domingo, 6 de dezembro de 2020

O querer e o realizar de Deus

 Introdução: coisas simples, mas impossíveis ao homem, somente possíveis pelo poder de Deus.


Cap. 1
Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus. Filipenses 1:6

Cap. 2
Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, Filipenses 2:5

Cap. 3
Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo Filipenses 3:8

Cap. 4
Finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento. Filipenses 4:8

Assim, pois, amados meus, como sempre obedecestes, não só na minha presença, porém, muito mais agora, na minha ausência, desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor;
porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade.

Filipenses 2:12,13

1. Aspecto individual do desenvolver a salvação;
2. Aspecto coletivo;

3. Deus opera o querer e o realizar segundo a sua boa vontade.

A) Aspectos dos sentimentos que Jesus aprendeu:
1. Bondade (Mc 10,18);
2. Amor (Jo 15,9-10);
3. Obediência (Hb 5,8-9)
4. Diálogos de Jesus (Jo 4,25-26; Lc 7,48e50; Mt 15,24e28).

B) O querer de Deus e o não querer de Deus: o não querer se baseia em dizer não à vontade de Deus.
O querer de Deus:
Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus. Romanos 12:1,2

O não querer de Deus
Vendo a mulher que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos e árvore desejável para dar entendimento, tomou-lhe do fruto e comeu e deu também ao marido, e ele comeu. Gênesis 3:6

C) O realizar de Deus 
C.1) Na igreja de Antioquia:
Havia na igreja de Antioquia profetas e mestres: Barnabé, Simeão, por sobrenome Níger, Lúcio de Cirene, Manaém, colaço de Herodes, o tetrarca, e Saulo.
E, servindo eles ao Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo: Separai-me, agora, Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado.
Então, jejuando, e orando, e impondo sobre eles as mãos, os despediram.
Atos 13:1-3

C.2) Na vida de Paulo 
Teve Paulo durante a noite uma visão em que o Senhor lhe disse: Não temas; pelo contrário, fala e não te cales;
porquanto eu estou contigo, e ninguém ousará fazer-te mal, pois tenho muito povo nesta cidade. Atos 18:9,10

C.3) Na vida de qualquer igreja
E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações.
Em cada alma havia temor; e muitos prodígios e sinais eram feitos por intermédio dos apóstolos.
Todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum.
Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade.
Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração,
louvando a Deus e contando com a simpatia de todo o povo. Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos. Atos 2:42-47

C.4) Na vida de igrejas específicas 
Éfeso 
Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras; e, se não, venho a ti e moverei do seu lugar o teu candeeiro, caso não te arrependas.
Apocalipse 2:5

Filadélfia 
Ao anjo da igreja em Filadélfia escreve: Estas coisas diz o santo, o verdadeiro, aquele que tem a chave de Davi, que abre, e ninguém fechará, e que fecha, e ninguém abrirá: Conheço as tuas obras — eis que tenho posto diante de ti uma porta aberta, a qual ninguém pode fechar — que tens pouca força, entretanto, guardaste a minha palavra e não negaste o meu nome.

Apocalipse 3:7,8

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Arte entre anjos

   

   Pianista novo no céu. Já era costume que a  assembléia celeste que, como Paulo afirma, se debruça para assistir aos cultos da turma aqui de baixo, se deleitasse com os teclados tocados pelo pr Dilson Mattos Pereira.

    Eu acho que ainda era meio adolescente quando chegaram a Cascadura. Magnético o sorriso dele. Prendia a gente. O casal tinha uma loirinha linda e um garoto meio tímido. E uma esposa e mãe muito compenetrada.
    Aos poucos fomos conhecendo os talentos que possuíam. O que mais nos espantava, porque eram os longes dos anos 80, ele pregar para nós usando seus volumes em Braille.
     Eram tempos sem computador ou celulares, as telas eram aquelas da TV e, no máximo, dos retroprojetores. Pr Dilson nos fascinava, percorrendo o texto pelo tato, numa proximidade que nos parecia ainda maior com a Bíblia. 
     Pacientemente nos explicava o modo de identificar os sinais e sua equivalência alfabética. Era um tamanhão de volume. Só Marcos, que é o menor entre os sinóticos, na Bíblia em fascículos do pr Dilson era mais espesso e alongado do que qualquer de nossas Bíblias. 
     Não havia impedimento para que proclamasse a Palavra de Deus. A nós fascinava, sim, mas eu aposto que esses mesmos anjos que o receberam, agorinha, quedavam-se inertes a ouvir o som que saía do piano dedilhado por ele. 
     E também nos explicava como havia desenvolvido sua mão esquerda. Ela garantia o suporte dos acordes, grandes e densos, graves e mais graves ainda, enquanto a direita dedilhava a melodia. Que saudade!
      Que saudade daquela congregação, que ainda guarda na retina, na memória e nos ouvidos aqueles cânticos, qualquer um, quando tocado por ele, ganhava contornos, arranjos e sonorização impensáveis.
    Qualquer corinho, nas mãos desse artista, ganhava ares de sinfonia. Por isso o sorriso, hoje, no céu, com os anjos comentando, entre si: Então, esse é o Dilson? E Jesus confirmando, claro, é ele mesmo, em pessoa. 
     Achegaram-se os da família que já estão lá,  disseram o seu oi, e, como sempre, a festa continua. Aqui embaixo, no intervalo de nossos cultos, a gente tem um monte de atividades. Mas lá, culto e festa constantes, só ocorre uma paradinha quando chega gente nova. 
    E por falar nos intervalos, nada era impedimento para o pr Dilson e sua esposa Lourdes. Dedicavam-se ao Instituto Benjamim Constant, na Urca, onde foram residir e onde os visitei, pelo menos, duas vezes. 
     Talvez também não saibam. Pr Dilson foi um dos mais requisitados talentos de precisão na afinação de pianos. Requisitado e conhecido por toda a zona sul do Rio de Janeiro. Sua maestria ia além de somente fazer pianos falarem, afinava-os para que se ajustassem aos mais exigentes ouvidos e, com isso, era reconhecido pela nata de gente do meio artístico carioca.
    Era nosso vizinho no Meier, foi meu parceiro em Curicica, primeira igreja que pastoreei, de 1982 a 1988, quando ele sustentou aquela congregação na fase mais difícil. A história dela é tão antiga, que o pr Zefanias, com seus 83 anos, em forma e ativo, foi estagiário lá quando seminarista. Em nossas conversas, divertia-me contando como, em suas férias, andava de bicicleta e até pilotava em rodovias, sempre em linha reta, pelo radar de ajudantes e cúmplices dele nessa outra arte que praticava.
     Mas voltando a Curicica, na Estrada do Guerenguê, era longe, num loteamento de ruas de chão, com dois ônibus, um ia, enquanto o outro voltava, e eram dois com duas vantagens: 1. O acesso, por favor, sem reclamações da barulheira das carroçarias velhas e buracos múltiplos; 2. E a poeira, agora concentrada dentro, porque as janelas de correr, quem puxasse para si, desguarnecia o passageiro da frente. 
     Como o casal, com as crianças, enfrentaram tudo isso? Rindo. Aliás, já ia esquecendo outro comentário que se ouviu no céu, hoje de manhã: isso mesmo, ele tem um sorrisão. Enquanto o de d. Lourdes se desenhava, aos poucos (deve ter sido dela que Dalton herdou a timidez), o sorrisão do pr Dilson nunca pediu licença: invadia a vida da gente. 
     Convivi com eles, mais de uma vez, quando me convidaram a conhecer o trabalho compartilhado que faziam no Benjanim Constant. Pelo menos umas duas vezes preguei lá. Interessante que o pr Dilson também me antecedeu em Copacabana. 
     Estive lá entre 1992 e 1994, quando vim para o Acre, onde estou desde 1995. Mas nos encontrávamos na Fluminense e foi numa dessas oportunidades que levamos Isaac ainda bebê para que conhecessem. Aliás, foi no Benjanim Constant que conheci a pelota com guisos e assisti ao primeiro futebol entre deficientes visuais.
      Casal totalmente dedicado, dentro e fora da igreja, ao que faziam. Dedicação total e integral. Trazemos conosco, privilegiados daquela geração, a imagem, a memória e as marcas positivas dessa família. Em nome do DuraCasca, afirmamos aqui, para a linda família de Denise e do pr Josué  Amorim, netos e netas, bisnetos e binetas, enfim.
     Transmitam a eles e também à igreja de que agora cuidam, que Dilson, esse do sorrisão, e Lourdes, sua vigilante, dedicada e idônea companheira, junto, bem junto com o filho e a nora, na congregação do céu, deixaram marcas profundas em nossas vidas. Para eles, estar na igreja era rotina e prazer e, quando fora dela, levavam-na consigo por onde andaram.
     Gratidão a Deus por esse envolvimento.

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Desmantelo e inoperância: quando a palavra mente. A profecia de Jeremias e o descrédito do discurso

 A mim me veio, pois, a palavra do Senhor, dizendo: Antes que eu te formasse no ventre materno, eu te conheci, e, antes que saísses da madre, te consagrei, e te constituí profeta às nações. Então, lhe disse eu: ah! Senhor Deus! Eis que não sei falar, porque não passo de uma criança. Mas o Senhor me disse: Não digas: Não passo de uma criança; porque a todos a quem eu te enviar irás; e tudo quanto eu te mandar falarás. Não temas diante deles, porque eu sou contigo para te livrar, diz o Senhor. Depois, estendeu o Senhor a mão, tocou-me na boca e o Senhor me disse: Eis que ponho na tua boca as minhas palavras. Olha que hoje te constituo sobre as nações e sobre os reinos, para arrancares e derribares, para destruíres e arruinares e também para edificares e para plantares. Jeremias 1:4-10

      Jeremias trata em primeira pessoa sua vocação. Irrevogável. Deus se refere ao chamado como antes ainda de nascer. O profeta tenta dissuadir.

     Usa o argumento da imaturidade e do atropelo em sua fala. Deus o repreende. Não digas não passo de uma criança.

     Assim escrito, não dá para ouvir o timbre de voz dessa palavra de Deus. Mas, certamente, foi veemente. "A mim me veio, pois, a palavra do Senhor".

    Assim o profeta retrata seu chamado, aponta a justificativa que o faz se dizer profeta, anota sua tentativa de dissuasão e termina por dizer irredutível sua vocação. 

     Como "palavra do Senhor"? Autêntica, da parte de Deus, ou atribuída a Deus por circunstâncias externas? O que sai da boca de Jeremias, no livro, a denominada ipsissima verba, temos como palavra de Deus a Jeremias ou palavra de Jeremias atribuída a Deus?

     A problemática da palavra. Por si, traz sentido. Situa-se num contexto. É assumida e a ela se confere significado. Jeremias a diz proveniente de Deus. 

     Pelo menos, no tempo de Jeremias, uma parte significativa dos que o ouviam, negavam-lhe o status de profeta, quanto mais atribuir sua palavra a Deus. 

    Mas outra parte lutou para preservar o que Jeremias disse e, como já vimos, ele fala, seus biógrafos falam e os redatores posteriores também falam. 

    Há um contexto que recebe as palavras do profeta, acolhem-nas, inclusive fazendoa-as chegar até nós. Houve quem acreditasse que, realmente, a Jeremias veio a palavra de Deus. 

     Pelo menos, podemos distinguir em sua profecia a palavra de Deus e a não palavra de Deus. Quando, por exemplo, Jeremias denuncia idolatria, ainda no tempo dele, já no século VI, culto a Baal, ainda do tempo de Elias, pelo menos há 150 anos atrás, essa é a palavra de não Deus. 

    Simples equiparar a fé de Jeremias e, portanto, sua rejeição do não culto exclusivo ao Senhor. E derivado dessa troca, de Deus por não Deus, toda uma denúncia se torna decorrente e recorrente.

     O povo que rejeita o Senhor, em função de sua escolha, enfileira uma sequência de erros e desmandos que o profeta atribui à escolha errada. Seria tão difícil, assim, identificar qual seria, então, a palavra de Deus?

     E quais seriam os resultados da opção pela palavra de Deus, em comparação aos não resultados ou, para falar de outra maneira, os resultados da opção pela palavra de Deus comparados ao da opção pela não palavra de Deus? 

    Será fácil ou difícil, na profecia escrita de Jeremias, identificar onde o profeta reclama essa rejeição da palavra de Deus, acusando suas consequências, do mesmo modo que indica, preferencialmente, quais seriam os resultados inversos, caso a opção fosse pela palavra de Deus?

     Como já mencionamos que diz Paulo Apóstolo, não se pergunte como? Como subir ao céu, para trazer do alto o Cristo? Ou como, palavra de Deus? Como discernir palavra e não palavra de Deus?

    Ele mesmo responde: a palavra está perto, na boca e no coração, a palavra da fé que pregamos. Falta colocar fé na palavra de Deus. A fé, diz Paulo, vem pelo ouvir a palavra de Deus.

    Jeremias disse que a ele veio a palavra do Senhor. Houve quem desacreditasse. Mas, por outro lado, houve quem acreditasse. Por isso, chegou aos nossos dias a palavra dessa profecia. E podemos aprender a discernir, com facilidade, entre palavra de Deus e não palavra de Deus.

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Desmantelo e inoperância: quando a palavra mente. A profecia de Jeremias e o descrédito do discurso

    No texto bíblico, a vocação ou chamado de Deus são perícopes bem circunscritas, indicando a primeira e surpreendente fala de Deus ao vocacionado. 

    Vocacionar significa chamar. Deus escolhe e convoca.  Desde Noé, a quem Pedro Apóstolo chama de profeta para a sua geração, a Abel, a respeito de quem o autor de Hebreus diz que, mesmo depois de morto, ainda fala.

    Ainda que seja expresso por uma única frase, como ocorre, por exemplo, aos profetas menores, "palavra do Senhor que veio a", e segue o nome do profeta, esses homens recebem de Deus um chamado e autoridade para falar em nome dEle.

     No Novo Testamento, Paulo Apóstolo vai dizer, aos coríntios, que toda a igreja deve profetizar. E define profecia como "falar aos homens" tendo, como conteúdo, "edificação, exortação e consolo".

     No grego, oikodomene, paraklesin e paramuthian que, respectivamente, significam "dar (a vida) estrutura", "pôr-se junto advertindo" e "encorajamento".

     Portanto, o tripé da profecia que a igreja, em conjunto, deve praticar e, para isso, buscar preparo e assistência do Espírito Santo, implica construir, estruturar vidas, colar junto incomodando, se for o caso, e conceder encorajamento. 

     O profeta se interpõe, para dizer que Deus edifica, Deus se coloca ao lado, para até importunar, admoestar, que significa "estar ao lado molestando", ações no sentido de exortação, assim como o próprio Deus, em Pessoa, consola.

      A profecia existe para advertir de que Deus se interpõe, Ele mesmo, diante de cada um dos viventes, é assim desde sempre, desde o Éden, pela viração do dia. Com o derramamento do Espírito, como indicou Joel em sua profecia, destacado por Pedro, no primeiro sermão após a ressurreição de Jesus, toda a igreja é (ou deveria ser) constituída por profetas, para indicar essa postura e posição de Deus diante dos homens e das mulheres. 

     Voltando ao Antigo Testamento, fosse uma convocação curta, expressa por uma frase, como ocorre, por e exemplo, com Jonas e Abraão, ou perícopes reelaboradas, como ocorre com Moisés, Ezequiel e, em menor escala, com Isaías e Jeremias, as descrições e expressões desse chamado indicam, em linhas gerais, a tarefa do profeta e o contorno da situação a enfrentar.

      A Abraão, uma síntese do que Deus esperava dele, "de ti farei uma grande nação". A Moisés, "vi a aflição do meu povo e desci a fim de livrá-lo", com respeito a Israel, no Egito, e a Jonas, "ir à grande cidade de Nínive e pregar contra ela".

      A Jeremias, "velo sobre minha palavra para a cumprir", expresso na visão de uma vara de amendoeira que dá o seu broto inadvertidamente. E do "rolo compressor" que vem do Norte, detalhado na descrição que Joel já havia feito dos exércitos dos impérios do oriente, assírios, em 722 a. C., e agora, no tempo de Jeremias, a partir de sua vocação ainda em tempos do rei Josias, os babilônios. A visão simbólica que ilustra essa hecatombe é de uma panela que se entorna a partir e na direção que indica o norte.

      Em linhas gerais, esse é o panorama da profecia de Jeremias. Vai reafirmar, em termos políticos, a realidade que se impõe, a partir da Mesopotâmica, do jogo de forças que compõe a geopolítica de sua época e, em meio à constatação dessa ameaça sobre o minúsculo reino de sua gente, delinear o quadro de rejeição da palavra do Senhor, em função dos falsos discursos de ocasião e seus respectivos porta-vozes.  

      Como comentou Paulo Apóstolo aos coríntios, muitas são as vozes no mundo, nenhuma delas sem sentido. Em meio a tantas vozes, destaca-se a de Deus. Cumpre ouvir, distinguindo-a entre todas as demais. 

terça-feira, 24 de novembro de 2020

Desmantelo e inoperância: quando a palavra mente. A profecia de Jeremias e o descrédito do discurso

     Para conhecer a estrutura do livro de Jeremias, ou seja, o modo como chegaram até nós as coleções de textos que o compõem, é necessário debruçar sobre os estudos mais recentes. 

    O que significa recuar até 1901, com Duhm, depois avançar até 1914, com Mowinckel e, finalmente, alcançar Rudolph, em 1947. Em linhas gerais, as pesquisas desses autores nos darão pistas seguras para nos situarmos em meio às classes distintas de textos do livro. 

     Pelo menos três grupos principais, aos quais Mowinckel classificou pelas letras A, B e C, representam as modalidades gerais de textos: A, textos poéticos e narrativas em prosa, autobiográficas, diretamente atribuídos ao profeta.

     Os textos B, quase metade do livro, com narrativas biográficas em 3a pessoa, escritas por Baruque, seu escriba, mas também por outros autores desconhecidos. Podem ser colocados em ordem cronológica: cap. 26, 609 a. C.;19,1-20,6; 36; e 45, estes em 605; 51,59-64, 594; Jeremias X Ananias, cap.28 e Carta aos Exilados, cap. 29, em 593; o assédio à Jerusalém, 34,1-7, em 587; e demais acontecimentos, nos cap. 37-44, em 586.

     Os textos C, que segundo Rudolph são 8 em forma homilética e mais 2 como discursos narrativos, pertenceriam aos revisores da chamada escola deuteronomista, teoria esta que procura definir uma gama de autores presentes nos arranjos finais dos textos bíblicos, desde a última edição do Deuteronômio, passando pelos demais livros históricos e alcançado os textos proféticos. 

     Deve ser compreendido que os autores bíblicos, por exemplo os profetas, quando não escrevem, de lavra própria os seus livros, têm quem o faça, discípulos ou outros redatores que buscam preservar suas palavras. Na antiguidade, juntar esses escritos aos originais dos profetas não era fraude ou plágio, mas cuidado, preservação e detalhamento de um tesouro inestimável.

         Os grandes blocos do livro, portanto, compreendem, inicialmente, os textos de 1-25,13a, sendo que a partir daqui, na LXX, estão intercaladas as chamadas Profecias às Nações, 46-51, nesta numeração atual no texto hebraico. Neste primeiro bloco se encontra a coleção principal dos oráculos do profeta, constantes no chanado 1o rolo, antes que o rei Jeoaquim, filho de Josias, o queimasse, e fosse ordenado a Jeremias a sua segunda escrita, como 2o rolo, levada a cabo por Baruque. 
 
        O segundo bloco é o chamado Livro de Consolação,  cap. 30-33, que procura ser um alento, após as carregadas denúncias dos pecados de Judá e Jerusalém nas seções anteriores. A parte final, já mencionada, são os chamados Oráculos contra as Nações, 46-51, faltando mencionar e discriminar o conteúdo dos capítulos que medeiam esses três blocos. 

      Nicholson classifica o trecho de 26-36, de fora, como já vimos, 30-33, como uma coleção de oráculos e ditos proféticos de Jeremias, em sua maioria em prosa narrativa, contando "a história da palavra de Deus proclamada pelo profeta e rejeitada em bloco pela nação".

     Por exemplo, o trecho de 7,1-8,3 seria o Sermão do Templo, como apresentado por Jeremias, segundo a redação da escola deuteronomista, portanto um texto da família C, de Mowinckel, e o capítulo 26 seria a narrativa biográfica do contexto desse sermão, um texto pertencente à classe B, segundo o mesmo autor. 

      E a parte de 37-45 vai cobrir, também por textos predominantemente em prosa, o período da vida de Jeremias entre a queda de Jerusalém, em 587, e sua atividade em meio aos que não foram para o exílio, a rebelião que assassina Gedalias, governador imposto pelos babilônios, e o rapto do profeta na fuga desses conspiradores para o Egito. 

     O capítulo 52 é um apêndice histórico baseado  em 2 Reis 24,18-25,30. Em linhas gerais, a palavra de Deus tradicionada por Jeremias se encontra nessa forma estrutural. Cabe, agora, trafegar dentro de cada coleção, analisando cada trecho, porque foi desse modo que Deus falou, fala e vai continuar falando.

        "Pois velo sobre a minha palavra, para a cumprir", disse o Altíssimo a Jeremias, no ato da vocação desse profeta. 

    

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

O mesmo e o Outro em tempos de COVID

   Cada um de nós tem o que dizer, o que contabilizar sobre esse tempo. Afetou a todos nós. Aliás, ainda afeta.

    Desde a mudança de rotina, até o lado mais assustador, que é o medo de contrair o vírus, até ao encontro com a realidade. 

     Para contabilizar quem contraiu e venceu, ou teve amigo, parente ou conhecido, que o valha, porque também venceu, ou porque, em meio a tantas mortes, anônimas ou com nome, alguém próximo também partiu. 

     Temos muito e pouco, ao mesmo tempo, a dizer. Alguma coisa, se formos descrever, com algum detalhe, as perdas, as próximas a nós ou de alguém ou alguns que conhecemos. 

     Ou então podemos falar de nossa agenda, já ajustada à nova rotina, mas não tão descuidada que permita uma brecha para o risco. Não poderemos deixar de falar de Deus. Porque continuamos, mesmo em meio à pandemia, a ter comunhão com Ele, crentes que somos. 

     O que mudou em relação à igreja? Sim, mudou a rotina nossa e dela. Mas continuamos a ver nela, como diz o salmista, vontade de que seja a nossa casa? A internet a trouxe para mais perto. Mas falta algo que a internet não traz.

      E Deus? Mudou alguma coisa, com a pandemia? Sim e não. Não, porque continua a ser amor. Sim, porque Deus sempre se renova e sempre nos surpreende. Não está imóvel e nem indiferente a tudo, como muitos estão pensando e outros não entendendo. 

      A primeira pista de que Deus continua em dia com Sua agenda somos nós mesmos. Em meio a toda essa pandemia, temos mudado para melhor? Continuamos os mesmos? A Bíblia diz que Deus tem uma agenda em nós. Estamos na agenda de Deus. 

    O planeta, todas as pessoas, todas as nações, agora tão parecidas em sua rotina, estão na agenda de Deus. A prioridade de Deus continua sendo nós, todos e cada um em Sua agenda. Deus não está indiferente a nenhum de todos nós. 

     Alguém poderia perguntar pelo vírus. Mas essa reposta nós já temos. O endereço do vírus, a intimidade dele, suas idas e vindas, sim, a rotina e até mesmo sua agenda está mais do que conhecida. Se há uma coisa, entre muitas outras, que não é assunto de Deus é esse vírus. 

    Pois está aí. A gente não vive achando que Deus e ciência não combinam, que ciência e Deus estão em campos opostos, que aquela não confirma Este? Pois COVID é coisa da ciência. Não tem nada a ver com Deus. COVID é coisa aqui de baixo, é coisa nossa. 

     A ciência, que também é coisa nossa, não faz mais do que sua obrigação em querer saber das origens dele, de sua parentada viral, suas idas e vindas, exatamente para planejar o seu fim. Essa é a obrigação e a finalidade da ciência.

     Não ponham o COVID na conta de Deus. Mas se queremos ser pessoas melhores, vamos pôr isso na conta de Deus, que Ele, por isso, se empenha, com ou sem COVID.

     Não podemos deixar que o vírus revele ainda mais e maior a nossa rotineira mesquinhez. Já basta o vírus. Vamos permitir que Deus opere em nós Sua agenda, como diz Paulo Apóstolo, opere em nós o Seu querer e o seu realizar, segundo Sua (sempre boa) vontade. 

     Não vivemos pelo vírus. Vivemos pelo Senhor nosso Deus. Vamos tomar todos os cuidados que a velha ciência recomenda. Vamos torcer e orar pela vacina para liquidar com (mais) esse vírus.

     Mas esperando em Deus que esta ou qualquer circunstância nos encontre incluídos na agenda dEle, que continua sendo o mesmo e ao mesmo tempo o Outro. 

domingo, 22 de novembro de 2020

Desmantelo e inoperância: quando a palavra mente. A profecia de Jeremias e o descrédito do discurso

     Se Deus existe, fala. De nada adiantaria um Deus distante, enigmático ou mudo. E sua fala está perto e fácil de ser entendida.

    No Antigo e Novo Testamentos há afirmações sobre a natureza desse diálogo com o homem. A palavra de Deus está no diálogo com o homem.
 
     Paulo Apóstolo diz que a palavra está perto, na boca do homem, ou seja, ao alcance da compreensão humana, no boca a boca com Deus. 

    E o autor de Hebreus diz que Deus fala de muitas maneiras e, para completar, falou pelo Filho. Todas as falas anteriores sempre foram autênticas, a fala pelo Filho foi seu ápice e todas as falas posteriores também são autênticas.

     Como identificar as falas anteriores, a autêntica fala pelo Filho e as falas posteriores? Ou Deus nunca falou, o Filho é uma fraude e as falas em nome do filho são blefe?

    Não existe uma palavra dada, estática, da qual o homem faça um print e compartilhe, cabendo ao traço final dessa operação sua compreensão. 

    O diálogo de Deus com o homem é dinâmico. Alguns personagens das histórias bíblicas ilustram esse dinamismo. Josué, por exemplo, a ele foi dito ser necessário meditar, cumprir e proclamar. 

     Deus está presente, com o homem, nessas três instâncias: o diálogo no silêncio da meditação, o suporte no momento do esforço para cumprir e a autoridade para proclamar.

     A voz da gutural fala de Deus uma única vez foi ouvida. No ensaio do Sinai, quando se supôs ouvir, o povo instituiu Moisés como profeta. Não que fosse novidade, porque muito antes Noé foi considerado profeta à sua geração e ainda antes dele Abel que, mesmo depois de morto, ainda fala.

     Daí para a frente, Moisés ficou encarregado de transmitir ao povo a palavra de Deus. Foi assim instituído o ministério profético. Deus até achou interessante a solução sugerida pelo povo, no Sinal, mas descreu da facilidade deles em acatar e obedecer a palavra dEle transmitida por boca de profetas. 

     Ilustrativo, na história do rico e de Lázaro, contada por Jesus, supor que o milagre de um morto ressuscitando, para pregar aos entes queridos, seria um facilitador da fé. Jesus autorizou o ministério profético em curso, afirmando que, se não creem nos profetas, ainda que ressuscitasse um dentre os mortos, para pregar aos vivos, a descrença prevaleceria.

     Boca a boca, a palavra de Deus está acessível e compreensível ao que crê, ao que prega a palavra e ao que ouve. Em Jeremias vemos a cobrança pela palavra profética não ouvida, a autenticação da palavra pregada, frente aos discursos da demagogia, e a palavra sendo escrita, em curso, para servir como referência às gerações futuras.