sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Éfeso 1 - carentes de amor

   Logo de início, com esta carta, aprendamos uma imensidão de lições. Vamos enumerar, para facilitar a compreensão:

1. Há, nas cartas, especificidades a cada igreja, assim como lições que se aplicam a todas. Atenção, porque essas muito mais facilmente também vão se aplicar às igrejas atuais.

2. As sete cartas constituem-se num modelo que ensina sermos os responsáveis por avaliar as igrejas de hoje, evidentemente seguindo o manual, que é a Bíblia, onde estão as instruções de Jesus.

3. A Bíblia constitui-se num conjunto de livros inspirados por Deus. A parceria com os autores humanos permite que seja compreendida, tanto pelos destinatários da época dos autores, quanto para hoje em dia. Para isso, é necessário aplicar métodos e critérios humanos, quanto reconhecer a ação divina, por meio do Espírito Santo, para essa compreensão.

   Aplicado a Éfeso, destaca-se a principal reprovação de Jesus à igreja: haviam abandonado o primeiro amor. O mesmo apóstolo João já havia, em 1 João, indica o amor como essencial.

⁸ "Aquele que não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor." 1 João 4.

   Deus é amor, define Deus e define igreja. Então a primeira lição para todas as igrejas de todas as épocas é que o amor é especial. Amor define Deus e define igreja.

    Igreja somos os que cremos. Pedro apóstolo entendeu isso, a partir da afirmação de Jesus. Nunca foi ele, Pedro, a pedra, mas sim Jesus:

  ⁴ "Chegando-vos para ele, a pedra que vive, rejeitada, sim, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa, ⁵ também vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo." 1 Pedro 2.

   Portanto, somos nós que carecemos de aprender amor. E Paulo, exatamente à igreja de Éfeso, ensinou que o essencial à igreja é compreender e praticar amor. E assim, na própria linguagem deste apóstolo, ser "tomado de toda a plenitude de Deus".

¹⁷ "...e, assim, habite Cristo no vosso coração, pela fé, estando vós arraigados e alicerçados em amor, ¹⁸ a fim de poderdes compreender, com todos os santos, qual é a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade ¹⁹ e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus." Efésios 3.

   Compreender por que Éfeso, igreja que recebeu do apóstolo Paulo e, na época em que o Apocalipse havia sido escrito, certamente, havia preservado com ela a carta aos Efésios, que chegou até nós, quais então as razões que conduziram a igreja a abandonar o primeiro amor?  É Jesus dizendo:

⁴ "Tenho, porém, contra ti que abandonaste o teu primeiro amor. ⁵ Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras; e, se não, venho a ti e moverei do seu lugar o teu candeeiro, caso não te arrependas." Apocalipse 2.

    É tão grave que Jesus menciona como se fosse a retomada da própria conversão. Lembra de onde caiu, arrependa-se e retorne à prática do amor. O risco era Jesus mover o candeeiro, que pode significar perda total da identidade como igreja.

    Sem esquecer que Jesus está falando a nós, porque nós somos igreja. E que amor se aprende continuamente. Se a crise de Éfeso era tão crucial assim, qualquer igreja de qualquer época carece de, continuamente, crescer em amor. Para nunca afundar na crise de Éfeso. 

Igreja e o mi-mi-mi

  Os tempos de hoje são caprichosos. As pessoas estão cheias de vontades. Os desejos estão à flor da pele.  E os algoritmos, uma teia de contatos construída para adivinhar desejos, trafega na Internet para satisfazer.

    Tudo se afeta por essa nova receita. Não pensem que a igreja está fora dessa teia. Porque é feita por gente. E a gente toda está afetada por caprichos.  Caso agrade, acolhe-se, caso não, rejeita-se.

    Mas a igreja tem Autor, que é Jesus.  E tem manual, que é a Bíblia. Rejeitem-se Autor e manual, a igreja perde sua identidade. Pode se tornar noutra coisa que agrade, mas não será igreja.

   No final da Bíblia, o Apocalipse, o único livro profético do Novo Testamento, Jesus escreve 7 cartas a 7 diferentes igrejas. Elas são igrejas do século I. Nós estamos no século XXI, ou seja, há 2000 anos depois.

    Então, o que mudou e o que permanece, levando em conta a identidade da igreja? Afinal, qual a finalidade dela? A igreja se constitui somente de uma iniciativa humana, ou Jesus continua sendo Senhor dela?

    Qual a importância da igreja na vida humana? A que necessidades ela atende? Trata-se de algo vital e essencial, ou apenas opcional, eventual ou voluntarioso?

   As palavras de Jesus nas 7 cartas às 7 igrejas, no Apocalipse, referem-se às igrejas para lhes confirmar ou corrigir o rumo. Se aceitamos a Bíblia como manual das palavras do fundador, que é Jesus, essas cartas são essenciais para os dias atuais.

    A seguir, vamos examinar uma a uma, operando essa transposição. Diante das exigências da sociedade atual, que modelo de igreja, ao mesmo tempo, manteria sua identidade original, porém sem esfarelar-se frente ao mi-mi-mi de hoje, que exige uma igreja a sua imagem e semelhança.

   Com a palavra, Jesus, o especialista.

domingo, 11 de outubro de 2026

Aula de teologia nos 15 anos de Lorena

 ³ "Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração, prova-me e conhece os meus pensamentos; ²⁴ vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno." Salmos 139.

     O salmista começa com essa constatação. Deus sonda e conhece. Porque mal nos conhecemos.  E o que mais Deus deseja de nós é nossa intensidade de comunhão com ele.

   O que diz esse Salmo se aplica a cada ser humano.  Porque Deus conhece desde, e antes ainda, de sermos substância informe no seio de nossa mãe.

   E o futuro dirá se o reconhecimento da soberania de Deus como criador da vida será um dia reconhecido por esse ser ainda em formação.

    Porque sem fé, é impossível agradar a Deus. E todo assim engendrado para a vida carece da glória de Deus, carece crer e reconhecer, pela fé, que a vida é gesto de amor divino.

   Assim como cada um de nós, um dia Deus engendrou a Si mesmo no ventre de Maria. Como cada um de nós, Jesus nasceu, também reconhecido por Deus, engendrado no ventre de Sua mãe.

     E Jesus nasceu perfeito e sem pecado, para que fosse o nosso Salvador. O Deus que sonda e conhece o Filho, que por Si conhece tudo de Deus, oferece o Filho para nosso Salvador.

   O que Deus deseja é que sejamos pessoa constantemente nova. Que nos ofereçamos a Deus, como Jesus se oferece, em nosso lugar, para que sejamos, de glória em glória, transformados à imagem do Filho.

   As Escrituras mandam lembrar o que fomos antes de conhecer Jesus. Para termos advertência de que, sem a presença do Espírito Santo em nós, há o risco de termos nossa personalidade pervertida.

   Então, Deus, sonda-me e me faz conhecer. Quero Te conhecer, quero também me conhecer, para me prevenir de meus descaminhos, do que em mim pode ser engano, sedução mundana, para me afastar de Ti.

    Vê, Senhor, que (des)caminhos sou tentado(a) a seguir, porque não desejo, para mim, nenhum caminho longe, o mínimo, de Tua direção, para fazer a Tua vontade.

   Semeia, Senhor, no meu coração, e faz brotar, a 100/1 (cem por um) a Tua palavra. Desejo conhecê-la, cada vez mais, para por ela ser santidicado(a), sempre Te obedecendo, para somente ter prazer realizando a Tua vontade.

   Grato, Senhor, por acompanhar minha vida desde o ventre de minha mãe. Grato, por ter conhecido tão cedo, em minha vida, o Teu evangelho.  E grata, porque sei que meus dias serão escritos por Ti, na medida de minha fidelidade. 

sábado, 10 de outubro de 2026

Um sermão sem palavras

  Meu pai dizia que a morte é um sermão sem palavras.  O que, então, nos ensina? Primeiro, a dizer, "sermão", na linguagem comum, é algo indesejado. Alguém diria: "Lá vem você com esse sermão".

   Mas, ao invés do preconceito, importa o conteúdo. Qual o conteúdo do sermão? Porque será melhor ouvir, memorizar e praticar.

    Em se tratando de morte, como sermão, como dizia meu pai, não vai nada adiantar não querer ouvir, memorizar ou praticar, porque todos nós, todo dia, até o nosso próprio dia, cara a cara, deparamos a morte

    Hoje estive num enterramento. Triste como qualquer outro. Mas houve sermão. Por causa da história de Pio Santo Paganotto, seu nome.  Deixou marcas (ora, todos deixamos) que afetaram positiva e principalmente quatro mulheres.

   Esposa e três filhas, a princípio, porque há duas netas: Larissa e Luiza. E gravou também memória a demais familiares e amigos. Houve, sim, conteúdo neste sermão. Um dos amigos se lhe tornou patrão. Porque juntos, há uns 40 anos atrás, foram parceiros caminhoneiros.

   E muitas estradas andaram juntos. Foi muito tempo para andar juntos. Beto, como é conhecido, proprietário, em Rio Branco, AC, do café Contri, contou com lágrimas um resumo dessa caminhada, iniciada antes mesmo do nascimento das meninas Nayane e Cláudia, as duas mais novas de Pio.

    De como, certa vez, buscou Pio em Cuiabá, que havia fugido de um cativeiro, assaltado que fora, na carreta que conduzia. Se fossem contar os quilômetros rodados por Pio, daria no milhão.

   O patrão descreveu o cuidado com que Pio Santo, ora, talvez pelo nome, tratava seus caminhões como se fossem altares. Um dos seus chefes depõe que, ora, eu somente entrava descalço naquela cabine.

    Nenhum acidente. Nunca. Gercilene, a esposa, essa que acompanhou mais de perto todos esses caminhos, sem dúvida, a que mais reflete toda essa convivência. Lembro, há mais de 20 anos atrás, ela morando numa das transversais à principal rua do Tancredo Neves, eu e Regina visitando-a e compartilhando suas preocupações.

    Ainda faz parte do conteúdo deste sermão o casamento dos dois, na antevéspera de sua partida deste mundo. Sonho antigo, acalentado por todos esses anos de convivência.

   A capela do Santa Juliana, hospital de sua internação, superlotou e foram notícia no AC 24h, o jornal de mídia em Rio Branco, AC. Plena alegria, ainda que numa situação de apreensão, devido ao estado de saúde dele.

"Um paciente internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Santa Juliana, em Rio Branco, oficializou na tarde da terça-feira (6) a união de 40 anos com a companheira. A cerimônia ocorreu na capela da unidade hospitalar e reuniu familiares e profissionais de saúde [...] De acordo com o Santa Juliana, a celebração emocionou familiares e profissionais que acompanham a rotina do paciente na unidade." 


   Rutilene, sua filha mais velha, porque assim Pio considerava e acolhia essa sua enteada, não admitindo que não se referissem a ela de outro modo, e foi por um modo tocante que ela testemunhou, em nome de toda a família, do carinho e acolhimento dele no contexto do lar dessas quatro mulheres.

   O Pastor João Marcos leu em 2 Coríntios 1:

³ Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai de misericórdias e Deus de toda consolação! ⁴ É ele que nos conforta em toda a nossa tribulação, para podermos consolar os que estiverem em qualquer angústia, com a consolação com que nós mesmos somos contemplados por Deus."

   Este conteúdo consta no único Livro que afirma ter sido a morte vencida. Fala do consolo que Jesus, em Pessoa, representa. Entre as demais palavras ouvidas nesse dia, essa a que garante esperança de vitória sobre a morte, sem falta, a cada um dos vivos ali presentes. Basta crer em Jesus.

    Para sua família, pelo que ouvimos das filhas, Pio foi um herói. Embora ausente nas situações que, como caminhoneiro, a profissão exigia, as quatro mulheres o cercaram de toda consideração. A fé que a mãe de Gercilene, d. Lenita Fernandes Andrade Costa, transmitiu aos filhos, alcançou toda a família. Ela reside em Cruzeiro do Sul, a 680 km daqui, e mantém uma personalidade modelo de fé genuína.

    Permaneçamos firmes nesta fé. Certa vez, o próprio Jesus perguntou: ⁸ "Contudo, quando vier o Filho do Homem, achará, porventura, fé na terra?" Lucas 18. Essa pergunta Jesus não dirige aos que já não creem. Óbvio, a esses não se pergunta por fé.

     Pergunta-se aos que creem se, na verdade, um dia creram, se sua fé é real ou nunca foi, ao ponto de um dia perder esse arremedo de fé. Se é que já não se perdeu isso que, um dia, julgaram ter sido fé. 

       De todos os conteúdos desse sermão do dia, o último recado que Pio nos obrigou a ouvir, este, do conteúdo da fé, será a melhor herança. Porque se projeta para a vida eterna e não deixa esquecer que Jesus venceu a morte.

terça-feira, 6 de outubro de 2026

Deus tem, pelo menos, uma vocação

 ²³ "Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração, prova-me e conhece os meus pensamentos; ²⁴ vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno." Salmos 139.

   Ora, como se Deus já não tudo isso soubesse. O salmista termina este Salmo como começa. A diferença está no caráter inicial, de afirmação, e neste final, de súplica.  Afinal, que certezas tem o salmista sobre o assunto?

   Começa reconhecido que Deus optou por sondar e o conhecer. Desde substância informe, no ventre de sua mãe, antes disso, Deus tudo conheceu. E o curso de vida vivida, o que falta para diante, Deus também conhece e previu.

    ⁶ "Tal conhecimento é maravilhoso demais para mim: é sobremodo elevado, não o posso atingir." Salmos 139.

    Pelo meio do Salmo reflete sobre o grau dessa consciência sua sobre Deus: Deus se ocupa com minha vida. Não há como me esconder. Não há trevas que me ocultem ou que ocultem Deus de mim.

   Deus tem vocação por mim. Tal conhecimento é maravilhoso demais, é sobremodo elevado, não o posso atingir. O que, então, dizer? Que oração fazer? Que decisões, a curto, médio ou longo prazo?

   A samaritana perguntou a Jesus onde adorar? Jesus respondeu que o Pai é quem procura verdadeiros adoradores.  Paulo escreveu, na surpreendente carta aos Efésios, que podemos, aliás, devemos ser imitadores de Deus.

   Jesus, na oração sacerdotal, menciona que o Pai intenta repartir conosco Sua glória.  E que a igreja, não a instituição, em si, histórica que seja, ou nem um local, com GPS, mas a comunhão das pessoas, será o lugar geográfico dessa benção.

   Outro Salmo indica isso, o 133, uma síntese da aspiração divina em todo o Antigo Testamento, o lugar, o locus da benção. A Deus apraza a congregação. Somos refratários a ela. Em nós ainda prevalece o egoísmo.

    Ansiamos por reduzir a fé à nossa mesquinha compreensão. Deus põe no meio do caminho a igreja para que, continuamente, seja destruída a vocação pelo egoísmo e aprendamos amor.

   O Salmo 139 pode ser lido pela oração de Paulo, exatamente aos Efésios, pedindo que sejamos tomados de toda a plenitude de Deus. Porque Deus opta, conscientemente, por Sua vocação, e esta é o amor. 

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Enquanto isso

 É uma expressão generalizante. Porque "isso" é neutro, carece de especificação anterior. Enquanto "enquanto", conjunção temporal, exprime o que ocorre concomitante, ou seja, ao mesmo tempo que.

   Os profetas do AT dirigem-se, prioritariamente, ao povo eleito. Veja bem, essa história de eleito está detalhadamente explicada no Deuteronômio. Sem privilégios, a não ser esse de ser exatamente isso, ou seja, eleito.

   Enquanto isso, corre por fora o que ocorre entre todas as outras nações. Na verdade, generalizante, Deus escolhe todos e cada um. Para isso, porém, escolheu, como se fossem  cobaias dessa escolha, os judeus.

   Mas sem privilégios. Significa dizer que, não havendo correspondência à escolha de Deus, ou seja, uma vez reconhecidas intenção da escolha mas, da parte dos eleitos, ocorrer um "não estou nem aí", para a escolha de Deus, esta se anula.

   Isso quer dizer que Deus não escolhe quem não escolhe a Ele. Nunca ninguém será obrigado, pelo menos pelo próprio Deus, a ter com Ele comunhão.  Mas também nunca ninguém reduzirá Deus a um deus, ou seja, seu (da pessoa em questão) ídolo de estimação.

   Enquanto isso, nunca pense num Deus inativo. Muito do que acontece, enquanto isso, aqui embaixo, no planeta, de ruim, usualmente se quer culpar Deus pelo ocorrido.

   Esquecem ou, simplesmente, descreem do que, de bom, Deus efetua. E "viu Deus tudo quanto fez e eis muito bom". Mas o bom, ora, quem se empenha pelo bem?

   Deus não se aliena. Não é próprio dEle. Deus ama intensamente cada um. Em Atos, que Lucas magistralmente escreveu, há registros muito interessantes de conceitos teológicos agudos. Um deles segue abaixo:

¹⁷ "E contudo, [Deus] não se deixou a si mesmo sem testemunho, beneficiando-vos lá do céu, dando-nos chuvas e tempos frutíferos, enchendo de mantimento e de alegria os nossos corações." Atos 14.

    Deus não se deixa ficar sem testemunho. Deus beneficia toda a humanidade todo o tempo. Mas o que ocorre de ruim, há tendência no ser humano em atribuir a Deus. Uma espécie de vingança pelo fracasso seu, ou seja, pelo fracasso pessoal de cada um.

   Tiago também diz:
¹³ "Ninguém, sendo tentado, diga: De Deus sou tentado; porque Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta. ¹⁴ Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência". Tiago 1

   Nunca transfira a Deus a sua maldade, nem a maldade alheia. Deus não é culpado da maldade. Deus não se aliena. Enquanto isso, cada detalhe dessa história, da história de cada um, da história de todos, da história da humanidade está posto na conta de Deus. Para o bem. Mas, ora, quem se empenha pelo bem?

   

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Uma questão de competência

 ¹ "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus." João 1.

   João está no início de seu Evangelho. Começa alto, de onde antes nenhum outro evangelista pretendeu. E faz uma concessão à filosofia.

   Logos, no grego, traduzido Verbo, no vernáculo, para a filosofia antiga seria hoje equivalente a "design inteligente".

   Porque pressupõe-se, a partir da complexa configuração do universo, seja tanto macro, quanto microscopicamente, uma organização não aleatória.

    Daí João admitir, logo de início, em seu Evangelho, acolher a máxima filosófica de seu tempo, pois assim já propunha diálogo com seus ouvintes, assim como introduzia sua argumentação.

   Mas também logo João se afasta da filosofia.  Porque sua afirmação seguinte introduz uma polêmica que seria notória, em sua época, por introduzir (um) Deus. Então João, aqui, assemelha-se a Paulo, em Atenas.

   E afirmar que o Logos estava com Ele. Mas, como assim, estar? Pertencia, de antemão? Possuía-o? Era seu (de Deus) conselheiro, como o foi a sabedoria, na mentalidade do sábio, em Provérbios 8?

    Para logo então João cancelar a ideia de (um) Logos. Deus é Logos. Não existe Logos, existe tão somente Deus. Aqui João assume o que afirma Paulo em 2 Coríntios, ou seja, "conduzir cativo todo o pensamento à obediência de Cristo".

   Aqui a filosofia fica para trás, dando lugar ao específico da revelação, que vem por meio das Escrituras.  Não que a filosofia seja, de todo, nula. Não é, pois assim como ensina, também aprende.

   E o mesmo pode-se dizer da ciência. Esta tanto ensina, quanto aprende. O que tem a ciência a dizer sobre o ponto fundamental da fé? Vejamos o que diz Paulo:

¹³ E, se não há ressurreição de mortos, então, Cristo não ressuscitou. ¹⁴ E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã, a vossa fé". 1 Coríntios 15.

   O que tem a ciência a dizer sobre ressurreição? Ressurreição, por definição, é um milagre. Milagres pertencem, tão somente, ao âmbito de Deus. Somente Deus realiza milagres.

   E Deus autentificou o Filho concedendo-lHe que, em nome do Pai, realizasse milagres. Senão, vejamos:

²² "Varões israelitas, atendei a estas palavras: Jesus, o Nazareno, varão aprovado por Deus diante de vós com milagres, prodígios e sinais, os quais o próprio Deus realizou por intermédio dele entre vós, como vós mesmos sabeis, ²³ sendo este entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos; ²⁴ ao qual, porém, Deus ressuscitou, rompendo os grilhões da morte; porquanto não era possível fosse ele retido por ela." Atos 2.

   Esta longa citação acima a um só tempo afirma que os milagres realizados por Jesus autenticaram-no, como também afirma ter Deus ressuscitado o Filho.

   As Escrituras não são nem contra a filosofia, nem contra a ciência. Apenas é recomendável não sair, nenhuma das duas, do seu óbvio limite conceitual. 

     E que deixem com as Escrituras seus cacoetes, quais sejam, o que nem filosofia, nem ciência alcançam, por ser por demais sublime e inteiramente fora de sua (delas) competência.