sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

Estudos em Efésios 12 - O bê-á-bá de Paulo

 O bê-á-bá de Paulo, aos crentes de Éfeso, é um compêndio do que seja igreja. Realmente, pelo que se pode constatar, a envergadura desta carta ajusta-se ao ministério exercido por Paulo, fosse no lugar, estratégico como polo metropolitano para toda a Ásia, assim como ao nível de uma escola, como aquela em que Paulo exerceu, por 2 anos, esse mesmo ministério.

   A carta aos Efésios foi mesmo escrita a uma igreja estratégica, de uma grande cidade, para um grande contexto. Alguns estudiosos afirmam que foi como carta circular, na qual Paulo pensa o que se ajusta aos efésios, bem como a toda a vizinhança.

   A caminho de definir o roteiro a percorrer a quem aspira ser cheio do Espírito, Paulo enumera o que conhece, tanto com relação ao trato gentílico, de modo geral, de uma vida fora da igreja, referente ao estilo de vida, usos e costumes, quanto sobre a experiência adquirida em seu tempo de estada em Éfeso.

    Então ele elenca o que bem conhece, a princípio, (1) não mentir uns aos outros, mas falar a verdade ao próximo; (2) irar-se, até admissível, mas nunca pecar com ira e por causa dela; (3) pois seria, por essas e outras coisas, dar lugar ao diabo. (4) não furtar, mas trabalhar com honestidade e, com isso, acudir ao necessitado; (5) não sair da boca nenhuma palavra torpe, genérico, incluídos os palavrões, mas também as hipocrisias, as execrações verbais e dissimulações de ocasião. 

   Aqui Paulo descreve, como contraponto, o que costumo referir que seja uma definição de profecia, que da boca somente saia: palavra (5.1) boa para edificação, (5.2) conforme a necessidades e que (5.3) transmita graça aos que ouvem. Até aqui Paulo está esmiuçando características desse homem novo, "criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade", Ef 4,24, em oposição ao antigo sem Cristo.

    Esse proceder refere-se à construção da personalidade, que tem origem na restauração de que é alvo aquele que crê. E Paulo prossegue, mencionando a parceria que agora o crente adquire com o Espírito Santo, após esse "lavar regenerador", que menciona na sua carta pastoral a Tito:

    ⁴ "Quando, porém, se manifestou a benignidade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor para com todos, ⁵ não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo sua misericórdia, ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo, ⁶ que ele derramou sobre nós ricamente, por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador". Tito 3.

    Por isso Paulo interpõe no texto que nunca nenhum crente entristeça o Espírito. A sensibilidade da santidade que agora adquirimos em Cristo é regulada pelo agir do Espírito em nós. Paulo prossegue, agora definindo o que transtorna os relacionamentos dentro da igreja: (6) ³¹ "Longe de vós, toda amargura, e cólera, e ira, e gritaria, e blasfêmias, e bem assim toda malícia". Ef 4.

   Para indicar o antídoto: ³² "Antes, sede uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus, em Cristo, vos perdoou." Ef 4. Elevadíssimo grau este. Em Colossenses 3, Paulo vai acrescentar um nível acima: 
 
¹³ "... caso alguém tenha motivo de queixa contra outrem. Assim como o Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós; ¹⁴ acima de tudo isto, porém, esteja o amor, que é o vínculo da perfeição." O amor no seu devido lugar.

   E vai então indicar o que podemos avaliar como sendo a síntese da carta aos Efésios: ¹ "Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados; ² e andai em amor, como também Cristo nos amou e se entregou a si mesmo por nós, como oferta e sacrifício a Deus, em aroma suave." Ef 5.

   Mais nos admiramos de que, diante de tão rica e detalhada, em suas orientações, exortações e ensino, esta carta não tenha surtido, em Éfeso, na sucessão das gerações, o efeito esperado.

   Duas cousas Paulo enseja ser possível: (1) ser imitador de Deus, como filho amado; (2) andar em amor exatamente como Cristo andou. Mais exato, claro e precípuo impossível. Como, então, torna-se possível e permissivo abandonar o amor?

Estudos em Efésios 11 - O antes e o depois

    Será que há pistas, nas carta aos Efésios, que nos indiquem exortações feitas por Paulo e que, não acolhidas por uma parte significativa dos crentes dessa igreja, possam ter comprometido toda uma geração?

   Um pastor que tenha, no mínimo, 30 anos de ministério, terá testemunhado o filme de uma geração. Saberá dizer como crianças, adolescentes e adultos, nesse prazo decorrido, acolheram ou não, corromperam ou não a um turno de instruções pela palavra.

   Se é vital permanecer na palavra, como Jesus afirma em Jo 15, que a igreja de Atos perseverava na doutrina dos apóstolos, a geração a quem Paulo dirige sua carta terá de acolher a palavra para que, nos anos seguintes, até a data da carta de João, com as palavras de Jesus, os frutos requeridos surjam.

    No início do cap 4, Paulo apela que a igreja "ande de modo digno de sua vocação", operosa e diligente em preservar a unidade do Espírito: ³ "...esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz." Ef 4.

   Logo depois, indicará o modo como Cristo, uma vez glorificado, distribui dons à igreja, de modo a que ela cumpra seu ministério para então, de modo detalhado, num antes e depois, explicar aos efésios o que significa ser convertido:

    ¹⁷ "Isto, portanto, digo e no Senhor testifico que não mais andeis como também andam os gentios, na vaidade dos seus próprios pensamentos, ¹⁸ obscurecidos de entendimento, alheios à vida de Deus por causa da ignorância em que vivem, pela dureza do seu coração, ¹⁹ os quais, tendo-se tornado insensíveis, se entregaram à dissolução para, com avidez, cometerem toda sorte de impureza. ²⁰ Mas não foi assim que aprendestes a Cristo". Ef 4.

   O antes está, nesse texto, expresso por: (1) andar na vaidade dos próprios pensamentos; (2) ser obscurecidos de entendimento; (3) alheios à vida de Deus; (4) vivendo em ignorância; (5) de coração endurecido; (6) tornados insensíveis; (7) consequentemente, dissolutos. Estes foram tanto os de Éfeso ou quaisquer outros, na diversidade da vida sem Cristo. E Paulo descreve o depois da conversão, neste texto:

    ²⁰ "Mas não foi assim que aprendestes a Cristo, ²¹ se é que, de fato, o tendes ouvido e nele fostes instruídos, segundo é a verdade em Jesus, ²² no sentido de que, quanto ao trato passado, vos despojeis do velho homem, que se corrompe segundo as concupiscências do engano, ²³ e vos renoveis no espírito do vosso entendimento, ²⁴ e vos revistais do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade." Ef 4.

   Na conversão, Paulo atesta que "aprenderam a Cristo", com uma ressalva: ²¹ "...se é que, de fato, o tendes ouvido e nele fostes instruídos, segundo é a verdade em Jesus". Ef 4. E passa a descrever essa nova vida: (1) ouvir de Cristo, ser instruído, segundo é a verdade em Cristo; (2) despojar-se do velho homem, do trato anterior, corruptível segundo as concupiscências do engano; (3) renovar-se no espírito do entendimento; (4) revestir-se do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade.

   Esse processo, que Paulo esclarece aos efésios, é típico da conversão de qualquer um. Após essa descrição detalhada, atente-se como o apóstolo destaca todo esse processo associado ao efeito dele na mente, de como, nela, ocorre a vital mudança. Por isso, no grego, conversão é metanoia, ou seja, meta = mudança + noia = mente.

   E Paulo vai enunciar, detalhe a detalhe, o que ocorre em quem se permite converter por meio de Cristo. E, no final dessa lista, Paulo vai exortar a encher-se do Espírito, certamente, porém que somente no final dessa jornada de uma luta renhida e consciente contra a carne.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

Estudos em Efésios 10 - Ouça o Espírito

    Para compreendemos o dilema da igreja de Éfeso, em sua sutileza, ou seja, uma aparente imagem de ordem em sua agenda, frente a uma análise desfavorável do próprio Jesus, que analisa pela falta nela do essencial, precisamos elencar os dados.

   Temos João 15, onde Jesus expõe o triângulo (1) permanência nEle, (2) permanência na palavra, (3) permanência no amor. A consequência natural são os frutos que, pelo exposto na carta do Apocalipse, não corresponde ao que Éfeso apresentava.

   Temos, também, o texto de Paulo, numa própria carta aos Efésios, em torno de 50 d.C., na qual afirma como Deus, na potência de seu poder e em sua graça fortalece os crentes, por meio do Espírito, o que representa habitar Cristo no coração deles.  

    E a consequência dessa ação da Trindade segue expressa: ¹⁷ "Para que Cristo habite pela fé nos vossos corações; a fim de, estando arraigados e fundados em amor, ¹⁸ Poderdes perfeitamente compreender, com todos os santos, qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade, ¹⁹ E conhecer o amor de Cristo, que excede todo o entendimento, para que sejais cheios de toda a plenitude de Deus.  Ef 3.

   E temos os texto de Lucas, em Atos 2, pelo qual descreve as características que habilitaram a comunidade dos primórdios como igreja ativa, coerente e dinâmica em todos os seus setores. A descrição de Lucas indica a rotina dessa igreja, que explica as razões por que permanece como modelo permanente para as comunidades ao longo da história.

   Baseados na comparação desses textos, podemos elencar alguns fatores, estejam patentes como ausentes ou não, na carta aos Efésios, mas que constam como essenciais para a restauração pretendida e advertência, para qualquer igreja diagnosticada como Éfeso.

1. Pelas palavras de Jesus, sem que nEle se permaneça e com a reciprocidade da permanência de Cristo no crente, em comunhão efetiva, não se permanece em Sua palavra e nem no Seu amor.

   Por extensão, se há, na carta à igreja de Éfeso, uma reprovação por "abandono do amor", havia falha nessa reciprocidade da comunhão com Jesus e consequente permanência na palavra e no seu amor, razão da falta de autênticos frutos.

2. É essencial na igreja, como esclarece Paulo, em sua oração, na própria carta dele aos Efésios, que Deus opere, pelo seu poder, por meio da presença do Espírito Santo no crente, tornando real a habitação de Cristo nesse mesmo crente.

   Portanto, a ação que conduz à plenitude do amor é exercida diretamente por Deus (e, por extensão, a Trindade, em si). A palavra "abandonar", na carta de Jesus aos de Éfeso, significa apartar de si, negligenciar, divorciar-se do amor. Evidente que para que isso ocorra, afastar-se de Deus foi a causa.

   Essa ação de Deus não é opcional. É a essência de ser igreja. Paulo menciona, em outras cartas, ser carnal ou criança, aos Coríntios, entristecer ou apagar o Espírito, como registra na própria carta dele aos Efésios, em 4,30, e aos Tessalonicenses, 1 Ts 5,19, ou decaídos da graça, em Gálatas 5,4, os que são afetados por essa apatia de fé. Para esse diagnóstico dado por Jesus à igreja de Éfeso, certamente uma crise dessa natureza se configurou.

3. E quanto à descrição feita por Lucas, dos procedimentos que, juntos, compõem a feição dinâmica da comunidade de Atos 2,42-47, não temos condições de comparar, com mais exatidão, as duas igrejas.

     A de Jerusalém era menos institucional, dependente, talvez, em maior escala da companhia mútua de seus membros, mesmo por reunir-se nas dependências externas da extensa esplanada do Templo de Jerusalém.

   Talvez o porte da igreja de Éfeso, percebido nas entrelinhas da carta, ou transparente de suas ações, tenham conferido à igreja uma feição mais rígida, institucionalmente e, por isso mesmo, mais distante e com perdas em relação à feição da comunidade primitiva.

   Revisando a postura desta igreja de Atos, o apego à doutrina ou ensino dos apóstolos, por extensão, o apego à palavra, já anotamos como essencial. O fator comunhão, manifestado nos procedimentos elencados em sequência, quais sejam, estar unidos com frequência no templo, frequentar, com qualidade, a casa uns dos outros, assistir na medida da necessidade de cada um, haver temor em cada alma, enfim, podemos afirmar que tenha faltado em Éfeso? Quais desses elementos podem ser preteridos na história de qualquer igreja?

   Mas se houve em Éfeso, foi porque, certamente, os objetivos, em essência, foram distorcidos. Todo esse ajuntamento, essencial em igreja, não reverteu, como ocorreu na comunidade primitiva, para alterar o grave problema vital na igreja de Éfeso, numa análise feita pelo Senhor da igreja.

     Não há experiência com Deus fora da experiência do amor. Toda a experiência autêntica do ser igreja está circunscrita a esse processo. Não há outro modo de se experimentar ou vivenciar o amor de Deus.

    Jesus sentencia: ⁵ "Lembre-se de onde caiu! Arrependa-se e pratique as obras que praticava no princípio. Se não se arrepender, virei a você e tirarei o seu candelabro do lugar dele." Ap 2.

A palavra para "caiu" é a mesma para a queda primordial, no Gênesis, e, para "arrepende-te", a mesma que se aplica à conversão. E "abandonar" o amor sigjfica apartar de si, negligenciar, divorciar-se dele.

     Não se pode dizer, de Éfeso, que nutrisse apostasia. Não havia uma liderança que os corrompesse, como em Tiatira, não haviam afrouxado sua resistência às perseguições, com igual procedimento ao de Filadélfia, e nem, como em Sardes, tinham o nome de vivos, estando mortos. E ainda resistiram à falsa doutrina nicolaíta, como Pérgamo não fez.

      Será que, tendo se profissionalizado na fé, de um modo tão sofisticado, no trato com o evangelho, tornou-o um acessório que compunha a autoimagem própria de igreja e de seus crentes, ciosos do orgulho de pertencer a uma cidade que poderia ser considerada uma vitrine da Ásia Menor?

   Corre-se esse risco. Na avaliação de Jesus, como que necessitavam de uma (re)conversão. Sim, é possível e necessária uma autoavaliação permanente, como igreja, ou até aos olhos de outrem, ganhar nota máxima na performance, como com a comunidade de Atos. Que seja uma avaliação estilo a de Lucas, ou uma positiva aos olhos do próprio Jesus. Ou uma que siga o processo de autenticidade expresso na oração de Paulo.

   Já deve existir na praça o CEO ou o Coach da fé. Mas somente Jesus terá a capacidade de gerir autenticidade. Como saberemos isso? Como avaliaremos, ao autoanalisarmos nosso próprio desempenho? Sim, cabe a nós fazê-lo. Para isso, levando em conta sempre a advertência final de Jesus, ao completar cada carta:

    ⁷ "Aquele que tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas. Ao vencedor darei o direito de comer da árvore da vida, que está no paraíso de Deus."  Ap 2. Ouça, Éfeso (e similares), ouçamos nós, da mesma forma.

domingo, 7 de janeiro de 2024

Estudos em Efésios 9 - Para a igreja, há marcos antigos

     2.5. Estar unidos, mantendo tudo em comum, ao limite de até onde pode ir a comunhão, de perdas ou ganhos, mas sempre mantida; 2.6. Na Bíblia, o ato de dar, contribuir, sempre foi voluntário. Aliás, até a salvação, o mais importante nas Escrituras, é voluntário. Tremenda avareza, que é idolatria, discutir a legitimidade matemática sobre 1/10, ou seja a parte mínima chamada dízimo, como muito frequentemente se faz. 

   O que o texto diz a seguir, ninguém pede e a ninguém se obriga fazer, a não ser os líderes dessas "igrejas de arrecadação", ou seja, que por obrigação ocorra vender até propriedades e distribuir dividendos segundo a necessidade: mas vide Ananias e Safira, possuídos de vaidade, que tão duramente serviu de lição, porque, como diz as Escrituras, avareza é idolatria.

   2.7. Todos os dias se reuniam, para comunhão, estudo bíblico, compartilhar de necessidades ou, simplesmente, estar juntos. A vida moderna pode nos privar desse "todos os dias", mas regular com miséria a presença na igreja ou a prioridade que lhe é devida, caminha na direção do "mal dos efésios". 

   2.8. De casa em casa, mas não como visita inútil, inoportuna ou fuchiqueira, mas acolhida com maturidade, como fez Jesus na casa de Maria e Marta ou da sogra de Pedro, e com frequência noutras casas, como Zaqueu, Mateus e até atendeu ao convite de Simão fariseu.

   2.9. Alegria, sinceridade, louvor, sim, este é corolário. Caso colocado antes de tudo, esvazia-se ou apenas destaca os "levitas", deve ser porque praticam levitação, louvando a si mesmos. Como Jesus ensinou à samaritana, Deus seleciona os verdadeiros adoradores.

   E adorar a Deus, agora é Paulo que ensina, aí mesmo, aos Efésios, é imitar Deus: ¹ "Portanto, sejam imitadores de Deus, como filhos amados, ² e vivam em amor, como também Cristo nos amou e se entregou por nós como oferta e sacrifício de aroma agradável a Deus." Ef 5. Ora, está aí uma síntese da carta aos Efésios. 

    2.10. Tendo a simpatia de todo o povo, o que indica, somando os acréscimos naturalmente decorrentes da autenticidade, sendo Deus o ator de tudo, a igreja de Atos alcançou reconhecimento. Sim, Deus é o operário da vinha. Paulo, aos Coríntios, adverte a igreja de que seja referencial de Cristo no mundo:  ou seja, quem entrar por tuas portas, ouça profecia (pregação da palavra) e ateste que "Deus está no meio de vós". 1 Co 14,24-25.

    Pode até sair sem crer. Nem sair convertido. Mas atestará que testemunhou, numa igreja, a ação de Deus. Em que etapa de sua história Éfeso deixou de lado o procedimento padrão que alimenta a fé, não sabemos. Mas para retornar ao amor, Jesus advertiu: "Lembra-te, analisa, autoavalia-te, onde caiste? Retorna à prática do antigo. Nisso Salomão acertou: há marcos antigos irremovíveis. 

Estudos em Efésios 8 - Como, então, uma igreja perde o principal?

 Como Éfeso chegou a essa avaliação que o próprio Jesus atestou? A princípio, abandonar o primeiro amor, como explicitado, significa, pelo que constatamos no próprio texto da carta de Paulo, significa abandonar o essencial.

   Igreja é o exercício do amor. Não é o amor, da parte de Deus, somente uma declaração (vazia) de amor. Mas o fato. Deus prova seu amor pelo fato de Cristo ter morrido por nós. A cruz é a prova do amor.

   Deus é amor. Igreja é ser tomado de toda a plenitude de Deus. E a primeira página da cartilha, na igreja, por todas, até a última, trata-se de amor. Como pode, então, uma igreja abrir mão ou não perceber que ocorreu, em relação ao amor?

   Pelas palavras de Jesus, permanecer nele é permanecer em amor, que é permanecer na palavra dele. Podemos nos perguntar, que papel exerce a Bíblia e o exercício de conhecer, para praticar e permanecer na palavra de Deus? Será ela suficientemente palavra ou haverá outro canal?

   Os efésios receberam, como escola e como advertência, a carta de Paulo. Será que, no decorrer dos anos, abandonaram seu texto? De qualquer modo, o primeiro sintoma será esse, o abandono da palavra.

   Certa vez Jesus disse aos judeus, vocês são ciosos de encontrar nas Escrituras pistas para o rumo de vida eterna. Mas não querem vir a mim para ter vida. Talvez, seja essa a correspondência com a advertência de João 15, equivalente a permanecer em Cristo.

    Como se dá essa relação com Cristo? Será que a rotina descrita por Lucas, em Atos 2,42-47 reflete uma igreja pujante e que alinhava esse sucesso. Paulo menciona, em Fp 2,5, "ter em si o sentimento de Cristo". Seria o equivalente?

  ⁴² "Eles se dedicavam ao ensino dos apóstolos e à comunhão, ao partir do pão e às orações. ⁴³ Todos estavam cheios de temor, e muitas maravilhas e sinais eram feitos pelos apóstolos. ⁴⁴ Os que criam mantinham-se unidos e tinham tudo em comum. ⁴⁵ Vendendo suas propriedades e bens, distribuíam a cada um conforme a sua necessidade. ⁴⁶ Todos os dias, continuavam a reunir-se no pátio do templo. Partiam o pão em casa e juntos participavam das refeições, com alegria e sinceridade de coração, ⁴⁷ louvando a Deus e tendo a simpatia de todo o povo. E o Senhor lhes acrescentava diariamente os que iam sendo salvos." Atos 2.

    Seria uma relação mística com Cristo? Ou um conjunto de atitudes, somente experimentadas na proposta cristológica da comunhão coletiva, da própria convivência que os Evangelhos descrevem, em torno e proporcionada pela pessoa do Mestre?

    Jesus é mestre de amor? Como se aprende? Será que uma rotina de uma igreja sadia, na manutenção do foco, seria um guia para se verificar onde se perdeu, exata e precipuamente, esse foco? 

   Percebe-se, na igreja em Atos, uma sequência de atitudes que começa na seriedade com que viam a palavra dos apóstolos, com o Antigo Testamento, a Bíblia de seu tempo, da qual decorria uma natural cadeia, plena de outras atitudes naturalmente decorrentes. A igreja em Atos:

    (1) Focava, perseverante, na palavra, ali denominada "ensino dos apóstolos"; (2) O que reforçava a sua comunhão, isso mesmo, aquele item mencionado por Jesus em sua oração em João 17,21-22: ²¹ "...a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste."

   O texto em Atos menciona uma relação de itens que promovem comunhão:

   2.1. Partir juntos o pão, no sentido da Ceia, aprofundado, consciente e bíblico, mas também casa a casa, na convivência madura de problemas, dilemas e vitórias comuns; 2.2. Orar juntos, não como reza formal, mas compartilhamento criterioso de carências de todo sentido, não somente futilidades.

   2.3. Temor, é tão importante e vital, que a falta dele representou o fracasso de Salomão: fez marketing de idolatria, para satisfazer as menininhas de ocasião, em sua velhice, o que provocou a cisão de Israel, cuja unificação, a duro custo, havia sido obtida por seu pai Davi.

    Temor é vital para se desenvolver a salvação. Após mencionar o "sentimento de Cristo", em Fp 2,5, Paulo vai exortar a que se desenvolva a salvação com temor, mais do que isso, tremor, ou seja, medo de estar desfocado do propósito de Deus. 

   2.4. Maravilhas não são somente milagres. O apedrejamento de Estêvão foi sinal e maravilha. Sinal de que ele, como Jesus havia prevenido em João 15,18-19, suscitou o ódio da comunidade judaica, pelo seu grau de semelhança a Jesus.

   Milagre antecipado, porque o homem, líder de uma perseguição que assolava a igreja, sob quem os olheiros dele mesmo depuseram os farrapos ensanguentados de Estêvão, o primeiro mártir (que quer dizer "tetemunha" e, neste caso, fidelíssima), esse homem foi Saulo. Pois o milagre foi a conversão para Paulo Apóstolo.

Estudos em Efésios 7 - O que Paulo ainda fala do amor

 Paulo Apóstolo após descrever, com todos esses detalhes, no final do cap. 2, a obra de Cristo, que nos retira da clandestinidade e nos torna família de Deus, vai compatilhar conosco o modo como se achou pronto para desenvolver seu ministério, na dimensão exata de sua vocação.

  Descreve, no início do capítulo 3, como, por meio de uma revelação, Deus lhe mostrou que judeus e gentios, em Cristo, são herdeiros da mesma herança: 

   ⁵ "Esse mistério não foi dado a conhecer aos homens doutras gerações, mas agora foi revelado pelo Espírito aos santos apóstolos e profetas de Deus, ⁶ significando que, mediante o evangelho, os gentios são co-herdeiros com Israel, membros do mesmo corpo, e co-participantes da promessa em Cristo Jesus." Ef 3

    Após compatilhar, como ele mesmo chama, esse "mistério de Cristo", Paulo se põe de joelhos. Esta será sua segunda oração na carta, ou menção de que a faz. E demarca a parte doutrinária da epístola com a parte prática, rica em exortações.

   Nesta oração, Paulo vai expressar o que, com relação à igreja, deve-se esperar que Deus conceda, assim como a reposta correspondente do crente. Nela aparecem a Trindade no trato com o cristão, e sua etapa de gradação até o alvo específico. E esse alvo é o amor. E esta é a nossa resposta à declaração de amor de Deus.

    "Por essa causa me ponho de joelho diante do Pai". Há uma razão por que orar. Diante do Único a quem orar. Agora, estamos diante da expectativa de qual será o conteúdo dessa oração. Então, Paulo destaca a identidade do Nome, em sua dignidade, e a mesma dignidade que atribui à comunidade: 

   ¹⁴ "Por essa razão, ajoelho-me diante do Pai, ¹⁵ do qual recebe o nome toda a família nos céus e na terra." Ef 3.

    O que vai formulado a seguir é a síntese de como se configura a comunhão da igreja com o Pai dessa família. São autênticos filhos gerados por Deus. Por isso, tomam a si o Seu nome, e Ele toma a Si o nome dela. Jesus, em sua oração final, na Santa Ceia da última Páscoa, roga ao Pai:

   ²² "Dei-lhes a glória que me deste, para que eles sejam um, assim como nós somos um: ²³ eu neles e tu em mim. Que eles sejam levados à plena unidade, para que o mundo saiba que tu me enviaste, e os amaste como igualmente me amaste." João 17.

   Pois nesta oração, Paulo indica de que modo a Trindade torna isso possível. O Pai concede, pela riqueza de Sua graça, sermos fortalecidos com poder pelo Espírito Santo presente em nosso ser. Mas não é uma vaga presença.

   Porque essa presença significa Cristo habitando em nós, plena concessão da fé, pela qual somos arraigados e alicerçados em amor. E isso nos permite, e mais uma vez Paulo menciona,  como havia feito na 1ª oração, compreender. E o que compreender? Que dimensões estão em jogo?

   São as medidas de Deus, infinitas, ilimitadas, ao mesmo tempo que reais, aqui aplicadas e que se projetam para a eternidade. Quadrimensionais, envolvem comprimento, largura, altura e profundidade.

   Paulo então define o alvo: "conhecer o amor de Cristo". Dizer que "excede todo o entendimento", combina com as medidas expressas. E "ser tomado de toda a plenitude de Deus" é a simples medida para a igreja, agora e pela eternidade afora.

   E na conclusão da oração, uma curta doxologia, enaltecida está a Pessoa de Deus, destacando-O como quem, segundo seu poder que opera em nós, faz ainda mais do que pedimos ou pensamos. Seja, então, por isso e por ainda mais, a Ele a glória na igreja, ao longo de todas as gerações.

Estudos em Efésios 6 - Somos igreja, sacramento e templo

 Portanto, Paulo reflete qual é a engenharia da igreja. Por isso justifica-se dizer que aos Efésios é eclesiológica. O apóstolo vai esclarecer, com exatidão, o perfil de cada qual que a ela genuinamente pertence.

   Enquanto Pedro menciona pedras que vivem, lembrando o altar do Antigo Testamento, Paulo vai falar de um edifício, muito provelmente reportando-se às edificações greco-romanas.

   Ou como já mencionou no capítulo 1, um corpo, do qual Cristo é a cabeça. Daí mencionar a justa articulação de cada parte, o suprimento que provém de Cristo, o processo contínuo de edificação, sempre em amor.

   No final do capítulo 2, Paulo vai mencionar como se dá a transição do homem/mulher sem Cristo, para o convertido por e a Jesus. Cinco características do não convertido ele elenca: (1) sem Cristo; (2) separado da comunidade de Israel; (3) estranho às alianças da promessa; (4) desprovido de esperança; (5) sem Deus no mundo.

   Para então descrever o que recebem em e de Cristo: ¹³ "Mas agora, em Cristo Jesus, vocês, que antes estavam longe, foram (1)  aproximados mediante o sangue de Cristo." Ef 2. E continua: (2) ele, Cristo, é a nossa paz; (3) de ambos, judeus e gentios, fez a paz, implodindo a muralha de separação, a barreira da inimizade.

   (4) anulou em seu corpo a lei dos mandamentos, tópico este um dos mais difíceis para o judeu compreender; (5) criou em si mesmo um novo homem, fazendo agora a paz com Deus; (6) reconciliou ambos com Deus, num só corpo, que se chama igreja, e o fez por meio de sua cruz, detonando a inimizade; (7) anunciou paz, aos de perto e aos de longe, por meio de si mesmo na cruz estabelecendo, pelo Espírito, acesso ao Pai.

   Agora não mais vagamos pelas ruas do Antigo Egito, na noite da 10ª praga, porque não mais somos estrangeiros e peregrinos, mas somos família de Deus. Estamos edificados sobre o fundamento de apóstolos e profetas. Jesus é nossa pedra angular. Somos edifício que cresce para ser santuário ao Senhor. Em quem estamos senso edificados, para nos tornarmos habitação de Deus, por meio do Espírito.

   Se para católicos, por exemplo, que super dimensionam a igreja, então dizemos "nós somos a igreja", não "estamos na igreja", e também "não recebemos sacramentos", nós somos sacramento, aos judeus vamos dizer "não vamos ao templo", nós somos o templo.