, no heróico e desbravador Fiat 147 de Gerson, por carona, da Magalhães Couto, no Meier, via serra da Grajaú-Jacarepaguá, até a Estrada do Guerenguê, em Curicica.

    Somente juntos na eternidade vamos relembrar os assuntos dessas viagens. Mas o substrato que ficou, decorrente dessa parceria, fundamentava, camada por camada minha hesitante vocação. Gerson conduzia-nos por todos os escaninhos de Jacarepaguá, a partir do Largo da Taquara, para visitar pessoas. Fosse na Colônia Juliano Moreira, na Buiuna, enfim, cantos que se perderam nos recantos de minha memória.

    Curicica foi herança que Cascadura herdou, quando ninguém mais acreditava que fosse à frente. Exceto Gerson e Neli, com mais uns 10 irmãos. Pastor Maurillo Moreira delegou a eles o desafio. Esse casal sempre foi fagulha. Com eles, nunca deixou de haver braseiro. Convidaram-me, Gerson e Valdemir, em nome do grupo, para segui-los lá em Curicica. Eu fiz como Saul, escondendo-me, tentativa vã. Gerson e Valdemir me acharam, sentado no antigo coral de Cascadura, que ficava por detrás do púlpito do pastor.

    Curicica foi uma escola, por causa do traço de personalidade daqueles notáveis, como diz o salmista. Com essa gente, Gerson e Neli ombreavam. Há pouco tempo ela me falou da visita que fez a um desses, Diac. Pedro Regis, quase centenário, lá por Duque de Caxias, no Rio. O Fiat 147 era incansável no rastro desses operários do reino. Aliás, onde não ia Gerson, mesmo quando ainda tinha o Fusca 1200, antes desse moderno 147? Conheci também.

    Certa vez foram, ele contava, à inauguração da Transamazônica, isso mesmo, conduzindo junto com a família, Gielson criança, o velho Cabral, pai de Neli. Por todas e por muitas estradas. Muita gente recebeu os efeitos dos benefícios desse casal. Envolveram-se com Missões. Cascadura, desde 1972, tornou-se uma igreja missionária. Promovia ofertas de maio e julho, lanches missionários, até um hino autoral havia: "Ó, missionários, ide, marchai! Atendei à ordem do Senhor/Jesus Cristo salva, proclamai corajosos, firmes, sem temor./Missionários Cascadurenses, nosso lema consiste em servir./Propalemos que somos crentes, na esperança do eterno porvir."

    Isso contagiou a todos. E teve continuidade na disposição desse casal. Certa vez brigamos. Quer dizer, houve um conflito de ideias. Em 1986, numa viagem a Campo Grande, MS, Gercino, mais um desses heróis de fé, e eu espiamos aquela capital e, por providência de Deus, nessa primeira viagem, adquirimos o imóvel onde hoje está a Igreja Evangélica Congregacional de Campo Grande, no bairro Copavila II.

    Curicica, Cascadura, Piedade, na época filiada à denominação, e Vicente de Carvalho, hoje responsável por esse campo, juntaram-se para adquirir o imóvel e sustentar o misionário que se sentisse desafiado a ir. Eu sugeri um casal de Curicica, o melhor deles, Valdemir e Elzair. Neli discordou. Ora, Cid Mauro, como você quer enviar nossos melhores obreiros para Campo Grande? Eu contra-argumentei, ora, irmã, temos de enviar os melhores. Ela replicou, mas aqui há poucos. Eu contra-repliquei: mas lá não há ninguém.

    Ela então deu xeque-mate: Por que, então, não vai você? Viemos. Todos nós viemos. Neli e Gerson vieram sempre e vieram primeiro. Quem vem para Missões, desde Paulo, membro em Antioquia, vem primeiro. E ele era entre os melhores. Porque anos depois, não para Campo Grande, a 1500 km do Rio, mas para Rio Branco, 2700 km depois, viemos eu e minha família. E por ironia, veio Gielson também, filho único deles. E Neli e Gerson nunca descansaram de missões, nunca se cansaram de missões, enquanto estiveram entre nós. Por isso ela descansa, agora, aqui no Acre, neste chão, de percorrer tantos outros motivando gente a ser missionária.

    Por terminar, certo dia preguei na igreja onde filho, nora e netos dela congregam. Cheguei, deparei a cuidadora, ainda com a farda verde do hospital, e Neli descendo do veículo que as conduzia. Neli, nessa fase, intermitentemente necessitando ser hospitalizada, estava ansiosa lá na internação: ora, haveria de perder o culto na igreja. Então a médica, embora desconhecesse a causa dessa aflição, alegrou Neli com o diagnóstico, a melhora dela permitiria a alta, para ir para casa, é lógico.

    Qual não foi a surpresa da médica: não, vou para a igreja. Leve-me para a igreja. Eu assisti à cena da cuidadora transmitindo umas recomendações de praxe, no estacionamento da igreja. Então fiquei entendendo que ali, naquele momento, Neli vinha direto do hospital para a igreja. Desde 1966 conheço Gerson e os pais dele. Inesquecível o sorriso de Madalena, mãe dele. Refletia a mansidão dela. Neli, na época de Curicica, me levou a Mato Alto, mais de uma vez, para visitar os Cabral, pai e mãe dela. Conduzia-me a visitar os irmãos dela, e muito mais gente, para trazer todos para a igreja.

    Toda essa gente privilegiava estar na igreja. Minha mãe também era assim. O último domingo dela, meu último telefonema a Dorcas, foi por teimosia. Eu liguei, daqui do Acre, para dizer que não fosse, naquele domingo, à igreja, não, que não estava bem, que era melhor repousar. Ela disse, na igreja há quem cuide de mim. E foi a última vez que ela esteve na igreja, naquele domingo. Essa gente valoriza igreja. Parece que essa geração que valoriza igreja está indo embora.

    Muito mais há para falar desse casal. Eu poderia lembrar outras cenas, como essa da estrada, na foto acima. Mas fica marcada a gratidão a Deus pelo exemplo que deixam. E pela exortação que perdura: não desprezem igreja e sejam plenamente missionários.



sábado, 20 de junho de 2026

Sempre um gesto de amor

 ⁶ "...lembro-me, portanto, de ti, nas terras do Jordão, e no monte Hermom, e no outeiro de Mizar." Salmo 42.

    O outeiro de Mizar foi marcante memória para o salmista [Salmo 42]. Porque Deus o soergueu de seu abatimento. Em qualquer lugar e todo o tempo Deus pode resgatar do abatimento.

   Para o salmista, foi Mizar. Será que, como Elias no Horebe, foi lá buscar refúgio? Lugar aprazível, na região próxima ao Hermon, monte de 2184 m, com neve no cimo na maior parte do ano.

    Situa-se próximo às Colinas de Golã, atualmente ocupadas por Israel, ao norte, fronteira com a Síria. Tornou-se uma experiência marcante para o salmista.

   Quantas iguais já tivemos? Não precisa sentir abatimento, nem se deslocar ao outeiro de Mizar. Mas será essencial orar. O próprio salmista reconhece isso.

⁸ "Contudo o Senhor, durante o dia, me concede a sua misericórdia, e à noite comigo está o seu cântico, uma oração ao Deus da minha vida."

   Para orar, temos Jesus, o Filho, como (único) Mediador, e o Espírito Santo para assistir-nos na oração, por uma razão simples, porém flagrante.

²⁶ "Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira, com gemidos inexprimíveis." Rm 8.

⁵ "Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem". 1 Tm 2.

   Toda oração, pela mediação do Filho e assistência do Espírito constitui-se numa experiência estilo Mizar. Aliás, esta palavra significa "pequeno". Típico de Deus: gestos sempre simples, pequenos, porém notáveis. Marcantes. 

   Sempre será uma experiência especial. É claro que a urgência de qualquer oração, diante dos dilemas e, até como o próprio Jesus preveniu, diante das aflições, serão proporcionalmente mais marcantes.

    Mas o Deus será sempre o mesmo. E a prontidão sempre igual. Ainda que haja qualquer tipo de distração, como foi a de Agar:

¹³ "Então, ela invocou o nome do Senhor, que lhe falava: Tu és Deus que vê; pois disse ela: Não olhei eu neste lugar para aquele que me vê?" Gn 16.

    Ore agora.  Por gratidão ao Deus que sempre vê.  E que está também sempre perto e pronto a ouvir.  Deve ser muito lindo e aprazível o outeiro de Mizar. 

⁷ "Tendo-a achado o Anjo do Senhor junto a uma fonte de água no deserto, junto à fonte no caminho de Sur". Gn 6.

   Mas também aprazível a fonte do caminho de Sur, no deserto. Onde Deus o achar. Sempre perto. Sempre pronto a ouvir. Por mediação do Filho e assistência do Espírito.  Toda Trindade cabe num mesmo gesto de amor.

Nosso Grande Amigo Armando

Gratidão a Deus pela preciosa vida de Armando Escamilha Macedo. Grande amigo de meus pais. E a fidelidade de sua amizade se estendeu a mim e minha família.  A entrevista abaixo realizamos numa visita muito agradável a sua casa e família, ainda em dias da pandemia. Esse sorriso foi sua marca a vida inteira. E o testemunho de sua fé o maior consolo, para ele, para sua família e para nós, neste momento de despedida, mas na certeza de que continua sorrindo, agora ao lado do sorriso de Jesus. 

 Como foi a encrenca do Neném Costa? Mas o Armando já contou alguma coisa? Não. Está pedindo para vc contar.

Nessa época éramos muito crianças. Para saber alguma coisa... A gente ouvia falar por alto. Mas o que eu sei é que foi por causa de umas espigas de milho.

Parece que o Zezé pegou umas espigas de milho do tio Neném. Plantava, assim, na beira da estrada. Fosse amendoim, fosse milho. Vinha do baile, das festas, passava a mão, assim, macio, e começava a comer.

Houve a afronta, de tio Neném, então foi a casa, pegou da espingarda e acertou o pulmão do tio Neném.  E tio Neném pobre, casado, cheio de filhos, ferido, em cima da cama. Diz que o cheiro da infecção ia longe...

Foi por pouco que ele não morreu. Tio Zezé contava isso chorando, anos e anos depois. Eu vi. Contava para meu pai e começava a chorar. Meu pai dizia, Zezé, isso era coisa de quem não era crente. Mas Cid, como fui fazer isso? Mas você agora é convertido, Zezé.

Ele ficou bom e viveu muitos anos. Convertido também. Isso não sei. Mas a Dercília, a filha mais velha de Zezé, contou-me essa história. Mas sim, parecida com essa minha.

Vai que seja, porque essa do milho surrupiado ela não contou. Lado ruim do pai... Hahahaha...Nada, emenda Luzia: Não era ruim. Era comum. Você vinha, de madrugada, de uma festa em que não comeu nada, aí, passa na beira da estrada, aquela espiga bonitona ali, nem leva pra casa, para assar, nem nada.

Essa história da espiga não contou. Mas a do sitiante que tinha seus cachorros ela contou. E um deles mordeu dois dos filhos de Zezé. Ora, na casa de tio Neném tinha cachorros. Certo. Mas acho que, desta vez, não foram eles não.

Aí a encrenca cresceu. Que vai acertar contas, essas coisas, e o dono dos cachorros matou o que mordeu. Embora sem nada demais, uma mordida na altura do pulmão em Delacir, e uma dentadinha nas nádegas de Dinair, mas nada demais, estão vivos e sadios até hoje.

E o cara disse que sobrava uma bala para quem mais viesse resolver. Mas Zezé nessa época, já conta meu pai, estava agarrado com a Bíblia, virou um cara manso, decidido e corajoso, mas manso.

Mas conta que Dianair, muito bonita, como eram todas as filhas de Zezé, acho que minha avó era mistura de negra com índio, o que dizem, vocês que a conheceram? Não. Já falecera quando nascemos. 

Tarde em Itaocara: