quinta-feira, 26 de março de 2026

"Nevoa de nadas/névoas de nada/névoa-nada"

 "A vaidade é assim, põe o tonto no alto/E retira a escada." Billy Blanco.

    Uma tradução de Harodo de Campos do Eclesiastes, Qohélet, ele versa no primeiro capítulo: "Névoa de nadas/disse O-que-sabe//névoas de nada/tudo névoa-nada." Todos os tipos e modos de vaidade, de nadas. 

   Qohélet, Eclesiastes, o Pregador, que consideramos ser Salomão, em sua eperiência poética e vivencial, antepõe vaidade como mestra da ilusão.

  (sentido da leitura)   <<<    הֲבֵ֤ל  הֲבָלִים֙   
    Havel havelim, acima, no hebraico, "vaidade de vaidades", também significando "vazio, névoa, futilidade'. E ματαιότης (mataiótes), no grego, significando "futilidade, inutilidade".

   Paulo aos Efésios assinala ser "vaidade" um aparato da mente e condição do alheamento à vida de Deus.

¹⁷ "Isto, portanto, digo e no Senhor testifico que não mais andeis como também andam os gentios, na vaidade dos seus próprios pensamentos, ¹⁸ obscurecidos de entendimento, alheios à vida de Deus por causa da ignorância em que vivem, pela dureza do seu coração." Efésios 4.

   O poeta do povo, compositor de música popular, acertou em sua apreciação dos efeitos da vaidade. Em Ezequiel 28, o "querubim da guarda", líder entre anjos, no princípio, ensoberbeceu-se, porque quis pôr-se a si mesmo acima de Deus.

¹⁷ "Elevou-se o teu coração por causa da tua formosura, corrompeste a tua sabedoria por causa do teu resplendor; lancei-te por terra, diante dos reis te pus, para que te  contemplem." A vaidade puxou-lhe a escada. 

    Querendo ser Deus, tornou-se a si mesmo não deus. Por isso foi precipitado dos céus, passando a ser Satanás, ou seja, adversário. E ao tentar Eva, nossa mãe primordial, sugeriu a mesma soberba.

⁴ "Então, a serpente disse à mulher: É certo que não morrereis. ⁵ Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal." Gênesis 3.

    Satanás sugere a Eva, em seu delírio de vaidade, atentando contra a integridade dela, que 1. Não acredite que vá, certamente, morrer, portanto, que contradiga a palavra de Deus.

   Também mente, assegurando que 2. Conhecer o bem e o mal será equiparar-se a Deus, ou seja,, "como Deus" conhecer o bem e o mal. Ser como Deus foi a tentação original que tornou o anjo Satanás.

   E 3. A serpente omite que, optando pelo engano de "conhecer o bem e o mal", Eva não foi avisada que seria dominada pelo mal, que o bem não mais seria sua integridade de vida.

   A mesma vaidade típica de Satanás também se revela na tentação a Jesus. Atreve-se a dizer que:

⁶ "Disse-lhe o diabo: Dar-te-ei toda esta autoridade e a glória destes reinos, porque ela me foi entregue, e a dou a quem eu quiser. ⁷ Portanto, se prostrado me adorares, toda será tua." Lucas 4.

   Jesus resiste, demonstra conhecer e vencer Satanás obedecendo à palavra de Deus. Ora, se atreveu-se a tentar Jesus, como não tentaria os demais eleitos de Deus? Mas como Jesus venceu, do mesmo modo podemos ser vencedores.

³⁷ "Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daqueles que nos amou." Romanos 8.

    O único antídoto para a vaidade herdada, que esoberbece e torna a vida inútil, vazia, futilidade, névoa de nada é, como afirma Paulo aos Efésios, aprender Cristo.

²⁰ "Mas não foi assim que aprendestes a Cristo, ²¹ se é que, de fato, o tendes ouvido e nele fostes instruídos, segundo é a verdade em Jesus, ²² no sentido de que, quanto ao trato passado, vos despojeis do velho homem, que se corrompe segundo as concupiscências do engano, ²³ e vos renoveis no espírito do vosso entendimento, ²⁴ e vos revistais do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade." Efésios 4.

    Verdade em Jesus anula a vaidade. Renovar-se no espírito do entendimento significa honrar e verdade de Jesus, para nunca deixar-se, como tolo, ser enganado a ponto de desabar com toda a sua vida.

   Esse o milagre produzido por Jesus na vida de quem nele crê. Assumir, diante de Deus, a humildade de Jesus, que nunca desejou para Si mesmo o lugar que sempre lHe pertenceu.

   Mas esvaziou-se a Si mesmo, para ser homem e, nesta condição, entregar a Si mesmo para salvação por todo o que nEle crer.

⁵ "Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, ⁶ pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; ⁷ antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, ⁸ a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de  cruz."  Filipenses 2.

    Essa é a vitória sobre todo mal. Essa é a plenitude de vida.  Esse o esvaziamento de toda a vaidade, substituída pela glória de Deus. "Vim para que tenham vida, disse Jesus, e vida plena". 

   Larga de mão: não deixe a vaidade te usurpar a vida, puxando a escada, para dar consigo mesmo no vazio do nada. Faça a escolha certa, deixa Cristo te preencher com a glória do Pai.

quarta-feira, 25 de março de 2026

Famílias de palha

⁸ "Os filhos apanham a lenha, os pais acendem o fogo, e as mulheres amassam a farinha, para se fazerem bolos à Rainha dos Céus; e oferecem libações a outros deuses, para me provocarem à ira." Jeremias 7.

   Vejam que se trata de uma reunião  de famílias, típica dos tempos de Jeremias, numa época crítica para Israel. Não  mais havia o reino do norte, dissidência rebelde descolada após a morte (e por causa) de Salomão.

    Foram  invadidos e dispersos pelos assírios Mesopotâmia afora (ali pelos lados do Irã), em 722 a.C. A tarefa indesejada de Jeremias era prevenir destino idêntico para o reino do sul, Judá, capital Jerusalém, dali a poucos anos.

     Ele denunciou as razões por que tudo isso e de modo igual se repetiria. Foi uma culpa bem distribuída. Prova disso foi a indisposição de Jeremias contra tudo e contra todos: sacerdotes (aliás, sua ex-classe e função), profetas (seu novo grupo agregado), anciãos, juízes e até o rei.

      Acima, na citação, focam-se famílias numa rotina típica daquela época. Todas muito unidas por sinal, participantes de um ritual conjunto de idolatria, muito na moda naquele tempo. Demonstra que a corrupção idólatra alcançava todos os segmentos sociais.

     Ativa cooperação, meninos recolhem lenha, talvez nos arrabaldes, ou compram barato de terceiros. E são famílias, visto que os componentes estão todos no número plural. Os homens cuidam de acender o fogo, as mulheres produzem a receita dos bolos rituais para a oferta aos ídolos, agiam num todo harmônico bem sincronizado.

   Mas não se trata de culto ao Deus de Isarel, mas oferta a uma tal Rainha dos Céus, com amplitude para um panteão de deuses. Deve ser divertido, conciliador, como agradável mutirão, enfim, uma tarefa que envolve todo um grupo, levada a efeito com bom humor, prazer e participação conjunta.

   Deve ser fácil assim para uma família e até várias famílias juntas trocar o verdadeiro culto por uma outra rotina qualquer mais agradável, descomprometida, menos estressante, livre de regras, livre, leve e solta. Porque há tanta e muita coisa junta que hoje distrai e afasta da comunhão com Deus.

   Talvez tenhamos feito de nossas reuniões algo monótono, ou tenhamos tentado turbinar com fogo estranho a oferta ao Senhor, incorporando traços da cultura vigente, numa tentativa frustrada de tornar palatável, "engulível" os serviços do culto.

   O profeta Elias encontrou em ruínas o altar do Senhor, na reunião de desafio do Carmelo:

³⁰ "Então, Elias disse a todo o povo: Chegai-vos a mim. E todo o povo se chegou a ele; Elias restaurou o altar do Senhor, que estava em  ruínas." 1 Reis 18.

  O modo como hoje se compreende igreja, esse ajuntamento de famílias, tem sido encarado, compartilhado e sido vivenciado como algo anacrônico, ou seja, desatualizado. O mundo atual está mais conectado, rápido e prático do que púlpito, Bíblia, estudo bíblico, oração e quanto compostura ética cristã queiram exigir.

   Não vamos buscar lenha, nem manufaturar bolos ou receitas rituais e nem oferecer culto a nenhuma rainha dos céus. Não. Não vamos flertar com uma idolatria tão exposta, óbvia e desqualificante.

      Mas colocar outras atenções, trocar a rotina cansativa da igreja por outras mais leves e alegres, ocupar o pouco tempo que resta com atividade mais lúdica, certamente.

   A agenda da igreja no mundo implica um estresse adicional. A proposta é remar contra a maré. Mas essa maré mundana já virou maremoto. Não dá para nadar contra, porque o tamanho da vaga é imensa. A receita é adotar amenidades que ocupem o pouco tempo que resta às famílias para manter-se unida.

   O altar em ruínas está em nós. Porque somos, para Deus, o altar, o templo dEle, somos os sacerdotes e, ao mesmo tempo, somos os ministros do culto. Como João deixa explícito em sua 1 João, a nossa comunhão é:

³ "...a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo." 1 João 1.

   E onde estamos, todo o tempo somos culto ao Senhor. E o mais inteligente possível. Racional, porque fomos, em todos os sentidos, restaurados. Temos a mente do Espírito, segundo ensina Paulo em sua aula, em 1 Co 2.

¹ "Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional". Romanos 12.

¹⁶ "Pois quem conheceu a mente do Senhor, que o possa instruir? Nós, porém, temos a mente de Cristo." 1 Coríntios 2.

   A igreja somos nós. Somos as pedras que vivem, edificadas sobre Jesus, a Pedra Angular, eleita e preciosa para com Deus. A glória de Deus, íntegra e presente na Pessoa de Jesus, o Filho, habita na igreja, ou seja, habita em nós.

   A visão equivocada e o demérito pelo que se pratica na igreja é crise de identidade. A nossa distância das Escrituras distorce o sentido preciso da fé. Nessa proporção, então, vamos nos afastar e afastar todos de nossas relações e ser, em família, fator de desagregação.

   Em nós não se cumprirá, então, o que expressa o salmista, que uma geração será capaz para traduzir a outra os feitos do Senhor:

⁴ "Uma geração louvará a outra geração as tuas obras e anunciará os teus  poderosos feitos." Salmos 145.

   Para nunca ser o que pesou de negativo sobre a geração vivente após a grande fase do ministério de Josué. Se não restaurarmos em nós, o altar do Senhor, seremos como palha dispersa ao vento:

¹⁰ "Foi também congregada a seus pais toda aquela geração; e outra geração após eles se levantou, que não conhecia o Senhor, nem tampouco as obras que fizera a Israel. ¹¹ Então, fizeram os filhos de Israel o que era mau perante o Senhor; pois serviram aos baalins. ¹² Deixaram o Senhor, Deus de seus pais, que os tirara da terra do Egito, e foram-se após outros deuses, dentre os deuses das gentes que havia ao redor deles, e os adoraram, e provocaram o Senhor à  ira." Juízes 2.

sexta-feira, 20 de março de 2026

Deus

 

²⁸ "... porque os teus deuses, ó Judá, são tantos como as  tuas cidades." Jr 2.

   Vivemos tempos de respeito a todas as alteridades. Significa dizer que muitas convenções tidas como certas, na época que correspondia à nossa infância, para quem tem quase 70, ou seja, tempos dos avós, caducaram.

   Deve-se respeito, por exemplo, à religião alheia. Ainda que signifiquem, por exemplo, o absurdo da adoção de inúmeros deuses. Seriam panteões de divindades.

   Essa palavra provém de duas outras da língua grega, pan (muitos) + teos (deus), no caso, deuses. Portanto, quem adota para si quantidade (i)numerável de deuses, pratica idolatria, ou seja, apresenta adoração ao que não existe.

   Ou adora o(s) menor(es), incompatíveis, em relação ao ato de receber adoração. Adora-se, então, espíritos de mentira. Alguém dirá, ora, o contraponto, então, trata-se do Deus cristão. Sim, Deus único, e só existe o cristão. Porque entregou ao mundo inteiro seu Filho, para que seja Salvador.

¹⁶ "Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna." Jo 3.

   "Todo", no caso, são todos, toda a humanidade, sem exceção, nenhuma tribo, povo, língua ou nação fica de fora. A salvação, como certa vez Jesus esclareceu, provém dos judeus.

    Não há deuses. Não há outro nome, nemhum outro, debaixo do céu, dado entre os homens, pelo qual alguém, qualquer um, nenhum outro seja salvo.

¹² "E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos." At 4.

   Somente Deus deve ser adorado. Louvor e glória somente a Ele devem ser tributados. Certa vez Paulo discursou a estoicos e epicureus, sim, respeitou-lhes o apego a sua coleção de ídolos. Mas não lhes deixou de mencionar o Deus vivo.

²² "Então, Paulo, levantando-se no meio do Areópago, disse: Senhores atenienses! Em tudo vos vejo acentuadamente religiosos; ²³ porque, passando e observando os objetos de vosso culto, encontrei também um altar no qual está inscrito: Ao Deus Desconhecido. Pois esse que adorais sem conhecer é precisamente aquele que eu vos anuncio. ²⁴ O Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe, sendo ele Senhor do céu e da terra, não habita em santuários feitos  por mãos humanas." Atos 17.

    Atualíssimo esse discurso. Respeitem-se todas as religiões e a crença em quantos panteões de deuses houver. Mas nunca se deixe de anunciar o Deus único. Ele não é nem judeu e nem cristão, não foi por ninguém e nenhum desses inventado.

  E nunca se deixou ficar sem testemunho:

¹⁵ Senhores, por que fazeis isto? Nós também somos homens como vós, sujeitos aos mesmos sentimentos, e vos anunciamos o evangelho para que destas coisas vãs vos convertais ao Deus vivo, que fez o céu, a terra, o mar e tudo o que há neles; ¹⁶ o qual, nas gerações passadas, permitiu que todos os povos andassem nos seus próprios caminhos; ¹⁷ contudo, não se deixou ficar sem testemunho de si mesmo, fazendo o bem, dando-vos do céu chuvas e estações frutíferas, enchendo o vosso coração de fartura e de alegria." Atos 14.

   Esqueça seus deuses.  Esqueça entidades menores. Converta-se ao Deus vivo. O Filho Jesus Cristo é sacrifício definitivo por todo pecado. Arrependam-se, verdadeiramente, crendo única e exclusivamente no Filho.

sábado, 14 de março de 2026

Culto contínuo

¹ "Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. ² E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus." Rm 12.

  O rogo de Paulo é um pedido pungente, mistura de exortação e profunda súplica de sensibilidade, invocada em troca das misericórdias de Deus.

   É como se dissesse que, diante do tudo de Deus a nosso favor, haja supremo empenho pelo que deles solicita. E o que Paulo pede é que a vida cristã seja culto constante.

  Porque o sacrifício de Cristo que, como diz Hebreus 9, pelo Espírito ofereceu a Si mesmo a Deus, habilitando que façamos o mesmo, então nos ofertemos a Deus.

¹⁴ "...muito mais o sangue de Cristo, que, pelo Espírito eterno, a si mesmo se ofereceu sem mácula a Deus, purificará a nossa consciência de obras mortas, para servirmos ao Deus vivo."

   O apóstolo qualifica essa oferta de nós mesmos, de corpo, alma e espírito, como "sacrifício vivo santo e agradável a Deus" um "culto racional".

   Vivo, porque fomos resgatados da morte, agora, diante de Deus, opera em nós um nova condição de vida. Isso é específico e exclusivo das Escrituras.

  Santo, porque a dádiva do corpo e sangue de Cristo, no qual fomos batizados pelo Espírito, diante de Deus nos torna aceitáveis:

²² "...agora, porém, vos reconciliou no corpo da sua carne, mediante a sua morte, para apresentar-vos perante ele santos, inculpáveis e irrepreensíveis." Cl 1.

    Agradável a Deus porque, pelos critérios de Deus o Filho llHe é agradável, por tudo o que representa. Esse foi o testemunho do próprio Deus por ocasião de seu batismo. Lc 3:

²² "...e ouviu-se uma voz do céu: Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo."

  E racional, porque todos os detalhes dessa oferta, que nos inclui inteiros, diante de Deus, são opção consciente, ilustrada e instruída pelo Espírito, da qual somos ministros.

   Somos o culto, somos a oferta e somos oficiantes de nós mesmos a Deus. Tudo no culto da antiga aliança, agora aperfeiçoado na plenitude da oferta de Jesus, ao Pai, legitima e instrui nossa oferta.

   Paulo em 1 Coríntios ensina, numa aula sobre o Espírito Santo, que temos a mente de Cristo:

¹⁶ "Pois quem conheceu a mente do Senhor, que o possa instruir? Nós, porém, temos a mente de  Cristo". 1 Co 2.

   Esse é o sentido do culto racional. O Espírito que, na Criação, perambulava nesses primórdios, ansiando por habitar em nós, esse instrui para que a dedicação seja completa, total e perfeita.

   Moisés, em sua dedicação ao Senhor, experimentou a ação do Espírito, de modo a dedicar-se ao Senhor de forma exclusiva em seu ministério.

²⁴ "Pela fé, Moisés, quando já homem feito, recusou ser chamado filho da filha de Faraó, ²⁵ preferindo ser maltratado junto com o povo de Deus a usufruir prazeres transitórios do pecado; ²⁶ porquanto considerou o opróbrio de Cristo por maiores riquezas do que os tesouros do Egito, porque contemplava o galardão." Hb 11.

   Neemias, em sua oração de confissão, em favor do povo cativo, em Babilônia, menciona o modo como, no deserto, Deus guia seu povo também por intermédio do Espírito.

²⁰ "E lhes concedeste o teu bom Espírito, para os ensinar; não lhes negaste para a boca o teu maná; e água lhes deste na sua sede." Ne 9.

   Quando Eva não enxerga que, diante do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, deve rejeitar a tentação e não experimentar, é a voz e ação do Espírito, em sua consciência, que está rejeitando.

⁶ "Vendo a mulher que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos e árvore desejável para dar entendimento, tomou-lhe do fruto e comeu e deu ao marido, e ele comeu." Gn 3.

   Não é oferecer-se ao pecado, para dele ser escravo, mas ao Senhor Deus, que nos aceita por inteiro, mediante uma vontade que é boa, santa, agradável e perfeita.

¹⁹ "Falo como homem, por causa da fraqueza da vossa carne. Assim como oferecestes os vossos membros para a escravidão da impureza e da maldade para a maldade, assim oferecei, agora, os vossos membros para servirem à justiça para a  santificação." Rm 6.

   Logo após o seu batismo, ocorreu uma visão em que o Espírito se manifestou descendo para plenitude, na vida de Jesus, como pomba, para logo depois ser conduzido ao deserto, onde foi tentado por Satanás, em pessoa.

   Destacou-se o atrevimento do inimigo, a mentira, sua principal distinção, e a soberba, desde sua queda atitude marcante e sugestivamente compartilhada, a quem por ele se permite subverter.

   Jesus mostra-se plenamente dedicado ao Pai, vence-o pelo poder da palavra do Pai, denuncia dele a mentira e nos ensina de que modo podemos sempre vencer.

    A dedicação nossa é a mesma de Jesus. Nossas armas são a que Ele mesmo sempre usou. A plenitude do Espírito, nossa blindagem diante do mal, venha ele de fora para dentro, ou se insinue, proveniente do mais tenebroso subterrâneo de nossa pecaminosidade.

¹⁶ "Digo, porém: andai no Espírito e jamais satisfareis à concupiscência da carne. ¹⁷ Porque a carne milita contra o Espírito, e o Espírito, contra a carne, porque são opostos entre si; para que não façais o que, porventura, seja do  vosso querer." Gálatas 5.

   Filhos e filhas de Eva, que somos, urge agir de modo inverso ao de nossa mãe.  Não enxergar no pecado, o que de si mesmo nunca é, foi ou será. A vontade de Deus, sim, é boa, agradável e perfeita.

    E viver no evangelho é experimentar renovação constante dessa vontade, vê-la atuante em nós, tomá-la como preferência e contraveneno ao pecado.

³ "...pelo conhecimento completo daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude, ⁴ pelas quais nos têm sido doadas as suas preciosas e mui grandes promessas, para que por elas vos torneis coparticipantes da natureza divina, livrando-vos da corrupção das paixões que há no  mundo". 2 Pe 1.

      Paulo, no trecho abaixo da carta aos Efésios, demonstra como uma razão saneada pelo milagre da conversão, dirige, em Cristo, nosso viver, por meio do poder contínuo do evangelho, atuante em nós.

²⁰ Mas não foi assim que aprendestes a Cristo, ²¹ se é que, de fato, o tendes ouvido e nele fostes instruídos, segundo é a verdade em Jesus, ²² no sentido de que, quanto ao trato passado, vos despojeis do velho homem, que se corrompe segundo as concupiscências do engano, ²³ e vos renoveis no espírito do vosso entendimento, ²⁴ e vos revistais do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade." Efésios 4.

    Esta é uma proposta bíblica, uma indicação de como age o poder de Deus em nós, à qual temos acesso pela fé, sendo uma realidade resultante da comunhão com Deus, que o mundo lá fora desconhece, desacredita e despreza.

   Assim podemos atender ao convite de Paulo, completando seu desejo, nessa guinada de argumentação, no coração de sua carta aos Romanos, e assim assumirmos os aspectos práticos e mui belos da vida cristã.
   
    ² E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus." Rm 12.

terça-feira, 10 de março de 2026

Entre o preferível e o detestável

 ¹⁵ "Porque nem mesmo compreendo o meu próprio modo de agir, pois não faço o que prefiro, e sim o que  detesto." Rm 7.

     A citação acima, do apóstolo Paulo aos Romanos, não significa livre conduto para o pecado. E somente autênticos convertidos ao evangelho entendem o que vai escrito.

    Paulo quer dizer que no seu íntimo, escondido e embutido no velho homem, persiste uma disposição vil, somente contida, após ter sido desmascarada, na conversão ao evangelho de Jesus.

    Então se inicia essa luta interna contra a disposição vil, somente contida na vida de quem é suprido pelos recursos da Trindade. Sim, porque na luta contra o pecado somos supridos por Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo.

    Isso mesmo: são um e são três ao mesmo tempo. Veja, abaixo, na oração de Paulo aos Efésios, o que ele pede a Deus, em Efésios 3:

¹⁶ "...para que, segundo a riqueza de sua glória, vos conceda que sejais fortalecidos com poder, mediante o seu Espírito no homem interior; ¹⁷ e, assim, habite Cristo no vosso coração, pela fé, estando vós arraigados e alicerçados em amor, ¹⁸ a fim de poderdes compreender, com todos os santos, qual é a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade ¹⁹ e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus."

   Pelo Espírito, Cristo habita no coração de quem crê e, alicerçado no amor de Deus, esse que crê passa a conhecer o amor que excede todo o entendimento, sedo tomado de toda a plenitude de Deus.

   A conversão ao evangelho não é menos do que isso. Pedro, outro apóstolo, assíduo leitor das cartas de Paulo afirma, os que cremos, ser "coparticipante da natureza de Deus", e somente assim libertos da disposição para o pecado.

   ⁴ " ... [Deus] nos chamou para a sua própria glória e virtude, pelas quais nos têm sido doadas as suas preciosas e mui grandes promessas, para que por elas vos torneis coparticipantes da natureza divina, livrando-vos da corrupção das paixões que há no mundo." 2 Pe 1.

      E Paulo continua na argumentação de seu (dele e nosso) dilema: ¹⁸ "Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum, pois o querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo." Rm 7.

     Não habita bem nenhum. Em outro trecho desta carta aos Romanos, Paulo exorta a nunca desconsiderar que é a bondade de Deus, e não eventualmente a nossa, que conduz ao arrependimento.

   Somente sendo coparticipante da natureza de Deus há viabilidade de se livrar das paixões que há no mundo, que agora também habitam dentro, incorporadas no pecado.

   Quando Eva decidiu que comeria do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, a serpente não havia dito que jamais então ela dominaria o mal.

   Tornar-se-ia participante do mal. Foi como se ela dissesse: "Como, como sim, e ainda dou ao meu marido." Se não foi dito, essa foi a intenção. Ela o disse com sua atitude.

   Adão foi imediatista, talvez dizendo consigo, "por que não?". Todo pecado é blasfemo  e imediatista. E somente na conversa com Deus, fosse Adão, ou fosse Eva, esta mais sincera do que o marido, puderam ser confrontados, já de uma vez possuídos por um desejo incontido de, continuamente, pecar.

    A morte se tornou consolo. Sim, porque caso, indevidamente, aspirassem à eternidade, seriam eternamente separados de Deus. A morte põe fim ao pecado. Por isso Jesus a experimentou. E, por não ter pecado, Deus pôde ressuscitá-lo.

¹ "Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para ser apóstolo, separado para o evangelho de Deus, ² o qual foi por Deus, outrora, prometido por intermédio dos seus profetas nas Sagradas Escrituras, ³ com respeito a seu Filho, o qual, segundo a carne, veio da descendência de Davi ⁴ e foi designado Filho de Deus com poder, segundo o espírito de santidade pela ressurreição dos mortos, a saber, Jesus Cristo, nosso Senhor". Rm 1.

   Esse homem sem pecado, Jesus, morreu a nossa morte, tomou sobre si o nosso pecado, e ressuscitou para que, todo o que crer nesse evangelho, seja resgatado de sua condição vil.

   Pelo evangelho, há chance de fazer o que agrada a Deus, dando preferência  à  Sua vontade, rejeitando o que for detestável.  A Trindade opera em nós essa vontade, qual seja, ser coparticipantes da natureza de Deus.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Efeitos da fé

³² "... e, crescida, é maior do que as hortaliças, e se faz árvore, de modo que as aves do céu vêm aninhar-se." Mateus 13.

    Grande privilégio me concedeu o Pr Nerval de me receber em sua igreja para realizarmos juntos o casamento de João Marcos e Andreia.

   Foi a última vez em que estivemos juntos, estando separados por mais de 4 mil quilômetros. Trata-se da mesma responsabilidade, ou seja, o ministério pastoral.

   Até 1995, ano em que vim para o Acre, convivemos nos encontros e desencontros da rotina congregacional.  Ele representa um tempo que já se pode chamar antigo.

   Mas que traz à memória belas recordações. Uma delas foi sua convivência de anos a fio com o Pr Porto Filho, sendo ovelha dele e participando da história da Campograndense.

   O que essa fase representou marcou definitivamente a nossa vida. Ainda alcancei o pastor Porto Filho professor no externato, em 1978, trazendo consigo sua especialidade, eclesiologia, a doutrina de ser igreja.

   Com ele, o que conhecíamos da Campograndense, com os traços de seu ministério e o testemunho de tanta gente, que eu não conseguiria enumerar, mas cujo efeito desse testemunho é fruto permanente.

    Pedra de Guaratiba era o ponto de encontro máximo, talvez mais do que as Assembleias Gerais, por sua multivariedade de irmãos ali reunidos, na fantástica, naqueles idos, Festa do Abrigo.

   Pastor Nerval desempenhava papel decisivo em seu lugar no time de sua igreja. Não me perguntem a quantidade de goals ou sua posição no ataque, mas sua leveza sempre foi destaque.

   E seu sorriso sua marca decisiva. Chegou a mim a história de uma falta desclassificante de um dos brutamontes zagueiros. Até desconfiava-se que era, vamos dizer, terceirizado, ou seja, não membro eventual de igreja, mas em campo.

   Toda a assistência  em volta do velho campo se assustou com o ímpeto com que se levantou o atacante, partindo incotinente em direção ao muralha. Ora, juntando as duas coxas do atacante não se tinha uma que fosse do inimigo.

   Não apareceu o sorriso de sempre. Mas se impôs uma bruta descompostura, em tom e gestos de autoridade, talvez já antecipando a vocação pastoral. O que se conta é que o time adversário ficou com um a menos, pelo efeito desorientador da exortação recebida.

   Não fui tão íntimo da turma do pastor Nerval.  Convivi com um bom grupo de Campo Grande, devido à forte integração daqueles dias. Pastor Paulo Leite, um novo convertido naquela igreja, foi meu colega de Seminário.

   Mas pouco ao lado do pastor Nerval sempre foi muito. Porque fé não tem tamanho. Jesus até sugeriu que, se tivesse, seria grão de mostarda. Mas os efeitos são belos, fiéis e permanentes.

   Permiti-me reunir esses traços de memórias que tenho desses momentos vividos próximo da Campograndense, perto da gente de lá, experimentando, vendo e compartilhando flashes dessa história, para expressar a Deus gratidão.

   Geração marcante essa. Agora entendi o fim da parábola. Testemunhamos ao mesmo tempo de ser participantes desse efeito. Fez-se árvore, expandindo-se, de modo a acolher gente após gente, assim como espalhar semente.

   Marcante, pastor, o seu sorriso. Também a sua trajetória e seu testemunho. Fico imaginando o encontro desses dois sorrisos, o seu e Jesus te recebendo com o sorriso dele.