sexta-feira, 8 de maio de 2026

Compreendendo vocação na Bíblia

 Tarefa: ler Êxodo 3 e 4; Números 14 e 15; Josué 1 e 24; Isaías 6; Jeremias 1; Ezequiel 1 a 3; Daniel 1.

Vocação na Bíblia é o chamado de Deus. Ela não se dirige somente, no Antigo testamento, a profetas e, no Novo Testamento, a apóstolos: mas a todo ser humano, homem e mulher. Aliás, Deus sair no jardim, lá no Gênesis, para chamar o casal, já se constituiu no primeiro chamado. Esse é o chamado a salvação e, portanto, para ser servos e dedicar a vida inteira ao senhor. Por isso, estudar o chamado dos profetas, nas Escrituras, constitui-se não desviar-se da finalidade do chamado que cada um de nós recebeu do Senhor.

1. O chamado de Moisés: modelo profético no Pentateuco

¹Apascentava Moisés o rebanho de Jetro, seu sogro, sacerdote de Midiã; e, levando o rebanho para o lado ocidental do deserto, chegou ao monte de Deus, a Horebe. ² Apareceu-lhe o Anjo do Senhor numa chama de fogo, no meio de uma sarça; Moisés olhou, e eis que a sarça ardia no fogo e a sarça não se consumia. ³ Então, disse consigo mesmo: Irei para lá e verei essa grande maravilha; por que a sarça não se queima? ⁴ Vendo o Senhor que ele se voltava para ver, Deus, do meio da sarça, o chamou e disse: Moisés! Moisés! Ele respondeu: Eis-me aqui!” Êxodo 3.

Aplicação: No caso de Moisés, houve uma sarça, planta desértica seca que se consome por combustão espontânea mas que, nesse caso, não se consumia. Mas o que interessava a Deus era que Moisés se voltasse para ver. Quando ouvimos o chamado de Deus, largamos tudo nesta vida, para nos voltarmos para ver. E, ao ouvir nosso nome, devemos dizer o que Moisés disse: “Eis-me aqui”. Hoje temos as Escrituras prontas, com os relatos desses chamados e, ao nosso redor, profetas que atenderam antes e nos exortam a atender Deus, quando somos chamados.

2. As relutâncias ao chamado

¹¹ “Então, disse Moisés a Deus: Quem sou eu para ir a Faraó e tirar do Egito os filhos de Israel? ¹² Deus lhe respondeu: Eu serei contigo; e este será o sinal de que eu te enviei: depois de haveres tirado o povo do Egito, servireis a Deus neste monte. ¹³ Disse Moisés a Deus: Eis que, quando eu vier aos filhos de Israel e lhes disser: O Deus de vossos pais me enviou a vós outros; e eles me perguntarem: Qual é o seu nome? Que lhes direi? ¹⁴ Disse Deus a Moisés: Eu Sou o Que Sou. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: Eu Sou me enviou a vós outros.” Êxodo 3.

Aplicação: O chamado profético é específico. Para Moisés, foi deslocar-se ao Egito, em seu tempo, para se constituir mediador entre Deus, o povo e Faraó. Para nós, constitui-se no sacerdócio no mundo, assim como na missão profética e apostólica da igreja. Somos sacerdotes, no mundo porque, como está em Hebreus, estamos “constituídos nas coisas concernentes a Deus, a favor dos homens”, Hb 5:1. Somos profetas porque, como diz Paulo, “principalmente que profetizeis”, 1 Co 14,1, que se constitui ser padrão de conduta, no mundo, segundo os valores de Deus; e apóstolos, como está em Mt 28,18-20, porque somos porta-vozes da mensagem, do ensino e da doutrina do reino de Deus.

3. A radicalidade do chamado

Estando Moisés no caminho, numa estalagem, encontrou-o o Senhor e o quis matar. ²⁵ Então, Zípora tomou uma pedra aguda, cortou o prepúcio de seu filho, lançou-o aos pés de Moisés e lhe disse: Sem dúvida, tu és para mim esposo sanguinário. ²⁶ Assim, o Senhor o deixou. Ela disse: Esposo sanguinário, por causa da circuncisão.” Êxodo 4.

Aplicação: Moisés não tinha outra opção. Na verdade, antes de atender ao chamado, estamos já mortos para Deus. Após atender ao chamado de Deus, estamos mortos para o mundo. Nada está acima do chamado. Neste caso pessoal de Moisés, nem sua esposa compreendeu a dimensão, responsabilidade e extensão do compromisso de Moisés com Deus. Por isso que, no caso da família, toda ela completa deve compreender, ao mesmo tempo, o que significa entregar a vida completa a Deus para cumprir Sua vocação. Que compreendam ainda antes de se casar, compartilhando os absolutos do chamado. Que eduquem os filhos, desde muito cedo, diante da prioridade diante do chamado. Desse modo, todos numa casa terão a chance de atender juntos.

4. O chamado de Josué

¹ “Sucedeu, depois da morte de Moisés, servo do Senhor, que este falou a Josué, filho de Num, servidor de Moisés, dizendo: ² Moisés, meu servo, é morto; dispõe-te, agora, passa este Jordão, tu e todo este povo, à terra que eu dou aos filhos de Israel. [...]Sê forte e corajoso, porque tu farás este povo herdar a terra que, sob juramento, prometi dar a seus pais. [...]Não cesses de falar deste Livro da Lei; antes, medita nele dia e noite, para que tenhas cuidado de fazer segundo tudo quanto nele está escrito; então, farás prosperar o teu caminho e serás bem-sucedido.” Josué 1.

Aplicação: Josué foi discípulo e servidor de Moisés, modelo profético do Pentateuco, que foi a Bíblia dos profetas do AT. Deus chama Josué e o exorta a ser corajoso, muito corajoso, para (1) meditar, (2) cumprir e (3) falar do “livro da lei”, a Bíblia de seu tempo. A fidelidade de Josué foi fundamental para essa fase do povo de Israel, por ser substituto de um líder do porte de Moisés, e por ser quem lidera a entrada do povo na terra prometida. Acompanhou o povo nos 40 anos de peregrinação no deserto, esteve presente no grupo de espias, que visitou a terra, escapando da rebelião do povo por intervenção direta de Deus. Um líder assim preparado se constitui num exemplo pronto para quem deseja ser servo, líder e referencial.

5. Quem foi Josué

“Disse o Senhor a Moisés: Toma Josué, filho de Num, homem em quem há o Espírito, e impõe-lhe as mãos; ¹⁹ apresenta-o perante Eleazar, o sacerdote, e perante toda a congregação; e dá-lhe, à vista deles, as tuas ordens. ²⁰ Põe sobre ele da tua autoridade, para que lhe obedeça toda a congregação dos filhos de Israel. [...] segundo a sua palavra, sairão e, segundo a sua palavra, entrarão, ele, e todos os filhos de Israel com ele, e toda a congregação. Números 27.

Aplicação: A presença de Josué, ao lado de Moisés, não foi apenas casual. A cada momento, ele aprendeu a liderar, foi fiel e recebeu do Senhor, por meio do Espírito, instrução. Esteve com Moisés desde a Aliança do Sinai, quando a lei do Senhor foi recebida, esteve ao lado na rebelião do bezerro de ouro, na rebelião à entrada da terra prometida, e em todas as outras estações do deserto. Circunstâncias boas ou ruins, em todas esteve Josué presente. Cada experiência de Moisés com Deus, refletiu na vida de Josué, por causa da proximidade dos dois. Josué honrou nele mesmo a presença do Espírito de Deus.

6.  Marca duradoura de uma herança abençoada

“Agora, pois, temei ao Senhor e servi-o com integridade e com fidelidade; deitai fora os deuses aos quais serviram vossos pais dalém do Eufrates e no Egito e servi ao Senhor. ¹⁵ Porém, se vos parece mal servir ao Senhor, escolhei, hoje, a quem sirvais: se aos deuses a quem serviram vossos pais que estavam dalém do Eufrates ou aos deuses dos amorreus em cuja terra habitais. Eu e a minha casa serviremos ao Senhor. [...] Serviu o povo ao Senhor todos os dias de Josué e todos os dias dos anciãos que ainda sobreviveram por muito tempo depois de Josué e que viram todas as grandes obras feitas pelo Senhor a Israel.” Josué 24/Juízes 2.

Aplicação: Bastava imitar a conduta de Josué. Geração após geração, a marca da personalidade, liderança e espiritualidade de Josué prevaleceram. Proximidade de Moisés, com quem aprendeu a ser servidor, enfrentamento de todas as provações pela fé, referência de testemunho pessoal, todas as virtudes reunidas tornaram Josué um líder pleno, em substituição a Moisés, sem que houvesse entre os dois uma falha ou falta de liderança sobre o povo de Deus. Ele e Calebe puseram em risco a sua vida, quando discordaram dos outros 10 espias, todos enganados quanto a sua avaliação da terra prometida. Pôde, ainda, colocar toda a sua família como modelo de conduta, sem que fosse contestado. Não seguir o exemplo de Josué, seria risco assumido de não seguir a vontade de Deus.

7. A vocação de Isaías: etapas na vida de todo vocacionado

¹ “No ano da morte do rei Uzias, eu vi o Senhor [...] ² Serafins estavam por cima dele; [...] ³ E clamavam uns para os outros, dizendo: Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória. [...] ⁵ Então, disse eu: ai de mim! Estou perdido! Porque sou homem de lábios impuros, habito no meio de um povo de impuros lábios, e os meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos! [...] ⁸ Depois disto, ouvi a voz do Senhor, que dizia: A quem enviarei, e quem há de ir por nós? Disse eu: eis-me aqui, envia-me a mim.” Isaías 6.

Aplicação: Sempre ocorre com quem Deus chama: (1) ver o Senhor; (2) ter consciência do seu pecado; (3) atender ao chamado. Deus se revela em Jesus, nas Escrituras constam os meios pelos quais Deus chama e o Espírito Santo confirma em nós o chamado. Também é por meio do Espírito que podemos afirmar que enxergamos, com nitidez, a vontade de Deus. E logo defrontamos o nosso pecado. Somente as Escrituras mencionam que ele existe. E somente Deus pode, por meio do sacrifício e sangue de Jesus, purificar-nos do pecado, santificando-nos, para então nos enviar em nome dEle. Cada etapa dessa se cumpre na vida de todo chamado.

8. A vocação de Jeremias: nunca é cedo, nunca é tarde, o tempo pertence a Deus

⁴ “A mim me veio, pois, a palavra do Senhor, dizendo: ⁵ Antes que eu te formasse no ventre materno, eu te conheci, e, antes que saísses da madre, te consagrei, e te constituí profeta às nações. ⁶ Então, lhe disse eu: ah! Senhor Deus! Eis que não sei falar, porque não passo de uma criança. ⁷ Mas o Senhor me disse: Não digas: Não passo de uma criança; porque a todos a quem eu te enviar irás; e tudo quanto eu te mandar falarás. ⁸ Não temas diante deles, porque eu sou contigo para te livrar, diz o Senhor. ⁹ Depois, estendeu o Senhor a mão, tocou-me na boca e o Senhor me disse: Eis que ponho na tua boca as minhas palavras.” Jeremias 1.

Aplicação: Nunca será cedo para o chamado. Podemos lembrar outro profeta, Samuel, entregue ao Senhor por sua mãe e chamado ainda um menino. Jeremias quis desculpar-se alegando ser tenro em idade. Na verdade, era tentativa de fuga, por isso foi repreendido pelo Senhor. A maturidade espiritual muitas vezes não acompanha a idade biológica. Josias foi feito rei ao 8 anos e, um adolescente, com 16 anos, buscava a palavra do Senhor. Samuel, já bem idoso, não foi ouvido pelo povo e Deus o consolou dizendo que o rejeitado não era ele, mas o próprio Deus. Mas a palavra posta na boca não é gesto mágico oi místico: é resultado de esforço pessoal em buscar a palavra, como Deus disse a Josué: medita, cumpre e fala. E meditar implica tempo com a Bíblia e estudo aplicado, contínuo e constante.

9. A vocação de Ezequiel: a glória do Senhor e a degustação do Livro.

Aconteceu no trigésimo ano, no quinto dia do quarto mês, que, estando eu no meio dos exilados, junto ao rio Quebar, se abriram os céus, e eu tive visões de Deus. ² [...] ³ veio expressamente a palavra do Senhor a Ezequiel, filho de Buzi, o sacerdote, na terra dos caldeus, junto ao rio Quebar, e ali esteve sobre ele a mão do Senhor. ⁴ Olhei, e e is que um vento tempestuoso vinha do Norte, e uma grande nuvem [...] ²⁷ Vi-a como metal brilhante, como fogo ao redor dela, desde os seus lombos e daí para cima; e desde os seus lombos e daí para baixo, vi-a como fogo e um resplendor ao redor dela. [...] Esta era a aparência da glória do Senhor [...] ⁸ Tu, ó filho do homem, ouve o que eu te digo, não te insurjas como a casa rebelde; abre a boca e come o que eu te dou.” Ezequiel ½.

Aplicação: Como Jeremias, Ezequiel foi um sacerdote fora de ofício. Enquanto jeremias assiste ao desastre da destruição de Jerusalém, em 586 a.C., Ezequiel profetiza na Babilônia. Sua condição no cativeiro na Babilônia, como se fosse um “êxodo ao contrário”, era de retorno à escravidão. Por isso, pela dimensão do trauma, Deus aparece a Ezequiel na forma de uma tremenda visão de Sua glória. Porque, como profetizara Jeremias, a glória do Senhor havia abandonado o Templo de Jerusalém, queimado e totalmente destruído, por causa da idolatria do povo. Ezequiel ensina que a glória do senhor segue os que lHe são fiéis, vai soerguer o povo em seu ministério, capacitado pela palavra que consta no livro, figurativamente devorado, que representou o seu preparo.

10. A vocação de Daniel, mais um profeta no tempo de crise no exílio

³ Disse o rei a Aspenaz, chefe dos seus eunucos, que trouxesse alguns dos filhos de Israel [...] Determinou-lhes o rei a ração diária, das finas iguarias da mesa real e do vinho que ele bebia, e que assim fossem mantidos por três anos [...] ⁶ Entre eles, se achavam, dos filhos de Judá, Daniel, Hananias, Misael e Azarias. [...] ⁸ Resolveu Daniel, firmemente, não contaminar-se com as finas iguarias do rei, nem com o vinho que ele bebia; então, pediu ao chefe dos eunucos que lhe permitisse não contaminar-se. ⁹ Ora, Deus concedeu a Daniel misericórdia e compreensão da parte do chefe dos eunucos. Daniel 1.

Aplicação: Daniel, como Ezequiel, será um profeta no exílio em Babilônia (região do atual Iraque/Irã). Foi para lá jovem, como seus três amigos, todos permanecendo fiéis ao Senhor. A resolução de Daniel não envolvia somente uma dieta alimentar ou não consumir vinho: mas afastamento dos costumes, da cultura e da religião da mesopotâmia. Sua vida e de seus três amigos esteve em risco, mas Deus os preservou. Com Daniel, aprendemos que estamos num mudo hostil aos valores do reino de Deus. Com sabedoria, devemos avaliar o que rejeitar e o que aceitar. Os padrões bíblicos não são regras legalistas, a ser impostas por modelo farisaico, simuladamente praticadas. Mas resultado da ação do Espírito no caráter, educado para acolher a vontade de Deus, exercendo-a no mundo como modelo de perfeição.

Conclusão: Para aprendermos o grau de responsabilidade em ser chamados por Deus, para viver neste mundo, segundo a sua vontade, precisamos compreender o que significa ser vocacionado. Às vezes pensamos que chamado é somente para pastores e missionários. Mas é para toda a igreja, sendo pastores e demais líderes o modelo desse chamado. Estudar a vida e os livros dos profetas, prepara a igreja para cumprir, no mundo, o seu ministério. Cada profeta foi modelo, em seu tempo, de pastor. E cada um deles anunciou a vinda de Jesus, este sim, o modelo por excelência de todos eles e nosso também.

A lógica de Jonas versus a lógica de Deus

Tarefa: ler todo o livro de Jonas.

Nínive, na Assíria, na época de Jonas, era capital do império e do mundo. Haviam riscado do mapa, em 722 a.C., o reino do norte de Israel, com extrema crueldade. Porque exilaram os habitantes de Samaria, a capital, e trouxeram estrangeiros que se misturaram aos restantes judeus que permaneceram na terra. Daí o preconceito contra samaritanos, nos dias de Jesus. Por isso também, será difícil convencer Jonas de que vai pregar arrependimento a ninivitas.

1. Fuga e aprendizado de Jonas

¹ "Veio a palavra do Senhor a Jonas, filho de Amitai, dizendo: ² Dispõe-te, vai à grande cidade de Nínive e clama contra ela, porque a sua malícia subiu até mim. ³ Jonas se dispôs, mas para fugir da presença do Senhor, para Társis”. Jonas 1.

Aplicação: Em toda a vocação profética, que é modelo da vocação do cristão, há relutância. O caso de Jonas é mais radical, porque não relutou, mas fugiu. A fuga é condição do homem (ou mulher) sem deus. Com Jonas, Deus o desafiava a amar, porque os assírios eram os mais odiáveis opressores da antiguidade: haviam destruído o reino do Norte, onde Jonas profetizava. Deus queria ensinar amor a Jonas. Sempre é necessário aprender a amar.

2. Graus de fuga em Jonas

“...e, tendo descido a Jope, achou um navio que ia para Társis; pagou, pois, a sua passagem e embarcou nele, para ir com eles para Társis, para longe da presença do Senhor.” Jonas 1.

Aplicação: Jonas poderia ter desistido, numa das etapas acima: achar navio, pagar passagem, embarcar, ir para longe da presença do Senhor. Será um processo depressivo, até chegar ao porão do navio. Mais do que fugir de qualquer problema, com Deus vale mais enfrentar, posicionando-se cara a cara com Deus. A solução de deus sempre será a melhor. E o problema de Jonas era muito sério: rejeitar ser um mensageiro de boas-novas de salvação.

3. Esquecido de Deus

“Então, os marinheiros, cheios de medo, clamavam cada um ao seu deus e lançavam ao mar a carga que estava no navio, para o aliviarem do peso dela. Jonas, porém, havia descido ao porão e se deitado; e dormia profundamente” Jonas 1.

Aplicação: Muito estranha a condição de um profeta, no fundo de um porão, em meio a uma brutal tempestade, dormindo profundamente, enquanto há muitos em desespero, clamando a seus deuses. Inverteu-se aqui o papel entre aquele que tinha fé e os que não tinham nenhuma. A condição de afastamento de Deus pode tornar até mesmo um profeta esquecido de Deus. Jonas mergulhou dentro de si, para fugir da tempestade interior: aprender amar a quem Deus amava e queria salvar, um povo que ele havia decidido odiar.

4. Testemunho ao inverso

“Chegou-se a ele o mestre do navio e lhe disse: Que se passa contigo? Agarrado no sono? Levanta-te, invoca o teu deus; talvez, assim, esse deus se lembre de nós, para que não pereçamos.” Jonas 1.

Aplicação: Jonas era autenticamente um profeta, por escolha de Deus, com ministério e tarefa previamente definidos. Mas estava sendo exortado por incrédulos, tão longe tentando posicionar-se. Era para que orasse. Diferente de outras vocações bíblicas, não houve altercações entre Jonas e Deus. Tinha um problema não resolvido, exatamente sobre o grau de amor pelos perdidos, que é uma prioridade em Deus. Lembramos os apóstolos no barco, em meio a outra tempestade, daquela vez acordando outro sonolento, que era Jesus. Que diferença brutal entre o sono de Jonas e o de Jesus!

5. O radicalismo em Jonas.

¹² “Respondeu-lhes: Tomai-me e lançai-me ao mar, e o mar se aquietará, porque eu sei que, por minha causa, vos sobreveio esta grande tempestade. Jonas 1.

Aplicação: A tempestade era mesmo específica e Jonas havia entendido isso. Mas a solução não era a fuga extrema da morte. A fuga de Jonas tornou-se uma depressão tão radical que ele pensou resolver dando cabo da própria vida. Mas Deus interveio, embora ele ainda não soubesse. Não há como fugir da presença de Deus. É sempre preferível obedecer, porque se trata de um gesto de amor. Jesus aprendeu a obedecer, por isso permaneceu continuamente no amor do Pai. Aprendemos com Jesus amor e obediência.

6. Conversão no navio de Jonas

Então, clamaram ao Senhor e disseram: Ah! Senhor! Rogamos-te que não pereçamos por causa da vida deste homem, e não faças cair sobre nós este sangue, quanto a nós, inocente; porque tu, Senhor, fizeste como te aprouve. E levantaram a Jonas e o lançaram ao mar; e cessou o mar da sua fúria. ¹⁶ Temeram, pois, estes homens em extremo ao Senhor; e ofereceram sacrifícios ao Senhor e fizeram votos”. Jonas 1.

Aplicação: Houve conversão no navio. Os homens que clamavam, cada um ao seu Deus, agora clamaram ao Senhor. Reconheceram a providência, mas também a disciplina de Deus, por isso temeram o nome dEle. Ofereceram sacrifícios e fizeram votos ao Senhor. Ainda que covarde e falho em seu testemunho, a tripulação do navio reconheceu que o Deus de Jonas, o fujão, era Senhor da natureza e havia sido ele que fizera retroceder a tempestade. E mais ainda devem ter se impressionado com a sorte de Jonas.

7. Jesus e Jonas: quando a história reproduz história

“Deparou o Senhor um grande peixe, para que tragasse a Jonas; e esteve Jonas três dias e três noites no ventre do peixe.” Jonas 1.

Aplicação: Quando te preguntarem se você acredita na Bíblia, que afirma ter um profeta permanecido três dias e três noites no ventre de um peixe, replique que, mais do nesta história, você acredita no defunto que ressuscitou no terceiro dia, e que o nome dEle é Jesus. Acreditar (ou não) na história de Jonas, não garante a salvação de ninguém (nem de Jonas). Mas crer em Jesus, o defunto que deixou o túmulo na madrugada do terceiro dia, garante a mesma ressurreição dEle e nEle e salvação eterna.

8. A oração de Jonas

Na minha angústia, clamei ao Senhor, e ele me respondeu; do ventre do abismo, gritei, e tu me ouviste a voz. [...] Quando, dentro de mim, desfalecia a minha alma, eu me lembrei do Senhor; e subiu a ti a minha oração, no teu santo templo. [...]Mas, com a voz do agradecimento, eu te oferecerei sacrifício; o que votei pagarei. Ao Senhor pertence a salvação! Falou, pois, o Senhor ao peixe, e este vomitou a Jonas na terra.” Jonas 2.

Aplicação: Em sua oração, Jonas reconhece que Deus atende na aflição, que devemos lembrar do Senhor quando nossa alma, por alguma razão, desfalece e, no aperto, Jonas afirma que pagará o voto que, no caso, seria atender ao chamado profético. Ainda contrariado, viu-se vomitado numa praia e se dirigiu a Nínive. Vai proclamar a mensagem de arrependimento, ainda sem compreender a extensão do perdão e o amor como essencial.

9. Avivamento na capital da Assíria

“Veio a palavra do Senhor, segunda vez, a Jonas, dizendo: ² Dispõe-te, vai à grande cidade de Nínive e proclama contra ela a mensagem que eu te digo. ³ Levantou-se, pois, Jonas e foi a Nínive, segundo a palavra do Senhor. Ora, Nínive era cidade mui importante diante de Deus e de três dias para percorrê-la. ⁴ Começou Jonas a percorrer a cidade caminho de um dia, e pregava, e dizia: Ainda quarenta dias, e Nínive será subvertida. Os ninivitas creram em Deus, e proclamaram um jejum, e vestiram-se de panos de saco, desde o maior até o menor.” Jonas 3.

Aplicação: Jonas precisava aprender que não se generaliza ódio. Havia em Nínive gente de Deus, como disse o Senhor a Paulo, em relação a Corinto, muitos anos depois. O dilema de Jonas era tão crítico que, além de não querer pregar, talvez tenha sido o único pregador que não se alegrou com o resultado estupendo de sua pregação. Deus quis ensinar a seu profeta confrontando-o diretamente com esse desafio. A escolha de Deus é mais determinante do que a nossa própria: talvez não escolhêssemos Jonas pata profeta, mas a vocação de Deus é incondicional. A maior lição de amor é assistir à conversão do outro, diante dos próprios olhos.

10. A ira de Jonas diante do amor de Deus.

“Viu Deus o que fizeram, como se converteram do seu mau caminho; e Deus se arrependeu do mal que tinha dito lhes faria e não o fez. Com isso, desgostou-se Jonas extremamente e ficou irado.” Jonas 3/4.

Aplicação: Os sentimentos de deus não são os nossos. Aprendemos com Des a ser bons. Perdoar como deus perdoa e amar como Deus ama é aprendizado permanente. Somos seletivos no amor, escolhendo a quem amar, enquanto Deus ama o mundo. A voda de comunhão com Deus é um constante aprendizado do amor. Por isso, propositalmente, deus escolheu Jonas, a quem conhecia sobejamente, exatamente para que, diante de uma linda história de conversão de toda uma cidade, pidesse ensinar-lhe a amar e a perdoar.

11. O que Jonas não sabia

² E orou ao Senhor e disse: Ah! Senhor! Não foi isso o que eu disse, estando ainda na minha terra? Por isso, me adiantei, fugindo para Társis, pois sabia que és Deus clemente, e misericordioso, e tardio em irar-se, e grande em benignidade, e que te arrependes do mal.

Aplicação: Parece que Jonas não ouvia sua própria oração. Como (des)aprendemos com a gente mesmo. Na verdade, Jonas não sabia o que era ser clemente, misericordioso e tardio em irar-se. Vamos sempre nos surpreender, sempre que defrontarmos o amor de Deus. Porque Deus oferece, contra a maldade humana, em todos os sentidos, contra o ódio humano e contra a injustiça humana o Seu amor. E vai parecer também que não olhamos para nós mesmos. Também faltou a Jonas avaliar a si mesmo: como alguém que foi alcançado pela misericórdia de Deus, a ponto de ser por Deus qualificado profeta, surpreende a si mesmo cheio de ódio no coração?

12. A lógica de Jonas e a lógica de Deus

Então, perguntou Deus a Jonas: É razoável essa tua ira por causa da planta? Ele respondeu: É razoável a minha ira até à morte. ¹⁰ Tornou o Senhor: Tens compaixão da planta que te não custou trabalho, a qual não fizeste crescer, que numa noite nasceu e numa noite pereceu; ¹¹ e não hei de eu ter compaixão da grande cidade de Nínive, em que há mais de cento e vinte mil pessoas, que não sabem discernir entre a mão direita e a mão esquerda, e também muitos animais? Jonas 4.

Aplicação: Nossa lógica não é a lógica de Deus, porque Deus é amor. Aqui podemos lembrar o diálogo de Jesus com o jovem rico: por que me chamas bom? Deus é bom, não somos bons, por natureza. Jonas estava aprendendo isso com Deus. Como afirma Paulo, é a bondade de Deus, e não a nossa, que nos conduz ao arrependimento. Aqui Jonas quis, pela segunda vez, morre, inconformado com o amor de Deus. Termina o livrinho de Jonas, e não sabemos se ele aprendeu. A síndrome de Jonas significa dar mais importância ao mínimo, uma planta que murcha, do que ao máximo, a morte de mais de 120 mil pessoas. Muito cuidado, para todos nós, não esconder tão no íntimo uma lógica tão distorcida.

Conclusão: É importante não distanciar Jonas como um profeta assim tão estranho. Porque o dilema interno de sua personalidade sempre será semelhante ao nosso: qual o grau de amor interno em nós? Sempre aprendemos amor. Sempre aprendemos bondade. Sempre aprendemos amor e bondade com Deus. Quando Paulo recomenda que tenhamos em nós o mesmo sentimento que houve em Jesus, é porque Jesus aprendeu com Deus, o Pai, a ter esse sentimento. Como diz o autor de Hebreus, jesus aprendeu a obedecer (e pelo que sofreu). Obedecer, para pecadores, é dolorido, mas para convertidos, é difícil, porém prazeroso. Jonas foi surpreendido por não achar em si mesmo o sentimento de Deus.

sábado, 2 de maio de 2026

A rainha Ester

  Tarefa: ler todo o livro de Ester.

  A história de Ester, a judia anônima do exílio que se tornou rainha da Pérsia, cerca de 482-478 a.C., revela o modo como Deus age, por meio de Sua providência, sem que seus desígnios sejam frustrados. E, para isso, lança mão de servos fiéis que, exercendo sua fé, deixam-se conduzir sob Sua benéfica vontade.

1. Banquetes do Oriente Antigo

¹ Nos dias de Assuero, o Assuero que reinou, desde a Índia até à Etiópia, sobre cento e vinte e sete províncias [...] ² no trono do seu reino, que está na cidadela de Susã, ³ no terceiro ano de seu reinado, deu um banquete [...] no qual se representou o escol da Pérsia e Média, e os nobres e príncipes das províncias estavam perante ele." Ester 1.

Aplicação: Na Antiguidade, operava-se o inverso, o Oriente era riquíssimo e o Ocidente paupérrimo. Os Medo-Persas, em aliança, haviam vencido os babilônios e, no ano 536 a.C. haviam libertado para Jerusalém o povo de Israel cativo. A história de Ester ocorre com o remanescente que escolheu permanecer na Mesopotâmia. 

2. Vasti, uma feminista fora de hora

¹⁰ Ao sétimo dia, estando já o coração do rei alegre do vinho, mandou [...] os sete eunucos [...] ¹¹ que introduzissem à presença do rei a rainha Vasti [...] para mostrar aos povos e aos príncipes a formosura dela [...] ¹² Porém a rainha Vasti recusou vir por intermédio dos eunucos, segundo a palavra do rei; pelo que o rei muito se enfureceu e se inflamou de ira." Ester 1.

Aplicação: Olhando de nossa época, para trás, vamos dizer, ora, Vasti não se prestava a ser objeto da vaidade de um rei beberrão. Mas olhando de lá, para cá, o fato de ser rei, cercado por centenas de homens prepotentes e machistas, levando em consideração também a volatilidade da condição de rainha, naqueles dias, Vasti adiantou-se muito em seus direitos.

3. Um concurso de beleza

"Então, disseram os jovens do rei, que lhe serviam: Tragam-se moças para o rei, virgens de boa aparência e formosura. [...] ⁴ A moça que cair no agrado do rei, essa reine em lugar de Vasti. [...] na cidadela de Susã havia certo homem judeu, benjamita, chamado Mordecai [...] que fora transportado de Jerusalém com os exilados que foram deportados com Jeconias [...] ⁷ Ele criara a Hadassa, que é Ester, filha de seu tio [...] e era jovem bela, de boa aparência e formosura. [...] Mordecai a tomara por filha [...] ⁸levaram também Ester à casa do rei, sob os cuidados de Hegai, guarda das mulheres. ⁹ A moça lhe pareceu formosa e alcançou favor perante ele". Ester 2.

Aplicação: O rei da Pérsia escolhe Ester, não por acaso. Vamos constatar que a providência de Deus para com Seu povo não cochila. Uma exilada, cativa e residente distante de sua terra vai superar todas as outras candidatas, certamente muitas delas persas de origem. Também vai se revelar o contexto de onde ela provém, origem da educação recebida do primo que a tomou por filha. A fé que compartilharam os preparou para uma tamanha vocação que logo se vai revelar. 

4. A virtude de Ester em destaque 

¹⁷ "O rei amou a Ester mais do que a todas as mulheres, e ela alcançou perante ele favor e benevolência mais do que todas as virgens; o rei pôs-lhe na cabeça a coroa real e a fez rainha em lugar de Vasti." Ester 2.

Aplicação: Pode-se dizer que um rei do porte deste seria volúvel em seu amor. Mas Ester vai se destacar por sua sabedoria. Portanto, o rei, mesmo sem que o soubesse, amou a pessoa certa. E ainda sem o saber, a providência de Deus operava a seu favor, assim como a favor de Ester e todo o seu povo. Ester, por sua fé e vocação, ainda que, a essa altura, não plenamente percebida, habilitava-a para cumprir plenamente a vontade de Deus.

5. Mordecai e sua postura decisiva

²¹ "Naqueles dias, estando Mordecai sentado à porta do rei, dois eunucos do rei, dos guardas da porta, Bigtã e Teres, sobremodo se indignaram e tramaram atentar contra o rei Assuero. ²² Veio isso ao conhecimento de Mordecai, que o revelou à rainha Ester, e Ester o disse ao rei, em nome de Mordecai. ²³ Investigou-se o caso, e era fato; e ambos foram pendurados numa forca. Isso foi escrito no Livro das Crônicas, perante o rei." Ester 2.

Aplicação: Servos fiéis, bem amadurecidos e atentos, onde estiverem podem ser usados por Deus.  A posição de Mordecai era estratégica, ao mesmo tempo próximo a Ester, com percepção aguçada sobre a notícia dos fatos ao redor, nos bastidores da corte, e nunca alheio ao propósito de Deus. Houve, deste modo, um ensaio inicial da articulação, por meio da sintonia entre Mordecai, Ester e o próprio rei, que será o instrumento da providência de Deus para preservar todo o povo. A memória deste livramento será decisiva. Aguardem. 

6. Hamã, escolha equivocada do rei

¹ "Depois destas coisas, o rei Assuero engrandeceu a Hamã, filho de Hamedata, agagita, e o exaltou, e lhe pôs o trono acima de todos os príncipes que estavam com ele. ² Todos os servos do rei, que estavam à porta do rei, se inclinavam e se prostravam perante Hamã; porque assim tinha ordenado o rei a respeito dele. Mordecai, porém, não se inclinava, nem se prostrava." Ester 3.

Aplicação: Se foi sábia, para Assuero, a escolha de Ester como rainha, não foi a do "primeiro ministro". Logo vai se revelar mestre de intrigas. Dele será a ideia de subverter todos os judeus. Para não se dobrar perante ele, Mordecai se revela judeu. Esse detalhe Hamã vai usar para generalizar maldade contra todos os judeus. Deus em sua providência cercou o rei persa de duas personalidades decisivas: servos fiéis do Senhor são referencial em qualquer lugar ou condição. 

7. A perseguição ao povo de Deus

⁸ "Então, disse Hamã ao rei Assuero: Existe espalhado, disperso entre os povos em todas as províncias do teu reino, um povo cujas leis são diferentes das leis de todos os povos e que não cumpre as do rei; pelo que não convém ao rei tolerá-lo. ⁹ Se bem parecer ao rei, decrete-se que sejam mortos, e, nas próprias mãos dos que executarem a obra, eu pesarei dez mil talentos de prata para que entrem nos tesouros do rei." Ester 3.

Aplicação: O povo de Deus sempre será perseguido. Jesus garantiu aos apóstolos que haveria ódio contra eles, por extensão, contra a igreja. Aqui, a calúnia de um líder perverso, com desvio de personalidade, muito próximo ao rei típico de seu tempo, facilmente influenciável, fomenta intriga e obtém autorização para exterminar os israelitas. E uma ordem expedida pelo monarca persa seria irredutível. 

8. Mordecai clama, solidariza-se e avisa Ester

¹ "Quando soube Mordecai tudo quanto se havia passado, rasgou as suas vestes, e se cobriu de pano de saco e de cinza, e, saindo pela cidade, clamou com grande e amargo clamor [...] ³ Em todas as províncias aonde chegava a palavra do rei e a sua lei, havia entre os judeus grande luto, com jejum, e choro, e lamentação [...] Então, vieram as servas de Ester e os eunucos e fizeram-na saber [...] e mandou roupas para vestir a Mordecai e tirar-lhe o pano de saco; porém ele não as aceitou. Então, Ester chamou a Hataque [...] e lhe ordenou que fosse a Mordecai para saber que era aquilo [...] Mordecai lhe fez saber tudo quanto lhe tinha sucedido". Ester 4.

Aplicação: Para testemunho legítimo da fé em Deus não se precisa mencionar (ou escrever) o nome dEle, decorar um credo ou explicar doutrinas. Basta agir. Assim procedeu Mordecai. Suas atitudes, por si, solidárias com a de seu povo, em todas as aldeolas ao redor, indicavam a fé no Deus que não é nem mencionado, por escrito, no livro de Ester, mas reconhecido por testemunho coerente de fé. Começa a prevalecer a conduta fiel de Mordecai e sua influência positiva, na vida da rainha, a filha que adotara, a quem sempre aconselhou, até ela chegar neste lugar onde Deus a colocou.

9. A exata intenção de uma vocação 

¹⁰ Então, respondeu Ester a Hataque e mandou-lhe dizer a Mordecai: ¹¹ Todos os servos do rei e o povo das províncias do rei sabem que, [...quem] sem ser chamado, entrar no pátio interior para avistar-se com o rei, não há senão uma sentença, a de morte [...] e eu, nestes trinta dias, não fui chamada para entrar ao rei. ¹² [...] ¹³ Então, lhes disse Mordecai[...]: Não imagines que, por estares na casa do rei, só tu escaparás entre todos os judeus. ¹⁴ Porque, se de todo te calares agora, de outra parte se levantará para os judeus socorro e livramento, mas tu e a casa de teu pai perecereis; e quem sabe se para conjuntura como esta é que foste elevada a rainha? Ester 4.

Aplicação: Mordecai fala na posição de autoridade, como conselheiro de Ester desde sempre, exortando-a a uma resposta de fé. A vocação para agir segundo o chamado de Deus é permanente e geral a todos os que creem. E a posição de Ester, como rainha da Pérsia, não foi casual, não mero capricho do rei ou destaque de um concurso de beleza: porém, um chamado específico do Senhor. Todos os que creem devem viver de modo digno, condizente e na plenitude desse chamado, prontos a ser usados por Deus a Seu serviço.

10. A decisão correta diante de Deus

¹⁵ "Então, disse Ester que respondessem a Mordecai: ¹⁶ Vai, ajunta a todos os judeus que se acharem em Susã, e jejuai por mim, e não comais, nem bebais por três dias, nem de noite nem de dia; eu e as minhas servas também jejuaremos. Depois, irei ter com o rei, ainda que é contra a lei; se perecer, pereci. ¹⁷ Então, se foi Mordecai e tudo fez segundo Ester lhe havia ordenado." Ester 4.

Aplicação: Mordecai e Ester mantiveram comunhão entre si e com Deus. O que traziam em maturidade, de sua vida com Deus, agora punham em prática no exílio. Observem que Ester, jejuando com suas servas, tornava exposto e seria divulgado o testemunho de sua fé no palácio, ambiente que se tornará hostil. E o que se segue no coração e nas atitudes de Mordecai e sua filha tornou-se expressão da sabedoria de Deus. Aqueles que vivem por fé, em fidelidade e comunhão, sempre haverão de agir e manifestar, em sua vida pessoal e coletiva, a decisão, vontade e sabedoria de Deus, deixando-se conduzir por Sua providência.

11. O estratagema de Ester

² "Quando o rei viu a rainha Ester parada no pátio, alcançou ela favor perante ele; estendeu o rei para Ester o cetro de ouro que tinha na mão; Ester se chegou e tocou a ponta do cetro. ³ Então, lhe disse o rei: Que é o que tens, rainha Ester, ou qual é a tua petição? Até metade do reino se te dará. ⁴ Respondeu Ester: Se bem te parecer, venha o rei e Hamã, hoje, ao banquete que eu preparei ao rei." Ester 5.

Aplicação: Mais do que o favor do rei, Ester alcançou a graça de Deus. O alerta de Mordecai, a intercessão em jejum e oração dele, dela e todo o povo, predispõe para que a graça de Deus se manifeste. Com sabedoria, ela vai agendar dois banquetes: no primeiro, atiça a curiosidade do rei e a vaidade de Hamã. No segundo, vai denunciar o inimigo deles todos, clamando por clemência ao rei e por justiça e punição ao intrigante.

12. Nesse meio tempo, a insônia do rei

¹ "Naquela noite, o rei não pôde dormir; então, mandou trazer o Livro dos Feitos Memoráveis, e nele se leu diante do rei. ² Achou-se escrito que Mordecai é quem havia denunciado a Bigtã e a Teres, os dois eunucos do rei, guardas da porta, que tinham procurado matar o rei Assuero. ³ Então, disse o rei: Que honras e distinções se deram a Mordecai por isso? Nada lhe foi conferido, responderam os servos do rei que o serviam." Ester 6.

Aplicação: Muito aprendemos com insônias. E no livro de Ester, a cada passo, percebemos na entrelinhas o agir de Deus. Desta vez, numa insônia que revela a Assuero (Xerxes I, nos livros de história) que faltava honrar Mordecai, por sua sagacidade em perceber conspiração na atitude dos funcionários do palácio. E o rei vai se revelar perspicaz, no dia seguinte, quase que de propósito justamente perguntando a Hamã o que fazer para, de modo justo, honrar a quem merece.

13. Ironia na conduta planejada pelo algoz

¹¹ "Hamã tomou as vestes e o cavalo, vestiu a Mordecai, e o levou a cavalo pela praça da cidade, e apregoou diante dele: Assim se faz ao homem a quem o rei deseja honrar. ¹² Depois disto, Mordecai voltou para a porta do rei; porém Hamã se retirou correndo para casa, angustiado e de cabeça coberta. ¹³ Contou Hamã a Zeres, sua mulher, e a todos os seus amigos tudo quanto lhe tinha sucedido. Então, os seus sábios e Zeres, sua mulher, lhe disseram: Se Mordecai, perante o qual já começaste a cair, é da descendência dos judeus, não prevalecerás contra ele; antes, certamente, cairás diante dele." Ester 6.

Aplicação: Zeres, esposa de Hamã, não estava prognosticando, mas analisando com sabedoria os fatos. Hamã sugeriu enaltecer quem merecia, julgando ser ele mesmo. O rei ordenou que agisse, exatamente dessa forma com... Mordecai. Teve, então, de ser assim. E quanto a Mordecai, em nenhum momento se elevou, permanecendo na condição de servo fiel ao seu (anônimo, no livro) Deus: sempre sentado à porta do rei, humilde, atento, tanto à conspiração dos eunucos, quanto à intriga de Hamã, e intercessor com o povo em toda a crise e conselheiro presente e certeiro da rainha Ester. O servo fiel do Senhor a tudo sempre está pronto.

14. A denúncia do segundo banquete 

² No segundo dia, durante o banquete do vinho, disse o rei a Ester: Qual é a tua petição, rainha Ester? E se te dará. Que desejas? [...] ³ Então, respondeu a rainha Ester e disse: [...] dê-se-me por minha petição a minha vida, e, pelo meu desejo, a vida do meu povo. ⁴ Porque fomos vendidos, eu e o meu povo, para nos destruírem, matarem e aniquilarem de vez [...] ⁵ Então, falou o rei Assuero e disse à rainha Ester: Quem é esse e onde está esse cujo coração o instigou a fazer assim? ⁶ Respondeu Ester: O adversário e inimigo é este mau Hamã. Então, Hamã se perturbou perante o rei e a rainha." Ester 7.

Aplicação: Ester, sábia e virtuosa, por seu suspense planejado no banquete de duas etapas, aguçou a curiosidade do rei, efetivando a denúncia. Também rainha em retórica, explicita que, tanto sua vida, quanto a de seu povo foram condenadas por Hamã. Este será flagrado por Asuero, aos pés de Ester, covardemente suplicando clemência. Mas será enforcado no patíbulo que havia erguido para Mordecai. O rei, não podendo revogar o decreto emitido, manda armar os judeus em todas as províncias. E os que se revelaram seus inimigos, foram derrotados. Mordecai ocupou a função do intriguento, os judeus venceram seus inimigos e instituiu-se a Festa do Purim, em ações de graça pelo livramento.

Conclusão: Num tempo distante, ainda no país do exílio, levantou-se contra os judeus restantes um inimigo que os quis exterminar. Deus, em sua providência, deparou servos seus maduros, fiéis e diligentes em sua fé. Apenas por meio de seu procedimento, marcaram decisivamente a história de seu povo e do reino da Pérsia. Mordecai, estratégico nos bastidores do palácio, intercepta uma conspiração. Ester, ao inverso do feminismo inoportuno de Vasti, foi mansa e sábia, honrando o rei, desmascarando o inimigo e sendo usada por Deus na salvação de seu povo. Este o valor de servos fiéis, maduros na fé, sábios e perseverantes em oração. 

A história de Boaz e Rute

Tarefa: ler todo o livro de Rute

  Uma mulher moabita, descendente de um povo que surge a partir de um incesto das filhas do Ló, com o próprio pai, fará parte da genealogia de Jesus, como bisavó do rei Davi, demonstrando que não deve haver preconceito contra ninguém, nenhuma gente ou povo, porque a fé, o arrependimento e a salvação são para todo povo, tribo, língua e nação. 

1. Voto e conversão de Rute, a moabita.

¹⁶ "Disse, porém, Rute: Não me instes para que te deixe e me obrigue a não seguir-te; porque, aonde quer que fores, irei eu e, onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus." Rute 1.

Aplicação: Inesperado para Noemi, o argumento irredutível de Rute não foi apenas por simpatia com a condição de sua sogra, que perdera, ao mesmo tempo, o esposo e os dois filhos. Mas era conversão ao Deus de Israel. Não foi uma decisão fácil para Rute, mas foi a radical escolha, como é toda e qualquer conversão, esta a maior e definitiva bênção. João 6,39-40; Fp 3,8-9.

2. Mágoa e ressentimento de Noemi

²¹ "Ditosa eu parti, porém o Senhor me fez voltar pobre; por que, pois, me chamareis Noemi, visto que o Senhor se manifestou contra mim e o Todo-Poderoso me tem afligido?" Rt 1.

Aplicação: Não é da natureza de Deus posicionar-se contra ninguém, nem mesmo afligir. Deus se posiciona contra o pecado. Aflição é consequência do pecado. Noemi foi surpreendida pela tragédia e estava depressiva. Sofrimento, maldade e injustiça, que decorrem da condição humana de pecado, podem até alcançar crentes fiéis. Deus ama o ser humano, ofertar a cura do pecado e esperar para ter misericórdia.  Rm 1,18-19; Is 30,18.

3. A providência de Deus sobre a vida de Rute

⁵ "Depois, perguntou Boaz ao servo encarregado dos segadores: De quem é esta moça? ⁶ Respondeu-lhe o servo: Esta é a moça moabita que veio com Noemi da terra de Moabe. Rt 2.

Aplicação: A fé nos coloca, definitivamente, sob os cuidados de Deus. A vida de Rute não mais estaria entregue às escolhas fortuitas, mas aos cuidados da providência de Deus. A fama de sua opção pelo Deus de Israel, assim como seu acolhimento por Boaz, servo fiel do Senhor, garantem para esse encontro bênçãos permanentes. Rute (e Boaz) pertenciam ao Senhor. Dt 30,19-20; 2 Co 5,17.

4. Rute e Boaz reúnem virtudes da fidelidade 

¹¹ "Respondeu Boaz e lhe disse: Bem me contaram tudo quanto fizeste a tua sogra, depois da morte de teu marido, e como deixaste a teu pai, e a tua mãe, e a terra onde nasceste e vieste para um povo que dantes não conhecias." Rute 2.

Aplicação: Rute e Boaz, quando se encontram, não são como dois estranhos, mas identificam-se pelas virtudes que adquirem como fruto de sua vida com Deus. Marcam a vida dos dois decisões fruto de amor. Por isso a vida deles combina, antes de tudo, pela maturidade espiritual, resultado das escolhas feitas a partir da expressa vontade de Deus em suas vidas. Sl 37,3-6; Fp 4,8-9.

5. Comunhão, acolhimento e proteção 

¹⁴ "À hora de comer, Boaz lhe disse: Achega-te para aqui, e come do pão, e molha no vinho o teu bocado. Ela se assentou ao lado dos segadores, e ele lhe deu grãos tostados de cereais; ela comeu e se fartou, e ainda lhe sobejou." Rute 2. 

Aplicação:Boaz, na refeição a que convidou Rute, confirmou em Deus a comunhão deles dois. Foi uma mini páscoa, com pão e vinho: quem, na última noite no Egito, a noite da primeira Páscoa, estava dentro da casa, mantinha comunhão, acolhimento e a proteção do sangue do cordeiro, esta a profecia mais decisiva do Antigo Testamento, porque aponta para Jesus, o Cordeiro de Deus.  A casa representa a igreja de Cristo, lugar de batismo e comunhão em Jesus, pelo Espírito, onde estão os que foram lavados no sangue dEle. Ef 2,11-13. Hb 10,19-22.

6. Noemi e a felicidade de Rute

¹ "Disse-lhe Noemi, sua sogra: Minha filha, não hei de eu buscar-te um lar, para que sejas feliz?" Rute 3.

Aplicação: Quem disse que por pura pretensão se alcança um lar feliz? Noemi não pretendia, para Rute, um lar ou casamento aleatório, por palpite e risco. Mas por ação de Deus, visando reunir duas pessoas de porte e maturidade espirituais condizentes. Boaz e Rute passaram no teste. Não basta, apenas, pretender um lar, por formalidade e protocolo, mas buscar em Deus os fundamentos de lar e família duradouros, uma casa sobre a rocha. Mt 7,24-25. Josué 24,14-15.

7. Boaz, resgatador de Rute

"Disse ele: Quem és tu? Ela respondeu: Sou Rute, tua serva; estende a tua capa sobre a tua serva, porque tu és resgatador." Rute 3:9.

Aplicação: Em nada está Rute diminuída por se chamar serva, porque está diante de um homem digno. A dignidade do propósito de Deus, no casamento, valoriza por igual homem e mulher, porque foram criados um para o outro, ambos à imagem de Deus. A função de Boaz tipifica o resgate da condição humana pecadora realizado por Jesus. Entre Boaz e Rute não seria, apenas, a formalidade da lei do levirato, que direciona o casamento da viúva com um resgatador, mas verdadeiro amor. Gn 1,27; Ct 4,7.

 8. Boaz e Rute: compromisso e respeito mútuo 

¹¹ "Agora, pois, minha filha, não tenhas receio; tudo quanto disseste eu te farei, pois toda a cidade do meu povo sabe que és mulher virtuosa." Rute 3.

Aplicação: Rute foi a moabita que obteve reconhecimento por sua fé e conduta, aceita como mulher virtuosa por toda a Belém. Não se constrói relação duradoura sem compromisso com Deus e mútuo respeito. O caráter tanto de Boaz, quanto de Rute, construídos no compromisso com Deus lhes permitiu estabelecer uma relação duradoura. O amor nasce consolidando-se na comunhão, maturidade e compromisso com Deus. Pv 31,10-11; Pv 31,25-27.

9. Testemunho público da integridade de Boaz

¹⁰ "...e também tomo por mulher Rute, a moabita, que foi esposa de Malom [...] ¹¹ e tu, Boaz, há-te valorosamente em Efrata e faze-te nome afamado em Belém." Rute 4.

Aplicação: A fama de Boaz residia em sua integridade, diante de Deus, para com seus empregados, para com Noemi e sua família, para com Rute e para com todos em sua cidade. Diante do conselho de juízes, à porta da cidade, comprometeu-se pública e juridicamente a casar-se com a viúva moabita. Caráter se forma, ao longo da vida, para se colher frutos de dignidade, o que influi e beneficia todas as áreas do viver. Boaz era o marido estimado de uma mulher virtuosa. Pv 31,23; Cl 3,19.

10. ¹⁴ Então, as mulheres disseram a Noemi: Seja o Senhor bendito, que não deixou, hoje, de te dar um neto [...] ¹⁵ Ele será restaurador da tua vida e consolador da tua velhice, pois tua nora, que te ama, o deu à luz, e ela te é melhor do que sete filhos." Rute 4.

Aplicação: Noemi e Rute se tornaram amigas. O testemunho da família de Noemi alcançou sua nora. E mesmo com toda a tragédia e perdas, Rute se tornou dádiva do Senhor àquela mulher solitária. O que Noemi avaliou como mágoa e aflição, da parte de Deus, tornou-se bênção com o casamento e nascimento de Obede. Os efeitos do amor de Deus em nossa vida nos torna dádiva e bênção sobre todo sofrimento. Is 41,10; Sl 34,19.

Conclusão: Tragédias fazem parte da condição humana. Jesus nos garante que passamos por aflições, mas que Ele nos concede bom ânimo. A família de Noemi marcou tão decisivamente a vida da moabita, que sua sincera conversão reverteu em bênção, na hora da aflição. E Rute encontrou um verdadeiro homem de fé, de caráter provado, e juntos construíram uma família forte, abençoada e abençoadora. 

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Êxodo: identidade do povo de Deus

 Tarefa: ler Êxodo capítulos 32 a 33.

1. Sem Deus, facilmente o ser humano idolatra:

 ⁵ "v, vendo isso, edificou um altar diante dele e, apregoando, disse: Amanhã, será festa ao Senhor. [...] ⁸ e depressa se desviou do caminho que lhe havia eu ordenado; fez para si um bezerro fundido, e o adorou, e lhe sacrificou, e diz: São estes, ó Israel, os teus deuses, que te tiraram da terra do Egito." Ex 32.

 Aplicação: não é por ser chamado "povo de Deus", por Ele escolhido, que Israel não tivesse necessidade de se converter. Haviam saído do 1 Oi que euEgito, mas o Egito ainda não saíra deles. E também Arão falhou em seu lugar de apoio a Moisés e liderança, mostrando-se extremamente fraco: não seria "festa ao Senhor, mas adoração ao bezerro  de Ouro. Basta não se converter ao Senhor, para estar, definivamente, aberto à idolatria. Rm 1,20-23. 

2. Moisés intercede pelo povo.

¹¹ "Porém Moisés suplicou ao Senhor, seu Deus, e disse: Por que se acende, Senhor, a tua ira contra o teu povo, que tiraste da terra do Egito com grande fortaleza e poderosa mão? [...] ¹⁴ Então, se arrependeu o Senhor do mal que dissera havia de fazer ao povo." Ex 32.

Aplicação: Moisés, como intercessor, tipifica Jesus, o perfeito mediador entre Deus e o pecador. Deus arrepender-se não tem o mesmo sentido do arrependimento humano, porque este pressupõe pecado. Com Deus, refere-se ao Seu amor e a pessoa certa a quem Ele vocacionou, Moisés, que com Deus aprendeu a amar. Hebreus aponta em Moisés as qualidades antecipadas, vistas em Jesus. Hb 11,24-26.

3. O alerta equivocado de Josué 

¹⁷ "Ouvindo Josué a voz do povo que gritava, disse a Moisés: Há alarido de guerra no arraial. ¹⁸ Respondeu-lhe Moisés: Não é alarido dos vencedores nem alarido dos vencidos, mas alarido dos que cantam é o que ouço." Ex 32.

Aplicação: Josué vai se tornar o melhor habilitado servo e futuro substituto de Moisés. Mas aqui ele define de modo precipitado o diagnóstico no arraial. A crise apenas se inicia, Moisés antecipa todo o problema. Aprendemos que as consequências do pecado, da rebelião e desobediência sempre terão resultados desastrosos. Nunca devemos aceitar trilhar esses desvios. Rm 6,11-14.

4. Consequências desastrosas do pecado 

²⁵ "Vendo Moisés que o povo estava desenfreado, pois Arão o deixara à solta para vergonha no meio dos seus inimigos, ²⁶ pôs-se em pé à entrada do arraial e disse: Quem é do Senhor venha até mim. Então, se ajuntaram a ele todos os filhos de Levi, ²⁷ aos quais disse: Assim diz o Senhor, o Deus de Israel: Cada um cinja a espada sobre o lado, passai e tornai a passar pelo arraial de porta em porta, e mate cada um a seu irmão, cada um, a seu amigo, e cada um, a seu vizinho." Ex 32.

Aplicação: Houve guerra civil no arraial, irmão contra irmão. Levi era 1 tribo entre outras 11 tribos. E o povo estava tão desenfreado que, se Moisés não ordenasse espada, a tribo de Levi é que seria chacinada. Essa rebelião vai gerar, em meio ao povo, impacto de frear seu desatino. Mas vai provocar o afastamento de Deus. Sem arrependimento do pecado, não há proximidade com Deus. Is 59,1-2.

5. Moisés de novo intercessor a favor do povo

" ³¹ Tornou Moisés ao Senhor e disse: Ora, o povo cometeu grande pecado, fazendo para si deuses de ouro. ³² Agora, pois, perdoa-lhe o pecado; ou, se não, risca-me, peço-te, do livro que escreveste. ³³ Então, disse o Senhor a Moisés: Riscarei do meu livro todo aquele que pecar contra mim." Ex 32.

Aplicação: O pecado é sempre individual. Embora Moisés interceda, o arrependimento deverá ser de cada um. Ele demonstra tão intensamente seu amor pelo povo, que se antepõe argumentando como Deus deveria fazer, incluindo-o entre os que não se arrependessem. Deus corrige Moisés: fora do livro ficarão os que não se arrependerem. Ap 20,15. 

6. Deus não seguirá com o povo

³⁴ "Vai, pois, agora, e conduze o povo para onde te disse; eis que o meu Anjo irá adiante de ti; porém, no dia da minha visitação, vingarei, neles, o seu pecado." Ex 32.

Aplicação: Moisés vai entender o grau da falta cometida pelo povo e a falha da liderança de seu irmão Arão. Esse o ponto central da crise: Deus não mais seguiria, enviando o Anjo em Seu lugar. Assim, a identidade do povo estaria comprometida. Somente Deus habitando no meio do povo, como mais tarde o Tabernáculo bem representará, confirma ser povo de Deus. 

7. O povo e a extensão do seu pecado 

⁴ Ouvindo o povo estas más notícias, pôs-se a prantear, e nenhum deles vestiu seus atavios. ⁵ Porquanto o Senhor tinha dito a Moisés: Dize aos filhos de Israel: És povo de dura cerviz; se por um momento eu subir no meio de ti, te consumirei; tira, pois, de ti os atavios, para que eu saiba o que te hei de fazer." Ex 33.

Aplicação: Ser de "dura cerviz" é não se dobrar com facilidade. O arrependimento, condição necessária e irredutível para a conversão, ocorre com intensidade igual para todos. Não se determina pela quantidade ou pelo tipo de pecado, mas pela "tristeza segundo Deus" que move ao arrependimento, pela "bondade de Deus que conduz ao arrependimento". Foi essa a necessidade urgente do povo e a proposta de Deus, tendo Moisés como intercessor. 

8. A intimidade do Senhor 

¹¹ "Falava o Senhor a Moisés face a face, como qualquer fala a seu amigo; então, voltava Moisés para o arraial, porém o moço Josué, seu servidor, filho de Num, não se apartava da tenda." Ex 33.

Aplicação: Dizer que Deus e Moisés tratavam-se face a face, significa dizer que Moisés, além de ser, no Antigo Testamenro, modelo de servo, peofeta e intercessor, foi modelo de intimidade e comunhão com Deus. Essa intimidade prenuncia a conquista da plena comunhão com Deus, por meio de Jesus, e da intimidade dela decorrente. E o próprio Jesus afirma que, mais do que servos, somos feitos por Ele amigos de Deus. 

9. A identidade do povo de Deus

¹⁴ Respondeu-lhe: A minha presença irá contigo, e eu te darei descanso. ¹⁵ Então, lhe disse Moisés: Se a tua presença não vai comigo, não nos faças subir deste lugar. ¹⁶ Pois como se há de saber que achamos graça aos teus olhos, eu e o teu povo? Não é, porventura, em andares conosco, de maneira que somos separados, eu e o teu povo, de todos os povos da terra?" Ex 33.

Aplicação: Moisés chegou até onde Deus o desejava conduzir. Desde o início da crise, quando Deus disse que não mais seguiria no meio do povo, Moisés havia radicalizado como intercessor, como se quisesse ser riscado do livro da vida. Agora ele reconhece que a identidade do povo é ter Deus seguindo com eles, para que sejam santificados, separados do pecado, para o Senhor, sendo testemunhas a todos os demais povos da terra. Essa condição, para Israel, antecipa o que hoje se aplica à igreja. 

10. Vendo a glória de Deus

¹⁸ "Então, ele disse: Rogo-te que me mostres a tua glória. ¹⁹ Respondeu-lhe: Farei passar toda a minha bondade diante de ti e te proclamarei o nome do Senhor; terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia e me compadecerei de quem eu me compadecer." Ex 33.

Aplicação: Após uma crise, qualquer que seja, mesmo as que exigem arrependimento do pecado, Deus sempre manifesta a sua glória. Em Jesus, ela transparece plena. Mas também na igreja de Cristo, visto que ela manifesta ao mundo a glória de Deus. Aqui Moisés a contempla, pelas costas e protegido pelo próprio Deus. Também na igreja, de glória em glória a contemplamos, até o dia de vermos Deus como por Ele somos vistos.

Conclusão: Partindo da idolatria e total desgoverno, passando pelo trauma de uma guerra civil, de quase 3 mil mortos, a rebelião contra Deus, manifestada na idolatria e orgia no arraial resolve-se pela experiência do amor de Deus e intercessão de Moisés. Ele escolhe colocar-se do lado do povo, experimentando com eles o caminho do arrependimento, definindo a identidade do povo que tem Deus consigo e se distingue em santidade de todos os demais. Essa também é a qualificação da igreja com relação a Jesus e seu testemunho no mundo.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Zacarias e suas visões

Tarefa: ler Zacarias, capítulos 1 a 6.

 O livro do profeta Zacarias inicia-se com uma exortação à conversão, dirigida aos remanescentes do exílio em Babilônia (605-535 a.C.). 

⁴ "Não sejais como vossos pais, a quem clamavam os primeiros profetas, dizendo: Assim diz o Senhor dos Exércitos: Convertei-vos, agora, dos vossos maus caminhos e das vossas más obras; mas não ouviram, nem me atenderam, diz o Senhor." Zacarias 1.

   Seguem-se as visões em que o profeta reforça que atitudes Israel deve agora adotar. Podemos estender essa mensagem, como dirigida à igreja de Jesus, entendendo como segue.

1. Palavras de consolação: 1ª visão. 

¹³ Respondeu o Senhor com palavras boas, palavras consoladoras, ao anjo que falava comigo. ¹⁴ E este me disse: Clama: Assim diz o Senhor dos Exércitos: Com grande empenho, estou zelando por Jerusalém e por Sião.

¹⁶ Portanto, assim diz o Senhor: Voltei-me para Jerusalém com misericórdia; a minha casa nela será edificada, diz o Senhor dos Exércitos, e o cordel será estendido sobre Jerusalém. Zacarias 1.

Aplicação: Naqueles dias, as palavras consoladoras a Israel seriam de retorno do exílio e edificação dos muros, com Neemias, e do Templo, com Esdras. Hoje podemos entender o evangelho como palavra boa e consoladora, como maior demonstração da misericórdia de Deus e considerar a igreja de Cristo como a casa edificada, que acolhe em Cristo os que creem. Mateus 16,18.

2. Ordem que de nós afasta o mal: 2ª visão.
"...estes ferreiros, pois, vieram para os amedrontar, para derribar os chifres das nações que levantaram o seu poder contra a terra de Judá, para a espalhar. Zacarias 1.

Aplicação: Na simbologia do Antigo Testamenro, chifres indicam poder. Os babilônios, que haviam levado cativos os judaítas, foram derrotados pelos persas, sob Ciro, como profetizara Isaías. Assim como contra a igreja, como afirma Jesus, nem o poder das portas do inferno pode prevalecer, vamos seguir edificados em Cristo, vivenciando Sua comunhão, estando protegidos pelo Seu poder. João 10,27-29. 

3. Limites de santidade ao redor: 3ª visão.
⁵ "Pois eu lhe serei, diz o Senhor, um muro de fogo em redor e eu mesmo serei, no meio dela, a sua glória." Zacarias 2.

Aplicação: O verdadeiro cristão é chamado a uma vida da santidade. É testemunha de Jesus no mundo e, como afirma Jesus em sua oração sacerdotal, reflete em seu viver a glória de Deus. A igreja de Jesus é lugar protegido por Deus, onde habitam os que refletem no mundo a glória dEle, assim como Jesus procedeu em sua vida. João 17,22-23. 2 Ts 1,11-12.

4. Modelo de sacerdócio: 4ª visão.
⁸ Ouve, pois, Josué, sumo sacerdote, tu e os teus companheiros que se assentam diante de ti". Zacarias 3.

Aplicação: Josué, sumo sacerdote indicado nesta visão de Zacarias, tanto antecipa profeticamente a condição de Jesus, nosso sumo sacerdote pleno, perfeito e eterno, como aponta para o sacerdócio dos crentes e da igreja. O que Israel não obteve em sua história, a igreja cumpre, por reunir em seu seio o sacerdócio universal dos fiéis. Ex 19,5-6. 1 Pe 2,9-10.

5. A bênção do batismo no Espírito: 5ª visão. 
"Respondi: olho, e eis um candelabro todo de ouro e um vaso de azeite em cima com as suas sete lâmpadas e sete tubos, um para cada uma das lâmpadas que estão em cima do candelabro. ³ Junto a este, duas oliveiras, uma à direita do vaso de azeite, e a outra à sua esquerda. Zacarias 4.

Aplicação: O vaso de azeite que supre o candelabro, que não cessa sua luz, como era no Tabernáculo do deserto, representa a igreja e cada crente suprido pelo Espírito, em sua identidade e ministério no mundo. Jesus afirmou ser a luz do mundo, quem o segue não anda em trevas, mas tem consigo a luz da vida. Essa é, no mundo, a identidade permanente de cada crente e de toda a igreja. João 8,12. Mt 5,14-15.

6. O rolo que se revolve: 6ª visão. 
¹ "Tornei a levantar os olhos e vi, e eis um rolo voante. ² Perguntou-me o anjo: Que vês? Eu respondi: vejo um rolo voante, que tem vinte côvados de comprimento e dez de largura." Zacarias 5.

Aplicação: De modo geral, na vocação de cada profeta existe um livro, a ser comido, como aquele no Apocalipse, escrito por dentro e por fora. Ele representa as Escrituras e seu papel na revelação de Deus e na condução, em sabedoria, de seu povo na terra. Toda a vez em que Israel desprezou a profecia, sofreu por sua desobediência. Pois nós, como igreja, nunca devemos desprezar o que segue revelado na Palavra de Deus, a Bíblia. Isaías 8,20. Mateus 24,35. 1 Tm 3,16.

7. A mulher e sua casa suspeita: 7ª visão. 
¹⁰ "Então, perguntei ao anjo que falava comigo: para onde levam elas o efa? ¹¹ Respondeu-me: Para edificarem àquela mulher uma casa na terra de Sinar, e, estando esta acabada, ela será posta ali em seu próprio lugar." Zacarias 5.

Aplicação: A terra de Sinar é onde, há muito tempo atrás, ergueu-se a Torre de Babel, onde também, posteriormente, situou-se a Babilônia, sempre representa lugar de rebelião a Deus. No Apocalipse, Babilônia representa, no mundo, todo o sistema vil, corrompido e pecador. A igreja o enfrenta com suas armas, nunca a violência ou misturada ao sistema político, mas proclamando a mensagem de salvação, amor, perdão e conversão do pecado. 2 Co 10,4-5. Ap 18,2-3. Ap 17,14.

8. O evangelho que percorre toda a terra: 8ª visão. 
⁷ "Saem, assim, os cavalos fortes, forcejando por andar avante, para percorrerem a terra." Zacarias 6.

Aplicação: Esses carros e seus cavaleiros, que percorrem toda a terra, representam o alcance do evangelho. Já na época de Paulo, em sua carta aos Colossenses, igreja que não conhecia, Paulo aponta os efeitos e o alcance da mensagem do evangelho: em todo o mundo produz frutos. Esse é o desafio premente para a igreja, proclamar continuamente o evangelho, aqui, ao redor e até os confins da terra. Cl 1,5-6. 1 Ts 1,8. 

Conclusão: As palavras das Escrituras, sejam dirigidas diretamente a Israel, como dirigidas à igreja, sempre apontam para Jesus, como profecia no Antigo Testamento, seja como cumprimento da profecia, no Novo Testamento.

¹⁰ "Prostrei-me ante os seus pés para adorá-lo. Ele, porém, me disse: Vê, não faças isso; sou conservo teu e dos teus irmãos que mantêm o testemunho de Jesus; adora a Deus. Pois o testemunho de Jesus é o espírito da profecia." Apocalipse 19:10.

 Por isso é possível fazer essa transposição, compreendendo o modo como a revelação de Deus, ao longo de toda a história da humanidade, caminha para uma mesma finalidade: apontar Jesus como o ponto máximo da revelação e o evangelho como mensagem de acesso à salvação. 

sábado, 25 de abril de 2026

Isaías 53 - estrelinhas - Jesus cara a cara

 ³ "...e, como um de quem os homens escondem o rosto, era desprezado, e dele não fizemos caso." Isaías 53.

   O descaso em relação a Jesus, lembro até da sequência de referências feitas pelos discípulos de Emaús. Porque em referência a Jesus, há somente uma opção.

¹⁹ "Ele lhes perguntou: Quais? E explicaram: O que aconteceu a Jesus, o Nazareno, que era varão profeta, poderoso em obras e palavras, diante de Deus e de todo o povo". Lucas 24.

   Não, Cleopas: não. Não adianta enfileirar, com relação a Jesus, qualquer sequência de títulos honoríficos. Com relação a ele, vale somente a fé em sua ressurreição, seguida das razões do porquê de sua morte.

   Não somente um "varão profeta poderoso em obras e palavras". Mas sim aquele que Ele mesmo revela ser, de quem as Escrituras são o testemunho fiel. 

²⁷ "E, começando por Moisés, discorrendo por todos os Profetas, expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras." Lucas 24.

   Desprezo, descaso, repugnância de volver o rosto, isso é retrato da fuga do que Jesus representa para todo o ser humano.  Porque as mazelas humanas, assumidas por Jesus, estão refletidas na face dEle.

  Na verdade, desviamos o rosto de ver a nós mesmos.  O mundo moderno, designação essa de fuga, porque em nada evoluiu em sua condição moral, continuamente despreza, trata com descaso, mantém sua indiferença.

   E Jesus continua a ser o escolhido de Deus, o "Filho amado no qual Deus tem o Seu prazer",  o discernimento mais sublime em toda a história do humanidade.

²¹ "... também o foi Jesus; e, estando ele a orar, o céu se abriu, ²² e o Espírito Santo desceu sobre ele em forma corpórea como pomba; e ouviu-se uma voz do céu: Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo." Lucas 3.

⁸ "Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo". Filipenses 3.

   Como o Pai, olhar Jesus cara a cara e ter prazer nEle. Considerar Jesus sublime, e tudo o mais perda. Com muita relutância a soberba atual do ser humano empreende esse tipo de troca.

   Perda total. Ganho total em Jesus. Volver os olhos, para encarar Jesus no rosto, cara a cara, porque Jesus é o rosto de Deus.

¹⁸ "Ninguém jamais viu a Deus; o Deus unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou." João 1.

¹⁵ "Este é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação". Cl 1.

⁹ "...porquanto, nele, habita, corporalmente, toda a plenitude da Divindade." Colossenses 2

³ "Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser". Hebreus 1.