sexta-feira, 27 de agosto de 2021

O que fazer da glória de Deus

   A visão de Ezequiel é assombrosa, por sua magnitude. O tamanho dela conflita com a dimensão do desastre vivido. O profeta estava assentado no meio dos exilados.

     A condição de ânimo dos exilados é diversa. Porém, pelo menos há um consenso de angústia: distância remota da terra natal. E, no caso dos conterrâneos do profeta, ainda o intrincado da relação com Deus.

    Foi perda total. E não havia como avaliar que um "povo de Deus" estivesse numa condição daquelas. Por outro lado, também não havia como avaliar o grau de idolatria possível que grassou entre esse "povo de Deus".

     Jeremias, o equivalente se Ezequiel, em Jerusalém, já dizia que nunca havia visto infidelidade maior de um povo em relação ao seu Deus, posto que o único vivo, comparado às nações idólatras, 100% fiéis a seus ídolos.

     Arrasado, deprimido, sem ter o que dizer, apenas, de modo humano e solidário, sentado entre os exilados, Deus resolveu conceder ao profeta, como Jeremias um sacerdote fora de ofício, uma visão cinematográfica.

    A principal ideia era soerguer o profeta, primeiro ele, a fim de habilitá-lo para soerguer o povo. Nenhum deus era portador único da glória que somente pertence a Deus, cujo povo escolhido estava ali, prostrado, em terra estranha, para aprender fidelidade.

     Somente uma visão dessa magnitude concederia a Ezequiel suporte para levar adiante sua mensagem de restauração, ao mesmo tempo que detalhava denúncia, ainda, do grau de pecado desse povo. Visão rica em ícones de significado, todos eles apontando para a revelação última e definitiva de Deus em Jesus.

     Viu uma plataforma imensa e volante, por cima da qual um resplendor de fogo e um arco de esmeralda aparecia, ela mesma um mar vítreo infinito, ao redor da qual uma brutal tempestade se desencadeava, com raios, nuvens e trovões. Ezequiel 1,25-28.

     Abaixo dela descreve que viu quatro "seres viventes", porque não tem outra forma objetiva como denominá-los, como que sustentando essa mesma plataforma, com desenvoltura e performance de um movimento fisicamente impossível, com aparência mista, asas que cobriam o rosto, asas que lhes davam mobilidade, assas que lhes cobriam os pés, ao mesmo tempo que rodas também volantes que os acompanhavam para onde iam e vinham, ao mesmo tempo, para todas as direções. Ezequiel 1,5-21.

     E a personagem principal da cena, de onde procedia todo o comando, a mesma voz assombrosa que vai se dirigir ao profeta, era de uma figura, por mais absurdo, irreverente e reducionista que possa parecer, semelhante a homem e sentada num trono de safira, figura essa indicada, desde o início, a partir do ponto mínimo de surgimento da visão, a de maior destaque, embora a mais misteriosa: o texto se reporta a ela, da mesma forma que os "seres viventes", e ela se reporta ao profeta, ao mesmo tempo que a nós. Ezequiel 1,4.25-28.

     Isaías teve uma visão simplificada desse mesmo viés, somente que o "Ser sentado no trono" estava dentro do templo, e agora Ezequiel presencia esse mesmo Ser no exílio, a céu aberto, manifestado a ele, às margens do rio Quebar, em Babilônia. João, no Apocalipse, descreve esse mesmo trono, os mesmos seres viventes, a mesma voz que vem do trono. Somente que a visão de Ezequiel é mais ampla e detalhada.

     1. Põe-te de pé; 2. Falarei contigo; 3. Entrou em mim o Espírito, para que eu ouvisse o que se falava; 4. O Deus que envia; 5  Define como rebeldes quem não quer ouvir; 6. Terão em seu meio um perfeito perfil de profeta; 7. Sem medo, sem temor da oposição sofrida, falando da parte de Deus; 8. O profeta que ouve e fala o que Deus diz; 9. Que não se rebela como eles; 10. Que come o Livro, escrito por dentro e por fora. Ezequiel 2,1-10.

     Podemos ler essa cena como um artista, pela plasticidade de todo o quadro desenhado, como um câmera-man, porque há várias tomadas de cena, como nos closes dos "seres viventes", na tomada à distância do começo da visão, como na tomada do trono e detalhes à sua volta, ou ler como um físico perito em movimentos, que nos faça entender como são possíveis os deslocamentos descritos. Perfeito para uma tela digital e para os efeitos especiais cinematográficos.

    Ou como um vocacionado, que todos somos, despertados pela visão da glória de Deus, entendendo a vocação com que somos chamados, ansiosos por vê-la cumprida.

     

quinta-feira, 5 de agosto de 2021

Santo, Santo, Santo

 

    Os textos bíblicos estão dados. Por trás deles, os homens que os escreveram, como Tiago mesmo diz, homens como nós, apenas portadores, no passado, de uma tarefa já encerrada.

     Os textos são como sentinelas, arautos ou atalaias: estão aí como referenciais. Advertência de que Deus fala. E, da forma mais direta possível: "homens falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo", tendo depois falado da forma mais completa e plena possível, pelo Filho, "a quem constituiu herdeiro sobre todas as coisas".

     Então, falar dos textos bíblicos pode soar repetitivo. Pode até ser. Mas estão dados para isso mesmo: ser lidos e relidos. E assim constituir-se o nexo de que a fé vem pelo ouvir, e ouvir a palavra de Deus. Sendo necessário compreendê-los em suas inter-relações, pois seu alvo principal é apontar para Jesus.

     Mesmo textos do Antigo Testamento. Isaías afirma que viu o Senhor. João evangelista afirma que ninguém jamais viu a Deus, mas o Deus unigênito, Jesus, que está no seio do Pai revela Deus. Isaías ouve os querubins falando Santo, Santo, Santo.  Paulo afirma que Jesus nos apresenta, diante de Deus, santos, inculpáveis e irrepreensíveis.

      Isaías ouve de Deus "quem há de ir por nós?". Jesus proclama à Igreja "Ide". O que o Antigo Testamento promete, em Cristo o Novo Testamento anuncia como já cumprido. Entre outras deduções a partir da visão de vocação desse profeta.

    As abas das vestes de Deus, na visão de Isaías, enchiam o templo. Este é, em termos programados, um recorte de tudo quanto está fora dele, que a Deus pertence, e representa o lugar onde adorar o Deus invisível, que está em toda a parte. Ao mesmo tempo Deus está/não está no templo.

    Isaías vai contestar, na profecia, o culto oferecido no templo. Em sua visão, enxerga, sim, Deus e todas as vestes brancas, que representam a santidade dEle. Por isso, avalia-se perdido, porque sua língua, pecado capital descrito por Tiago, em sua epístola, é principal vício de Isaías.

     Mas Deus resgata o profeta no específico de sua carência, purificando-o. Reserva seu lugar no culto e providencia sua vocação. Desperta nele a carência do envio e detalha a mensagem de que será portador. O profeta tem sua linha mestra de ministério. 

    Notável é ter ouvido Santo, Santo, Santo. E também a angústia da trindade em querer saber quem, por eles, está disposto a ir. Ide. Imagine se fosse a vocação de Jesus. Ele é modelo de vocação. De santidade. De ministério. Razão de ser de toda a vocação. Para ele e por ele são todas as coisas. Antigo e Novo Testamento apontam para ele.

      No Antigo, benção anunciada. No Novo, benção realizada. Há ministério de profetas e ministério de apóstolos. Na igreja, todos são profetas e apóstolos. Jesus é profeta e apóstolo por excelência. Daí que sejamos, em Jesus, na mesma autoridade, profetas e apóstolos. Somos quem há de ir. Há uma angústia na trindade. Dela somos cumprimento de vocação. 

terça-feira, 3 de agosto de 2021

Primeiro amor

 

    Por pura provocação. Só poderia ser, partindo do Alex. Vidas cúmplices. Compartilhando a mesma culpa e a mesma redenção. Eu, por exemplo, reporto-me a 1978. Porque nesse ano, eu e Paulo Leite nos encontramos no seminário.

    Mal sabíamos dessa cumplicidade e das jornadas resultantes. Terminamos em 1981, eu ordenado pastor em 1983, ele em 1982. Era início de ministério pastoral, para nós dois quando, em 1984, Limeira achou Nelson Josilene Rosa e desafiou-os a abrir igrejas.

    Chegamos 11 anos depois, ao Acre, em janeiro de 1995. Resultado de viagens seguidas na rota Rio-Campo Grande, MS, por coincidência nome do mesmo bairro onde mora. Eu morava no Meier e o casal Rosa no Tancredo Neves, mais ou menos uma distância de 4.200 km, entre os dois Rio: o de Janeiro e o Branco.

     Mas percorremos por carro, naquela oportunidade, num Santana 2000, éramos quatro, com mais Nilson Braga, já na glória, e Julimar, dono do carro. Fizemos Rio (de Janeiro)-Mineiros (Goiás)-Rio Branco, Acre. Chegamos às 12 horas (0 h em acreanês), mas com lombeira de 2 h, por causa do fuso, deitamos às 2 h, com canseira de 4 h, e acordamos 6 h, para uma Escola Dominical, com cansaço de 24 h.

     Partiu. A carona foi num caminhão com carroceria média, portas abertas, e um batismo de poeira fina e morena, para nunca mais esquecer. Escola Dominical numa chácara no rumo de Porto Acre. Vide foto. Amor à primeira vista, meu pelo Acre, de Nilson por Cuiabá. Era agosto de 1993.

      Fizemos planos. Eu, dizendo que, caso a esposa concordasse, era certo que viríamos. Por ela já se saber grávida, quando recém chegados dessa viagem, ao Rio, as apostas eram de que não viríamos. Ledo engano. Viemos, com o garoto de colo, 8 meses de idade.

      Entre os planos e a decisão definitiva, uma viagem de intervalo, em outubro de 1993, para a parte feminina do casal conhecer a cidade. Coincidentemente, foi no Manoel Julião, onde visitamos o primeiro casal, no Acre, Joaquim e Lígia, bairro esse onde moramos, desde 2002, e onde iniciamos uma congregação, em 2008, com ajuda, entre outros, desse mesmo casal.

     Joaquim é da turma de veteranos. Ainda no Bosque, há 37 anos atrás, via Nelson Rosa guiar as crianças até as dependências da casa, onde Josilene já havia deixado tudo preparadinho para recebê-las. Muitas dessas crianças, hoje adultas, parcela desses casamentos feitos por mim, são testemunhas vivas dessa história.

     Muitas histórias. Como os crimes, já prescritos, cometidos contra o Luisinho, hoje já casado e pai de filho, deficiente visual que não tinha, a seu favor, na época, jurisprudência claramente definida para que se punissem seus algozes. Impiedosamente roubavam os bifes de seu prato, ou simulavam obstáculos inexistentes, aguçando, desnecessariamente, sua prontidão, ao caminhar na rua.

     Sem contar a simulação de um falso assédio, em sala cheia, de modo a torná-lo alvo de chacota. Que milagres de perdão o evangelho proporciona! Ou o caso quando, num dos retiros, calmamente e já ao entardecer, somente bem no meio do açude, na maior distância possível das margens, o cego e o epilético conversavam tranquila e distraidamente. Providência divina, o pastor dos dois é bombeiro militar.

     Muito há por dizer, do que já se viveu, e muito a escrever, do que ainda vai ser vivido, pelo ministério de obreiros que por aqui passaram, Parise, Afonso e Moisés, os que aqui estão, Nelson, Cid, Caria e Jeremias, os que ainda virão. E as igrejas que surgem, Tancredo, Iolanda, Vila Betel, Ilson Ribeiro e Porto Velho, com as Congregações Eldorado e Manoel Julião. 

     Prevaleça o primeiro amor. Vicejem os seus frutos. 
   





  




quarta-feira, 28 de julho de 2021

Walking dead

 

    Walking dead é uma ficção cinematográfica, genial, onde os efeitos especiais mostram zumbis desfigurados vagando pelas ruas, à procura dos sobreviventes, no planeta, ainda não infectados pelo mesmo vírus apocalíptico que os contaminou.

     Ao encontrá-los, devoram-lhes cérebro, víceras e viandas, mas mesmo um ferimento superficial transforma em zumbi quem ainda não tenha sido contaminado.

    Maquiagem, efeitos especiais digitais, entre os demais recursos, fazem do filme e da série uma opção horripilante e, ao mesmo tempo, palatável para o estilo e gosto atuais.

     Se pudéssemos fazer uma transposição para a realidade, visto que qualquer ficção carece é somente ganha envergadura e fôlego caso tenha, com a realidade, um gancho efetivo, que efeito poderíamos pressupor?

    Quem seriam os mortos-vivos? Que espécie de vírus e qual o seu efeito? Quantos estariam contaminados? Que tipo de cura seria possível? Há uma contrafação para walking dead. E, por mais incrível ainda que pareça, factível, real, triste, fácil e corriqueiramente constatável.

    Os walking dead existem e são o ser humano, de todos os quadrantes (e épocas) do planeta. O vírus já nasce neles e com eles. Já estão contaminados, de berço, e todos, sem exceçao, imitam, mútua e reciprocamente, incontinentes, a sua maldade porém, com uma única vantagem em relação à ficção que, no caso real, é a cura.

    Pode-se duvidar. Ou avaliar pessimista o quadro descrito. Talvez seja definida uma outra forma de se compreender. Mas há um desfile de maldade por toda a história humana. E os patrocinadores são os humanos. Uns contra os outros, com ou sem motivo, é indiferente, contra a natureza, contra o reino animal, contra a vida, contra o que é bom.

    A impressão que se tem é que o vírus venceu. Que as demonstrações de bondade são fraqueza e são inúteis. A maldade venceu. Surtos de bondade, exceções de seres humanos agindo ou clamando por justiça, pelo bem, por amor, o verdadeiro, que dizem ser divino e eterno, parece ser inútil.

     O espetáculo é horrendo ao inverso. Porque o walking dead do mundo real tem maquiagem, mas por trás da máscara, escondem o verdeiro rosto. E esse rosto do terror está estampado na história da tragédia humana. De tudo de ruim já feito, aparentemente esquecido, mas que permanece como marca indelével.

    Quanto mais se estuda, mais se conhece. Sobre o requinte, a frieza, o cinismo, enfim, o império da maldade. Onde a cura? O antídoto teria de ser aplicado no ser humano. Zumbis, porque são mortos-vivos perambulando pela vida, contaminados por maldade.

     Para esses zumbis, que somos todos nós, a cura virá depois da morte. Aliás, a cura veio pela morte. Do único ser humano que nasceu não contaminado. E que não se contaminou. Por isso morreu, não, óbvio, foi morto por essa mesma maldade. Mas foi ressuscitado.

     Tornou a viver. E todo e qualquer zumbi do mundo real, consciente de sua condição, que se voltar para esse humano soerguido numa cruz romana, entregue a eles por patrícios seus, será curado. Não deixará de morrer, porque a cura da maldade está na morte. Somente a morte cura a maldade.

     A morte de Jesus cura da maldade. Este o único nascido não zumbi. O único não walking dead. A cura está no batismo nele, promovido pelo Espírito Santo.  Deus quis salvar. Jesus realizou a salvação. O Espírito Santo aplica em quem busca a cura.
    

segunda-feira, 26 de julho de 2021

Como chegar ao Acre - 3

  

      Enquanto isso, Porto Velho não nos saiu da visão. Foi quando em agosto de 1993, rumamos num Santana 2000 estrada afora, com pernoites em Mineiros e Pimenta Bueno, alcançamos Rio Branco na terceira noite. Chegamos às doze (em acreanês), 0h, em português, com o corpo de 2h da manhã, por causa do fuso, fomos dormir as 2h, com corpo de 4h e acordamos às 7h, com corpo esbagaçado, em qualquer língua, para uma Escola Dominical numa chácara, na estrada para Porto Acre.

     Estávamos no Acre, ainda sem saber que eu ficaria no campo, mas logo obtendo essa indicação, viemos eu, Regina e Isaac, este aos 8 meses de vida, quando chegamos em janeiro de 1995. Nelson Rosa e Josilene foram para Porto Velho, em 1996, onde hoje está implantada a igreja que foi sonho, desde os avisos nos para-brisas do Andorinha. Porque onde Nelson e Josilene chegam, igrejas nascem.

      E esta começou em 2009, numa conversa com colegas do curso de pós-graduação, sobre a possibilidade de iniciarmos uma congregação. Ela começou em março de 2010, na varanda de nossa casa, no bairro Manoel Julião. Há uma foto histórica da primeira reunião que fizemos.

    A ideia não era, logo de começo, obter um terreno para construir um templo. Achamos que seria oneroso e que também já havia muitas igrejas no bairro. Só ali, na calçada defronte, havia 5 em sequência, num espaço de 100 m. Então resolvemos que compraríamos um espaço para fazer acampamentos com crianças, especialmente de comunidades carentes.

     Nesse meio tempo, antes de adquirirmos a chácara, 2008-2009 foi um biênio que dedicamos a trabalhar com crianças na creche Mi e Bino, no bairro Mocinha Magalhães. Até que, em 2010, numa conversa providencial com o pr Nelson Rosa, no muro externo de casa, passou de carro Daniele Balmant, uma das crianças que conviveram com o casal Rosa, desde 1984 no Acre.

    Ela falou que o esposo queria negociar uma chácara, em Senador Guiomard, pertencente ao sogro, pai dela. Qualquer empolgação nessa hora é natural. Posteriormente esfriei. Eram 200 mil à vista. Tínhamos 1/4 em caixa. Mas não achei que daria para tratativas. Até que o presbítero Dionísio, esposo dela, ligou para mim.

    Era providencial. Conversamos numa ida à chácara, no Quinari, apelido consagrado desse município vizinho, a 30 km de Rio Branco. Falei que quantia tínhamos e quanto arrecadávamos por mês. A quarta parte como entrada, segundo nos foi oferecido, requereria 4,5 mil mensais. Dispúnhamos de 2,5 mil, não menos do que 2 mil, prometi, com atividades extras que pudessem acrescentar mais.

     Combinamos que proporia ao sogro. Mas não haveria polêmica. Assentimento ou recusa seriam indicador, sem insistências e contra-argumentos. Não houve sinal de acordo. Porém uns 15 dias depois, num Encontro de Casais para o qual eu e esposa fomos convidados, Dionísio sinalizou que desejava falar comigo. E disse que confrontara a família, como eu recomendara que não fizesse.

     Ora, argumentou, vamos vender para quem? O pastor quer desenvolver um ministério com crianças. Não vendendo para ele, o espaço, mais ou menos 4,8 mil m² vai ficar para bebidas, brigas e mundanismo. Valeu a argumentação. Demos 50 mil. Pagamos o restante, com juros celestiais de 10 mil, nos meses restantes, sem atrasos.

      Confirmado o ministério com crianças, o que priorizávamos desde o Mocinha. Continuávamos na varanda de nossa casa no Manoel Julião. Houve uma obra que ampliasse nossa área externa nos fundos, o que nos deu um espaço a mais, isso em 2014-2015. E em 2017 Jorge chegou à igreja. Quando soube de seu talento em construção, reconheci que era providência de Deus para nós.

      Assim o foi. E neste ano, com 11 anos e 4 meses de existência, inauguramos o novo templo.
    

Como chegar ao Acre - 2

Foto 01 da igreja, em março de 2010

     A compra proporcionou várias viagens para acertos. Os antigos proprietários desejavam comprar terras para criação de gado. Queriam retornar da cidade para a zona rural. Para eles, não havia rosco. Para nós, ansiávamos por garantias documentais.

     Rosco, aprendi com eles, significava burla, fraude, engano. Eram do tipo raro de gente que basta empenhar a palavra. Nesse vaivém entre Rio e Campo Grande, pela Andorinha, eu e Paulo Leite, aprendemos que havia um Andorinha, em Campo Grande, que alcançava Porto Velho.

    Uma plaquinha de folha de papel, pelo vidro de dentro, no para-brisa, advertia. Então, entendemos que ali, na Rodoviária de Campo Grande, havia essa baldeação (cuidado, baldear, em acreanês, é lavar com balde). Eu disse que precisávamos visitar Porto Velho. Pr Paulo Leite achou melhor não, vai que a gente comprava outra casa desse jeito doido.

     Porque foi como se hoje chegasse a 100 mil. Cascadura tinha uma reserva que economizava para a construção do novo templo. A economia já rendera uns 50 mil, em moeda de agora. Eu recomendei ao Paulo Leite que conseguisse uns 25 mil na igreja "dele". Curicica, que era congregação de Cascadura, na época, pastoreada por mim, ia garantir uns 5 mil. Meus pais lá em casa, uns 2 ou 3 mil, quer dizer, sonhávamos com uns 80 mil e sairíamos atrás dos outros 20.

    O pessoal em Campo Grande apressando a gente: "Não tem rosco, não tem rosco". E a gente dentro do Andorinha, com troca de motorista em São  Paulo, na Rodoviária do Tietê, quando não nos mandavam para uma garagem e aí era esperar mais de hora nessa troca. Em Presidente Prudente, outra troca, nessas mesmas possibilidades. Em Bataguaçu, fronteira com São Paulo e Mato Grosso do Sul, outra parada.

     Isso quando não havia pneus furados: era uma média de 1 por viagem, na ida ou na volta. Voa, Andorinha, voa... Até que, enfim, obtivemos os 100 mil. Nossos amigos, muito gratos, gente simples e leal, rumaram para a vida no campo e nós para aquela capital.

    Gercino e esposa ficaram cerca de 1 ano. Muito frio. A esposa não se adaptava. Providência de Deus, frutos de raiz, foram as três irmãs vizinhas que nos acolhiam sempre na ida até lá. Anjos de Deus. Sandra Roger aceitou o desafio, buscou resposta de Deus, a mais duas igrejas entraram na parceria: as Congregacionais de Cordovil e Piedade. 

domingo, 25 de julho de 2021

Como chegar ao Acre - I

 

  A vinda ao Acre, em agosto de 1993 começou, de modo indireto, mas providencial, numa conversa num ônibus, que circulava entre Cascadura e Anchieta, lá pelos idos de 1985.

    Eu e o pernambucano Gercino íamos prestigiar uma reunião de oração da Federação de Senhoras, na Igreja Congregacional de Anchieta. Gercino me mostrou a capa de um revista de Escola Dominical da UIECB - União das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil.

     Estavam em ressalto, graficamente, num mapa do Brasil, estados não alcançados. Gercino chamou a atenção para Mato Grosso do Sul. Disse que, em seu tempo de caminhoneiro, pernoitara por lá. E também disse que, caso houvesse iniciativa e interesse, de antemão já prevenia que ele e a esposa estavam dispostos a iniciar um igreja ali.

     Foi um susto. Logo veio à mente o versículo que menciona a ordem de Jesus, "rogai por obreiros": dedudzi, ora, se há obreiro, não falta mais nada. E combinamos uma viagem a MS, que Gercino não parou de cobrar, até que numa sexta-feira qualquer, na Rodoviária Novo Rio, às 16h30 da tarde, entramos num ônibus da viação Andorinhas para, 22h depois, com 1h a menos de fuso horário, chegar, por volta de 5h da manhã, na, naquela época, acanhada Rodoviária de Campo Grande, MS.

     Gercino, rato de estrada, havia se deslocado até à cabine do motorista, já perto de amanhecer, para um bate-papo. Dizia que o período mais perigoso era aquele, de quase chegada. Depois eu ia ficar sabendo que, nessa conversa, o jovem motorista, talvez com menos de 30, disse que o seu pai poderia ser o nosso "guia" pela cidade.

      Essa sugestão se revelou, primeiro, para mim, irritante e, da parte de Deus (como sempre) providencial. Porque havíamos combinado, eu e Gercino, encerrar essa primeira visita de três dias à cidade assistindo a um culto, domingo à tarde, na igreja metodista da cidade. Pela manhã havíamos conhecido a batista e, à tarde, sugestão do tal "pai do motorista", a gente conheceria um bairro chamado Copavila II onde, segundo o guia, residia uma sua filha que havia ganhado uma filha que, segundo nos dizia o guia, era uma netinha que ele não conhecia ainda.

    Fomos. O ônibus Copavila II, primo-irmão de outro da mesma linha, o Pênfigo, nos deixou lá em cima, no final (ou início) da ampla via de duas pistas, um largo canteiro no meio, para que descêssemos a pé. Uma vez pisando na pista, descido do ônibus, o guia, Gercino e eu, por último, ouvi do avô, que estacou, dizendo: "caramba, agora que eu me lembrei, minha filha não mora mais aqui não".

     Irritação instantânea. "Vamos, Gercino, apressa: o guia não sabe onde a filha mora", falei, como quem não quer ser ouvido, e abandonei os dois às suas conversas. Gercino, na sua calma celestial costumeira. Acho que vinha apreciando o bairro e parolando fiado com o "guia". Eu apressei, "Vamos, vamos", se fosse no Rio, "Anda, anda", no Acre, "Cuida, cuida", que eu queria chegar de volta ainda para alcançar o culto na metodista.

     Bufando de, vamos dizer, uma meia ira, avistei um freezer (uma freezer, em acreanês) num boliche (num lanche, de novo em acreanês). Entrei, pedi um refri qualquer, muito atenciosamente o moço me informou que a freezer estava vazia, estavam de mudança para Brasília. Definitivamente, pensei, não é o meu domingo. Mas me convidou a entrar, virou para dentro da casa a voz e gritou para a mulher que me preparasse um suco.

     Surpreendeu-me. Ali arregalei os olhos pela receptividade. Hesitei. Ele disse não, entra, entra. E repetiu o pedido à mulher. Eu, meio sem rumo de tanta acolhida, fui entrando, a mulher, sorridente, trocava a fralda de um menino (que, em acreanês, pode ser menino homem ou menino mulher, eu não lembro). Tarefa terminada, tomou do menino, acho que pousou num berço e foi-me ao suco.

     Enquanto eu degustava, o guia e o Gercino aportaram à porta, devem ter tomado o seu copo, porque eu, mais centrado com a desconcertante acolhida, havia perguntado ao anfitrião por eventuais preços de terrenos, lotes, naquele conjunto habitacional, exatamente o Copavila II. Ele respondeu, depende do tamanho. Há de 10 X 30, 20 X 40, enfim.

      "Mas aquela casa ali está à venda", apontou para a frente. Resumindo, não fomos ao culto da metodista. A conversa com os antigos proprietários desse imóvel não permitiu. Chegados ao hotel, à noite, ali pertinho da rodoviária, liguei para o Rio, para comunicar ao pr Paulo Leite que iríamos, nós em Cascadura e a igreja "dele" em Vicente de Carvalho, comprar o imóvel. Sim, esse mesmo para que o nosso anfitrião havia apontado.

     A Congregacional de Curicica, na época Congregação ainda, entrou na parada e em casa meus pais também. Hoje a Igreja Evangélica Congregacional de Campo Grande, ainda sob os cuidados de Vicente de Carvalho, agora pastoreada pelo pr Manoel Bernardino, funciona nesse imóvel. Era o domingo certo. Foi o guia mais acertado possível. Era a providência de Deus. E meu caminho para o Acre.