terça-feira, 7 de abril de 2026

Em tom suave

¹⁵ Perguntou-lhe Jesus: Mulher, por que choras? A quem procuras? Ela, supondo ser ele o jardineiro, respondeu: Senhor, se tu o tiraste, dize-me onde o puseste, e eu o levarei. ¹⁶ Disse-lhe Jesus: Maria! Ela, voltando-se, lhe disse, em hebraico: Raboni (que quer dizer [meu] Mestre)! João 20.

    O detalhe narrado por João nessa abordagem intencional a Maria nos faz imaginar o tom de voz de Jesus.

   Revela-se intimista e personalizado. Refletimos sobre a personalidade dela. A presença no túmulo, o choro e sua ansiedade pela solução do dilema.

    Quem somos, qual nossa(s) experiência(s) com Jesus e o que nos angustia. Há muitas "Marias", mesmo na Bíblia. Essa poderia até ser chamada "Maria dos sete demônios".

   Marcos assim se refere à ela. Não que a discrimine, mas porque ressalta o que Jesus nela havia operado.

⁹ "Havendo ele ressuscitado de manhã cedo no primeiro dia da semana, apareceu primeiro a Maria Madalena, da qual expelira sete  demônios." Marcos 16.

  Jesus escolheu aparecer primeiro a essa Maria. João, na sua narrativa, descreve a pergunta que os anjos do túmulo fizeram a ela. Qual a razão do choro.

  A ansiedade dela foi tamanha que nem notou o inusitado, ora, anjos, dois deles, bem ali onde morte nunca mais. O túmulo que esvaziou todos os outros.

   E então Jesus lhe aparece. Mas perdura a ansiedade dela. Tanto que ainda pergunta, em desespero: ¹⁵ "... respondeu Senhor, se tu o tiraste, dize-me onde o puseste, e eu o levarei."

    Então ouve-se e, no nosso caso, imagina-se o tom pelo qual Jesus chama. Porque o chamado de Jesus é igual para todos. Audível, numa mesma intensidade.

  Talvez Marcos não precisasse destacar a vida pregressa de Maria. Mencionar a quantidade de demônios que lhe privavam a intimidade talvez motive preconceito contra ela.

   O que seria um erro, porque quem foi liberto por Jesus, estava na mesma carente condição de Maria. E nem sabemos do número de demônios pelos quais já fomos tentados.

   Mas certamente reconhecemos quantas vezes cedemos a tais tentações. Aliás, quem nos revelou ter sido alvo da influência deles foi o próprio Jesus.

  Definitivamente, não nos cabe diminuir Maria. Mas pôr vista no tamanho da ação de Jesus na vida dela e na mesma proporção de sua gratidão.

   A ansiedade de Maria por Jesus precisa ser marca de nossa personalidade. A pergunta dela por Ele, desejando reassumir o papel de Jesus em sua vida, a companhia de Jesus, representa outra lição a se aprender.

   E ouvir com que tom Jesus pronuncia nosso nome. Pelo menos uma razão do chamado de Jesus e da tonalidade que usou foi advertir Maria de Sua presença ali, bem ali, ao lado.

   E que estava distraída para o mais inusitado, o novo, o cúmulo da profecia, que é a ressurreição. A nossa ressurreição. Jesus adianta para Maria, primeiro a ela, o efeito da ressurreição.

   Ouvir esse tom de Jesus é reconhecer que Ele sempre chama, sempre está perto, e que sempre estamos distraídos para menos do que representa Sua presença.

  Ponha seu nome nesse chamado. Proposital Jesus aparecer primeiro a uma mulher, a mulheres, para que fizessem o anúncio da ressurreição. 

¹⁰ "E, partindo ela, foi anunciá-lo àqueles que, tendo sido companheiros de Jesus, se achavam tristes e choravam. ¹¹ Estes, ouvindo que ele vivia e que fora visto por ela, não acreditaram." Marcos 16.

  Talvez, esquecendo que foram mulheres nossas mães, como homens, decidimos não acreditar nelas. Sempre redunda em prejuízo, principalmente quando são sábias. 

   Paulo ora para que reconheçamos o chamado de Jesus, a glória desse chamado e a experiência do poder dessa ressurreição atuante em nós. Consideremo-mos advertidos, em tom suave.

¹⁸ "...iluminados os olhos do vosso coração, para saberdes qual é a esperança do seu chamamento, qual a riqueza da glória da sua herança nos santos ¹⁹ e qual a suprema grandeza do seu poder para com os que cremos, segundo a eficácia da força do seu poder; ²⁰ o qual exerceu ele em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos e fazendo-o sentar à sua direita nos lugares celestiais." Efésios 1.

terça-feira, 31 de março de 2026

João Evangelista não sinótico

    João apóstolo de destaca em relação aos outros evangelistas. Este são chamados sinóticos, porque seguem um escopo igual, possível de se definir comparativamente entre os três.

   Marcos foi o idealizador. Lucas e Mateus seguiram o modelo dele, acrescentando material exclusivo de cada um deles. Mas também é verificável ter Mateus e Lucas disposto material deles dois, que Marcos desconhecia ou não utilizou.

   Especula-se ter havido uma fonte de Logia (palavras) a respeito de Jesus, que Marcos tenha usado, e esse material comum a Lucas e Mateus é denominado fonte Quelle, "comum" a esses dois evangelistas.

   João é um intelectual versado em filosofia grega e conhecedor do contexto religioso do mundo grego de sua época. Eram as "religiões de mistério", das quais o gnosticismo era a crença top de linha.

   Constituiu-se numa séria ameaça externa à doutrina da igreja primitiva, porque sutilmente distorcia a doutrina da revelação de Deus em Cristo Jesus, comprometendo a identidade de Deus no Antigo Testamento e a de Jesus no Novo Testamento.

    João, já na introdução do seu Evangelho, cai de sola, rebuscando, de modo provocativo e inteligente, no próprio ambiente da filosofia grega o ponto de partida de sua argumentação teológica.

   Por isso João alcançar o conceito filosófico do logos e o incorporar, definindo de uma vez a incerteza que havia, no contexto filosófico, de sua definição. Afirma, como qualquer grego de seu tempo que, sim, "No início era (havia) o logos". Então incorpora-o em sua teologia.

   Deus tem consigo o logos, João afirma, dizendo em seguida: "O logos estava com Deus", para logo concluir, eliminando a identidade incerta, na filosofia, do que seria o logos, afirmando: "O logos era (é) Deus".

    Retorna à filosofia, para dizer que sim, o logos está no princípio, e que, segundo a filosofia da época pressupunha, a partir do logos tudo foi criado. Mas em João a identidade desconhecida do logos é revelada, foi Deus que criou todas as coisas.

    E então João introduz outro conceito muito usado na época, porém de contornos indefinidos, como a identidade do próprio logos, que é luz. Para as religiões de mistério luz é conhecimento, ilustração, revelação mística.

  Para João, Deus é luz, porque ilumina, no sentido de ser verdadeira e única revelação, assim como, segundo está dito no Gênesis, Deus é quem separa luz e trevas.

    E João direciona sua introdução para o ponto central de seu Evangelho, no que diferencia-se dos demais evangelistas, quando afirma: "O logos se fez carne e habitou entre nós". Aqui João introduz a Pessoa de Jesus.

   E já aqui identifica Deus e Jesus como a mesma Pessoa, Deus espírito, como Jesus mesmo ensina à samaritana, e Deus homem, a Pessoa de Jesus, o logos feito carne.

    João segue em seu Evangelho demonstrando como Deus encarna o Filho para a salvação pela fé. Vai escolher 7 sinais (semeia, no grego), bem significativos do poder de Deus em agência no Filho.

   E vai selecionar os principais discursos de Jesus com o rivais saduceus, fariseus, sacerdotes e doutores da lei, no período da ação pública do Mestre, em Jo capítulos 1-12, assim como a fala específica aos discípulos, em Jo 13-17.

    Em 18-21 sua narrativa da paixão e ressurreição de Jesus, trecho no qual situa sua afirmativa do propósito geral de seu Evangelho:

³⁰ "Na verdade, fez Jesus diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. ³¹ Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome." João 20.

   A síntese de João bem ilustra o amplo espectro do ministério de Jesus, assim como a plena suficiência do texto bíblico. Não foi tudo abordado ou dito, mas na economia do que segue anotado, está o registro suficiente para a fé: "Para que crendo, tenhais vida em seu nome."

domingo, 29 de março de 2026

Encontros com Jesus: um grito, um pedido e uma denúncia

⁶ "Timeu, estava assentado à beira do caminho ⁴⁷ e, ouvindo que era Jesus, o Nazareno, pôs-se a clamar: Jesus, Filho de Davi, tem misericórdia de mim!." Marcos 10.

    Houve uma novela, de 1975, transmitida pela Rede Globo, escrita pelo paulista Jorge Andrade, denominada O Grito.

    Era a história de um menino com problemas mentais que, durante a noite, emitia gritos lancinantes no edifício onde residia, na cidade de São Paulo.

   No caso de Timeu, a fama de Jesus havia chegado a ele. E quando soube que Jesus passaria por sua cidade, manteve o plantão e, mal chegando a turba ao alcance de seu grito, não vacilou.

    Com ele aprendemos que, em qualquer emergência, podemos gritar. Ainda que seja no íntimo, como na oração de Ana, haverá prontidão em ouvir. Tiago ensinou assim:

¹⁶ "Confessai, pois, os vossos pecados uns aos outros e orai uns pelos outros, para serdes curados. Muito pode, por sua eficácia, a súplica dos justos." Tiago 5.

   Os encontros com Jesus, narrados nos Evangelhos, ilustram sua personalidade bem como a natureza do que conosco é compartilhado.

   À mulher samaritana, em seu encontro com ela, pediu água. Jesus era carente de sede, como qualquer um de nós, mas tinha consigo uma água da qual todos são carentes, para saciar uma sede universal.

   Paulo, no caminho para Damasco, já mais perseguido do que perseguidor, defronta-se com Jesus que dele cobra as razões por que ele mesmo, Jesus, era perseguido por Paulo.

   As três situações se aplicam, com diferente intensidade, a todos os que creem. Porque o evangelho corresponde a uma ansiedade desconhecida, porém urgente na vida de todo ser humano.

  O cego Bartimeu reconheceu isso, em função de uma necessidade premente, que foi a cegueira física, mas todo ser humano é carente por cegueira espiritual.

   E com relação ao diálogo com a samaritana, no caso, foi Jesus que lhe fez um pedido. Podemos supor que pedidos ou quais pedidos nos faria. As Escrituras, por si, elencam vários deles, que se constituem num fardo leve.

²⁸ "Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. ²⁹ Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma.³⁰ Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve." Mateus 11.

   E na experiência da conversão de Paulo, talvez digamos que nunca perseguimos seguidores de Jesus, como Paulo fez. Mas, certamente, a perseguição de Jesus havia antes alcançado Paulo.

  Sem dúvida, o conteúdo do evangelho pregado pelos irmãos da igreja primitiva, alvo da ação persecutória de Paulo, ele conheceu logo e de antemão. Seu nível intelectual pressupõe isso.

   Mas do que ansiosos, sedentos ou perseguidores, antecipadamente nossa necessidade é reconhecida por Deus, que depara para cada um o momento do encontro.

   Em sua condição atual, o testemunho de Jesus, indubitavelmente autenticador de sua presença e da verdade do evangelho, reside na realidade visível da Igreja.

   Nós estamos no mundo para testemunhar Jesus. A diferença nossa para todo o restante da humanidade é somente a realidade e consciência dessa verdade: Jesus nos converteu ao Pai, batizando-nos no Espírito, para nos tornar testemunhas dEle neste mundo.

⁸ "...mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra." Atos 1.

¹⁵ "Senhores, por que fazeis isto? Nós também somos homens como vós, sujeitos aos mesmos sentimentos, e vos anunciamos o evangelho para que destas coisas vãs vos convertais ao Deus vivo, que fez o céu, a terra, o mar e tudo o que há neles." Atos 14.

quinta-feira, 26 de março de 2026

"Nevoa de nadas/névoas de nada/névoa-nada"

 "A vaidade é assim, põe o tonto no alto/E retira a escada." Billy Blanco.

    Uma tradução de Harodo de Campos do Eclesiastes, Qohélet, ele versa no primeiro capítulo: "Névoa de nadas/disse O-que-sabe//névoas de nada/tudo névoa-nada." Todos os tipos e modos de vaidade, de nadas. 

   Qohélet, Eclesiastes, o Pregador, que consideramos ser Salomão, em sua eperiência poética e vivencial, antepõe vaidade como mestra da ilusão.

  (sentido da leitura)   <<<    הֲבֵ֤ל  הֲבָלִים֙   
    Havel havelim, acima, no hebraico, "vaidade de vaidades", também significando "vazio, névoa, futilidade'. E ματαιότης (mataiótes), no grego, significando "futilidade, inutilidade".

   Paulo aos Efésios assinala ser "vaidade" um aparato da mente e condição do alheamento à vida de Deus.

¹⁷ "Isto, portanto, digo e no Senhor testifico que não mais andeis como também andam os gentios, na vaidade dos seus próprios pensamentos, ¹⁸ obscurecidos de entendimento, alheios à vida de Deus por causa da ignorância em que vivem, pela dureza do seu coração." Efésios 4.

   O poeta do povo, compositor de música popular, acertou em sua apreciação dos efeitos da vaidade. Em Ezequiel 28, o "querubim da guarda", líder entre anjos, no princípio, ensoberbeceu-se, porque quis pôr-se a si mesmo acima de Deus.

¹⁷ "Elevou-se o teu coração por causa da tua formosura, corrompeste a tua sabedoria por causa do teu resplendor; lancei-te por terra, diante dos reis te pus, para que te  contemplem." A vaidade puxou-lhe a escada. 

    Querendo ser Deus, tornou-se a si mesmo não deus. Por isso foi precipitado dos céus, passando a ser Satanás, ou seja, adversário. E ao tentar Eva, nossa mãe primordial, sugeriu a mesma soberba.

⁴ "Então, a serpente disse à mulher: É certo que não morrereis. ⁵ Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal." Gênesis 3.

    Satanás sugere a Eva, em seu delírio de vaidade, atentando contra a integridade dela, que 1. Não acredite que vá, certamente, morrer, portanto, que contradiga a palavra de Deus.

   Também mente, assegurando que 2. Conhecer o bem e o mal será equiparar-se a Deus, ou seja,, "como Deus" conhecer o bem e o mal. Ser como Deus foi a tentação original que tornou o anjo Satanás.

   E 3. A serpente omite que, optando pelo engano de "conhecer o bem e o mal", Eva não foi avisada que seria dominada pelo mal, que o bem não mais seria sua integridade de vida.

   A mesma vaidade típica de Satanás também se revela na tentação a Jesus. Atreve-se a dizer que:

⁶ "Disse-lhe o diabo: Dar-te-ei toda esta autoridade e a glória destes reinos, porque ela me foi entregue, e a dou a quem eu quiser. ⁷ Portanto, se prostrado me adorares, toda será tua." Lucas 4.

   Jesus resiste, demonstra conhecer e vencer Satanás obedecendo à palavra de Deus. Ora, se atreveu-se a tentar Jesus, como não tentaria os demais eleitos de Deus? Mas como Jesus venceu, do mesmo modo podemos ser vencedores.

³⁷ "Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daqueles que nos amou." Romanos 8.

    O único antídoto para a vaidade herdada, que esoberbece e torna a vida inútil, vazia, futilidade, névoa de nada é, como afirma Paulo aos Efésios, aprender Cristo.

²⁰ "Mas não foi assim que aprendestes a Cristo, ²¹ se é que, de fato, o tendes ouvido e nele fostes instruídos, segundo é a verdade em Jesus, ²² no sentido de que, quanto ao trato passado, vos despojeis do velho homem, que se corrompe segundo as concupiscências do engano, ²³ e vos renoveis no espírito do vosso entendimento, ²⁴ e vos revistais do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade." Efésios 4.

    Verdade em Jesus anula a vaidade. Renovar-se no espírito do entendimento significa honrar e verdade de Jesus, para nunca deixar-se, como tolo, ser enganado a ponto de desabar com toda a sua vida.

   Esse o milagre produzido por Jesus na vida de quem nele crê. Assumir, diante de Deus, a humildade de Jesus, que nunca desejou para Si mesmo o lugar que sempre lHe pertenceu.

   Mas esvaziou-se a Si mesmo, para ser homem e, nesta condição, entregar a Si mesmo para salvação por todo o que nEle crer.

⁵ "Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, ⁶ pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; ⁷ antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, ⁸ a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de  cruz."  Filipenses 2.

    Essa é a vitória sobre todo mal. Essa é a plenitude de vida.  Esse o esvaziamento de toda a vaidade, substituída pela glória de Deus. "Vim para que tenham vida, disse Jesus, e vida plena". 

   Larga de mão: não deixe a vaidade te usurpar a vida, puxando a escada, para dar consigo mesmo no vazio do nada. Faça a escolha certa, deixa Cristo te preencher com a glória do Pai.

quarta-feira, 25 de março de 2026

Famílias de palha

⁸ "Os filhos apanham a lenha, os pais acendem o fogo, e as mulheres amassam a farinha, para se fazerem bolos à Rainha dos Céus; e oferecem libações a outros deuses, para me provocarem à ira." Jeremias 7.

   Vejam que se trata de uma reunião  de famílias, típica dos tempos de Jeremias, numa época crítica para Israel. Não  mais havia o reino do norte, dissidência rebelde descolada após a morte (e por causa) de Salomão.

    Foram  invadidos e dispersos pelos assírios Mesopotâmia afora (ali pelos lados do Irã), em 722 a.C. A tarefa indesejada de Jeremias era prevenir destino idêntico para o reino do sul, Judá, capital Jerusalém, dali a poucos anos.

     Ele denunciou as razões por que tudo isso e de modo igual se repetiria. Foi uma culpa bem distribuída. Prova disso foi a indisposição de Jeremias contra tudo e contra todos: sacerdotes (aliás, sua ex-classe e função), profetas (seu novo grupo agregado), anciãos, juízes e até o rei.

      Acima, na citação, focam-se famílias numa rotina típica daquela época. Todas muito unidas por sinal, participantes de um ritual conjunto de idolatria, muito na moda naquele tempo. Demonstra que a corrupção idólatra alcançava todos os segmentos sociais.

     Ativa cooperação, meninos recolhem lenha, talvez nos arrabaldes, ou compram barato de terceiros. E são famílias, visto que os componentes estão todos no número plural. Os homens cuidam de acender o fogo, as mulheres produzem a receita dos bolos rituais para a oferta aos ídolos, agiam num todo harmônico bem sincronizado.

   Mas não se trata de culto ao Deus de Isarel, mas oferta a uma tal Rainha dos Céus, com amplitude para um panteão de deuses. Deve ser divertido, conciliador, como agradável mutirão, enfim, uma tarefa que envolve todo um grupo, levada a efeito com bom humor, prazer e participação conjunta.

   Deve ser fácil assim para uma família e até várias famílias juntas trocar o verdadeiro culto por uma outra rotina qualquer mais agradável, descomprometida, menos estressante, livre de regras, livre, leve e solta. Porque há tanta e muita coisa junta que hoje distrai e afasta da comunhão com Deus.

   Talvez tenhamos feito de nossas reuniões algo monótono, ou tenhamos tentado turbinar com fogo estranho a oferta ao Senhor, incorporando traços da cultura vigente, numa tentativa frustrada de tornar palatável, "engulível" os serviços do culto.

   O profeta Elias encontrou em ruínas o altar do Senhor, na reunião de desafio do Carmelo:

³⁰ "Então, Elias disse a todo o povo: Chegai-vos a mim. E todo o povo se chegou a ele; Elias restaurou o altar do Senhor, que estava em  ruínas." 1 Reis 18.

  O modo como hoje se compreende igreja, esse ajuntamento de famílias, tem sido encarado, compartilhado e sido vivenciado como algo anacrônico, ou seja, desatualizado. O mundo atual está mais conectado, rápido e prático do que púlpito, Bíblia, estudo bíblico, oração e quanto compostura ética cristã queiram exigir.

   Não vamos buscar lenha, nem manufaturar bolos ou receitas rituais e nem oferecer culto a nenhuma rainha dos céus. Não. Não vamos flertar com uma idolatria tão exposta, óbvia e desqualificante.

      Mas colocar outras atenções, trocar a rotina cansativa da igreja por outras mais leves e alegres, ocupar o pouco tempo que resta com atividade mais lúdica, certamente.

   A agenda da igreja no mundo implica um estresse adicional. A proposta é remar contra a maré. Mas essa maré mundana já virou maremoto. Não dá para nadar contra, porque o tamanho da vaga é imensa. A receita é adotar amenidades que ocupem o pouco tempo que resta às famílias para manter-se unida.

   O altar em ruínas está em nós. Porque somos, para Deus, o altar, o templo dEle, somos os sacerdotes e, ao mesmo tempo, somos os ministros do culto. Como João deixa explícito em sua 1 João, a nossa comunhão é:

³ "...a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo." 1 João 1.

   E onde estamos, todo o tempo somos culto ao Senhor. E o mais inteligente possível. Racional, porque fomos, em todos os sentidos, restaurados. Temos a mente do Espírito, segundo ensina Paulo em sua aula, em 1 Co 2.

¹ "Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional". Romanos 12.

¹⁶ "Pois quem conheceu a mente do Senhor, que o possa instruir? Nós, porém, temos a mente de Cristo." 1 Coríntios 2.

   A igreja somos nós. Somos as pedras que vivem, edificadas sobre Jesus, a Pedra Angular, eleita e preciosa para com Deus. A glória de Deus, íntegra e presente na Pessoa de Jesus, o Filho, habita na igreja, ou seja, habita em nós.

   A visão equivocada e o demérito pelo que se pratica na igreja é crise de identidade. A nossa distância das Escrituras distorce o sentido preciso da fé. Nessa proporção, então, vamos nos afastar e afastar todos de nossas relações e ser, em família, fator de desagregação.

   Em nós não se cumprirá, então, o que expressa o salmista, que uma geração será capaz para traduzir a outra os feitos do Senhor:

⁴ "Uma geração louvará a outra geração as tuas obras e anunciará os teus  poderosos feitos." Salmos 145.

   Para nunca ser o que pesou de negativo sobre a geração vivente após a grande fase do ministério de Josué. Se não restaurarmos em nós, o altar do Senhor, seremos como palha dispersa ao vento:

¹⁰ "Foi também congregada a seus pais toda aquela geração; e outra geração após eles se levantou, que não conhecia o Senhor, nem tampouco as obras que fizera a Israel. ¹¹ Então, fizeram os filhos de Israel o que era mau perante o Senhor; pois serviram aos baalins. ¹² Deixaram o Senhor, Deus de seus pais, que os tirara da terra do Egito, e foram-se após outros deuses, dentre os deuses das gentes que havia ao redor deles, e os adoraram, e provocaram o Senhor à  ira." Juízes 2.

sexta-feira, 20 de março de 2026

Deus

 

²⁸ "... porque os teus deuses, ó Judá, são tantos como as  tuas cidades." Jr 2.

   Vivemos tempos de respeito a todas as alteridades. Significa dizer que muitas convenções tidas como certas, na época que correspondia à nossa infância, para quem tem quase 70, ou seja, tempos dos avós, caducaram.

   Deve-se respeito, por exemplo, à religião alheia. Ainda que signifiquem, por exemplo, o absurdo da adoção de inúmeros deuses. Seriam panteões de divindades.

   Essa palavra provém de duas outras da língua grega, pan (muitos) + teos (deus), no caso, deuses. Portanto, quem adota para si quantidade (i)numerável de deuses, pratica idolatria, ou seja, apresenta adoração ao que não existe.

   Ou adora o(s) menor(es), incompatíveis, em relação ao ato de receber adoração. Adora-se, então, espíritos de mentira. Alguém dirá, ora, o contraponto, então, trata-se do Deus cristão. Sim, Deus único, e só existe o cristão. Porque entregou ao mundo inteiro seu Filho, para que seja Salvador.

¹⁶ "Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna." Jo 3.

   "Todo", no caso, são todos, toda a humanidade, sem exceção, nenhuma tribo, povo, língua ou nação fica de fora. A salvação, como certa vez Jesus esclareceu, provém dos judeus.

    Não há deuses. Não há outro nome, nemhum outro, debaixo do céu, dado entre os homens, pelo qual alguém, qualquer um, nenhum outro seja salvo.

¹² "E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos." At 4.

   Somente Deus deve ser adorado. Louvor e glória somente a Ele devem ser tributados. Certa vez Paulo discursou a estoicos e epicureus, sim, respeitou-lhes o apego a sua coleção de ídolos. Mas não lhes deixou de mencionar o Deus vivo.

²² "Então, Paulo, levantando-se no meio do Areópago, disse: Senhores atenienses! Em tudo vos vejo acentuadamente religiosos; ²³ porque, passando e observando os objetos de vosso culto, encontrei também um altar no qual está inscrito: Ao Deus Desconhecido. Pois esse que adorais sem conhecer é precisamente aquele que eu vos anuncio. ²⁴ O Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe, sendo ele Senhor do céu e da terra, não habita em santuários feitos  por mãos humanas." Atos 17.

    Atualíssimo esse discurso. Respeitem-se todas as religiões e a crença em quantos panteões de deuses houver. Mas nunca se deixe de anunciar o Deus único. Ele não é nem judeu e nem cristão, não foi por ninguém e nenhum desses inventado.

  E nunca se deixou ficar sem testemunho:

¹⁵ Senhores, por que fazeis isto? Nós também somos homens como vós, sujeitos aos mesmos sentimentos, e vos anunciamos o evangelho para que destas coisas vãs vos convertais ao Deus vivo, que fez o céu, a terra, o mar e tudo o que há neles; ¹⁶ o qual, nas gerações passadas, permitiu que todos os povos andassem nos seus próprios caminhos; ¹⁷ contudo, não se deixou ficar sem testemunho de si mesmo, fazendo o bem, dando-vos do céu chuvas e estações frutíferas, enchendo o vosso coração de fartura e de alegria." Atos 14.

   Esqueça seus deuses.  Esqueça entidades menores. Converta-se ao Deus vivo. O Filho Jesus Cristo é sacrifício definitivo por todo pecado. Arrependam-se, verdadeiramente, crendo única e exclusivamente no Filho.