sábado, 31 de outubro de 2026

Fé sem fingimento

 ⁴ "Lembrado das tuas lágrimas, estou ansioso por ver-te, para que eu transborde de alegria ⁵ pela recordação que guardo de tua fé sem fingimento, a mesma que, primeiramente, habitou em tua avó Loide e em tua mãe Eunice, e estou certo de que também, em ti.". 2 Timóteo 1.

    O termo grego correspondente a "fé sem fingimento" (ou "fé não fingida") nas cartas de Paulo a Timóteo (1 Timóteo 1:5 e 2 Timóteo 1:5) é πίστις ἀνυπόκριτος (pistis anypokritos).

       Aqui está a divisão do termo:
Πίστις (pistis): Significa "fé", "confiança" ou "fidelidade". Ἀνυπόκριτος (anypokritos): Significa "sem hipocrisia", "não fingida", "sincera" ou "autêntica".     

       É a junção do prefixo de negação an- com a palavra hypokrites (ator, aquele que usa uma máscara / hipócrita). Portanto, o termo descreve literalmente uma fé sem máscaras, que não é uma encenação teatral, mas sim genuína e sincera.

    Lutero, em sua reação, ao tempo da que ficou conhecida como Reforma Protestante reagiu, após um longa sequência de pré-reformadores, de encontro a uma fé fingida.

    Havia certeza de que a conduta geral da que se chamava Igreja Católica que, por ironia, significa exatamente Igreja Universal, tratava-se de uma fé fingida. Pois diversas razões podem contribuir para um abuso nosso de uma fé fingida.

   Aos Coríntios, Paulo interpela cobrando deles uma maturidade que, atendendo ao prazo deles como cristãos, já deveria ter sido confirmada:

¹ "Eu, porém, irmãos, não vos pude falar como a espirituais, e sim como a carnais, como a crianças em Cristo. ² Leite vos dei a beber, não vos dei alimento sólido; porque ainda não podíeis suportá-lo. Nem ainda agora podeis, porque ainda sois carnais. ³ Porquanto, havendo entre vós ciúmes e contendas, não é assim que sois carnais e andais segundo o homem?" 1 Co 3.

      E o problema entre eles era comunhão. Quando fingimos comunhão, certamente se trata de uma fé fingida. E comunhão é essencial.  Somente serve aquela autêntica, promovida pelo Espírito, que será Identidade, autenticidade e missão da igreja.

²⁰ "Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio da sua palavra; ²¹ a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste." João 17.

  O autor de Hebreus também cobra dos crentes que são de seu contexto maturidade decorrente de fé autêntica.

¹¹ "A esse respeito temos muitas coisas que dizer e difíceis de explicar, porquanto vos tendes tornado tardios em ouvir. ¹² Pois, com efeito, quando devíeis ser mestres, atendendo ao tempo decorrido, tendes, novamente, necessidade de alguém que vos ensine, de novo, quais são os princípios elementares dos oráculos de Deus; assim, vos tornastes como necessitados de leite e não de alimento sólido. ¹³ Ora, todo aquele que se alimenta de leite é inexperiente na palavra da justiça, porque é criança. ¹⁴ Mas o alimento sólido é para os adultos, para aqueles que, pela prática, têm as suas faculdades exercitadas para discernir não somente o bem, mas também o mal." Hebreus 5.

    Aqui ele destaca três aspectos que chamam a atenção para os efeitos da imaturidade, camuflada por uma fé fingida: (1) o tempo decorrido; (2) retorno anacrônico aos rudimentos não aprendidos; (3) deficiência quanto ao desenvolvimento da capacidade de compreensão.

    Em 1 Pedro o apóstolo utiliza a metáfora do leite, mas desta vez aplicada de um modo que estimula ao crescimento e ao exercício da ginástica espiritual de uma fé genuína:

¹ "Despojando-vos, portanto, de toda maldade e dolo, de hipocrisias e invejas e de toda sorte de maledicências, ² desejai ardentemente, como crianças recém-nascidas, o genuíno leite espiritual, para que, por ele, vos seja dado crescimento para salvação,
³ se é que já tendes a experiência de que o Senhor é bondoso." 1 Pedro 2.

   Paulo, aos Efésios, vai demonstrar, em detalhes, como uma igreja se desenvolve mobilizando cada um de seus membros, na soma do que produz um corpo, que é exatamente o de Cristo:

¹⁴ "...para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro. ¹⁵ Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, ¹⁶ de quem todo o corpo, bem-ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor." Efésios 4.

     Paulo indica a Timóteo uma experiência doméstica, ou seja, conviveu desde sua infância com o exemplo de uma fé sadia, autêntica, operosa, como Paulo aponta ter existido na igreja de Tessalônica:

    ³ "...recordando-nos, diante do nosso Deus e Pai, da operosidade da vossa fé, da abnegação do vosso amor e da firmeza da vossa esperança em nosso Senhor Jesus Cristo". 1 Ts 1.

    E não é novidade essa confirmação de autenticidade. A fé não envelhece e nem se desatualiza. A experiência de Timóteo, nos tempos de Paulo, equivale e de outro neto, Enos, em relação à sua avó Eva, há muito, muito tempo atrás.

²⁶ "A Sete nasceu-lhe também um filho, ao qual pôs o nome de Enos; daí se começou a invocar o nome do Senhor." Gênesis 4

   A única pessoa, mencionada nas Escrituras que, após a morte de Abel, invocava o Senhor foi Eva, mulher de oração e sempre vigilante e grata a Deus a cada vez que lhe nacessem filhos. Antes de Enos, sua avó invocava o nome do Senhor.  Certamente ensinou ao neto.

     Assim nomeada, a parábola da somente também constitui-se num modelo de reflexão sobre o lugar da fé nas opções indicadas: (1) semente à beira do caminho, incrédulos; (2) superficialidade da raiz, desprezo pela mensagem do evangelho; (3) renovo sufocado por ervas daninhas, covardia frente às provações e tribulações; (4) resultado promissor de uma fé autêntica, profusão de frutos.

     Precisarmos ser analistas da autenticidade primeiro de nossa própria fé. Assim como perceber por onde, como e quanto se difunde a fé fingida, de modo a denunciar e nunca permitir que, perto de nós, pretenda-se transforma a fé numa máscara de hipocrisia.

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

O protestantismo no Nordeste

 Caros amigos do Paralelo 10,

Comartilho com vocês um texto antigo escrito por Joyce Elizabeth W. Erery-Clayton. Uma missionária bastante conhecida dos nordestinos e que tem feito um belo trabalho ao longo dos anos que atua no Brasil. O texto foi escrito em 1998 por ocasião da comemoração dos 125 anos do protestantismo na região Nordeste do Brasil. Vale a pena relembrar!

Os cultos comemorativos realizados em outubro na Igreja Evangélica Pernambucana festejaram os 125 anos do protestantismo no Nordeste do Brasil.

Os primeiros protestantes eram ingleses. Cerca de 400 deles moravam em Recife. A empresa Wilson, Sons and Co. Ltd, juntamente com um tal de J.A. Fonseca, possuíam muitos dos navios de madeira que eram vistos no porto. Os ingleses construíram um templo na rua Visconde de Itaparica, no centro da cidade, em 1838. Chamava-se Holy Trinity Church, e os cultos eram em língua inglesa.

As primeiras Bíblias enviadas pelas recém-criadas sociedades bíblicas chegaram ao Nordeste no período de 1825-1830. Um dos colportores que vendiam Bíblias em Pernambuco era Antonio Marinho da Silva, membro da Igreja Evangélica Fluminense, fundada pelo missionário escocês Robert Reid Kalley.

Em 1868, o madeirense Manoel José da Silva Vianna, também membro da Igreja Evangélica Fluminense, passou 6 meses na região e vendeu muitos volumes das Sagradas Escrituras em Garanhuns, Canhotinho, Limoeiro, Pandalho, Nazaré, Jaboatão e no Estado de Alagoas. Apesar de não dispor de muito tempo para discipular os poucos crentes, fundou uma congregação protestante no Largo do Pilar, na casa simples de um empalhador de cadeiras chamado Valdevino.

Com a mudança definitiva de Viana e sua família para o Recife, em 1872, o trabalho tomou novo impulso e “seu lar humilde numa rua insignificante na área das docas se tornou um centro de atividade evangelística”. A família morava na parte da frente da casa e as reuniões eram realizadas nos fundos — sem dúvida para atrair menos a atenção dos ajuntamentos novos. O primeiro missionário presbiteriano, John Rockwell Smith, logo ao chegar da América em 1873, assistiu vários cultos ali na casa de Viana.

Surpreendentemente, na noite de 14 de março de 1873, o sub-delegado de Recife e alguns praças entraram no salão de cultos, dispersaram os assistentes, e, com palavras ultrajantes, mandaram suspender os ajuntamentos. Os cultos só foram reiniciados 4 meses depois, graças a Smith, que, ao solicitar ao presidente (do Estado) permissão para abrir seu trabalho na cidade, intercedeu também em favor do trabalho de Viana.

Para comemorar o reinício dos cultos, em setembro de 1873, Viana convidou o pastor da Igreja Evangélica da Corte, e sua esposa, Sarah Poulton Kalley. A agenda de Kalley foi cheíssima: além de pregar várias vezes, batizou doze pessoas, celebrou a Ceia do Senhor, oficiou o casamento de três casais e ainda fez uma conferência sobre Israel no Teatro, à qual compareceram entre 200 e 300 pessoas, inclusive o vice-presidente, o chefe de polícia, juízes e advogados.

Naquele mesmo período, os crentes julgaram prudente mudar os cultos para uma casa maior. Na primeira reunião, houve um desagradável tumulto. O sub-delegado não estava por dentro da lei do Império que autorizava o casamento acatólico e acusou o Dr. Kalley de realizar não um casamento, mas um ato de prostituição, juntando um homem e uma mulher. Quando acabou a reunião e o casal Kalley ia para casa, uma multidão de pelo menos 600 pessoas marchava atrás deles gritando, assobiando e jogando tijolos, pedras e lama. Os Kalley procuraram refúgio nas casas, mas as portas eram fechadas. Alguns crentes e amigos permaneceram nobre-mente ao lado dos missionários.

Apesar da perseguição feroz e contínua, o protestantismo cresceu muito na década de 80. A Igreja Evangélica Pernambucana tinha casas de oração em Olinda, Água Fria, Espinheiro e Madalena. No ano de 1887 foram vendidas 2.646 Bíblias e partes das Escrituras. O trabalho presbiteriano crescia, bem como o batista, que teve início em 1886, e o metodista. A divulgação do evangelho no interior do Estado muito deveu ao colportor Viana e a Manoel de Souza Andrade.

Em 1874, Viana passou 40 dias percorrendo o Nordeste e vendeu 21 Bíblias, 48 Novos Testamentos e 197 porções, num valor superior a 10 libras. As vendas eram pequenas por causa da indiferença do povo. Além disso, a falta de dinheiro nas províncias do norte do Império era cada vez mais marcante. Em alguns lugares, Viana tinha de enfrentar aqueles que diziam que ele vendia Bíblias falsas. Alguns dos livros e das porções vendidas eram depois queimados. Viana faleceu em maio de 1880.

Outro herói da evangelização do Nordeste foi Manoel de Souza Andrade. Ele ouviu Kalley pela primeira vez na reunião pública realizada no Teatro. Na época, o jovem português trabalhava atrás dos bastidores do Teatro Santo Antonio. Impressionado com o que ouviu, Andrade procurou informar-se acerca dos cultos que Viana liderava, converteu-se e comprou uma Bíblia. Por anos foi presbítero, professor, dirigente da Escola Dominical, pregador leigo e substituto do pastor. Mais tarde tornou-se membro da diretoria da primeira sociedade missionária criada para estimular missões a partir do Brasil. Uma vez aposentado, fixou residência em Caruaru, onde dirigiu a Igreja por longo período, além de dar assistência a pequenas congregações. Andrade pregou o evangelho ao cangaceiro Antonio Silvino quando este se encontrava nas proximidades de Caruaru e depois, quando cumpria pena de prisão perpétua em Recife.

Fica patente que trata-se da inserção de uma igreja humilde, que se administrava, se sustentava e se disciplinava. Além do mais, os próprios membros eram os evangelistas que levavam a mensagem a outros, na cidade e no interior. Os únicos subsídios enviados do Rio de Janeiro por Kalley eram as lições bíblicas para estudo na Escola dominical e umas pequenas quantias de dinheiro para o sustento de Viana. A Sociedade Bíblica Britânica e a Sociedade Bíblica Americana forneciam literatura, cujas contas deveriam ser acertadas com regularidade.

Como seria de se esperar, numa época de militância política, de guerras jornalísticas e de tensões dentro do próprio catolicismo romano, não foi uma inserção fácil. Mas, graças à operosidade de Viana, de Andrade e de muitos pernambucanos simples, houve crescimento e permanência.

Joyce Elizabeth W. Every-Clayton é missionária irlandesa no Nordeste do Brasil há 38 anos. É professora de Antigo Testamento e História Eclesiástica no Seminário Congregacional e no Seminário Batista, ambos em Recife. Acaba de publicar Um grão de mostarda, um livro de 136 páginas que conta a história completa da Igreja Evangélica Pernambucana.

Ver na net:

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Somos a família das Eunices

 

⁴ "Lembrado das tuas lágrimas, estou ansioso por ver-te, para que eu transborde de alegria ⁵ pela recordação que guardo de tua fé sem fingimento, a mesma que, primeiramente, habitou em tua avó Loide e em tua mãe Eunice, e estou certo de que também, em ti." 2 Timóteo 1.

    Nesta nossa história, a gente corrigiria a Bíblia, para dizer "fé sem fingimento que, primeiramente, habitou tua avó Eunice e em tua mãe Eunice". Nossas Eunices nos legaram uma fé sem fingimento.

   Para crer, é necessário crer em milagres. Todo ato de Deus é milagre. A fé sem fingimento de nossas Eunices, autêntica em sua simplicidade, porque fé autêntica é simples, ao alcance, acreditou e promoveu milagres. Porque amor é milagre.

    O mesmo Paulo critica quem se perde  em "loquacidade frívola", belíssima composição de nossa versão: ⁶ "Desviando-se algumas pessoas destas coisas, perderam-se em loquacidade frívola, ⁷ pretendendo passar por mestres da lei, não compreendendo, todavia, nem o que dizem, nem os assuntos sobre os quais fazem ousadas asseverações." 1 Timóteo 1.

     A mensagem do evangelho, legenda permanente da vida das Eunices, é recebida como loucura pelos espertalhões deste século, deste tempo, desta época.  Descreem que Jesus é o único que tem seu atestado de óbito ao inverso: ele ressuscitou. E o século está cheio de espertalhões. 

    A primeira virtude de nossas Eunices é a autenticidade da fé. A segunda, que também nos contaminou a todos, é o amor. Quando a gente olha para a gente, com sinceridade, se vê uns nos outros deparando esse amor.

     Entranhado em nós, na memória que deixam, que fixaram impregnando nossa vivência. Eu estava fazendo as contas de idade de Lincoln e Lyndon, para saber com quem Euinice os deixou, para cuidar de mim no 6⁰ andar do HSE, na Gamboa, Rio, RJ, convalescente de atropelado, em 1967. Deslocou-se de Nilópolis ao Centro da cidade. Provavelmente de trem. 

     Todas as noites insones, as corridas para o PS, os cafés da manhã, as merendas da escola, refeições, roupas lavadas, todos os extras, sempre com dinheiro apertado, mas total dedicação. Beliscões e chineladas também foram remédio.

    Aprendemos que até quando doía era cuidado. Todos os nãos, quanto benefício trouxeram.  E até  e, quem sabe, principalmente, nas imperfeições, nos erros e no exagero da disciplina, cada vez mais humanas as nossas Eunices. Contaminaram toda a família. Esta a segunda virtude.

     Para ficar na terceira. Para não cansar, porque são todas e tantas, as Eunices nunca abandonaram a igreja. Às vezes fugimos delas, apontando os erros delas. Estamos certos, certíssimos, porque as igrejas são feitas de erros porque são feitas de nós.

    São a big infirmary (me lembrou o blues). Porque Jesus veio buscar enfermos. Quem não se sentir manchado, então desvie-se do sangue dele. Mas caso caia, literalmente, em si, nunca abandone a enfermaria.

    Eunice avó, essa da fé mais antiga, enquanto viveu, e olha que quase alcança 100, nunca deixou de levar os netos à igreja. Menos a mim, menos a Lincoln, Lyndon e Luciane, porque estes Eunice filha sempre levou.

    Uma dessas netas de Eunice avó, também Eunice Maria, conduzida por ela e firme na igreja, com o filho Pedro, bisneto, firme nesta mesma autêntica fé.  A fé que se entranhou e foi assumida por toda essa família do filho Onésimo. Reconhecem que os alcançou pelo testemunho fiel e insistente de Eunice. 

     Sim, sentávamos ao redor da grande mesa da casa da avó. Sempre tivemos liberdade de nos expor e expor a todos. Porque igreja também é olhar um dentro da vida do outro. Mas nunca para abdicar da fé, sempre para treinar o amor. Aviso aos entendidos de plantão. Também muitos neste século. A igreja é a única escola de amor. Não dá para aprender fora dela. 

   E uma vida inteira é pouca para viver todo o amor. Sempre nos achamos em falta. Sempre falta aprender. Somos faltos de amor. O jeito é aprender. Convivemos com nossas Eunices, que sempre nos ensinaram, praticando diante de nós.

   As Eunices contam com os que entram na aprovação de Jesus, ele mesmo enaltecendo a simplicidade da fé:

 ²¹ "Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado." Lucas 10.

    Não suportamos ser pequeninos. As Eunices, que sempre deram valor ao que engrandece, vigilantes, talvez por causa da urgência e diligência em cuidar, prover, preservar, foram diretas, alerta, sábias e grandiosas na fé.

    Gratos, Eunice, pela autenticidade de sua fé, pela diligência do seu amor e por sua insistência em nos conduzir à igreja. 

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Esmirna 1 - tribulação e riqueza da igreja

 Em Esmirna o que se destaca, comparado a Éfeso, que foram as obras, era a tribulação. Para o cristão, elas se configuram de variadas formas. E sempre constituem vitória, segundo Paulo e também Tiago:

³ "E não somente isto, mas também nos gloriamos nas próprias tribulações, sabendo que a tribulação produz perseverança; ⁴ e a perseverança, experiência; e a experiência, esperança." Rm 5.

² "Meus irmãos, tende por motivo de toda alegria o passardes por várias provações, ³ sabendo que a provação da vossa fé, uma vez confirmada, produz perseverança. ⁴ Ora, a perseverança deve ter ação completa, para que sejais perfeitos e íntegros, em nada deficientes." Tiago 1.

     Na época da igreja dos três primeiros  séculos, houve períodos de maior ou menor intensidade de perseguição, devido à fé em Jesus. Esse risco de vida era a principal tribulação.

     Mas em Esmirna Jesus destaca um contraste entre pobreza e riqueza. Mas de que tipo? Certamente, quanto à riqueza, Jesus se refere à herança espiritual.  E quanto à pobreza, certamente incluía a carência econômica.

   Pobreza é tema recorrente. Quando, no colégio apostólico, Judas Iscariotes, que era o tesoureiro, reclamou do desperdício do bálsamo com que a irmã de Lázaro ungiu Jesus, o que disse o Mestre?

⁷ "Jesus, entretanto, disse: Deixa-a! Que ela guarde isto para o dia em que me embalsamarem; ⁸ porque os pobres, sempre os tendes convosco, mas a mim nem sempre me tendes." João 12.

   Jesus não estava desprezando os pobres. E nem Judas sinceramente interessado neles. Porque João já o denunciara como ladrão da bolsa apostólica. Pobreza, como tema recorrente, já se tornou até teologia.

   Nos anos 1960 surgiu a chamada Teologia da Liberação, que propunha engajar cristãos na luta contra a injustiça social. Instrumentalizou-se da ideologia socialista, numa tentativa de engajar a igreja na militância política.

      Mas Jesus faz outra distinção, que afeta essa intenção de engajamento, quando distingue reino de Deus  e reino dos homens. Lucas, descrevendo em Atos a ascensão de Jesus, anota uma cobrança dos discípulos que, como francos e sinceros israelitas, desejam a libertação do jugo romano:

    ⁶ "Então, os que estavam reunidos lhe perguntaram: Senhor, será este o tempo em que restaures o reino a Israel?"  Atos 1.

    Perguntaram pelo reino humano. Não somente a restauração de Israel, mas do mundo inteiro. Não estava incluído na pergunta dos apóstolos, mas estava na resposta de Jesus:

⁷ "Respondeu-lhes: Não vos compete conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou pela sua exclusiva autoridade". Atos 1.

    Essa expressão "tempos e épocas", na resposta de Jesus, é escatológica, assim como afirmar ser essa contagem de tempo é de Sua (de Deus) exclusiva autoridade.

    E Jesus completa: ⁸ "...mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra." Atos 1.

    Aqui Jesus indica o específico da igreja, que é (1) receber poder de Deus, por meio do Espírito, para (2) ser testemunha de Jesus.  Não inclui, para a igreja, militância política, polícia de costumes ou viés teocrático de governo.

     A Esmirna, Jesus também não está afirmando que sejam conformados com sua pobreza. A igreja precisa, sim, como os profetas no Anrtigo Testamento, denunciar injustiça social e se envolver, sim, com as razões do por que existem.

     Mas nenhuma militância ou ideologia política deve rivalizar com a prioridade da igreja, o anúncio do evangelho e a denúncia do pecado, que afeta pobres e ricos. Mesmo porque ela é a única que associa injustiça social ao pecado.

    Virtudes e vícios tanto de regimes capitalistas, quanto de regimes socialistas, têm relação com a condição pecaminosa humana. E somente a igreja aponta essa realidade. 

     Não será apenas uma luta social, por meio de tensões políticas ou ideológicas que vão alterar a índole humana.  Regimes herdeiros dessa filosofia, de que pressões sociais, ditaduras e revoluções forçam mudanças, produziram regimes de exceção, antidemocráticos, opressores e desprovidos de liberdade religiosa.

    A riqueza a que Jesus se refere, que Esmirna possui, é o legado de Cristo, a alavanca da fé, a mensagem do evangelho com suas opções de sadia doutrina. Está, sim, incluído denúncia social e preocupação e ação pelos pobres.  Porém nunca engajada numa opção política ancorada em ideologias puramente humanas.

   Essa riqueza constitui a identidade da igreja, sua missão e finalidade no mundo.

sábado, 17 de outubro de 2026

Éfeso 2 - o que ainda pode ensinar

   Éfeso não foi totalmente reprovada. Há uma lista de iniciativas aprovadas por Jesus.  E muita gente competente  havia na igreja para esse efeito.  E essa sequência de virtudes são hoje plenamente aplicáveis.

     Jesus afirma: ² "Conheço as tuas obras, tanto o teu labor como a tua perseverança". Ap 2. Portanto, eram operosos, laboriosos e perseverantes. Igrejas podem e devem ter amplitude em suas ações. Porém nunca substituir sua prioridade, que é anunciar o evangelho.

     A igreja testemunha Jesus, Sua morte na cruz e ressurreição, pelo poder de Deus, para perdão do pecado. E esta é a prova maior do amor de Deus.  ⁸ "Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores." Romanos 5.

   Será que Éfeso falhava nessa prioridade? Porque o anúncio do amor de Deus, visando o arrependimento para a salvação é a missão principal da igreja. ¹⁰ "Porque a tristeza segundo Deus produz arrependimento para a salvação, que a ninguém traz pesar; mas a tristeza do mundo produz morte." 2 Coríntios 7. 
   
      E ainda sobre Éfeso, Jesus continua: ² "…que não podes suportar homens maus, e que puseste à prova os que a si mesmos se declaram apóstolos e não são, e os achaste mentirosos; ³ e tens perseverança, e suportaste provas por causa do meu nome, e não te deixaste esmorecer." Apocalipse 2.

   Paulo foi um homem mau. Perseguia a igreja de Cristo. Converteu-se por aparição especial de Jesus, declarando-o perseguidor. ⁴ ... e, caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues? ⁵ Ele perguntou: Quem és tu, Senhor? E a resposta foi: Eu sou Jesus, a quem tu persegues". Atos 9

   Lucas afirma que Paulo "assolava a igreja" e, a Timóteo, o apóstolo assume ter sido "perseguidor da igreja de Cristo":

  ³ "Saulo, porém, assolava a igreja, entrando pelas casas; e, arrastando homens e mulheres, encerrava-os no cárcere." Atos 8. ¹² "Sou grato para com aquele que me fortaleceu, Cristo Jesus, nosso Senhor, que me considerou fiel, designando-me para o ministério, ¹³ a mim, que, noutro tempo, era blasfemo, e perseguidor, e insolente. Mas obtive misericórdia, pois o fiz na ignorância, na incredulidade." 1 Timóteo 1.

     Convertido por Jesus tem, pelo menos, três tipos de inimigos declarados: incrédulos, como enfrentou em Éfeso: ³² "Se, como homem, lutei em Éfeso com feras, que me aproveita isso?" 1 Coríntios 15.  Falsos crentes, como de novo aponta em 2 Coríntios 11: ²⁶ "…em perigos no mar, em perigos entre falsos irmãos". E pela oposição de patrícios judeus, para dele se vingar, quando assumiu para si o evangelho de Jesus:

²² Saulo, porém, mais e mais se fortalecia e confundia os judeus que moravam em Damasco, demonstrando que Jesus é o Cristo. ²³ Decorridos muitos dias, os judeus deliberaram entre si tirar-lhe a vida". Atos 9.

     Muitas vezes essa três forças de oposição aliaram-se. Mas a igreja entende a maldade humana de um modo peculiar, anuncia o amor e o perdão, como expressa Paulo aos Romanos: "não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem", Rm 12, 21. Éfeso era especialista nessa prática.

    E na própria carta sua aos Efésios Paulo ensinou que nossa luta não é contra pessoas, "carne e sangue", mas contra os poderes do mal. A igreja de Cristo não se reveste de poder de polícia, nunca será censor da conduta social ou militância política de denúncia social.

    Éfeso também sabia discernir falsos apóstolos. A medida do apostolado é critério de Jesus.  E, após o derramamenro do Espírito, a igreja toda é apóstolo. Jesus é  o Apóstolo por excelência. Esse termo grego significa "enviado". Ora, o ide de Jesus envia toda a igreja. Assim como ela é constituída por profetas:   ¹ "Segui o amor e procurai, com zelo, os dons espirituais, mas principalmente que profetizeis." 1 Coríntios 14.

     Tão próximo ainda dos tempos apostólicos, Éfeso testava quem queria, como usurpação, sequestrar esse dom, para enganar os incautos. Ponto para Éfeso.  Apostolado significa autoridade para proclamar a palavra, comissionado por Jesus, e não postura hierárquica.

      E, finamente, Jesus declara que eram maduros para resistir perseguições por causa de sua fé em Jesus.  A identidade da igreja, quanto mais fiel a Jesus, é ser odiada no mundo tanto quanto Jesus o foi: ¹⁸ "Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós outros, me odiou a mim." João 15.

    Mas seria possível tudo isso sem amor? Paulo afirma, em 1 Co 13, que muito mais é possível sem o influxo do autêntico amor. Até se oferecer ao martírio. Complexo até que ponto a soberba humana se autoimpõe.

    Amar é agir como Deus age. Deus não age por influxo de projetar seu ego, autoafirmar-se ou granjear reconhecimento. Age por graça, por dádiva sem retorno, por total entrega voluntária por salvação do que nEle crer.

   Igreja faz por gratitude. Como Deus faz. Igreja ama como Deus ama. Aprende a amar com Deus. Nada que façamos, como igreja, retorna como alter-ego. Mas é fruto da graça de Deus. Éfeso desaprendera isso.

    Muitas igrejas hoje correm o risco de se autopromover. Arrecadam dinheiro não para, por meio dele, servir. Mas para se mostrar grandes. Hoje em dia há um círculo vicioso de retorno para autopromoção: igrejas satisfazendo seu próprio ego distorcido, o ego de suas lideranças e o ego viciado de cada um.

    Vivemos o tempo da síndrome de Éfeso. 

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Éfeso 1 - carentes de amor

   Logo de início, com esta carta, aprendamos uma imensidão de lições. Vamos enumerar, para facilitar a compreensão:

1. Há, nas cartas, especificidades a cada igreja, assim como lições que se aplicam a todas. Atenção, porque essas muito mais facilmente também vão se aplicar às igrejas atuais.

2. As sete cartas constituem-se num modelo que ensina sermos os responsáveis por avaliar as igrejas de hoje, evidentemente seguindo o manual, que é a Bíblia, onde estão as instruções de Jesus.

3. A Bíblia constitui-se num conjunto de livros inspirados por Deus. A parceria com os autores humanos permite que seja compreendida, tanto pelos destinatários da época dos autores, quanto para hoje em dia. Para isso, é necessário aplicar métodos e critérios humanos, quanto reconhecer a ação divina, por meio do Espírito Santo, para essa compreensão.

   Aplicado a Éfeso, destaca-se a principal reprovação de Jesus à igreja: haviam abandonado o primeiro amor. O mesmo apóstolo João já havia, em 1 João, indica o amor como essencial.

⁸ "Aquele que não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor." 1 João 4.

   Deus é amor, define Deus e define igreja. Então a primeira lição para todas as igrejas de todas as épocas é que o amor é especial. Amor define Deus e define igreja.

    Igreja somos os que cremos. Pedro apóstolo entendeu isso, a partir da afirmação de Jesus. Nunca foi ele, Pedro, a pedra, mas sim Jesus:

  ⁴ "Chegando-vos para ele, a pedra que vive, rejeitada, sim, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa, ⁵ também vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo." 1 Pedro 2.

   Portanto, somos nós que carecemos de aprender amor. E Paulo, exatamente à igreja de Éfeso, ensinou que o essencial à igreja é compreender e praticar amor. E assim, na própria linguagem deste apóstolo, ser "tomado de toda a plenitude de Deus".

¹⁷ "...e, assim, habite Cristo no vosso coração, pela fé, estando vós arraigados e alicerçados em amor, ¹⁸ a fim de poderdes compreender, com todos os santos, qual é a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade ¹⁹ e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus." Efésios 3.

   Compreender por que Éfeso, igreja que recebeu do apóstolo Paulo e, na época em que o Apocalipse havia sido escrito, certamente, havia preservado com ela a carta aos Efésios, que chegou até nós, quais então as razões que conduziram a igreja a abandonar o primeiro amor?  É Jesus dizendo:

⁴ "Tenho, porém, contra ti que abandonaste o teu primeiro amor. ⁵ Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras; e, se não, venho a ti e moverei do seu lugar o teu candeeiro, caso não te arrependas." Apocalipse 2.

    É tão grave que Jesus menciona como se fosse a retomada da própria conversão. Lembra de onde caiu, arrependa-se e retorne à prática do amor. O risco era Jesus mover o candeeiro, que pode significar perda total da identidade como igreja.

    Sem esquecer que Jesus está falando a nós, porque nós somos igreja. E que amor se aprende continuamente. Se a crise de Éfeso era tão crucial assim, qualquer igreja de qualquer época carece de, continuamente, crescer em amor. Para nunca afundar na crise de Éfeso. 

Igreja e o mi-mi-mi

  Os tempos de hoje são caprichosos. As pessoas estão cheias de vontades. Os desejos estão à flor da pele.  E os algoritmos, uma teia de contatos construída para adivinhar desejos, trafega na Internet para satisfazer.

    Tudo se afeta por essa nova receita. Não pensem que a igreja está fora dessa teia. Porque é feita por gente. E a gente toda está afetada por caprichos.  Caso agrade, acolhe-se, caso não, rejeita-se.

    Mas a igreja tem Autor, que é Jesus.  E tem manual, que é a Bíblia. Rejeitem-se Autor e manual, a igreja perde sua identidade. Pode se tornar noutra coisa que agrade, mas não será igreja.

   No final da Bíblia, o Apocalipse, o único livro profético do Novo Testamento, Jesus escreve 7 cartas a 7 diferentes igrejas. Elas são igrejas do século I. Nós estamos no século XXI, ou seja, há 2000 anos depois.

    Então, o que mudou e o que permanece, levando em conta a identidade da igreja? Afinal, qual a finalidade dela? A igreja se constitui somente de uma iniciativa humana, ou Jesus continua sendo Senhor dela?

    Qual a importância da igreja na vida humana? A que necessidades ela atende? Trata-se de algo vital e essencial, ou apenas opcional, eventual ou voluntarioso?

   As palavras de Jesus nas 7 cartas às 7 igrejas, no Apocalipse, referem-se às igrejas para lhes confirmar ou corrigir o rumo. Se aceitamos a Bíblia como manual das palavras do fundador, que é Jesus, essas cartas são essenciais para os dias atuais.

    A seguir, vamos examinar uma a uma, operando essa transposição. Diante das exigências da sociedade atual, que modelo de igreja, ao mesmo tempo, manteria sua identidade original, porém sem esfarelar-se frente ao mi-mi-mi de hoje, que exige uma igreja a sua imagem e semelhança.

   Com a palavra, Jesus, o especialista.