⁴ "Tenho, porém, contra ti que abandonaste o teu primeiro amor." Apocalipse 2.
Éfeso era uma megaigreja. Tão ao feitio de muitas de nossos dias. Aliás, há uma penca de crentes que, se não for numa delas, não serve para eles.
Mas pode ocorrer que nem haja, por parte de (algumas dessas) igrejas, uma síndrome de grandeza, o que seria muito perigoso. Afinal, soberba não combina com Jesus.
E sabemos da parte de quem provém soberba e a falência que representa. E ela pode ser coletiva e/ou individual. Amor também, só que, na igreja, identitariamente, precisa ser individual e coletivo. E somente tem única origem.
Em Éfeso, quando Jesus afirma que era emergencial retornar ao primeiro amor, foi porque toda a igreja havia perdido o alvo. Que houvesse crentes nela que mantinham amor, mas a maioria doente superou e comprometeu, para si, o testemunho dessa minoria injustamente desprezada.
Se considerarmos que as características descritas por Lucas, em 2,42-47, definem o modo saudável dessa igreja nascente de Atos se desenvolver, e que foi uma descrição completa, nenhuma igreja sadia pode abrir mão de nenhum dos itens que Lucas menciona.
Portanto, vamos entender que, inegavelmente, a observação feita por Jesus a Éfeso, não se aplicaria à igreja descrita por Lucas. E que elementos eram prática comum nesta igreja de Atos? Eram perseverantes em:
Doutrina: cuidado com isso. Lucas se refere à dos apóstolos. Que signfica, hoje, o que temos na Bíblia. O erro tem sido o que antes, na Reforma, criticamos na Igreja única que existia: pôr o que hoje se chama doutrina acima das Escrituras.
Nenhuma doutrina ensina amor. As Escrituras ensinam amor. Avaliar que a doutrina de uma igreja ou grupo o coloca acima das outras ou de outros não é Escritura, não é "doutrina dos apóstolos", não é amor.
Comunhão: mais um conceito das Escrituras. Aliás, o principal personagem das Escrituras, Jesus, é Deus feito homem para estabelecer uma comunhão perfeita com o Pai. E é ele que afirma: "Edificarei a minha igreja".
Comunhão define igreja. E não é comunhão estilo Éfeso, na qual a competência do grupo passou a definir as atividades da igreja. A lista que Jesus enumera, incluído até o fato de terem suportado afrontas por causa de sua fé, não lhes garantiu identidade, porque faltava amor.
E se falta amor, a comunhão é falsa. Jesus expressa na sua assim denominada oração sacerdotal:
²¹ "... a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste." João 17.
Comunhão é resultado de ação do Espírito na vida individual de cada membro, assim como o resultado final promovido em todos, por todos, em comunhão com o Pai, em Cristo, por esse mesmo Espírito. E o resultado é ação no mundo.
Oração: essa igreja, denominada primitiva, tão mencionada como exemplo, orava junto, rapartia seu tempo juntos, participavam de refeições juntos, visitavam-se casa a casa, atividades que mantinham ininterrupta sua comunhão.
A vida moderna apresenta fatores que, ao mesmo tempo, podem aproximar ou afastar, podem incrementar ou anular comunhão. Mas não se pode confundir estratégias de consumo, qualquer associação de grupo, seja que finalidade for, com a comunhão de ser igreja.
Igrejas não são ONGs. Elas existem como resultado da cruz, que proporciona perdão do pecado, santificação em Jesus e ação do Espírito, para testemunho ao mundo.
Qualquer outra finalidade para a igreja, distorce sua identidade. O problema atual principal é seu desvio de função. Os que se ajuntam, não mais se identificam pela redenção pelo sangue de Jesus, mas como reunião de afago do ego pessoal de cada um ou uma identidade qualquer que os defina como grupo.
Temor: nenhuma outra identidade se aplica à igreja. Em cada alma havia temor, representa seriedade e santidade perante Deus. Pode-se dizer que Lucas descreve características gerais e práticas da igreja. Mas todas são teológicas.
Onde mais aprender temor senão nas Escrituras? E como aplicar isso ao viver, senão aplicando as Escrituras ao viver? Elas também serão o manual prático-teológico do amor e da comunhão.
E a igreja, no seu dia a dia, será escola de amor, comunhão e temor ao Senhor. Cuja cartilha será a Bíblia. Quando Atos afirma que dia a dia assim procediam, pode ser que a rotina de vida daqueles irmãos lhes permitisse, diariamente, encontrar-se.
Pois na nossa realidade, pode ser improvável (não impossível) reunir-se todo o dia, mas viver igreja todo dia, a todo instante, onde estiver, é absoluto, necessário, insubstituível. Daí prodígios e sinais. Tudo decorrente da igreja ou da vida individual de cada membro é prodígio e sinal.
Porque igreja é ação de Deus no mundo, por meio da vida dos que creem. E para aqueles irmãos, viver igreja era o essencial. Por isso que, para nós, precisa ser essencial viver igreja. E justo e especificamente neste nosso contexto de vida.
O fruto: louvar a Deus, contar com a simpatia de todo o povo e acolher os que o Senhor lhes acrescentava, era fruto, resultado natural dessa experiência que somente Deus proporciona.
Igreja é a inédita experiência de Deus na vida daquele que crê. Com alegria e singeleza de coração, de parte a parte. Alegria de Deus é segurança para nós.