terça-feira, 27 de abril de 2021

Senão, somente

 

“Então, lhes falou Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que o Filho nada pode fazer de si mesmo, senão somente aquilo que vir fazer o Pai; porque tudo o que este fizer, o Filho também semelhantemente o faz". João 5,19.

    Esta afirmação de Jesus expressa o padrão da relação entre pai e filho. No caso, trata-se da relação entre Pai, Deus, e seu Filho, Jesus Cristo. Mas esta não é um fim em si mesma. Deus deseja compartilhar com toda a humanidade. E, para isso, três aspectos se tornam fundamentais para que esse compartilhamento ocorra.

    O primeiro é que somente filhos de Deus podem pôr em pratica a realidade dessa afirmação, qual seja, “o Filho nada pode fazer de si mesmo, senão somente aquilo que vir fazer o Pai”. João em seu evangelho afirma, com relação a Jesus: “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus. João 1,11-13.

Portanto, o que o autor de Hebreus destaca que Deus afirmou, com relação a Jesus, “Tu és meu Filho, eu hoje te gerei? E outra vez: Eu lhe serei Pai, e ele me será Filho? Hebreus 1:5, aplica-se a cada um que receber Jesus como salvador. Vai ouvir de Deus: “tu és meu filho, eu hoje te gerei”. Esse tipo de pessoa, na sua nova relação de filho, com o Pai, vai poder, como Jesus, reproduzir em sua vida, o “Filho nada pode fazer de si mesmo, senão somente aquilo que vir fazer o Pai”.

O segundo aspecto consiste no aprendizado do Filho em relação ao Pai. O mesmo autor de Hebreus destaca que Jesus aprendeu a obedecer. Pois então Jesus, na sua relação com o Pai, também é exemplo de aprendizado para nós: “...embora sendo Filho, aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu e, tendo sido aperfeiçoado, tornou-se o Autor da salvação eterna para todos os que lhe obedecem”. Hebreus 5,8-9.

E Jesus também se constitui em exemplo e modelo de aprendizado do amor, porque amor e obediência são indissociáveis. A afirmação de que Jesus aprendeu, com o Pai, a amar, foi feita por ele mesmo: "Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; assim como também eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e no seu amor permaneço". João 15,10.

Como filhos de Deus, precisamos aprender com o Pai o seu amor, desse modo experimentando todas as bênçãos da obediência. Na sociedade em que vivemos, além de não se compreender o que significa amor, ou não vincular a Deus sua origem, outro fator francamente rejeitado, infelizmente até entre muitos que se professam “crentes”, é a obediência. O amor é descaracterizado pela falta do compromisso que lhe é essencial e a obediência encarada como contrariedade, imposição e perda da liberdade. 

O terceiro aspecto consiste no fato de que essa relação é o fundamento da família, conforme Deus a concebeu. A cultura de nosso tempo tem afirmado haver vários outros modelos de família. Pois o modelo bíblico é do casamento heterossexual, monogâmico e indissolúvel. Porque com respeito à criação, a Bíblia afirma: “Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”. Gênesis 1,27. Assim como afirma: “Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne”. Gênesis 2,24.

Tudo o que a Bíblia afirma é voluntário. Ninguém será obrigado, nem por Deus, a fazer o que nela consta como padrão. Pois o modelo bíblico de casamento é voluntário. Ninguém é obrigado a reproduzir. Se o fizer, será precipuamente por amor e obediência, que são duas coisas, diante de Deus, voluntárias. Quando Jesus afirma que “... o Filho nada pode fazer de si mesmo, senão somente aquilo que vir fazer o Pai; porque tudo o que este fizer, o Filho também semelhantemente o faz”, não o diz apenas para a relação entre o pai e filho, ou seja, entre os homens da família. Mas também em relação à mulher, como mãe, em relação aos filhos de ambos os sexos.

No modelo bíblico, homem e mulher são criados ambos à imagem e semelhança de Deus, do mesmo modo, em igualdade diante de Deus. Por isso, no modelo bíblico de família, pai e mãe servem como modelo de amor e obediência, prontos a ser exemplos para os filhos e filhas. Portanto, a firmação de Jesus constitui-se em modelo de relação também no contexto da família.

“O Filho nada pode fazer de si mesmo, senão somente aquilo que vir fazer o Pai” é modelo que se aplica aos filhos que, em Cristo, Deus gerar por meio da fé. Constitui-se no permanente modelo de aprendizado do amor do Pai, em obediência, do modo como Jesus Cristo foi padrão. E se estende à relação dentro da família, não somente tendo o homem como modelo, mas do mesmo modo a mulher, na comunhão do “ser uma só carne”, incluindo a mulher, na mesma relação abençoada com Deus, com seu esposo e com seus filhos.

 

 

sábado, 24 de abril de 2021

No morro de d. Diná

 No caso de Jesus, Maria, mãe dos rapazes, Tiago e João, não obteve sua reivindicação, de dois ajudadores, um à direita e outro à esquerda.

Mas em Copacabana eu tive duas ajudadoras, uma à direita e outra à esquerda. E o ministério que desenvolvemos foi em tudo muito interessante e inusitado.

Simone e Rita, por ordem de idade (e tamanho) conheciam uma amiga que residia num dos morros do Rio de Janeiro. Novamente, razões de privacidade, vamos mudar os nomes. Era Diná, no morro da Corujinha. Essa amiga delas era pessoa influente, como liderança, e residia num lugar estratégico.

Interessou-se por estudarmos juntos a Bíblia. Ficou decidido que dia tal, a tal hora eu estaria sempre lá para estudarmos juntos. O acesso era por uma ladeira curva, de paralelepípedos, e eu poderia deixar o carro até aberto, se quisesse, com chave na ignição, era só falar que iria na casa de d. Diná.

Tinha a maior moral com a rapaziada do pedaço. O maior respeito e a maior responsa. Ninguém mexia com ela. Eu chegava e já dizia, vou na casa de Diná, e todas as portas de abriam. Certa vez, foram até me indicar o rumo. Aguentei firme, como dizia meu pai.

Porque eu já sabia. Mas queria era demonstrar atenção, gentileza e gratidão. Parecido com outras comunidades morro acima, subiam-se degraus, acessava-se uma alameda, com entradas de portões e portas a lado e outro, até chegar numa estratégica testa de esquina, a lado e outro, onde ela residia.

A posição tornava a residência como uma guarita, montando guarda na subida, ponta a ponta da alameda, até avistar-se a rua de passagem, lá embaixo. Tão estratégica que, certa vez, minha chegada coincidiu com os carros da polícia civil. Eu subi, normalmente, previamente sabendo ser rotina e que os moradores, por si, já deveriam estar antecipadamente avisados.

Degraus, acesso à alameda, portas de casas e portões lado a lado, foi quando avistei Diná, a meio caminho, conversando com a vizinha da direita. Coincidentememte, eu subia, ela se virou para me cumprimentar e, por cima de meus ombros, avistou "os homi" subindo, ainda com os pés nos degraus de início da alameda.

Ato contínuo, continuando a tagarelar, sorridente, com a vizinha, adiando o meu boa tarde, olhou à esquerda, na mesma direção, mas no sentido oposto ao da vizinha, para os três rostos masculinos que vinham, de dentro para fora, do imóvel defronte ao da vizinha.

Imediatamente, inventou um nome, Verinha, que seja, menina, você não vai hoje ao salão? Os três rostos estatelaram os corpos, onde estavam embutidos, fizeram-se olhares de espanto, olhos arregalados, eu entendi e me mantive em levitação, os olhos arregalados, agora, recuaram os corpos, dando marcha a ré, ao mesmo tempo em que, sem nenhum som, estivessem inquirindo e, ao mesmo tempo, querendo confirmação.

E ela veio, numa forma cifrada, diríamos hoje, pois estamos em 1992, criptografada, pois é, ela me perguntou se você ia, e eu disse que não sabia. Pois é. Olhos, rostos e corpos ganharam o rumo oposto, sobrancelhas arcadas confirmavam ter entendido o recado cifrado, Diná e eu nos entreolhamos, como sabendo que tínhamos de dar uma olhadinha, rumo abaixo, na alameda, como numa postura dissuasória, um despiste.

Assim o fizemos, com a maior naturalidade, demorando o tempo exato, para não despertar desconfianças, assim, como num olhar de paisagem. Os caras que subiam, todos a paisana, mas com mãos no coldres, outros com as automáticas da época apontadas para o chão, não me lembro, varriam com o olhar seu ângulo de visão, à volta, passaram por nossos olhares, nada viram, e nós também ficamos na nossa conversa.

Claro que enxergaram todo o teatro, aliás, em nome deles encetado, sem que eles mesmos soubessem. Boa tarde, boa tarde, ao passarem por nós, despedimo-nos da vizinha, fui apresentado a ela, foi convidada para o estudo bíblico, agradeceu e falou que sim, qualquer hora aparecia, subimos, entramos, trocamos uns trocados de conversa e não se fala mais nisso. Vamos ao estudo: abram suas Bíblia no livro tal, capítulo tal e versículos tais. E "talecoisa" (tal e coisa), como dizia meu avô... Vamos à nossa reunião, que o assunto daquela outra eu nunca soube.

sexta-feira, 23 de abril de 2021

Uma breve história de Lia

 Já disse que a presença da colônia judaica em Copacabana é bastante acentuada. E como foi prazeroso que um número significativo de mulheres desejassem estudar conosco a Bíblia.

Certa vez uma delas perguntou se eu, como pastor evangélico, iria tentar convertê-las. Essa, noutra vez, também foi a pergunta de Hilede. Eu respondi que somente Deus converte. Que nem eu mesmo me havia convertido. Porque se ocorreu, era falso.

Estudamos Jó. Isaías e Jeremias. Trechos escolhidos dos Salmos. E começamos os profetas menores. Eu somente combinei com elas que, quando esbarrássemos num texto do Antigo Testamento que apontava, claramente, para o Messias, eu afirmaria que é Jesus. Assim eu cria e assim testemunharia. Combinado. Não houve reclamações.

Certa vez uma delas, Lia, nome fictício, para preservar a identidade dela, que tinha nome bíblico, procurou-me. Trazia angustiada a sua alma. Nesse dia, por algum motivo, d. Eunice não estava conosco, portanto essa história ficou entre ela, eu e o Altíssimo, haShem, "o Nome", como eles chamam, ou haHolam, "o Eterno". Somente nós três. E nestes dias de hoje, com certeza, somente eu ainda vivo.

Lia trazia um drama que compartilhou comigo. Viviam, ela e seu esposo, por razões religiosas, éticas ou sociais, no contexto de sua cultura, separados fisicamente, mas residindo havia anos, acho que na época ela disse que chegavam quase a 20, no contexto da mesma família, mas em quartos separados.

Naqueles dias o marido, desesperado a procurara, com um problema extremo. E ela passou a descrever. Pastor, a mulher que é pivô de nossa separação contraiu câncer e não tem quem dela cuide. O senhor acredita que meu marido me procurou, pedindo que eu a receba em nossa casa? Eu acreditei.

Lia fez a pergunta que eu já esperava. O que o senhor me diz? O que devo eu responder a ele? Eu disse que não poderia dar nenhuma orientação nesse caso. Que essa era uma escolha dela. Perguntei se ela entendia o meu dilema. Por alguns instantes repassamos juntos o que fora o problema dela, a manutenção das aparências, mormente em relação aos filhos, e agora, diante do inusitado da situação, a decisão a tomar.

Ela afirmou que já tinha uma decisão. Eu havia dito que ela refletisse, que iríamos orar, que mais tarde poderíamos nos econtrar e compartilhar essa mesma situação. Não. Ela havia decidido. Pastor, eu vou ajudar essa mulher. Ore por mim. Posso orar? Ela disse que sim. Então eu disse que teria de orar em nome de Jesus. Ela me disse que poderia ser desse modo.

Eu falara como provocação. Ela afirmou com convicção. Para minha surpresa, Lia ajoelhou-se, muito incomum, senão inconsequente para um judeu. Mas ela acompanhou minha oração ajoelhada. Depois, surpreendentemente, ela orou também. Isso me deixou extasiado.

Levantou-se, despedimo-nos, e acho que nunca mais eu vi Lia. Talvez uma ou duas vezes muito rápido, numa das reuniões do EA. Se assim o foi. Mas  naquela noite, ali no quitinete, levantou-se convicta de que estava fazendo o que era correto. Uma história de amor.

Notáveis

 As pessoas foram chegando. Hoje são como companheiros de jornada, a maioria, talvez, nem mais entre nós. Uma delas eu visitava constantemente em Copacabana, além da própria Eunice Spiller: Hilede Cantanhede. Na última vez que nos encontramos, ela estava com 89 anos.

Numa outra vez, o porteiro nos informou que havia ido morar com o irmão em Cabo Frio. Ela testemunhou a história, quando morava na rua Tonelero, próxima ao túnel Martim Vaz, assim chamado anos depois do assassinato desse major, na tentativa de atingirem Carlos Lacerda, em 1954.

Contava a história do dia em que cruzou com JK nos elevadores de seu prédio, com aquele sorrisão e toda a simpatia. E também de como eram as recepções no casarão da família, em Botafogo, nos dias de sua infância. Ora, assim vamos alcançar pouco depois de 1925. Chegou a falar de histórias de assombração num desses casarões.

Era católica. Autenticamente católica. Mas assídua aos nossos estados bíblicos. Compartilhávamos as diferenças entre os modos de crer e nossa amizade se aprofundava. Conheceu-me solteiro, foi ao meu casamento, conheceu meus filhos, convivendo juntos ela, eu, Eunice e Jassira.

Essas três me foram fiéis escudeiras, a diáconisa congregacional e as duas outras católicas, sem que a amizade não deixasse de ser profunda. Estiveram no Meier, no culto de apresentação do Isaac, no ap de Dorcas. Essas foram as mulheres. Vamos aos homens.

Com Geraldo Spiller conversávamos no ap da Tonelero. D. Eunice havia contratado duas enfermeiras, uma para a semana inteira e outra para os finais de semana, para dar assistência ao esposo. Eu sentava e líamos a Bíblia, ele bastante incomodado com sua imobilidade, devida ao AVC de que foi vítima.

Era regente do coral em São João de Meriti, época áurea da Igreja Evangélica Congregacional naquele município, pastoreada pelo Limeira. Cláudio, seu caçula, ainda solteiro na época, tocava no conjunto recém-criado, ao estilo banda de rock, uma novidade para aqueles anos, herança do boom dos Beatles, na metade final da década anterior.

Eu dizia a ele, meu caro Geraldo, o seu caso em muito é ainda melhor do que o de Jó, porque ele perdeu tudo: filhos, bens e saúde. O Sr perdeu, sim, sua saúde, mas ainda tem recursos, e muito mais, filhos amorosos e esposa dedicada. A custo conseguíamos amainar seu inconformismo.

Urias e Eneias. O personagem bíblico tinha, na época, ora, lá vão mais de 30 anos, a idade que tenho hoje, 63. E queria ser como um garotão com 40 anos menos. Uma figura esse xará do general amigo de Davi, personagem de triste história. Não com esse Urias que conheci. Lutava, como Eneias, com relação às neuroses de que nós três admitimos ser portadores, participando conosco dos estudos bíblicos e do grupo do NA.

Eneias foi primoroso. Além de me ser guia por Copacabana, certo dia me levando a sua própria residência, juntos tínhamos entrada no sistema prisional, na antiga e hoje já implodida penitenciária da Frei Caneca, 1850-2010. Eneias me levou à pastoral católica, apresentando-me ao responsável, que me assinou uma carteira, a qual me franqueva entrada no Complexo Penitenciário.

Nossa assistência era no Anexo, assim nomeado o setor de ex-policiais apenados. Eles ficavam numa unidade deslocada, pela óbvia impossibilidade de os ter misturados aos demais apenados. Até minha entrada deveria ser por outro portão de acesso, que não o principal, evitando que minha caminhada célere, entre todos os demais presidiários, indicasse exatamente o meu rumo, atiçando uma eventual represália.

Raramente essa regra foi seguida. E também nenhuma represália verificada. Enquanto Eneias, no andar de cima do Anexo, aonde certa vez me conduziu, coordenava com os internos um grupo de NA, encerrando a reunião com sua célebre oração da "energia da luz violeta" eu, no térreo, reunia-me com a turma do estudo bíblico, que incluía figuras notáveis, cono Canabarro, de quem somente guardei o sobrenome, e Baleia, de quem somente guardei o apelido.

As mulheres escudeiras, Eunice, Hilede e Jassira, e os homens de parelha, Geraldo, com semi mobilidade, Urias e Eneias cumpriram esse meu grupo núcleo duro das jornadas por Copacabana e pelos ministérios à parte delas derivados.



Nada, senão somente

 Então, lhes falou Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que o Filho nada pode fazer de si mesmo, senão somente aquilo que vir fazer o Pai; porque tudo o que este fizer, o Filho também semelhantemente o faz". João 5,19.

A um só tempo, a medida de Pai e Filho. Neste texto, o apóstolo João expressa a medida da relação que se estabelece entre pai e filho. No caso de Deus e Jesus Cristo, é a relação modelo, exatamente por se tratar desse Pai e do seu único Filho.

É natural o filho tomar o pai como referência. Na falta do pai, haverá falta de referencial e alguma providência urgente deverá suprir essa falta crucial.

A expressão de Jesus define, em essência, a natureza da relação entre pai e filho. E no caso da relação entre Deus e Jesus, trata-se do padrão de perfeição para qualquer relação desse tipo, entre qualquer pai e qualquer filho.

Paulo entendeu isso quando, em Ef 5,1 ele escreve: "Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados". Ef 5,1. E não é possível dissociar esta afirmação da seguinte, continuação deste mesmo texto: "...e andai em amor, como também Cristo nos amou". Ef 5,2.

A relação entre Pai e Filho se pauta pelo amor. Deus ama intensamente. Deus ama intensamente o Filho. Aqui também percebemos a dimensão que o próprio João, em seu evangelho, exprime, quando diz que "Deus amou... de tal maneira". Jo 3.16.

Entendendo assim, vislumbramos, a um só tempo, a natureza do amor do Pai e o custo, para Ele, de dar o seu Filho unigênito como sacrifício pelo pecado. Desse modo Paulo encerra o texto acima, destacando: "... como também Cristo nos amou e se entregou a si mesmo por nós, como oferta e sacrifício a Deus, em aroma suave". Ef 5,2.

Essa relação íntima de amor entre Deus e Jesus, entre Pai e Filho, é modelo para toda a humanidade. É a relação-padrão de definitiva expressão de amor, modelo para qualquer relação entre pai e filho.

Portanto, a responsabilidade de todo pai é aprender, com Deus, a amar. E não pensemos que Jesus foi um homem diferente, que não precisou aprender, porque Jesus é modelo de aprendizado.

O autor de Hebreus deixa isso muito claro: "... embora sendo Filho, aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu e, tendo sido aperfeiçoado, tornou-se o Autor da salvação eterna para todos os que lhe obedecem". Hb 5,8-9.

Portanto, não há, como Jesus, filho que tenha imitado o próprio pai, de modo tão absoluto, tendo aprendido e praticado a obediência de modo tão completo. E não foi somente obediência que Jesus aprendeu.

Em seu Evangelho, João deixa claro também que Jesus aprendeu, com o Pai, o seu amor, praticondo-o intensamente e permanentemente: "Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; assim como também eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e no seu amor permaneço". João 15,10.

Jesus é o modelo de filho que guarda os mandamentos do Pai. Isso se chama obediência e, no caso de Jesus, o único caso de obediência absoluta. E o principal mandamento do Pai é o amor. Jesus, igual ao Pai, é o único caso de amor absoluto.

"O filho nada pode fazer nada de si mesmo, senão somente aquilo que vir fazer o pai". Precisamos, carecemos dessa fibra de pais, para que haja essa mesma marca igual de filhos. Jesus, durante toda a sua vida, exercitou obediência e amor. Por isso, o autor de Hebreus afirma que ele foi aperfeiçoado para se tornar o nosso Salvador.

Jesus pôde resistir à cruz, quando no momento máximo de crise, tanto para o Filho, quanto para o Pai, a ponto de clamar: "Eloí, Eloí, lamá sabactâni? Que quer dizer: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?". Mc15,34.

Amor e obediência, confiança total no Pai e confiança total do Pai no Filho supriram, nessa hora, proporcionando vitória. Obediência ao Pai, confiança no Seu amor e em Sua providência sustentam em todas as horas, principalmente na hora máxima de tribulação.

Mas Jesus também foi exemplo de obediência aos pais humanos. O incidente de seu esquecimento, na jornada de retorno, de Jerusalém à Galileia, exemplifica o modo como o menino assimilava os ensinos da mãe, sobre sua paternidade, e o modo de conviver em relação aos pais terrenos.

Lucas esclarece, nesses dois textos, o primeiro na resposta inteligente de Jesus: "Ele lhes respondeu: Por que me procuráveis? Não sabíeis que me cumpria estar na casa de meu Pai?" Lc 2,49. E o segundo, quando registra a submissão do menino às instruções dos pais humanos: "E desceu com eles para Nazaré; e era-lhes submisso. Sua mãe, porém, guardava todas estas coisas no coração".Lc 2,51.

E como isso contribuiu para o desenvolvimento integral do menino: "E crescia Jesus em sabedoria, estatura e graça, diante de Deus e dos homens".Lc 2,52. A obediência a Deus, o Pai celestial, manifesta-se na objetividade da correspondente e devida obediência aos pais humanos, como ensina o próprio mandamento: "Honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor, teu Deus, te dá". Ex 20,12.

Somente Deus pode ensinar obediência que, por si, já é um gesto de amor. Quem ama, obedece. Evidentemente que, quando se trata de pais humanos, pai e mãe, precisam se apresentar como modelo a seus filhos, de modo a que estes possam seguir o padrão da relação: nada fazer de si mesmos, se não somente o que virem fazer os pais.

E o próprio autor de Hebreus, novamente, reafirma que, entre pais humanos e o Pai celestial, há marcante diferença que deve ser reconhecida. "Além disso, tínhamos os nossos pais segundo a carne, que nos corrigiam, e os respeitávamos; não havemos de estar em muito maior submissão ao Pai espiritual e, então, viveremos?". Hb 12,9.

E o modo como somos supridos, pelo socorro de Deus, reconhecendo nossas limitações, e convidados, em amor, a ser participantes da Sua perfeição: "Pois eles nos corrigiam por pouco tempo, segundo melhor lhes parecia; Deus, porém, nos disciplina para aproveitamento, a fim de sermos participantes da sua santidade. Hb 12,10.

Abordando sobre a obediência modelar do filho, em relação ao caráter do pai, não estamos falando exclusivamente de homens. Falamos também de mulheres, porque elas são o contraponto na relação conjugal. Gênesis registra um versículo esquecido ou repetido mecanicamente, sem que se reflita na importância de sua significação.

"Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou". Gn 1,27. Homem e mulher são constituídos por Deus à sua imagem e semelhança. A obediência devida ao pai é a mesma devida à mãe, e o compromisso de amor em ser modelo para os filhos é o mesmo, para o pai e para a mãe, exatamente na mesma proporção.

Não existe na Bíblia o modelo de família propagado na sociedade atual, chamado "produção independente", em que se escolhe um(a) reprodutor(a) e o(a) filho(a) é criado(a) por um dos dois. A Bíblia tem um modelo único de família: união heterossexual, monogâmica e indissolúvel.

Basta que um desses três aspectos seja quebrado, para não se tratar do modelo bíblico de casamento e, sim, certamente, uma alteração do padrão, por sua vez devida, exclusivamente, ao expediente humano, fora do padrão bíblico, responsabilidade de quem o praticar e assumir.

A família, segundo o padrão de Deus, é o lugar onde amor e obediência são aprendidos, para que a sociedade disso se beneficie, de modo permanente. Vivemos um tempo de desamor ou falsa identidade do que seja amor. E também um tempo em que a desobediência é tida como virtude.

Quem sabe a igreja possa assumir o desafio de ser exemplo de correção dessa distorção, abrindo a Bíblia para a cumprir e proclamar, porém revestida da autoridade de quem vivencia como padrão em sua própria vida e presença na sociedade. 

Valor

    Quanto vale uma quitinete em Copacabana em 1992? A discussão aqui versa sobre valor. Não apenas o venal, mas também e, principalmente, o valor humano. Este muitas vezes menosprezado e menos prezado.

     Eu me lembro da luz que entrava pela janela da quitinete. Da varanda sobre a rua, era número 102. Lá passavam os carros e os ônibus da Av. N. Sra de Copacabana. Abria-se uma janela ao que era o desafio de ter, numa quitinete em Copacabana, ora vejam só, abrigados todos os sonhos que uma igreja representa.

     Havia um universo ali dentro. Como se a gente quisesse que todo o bairro, com a sua história, coubesse ali dentro. Abrigávamos, no meio de semana, dois grupos, os na época denominados NA - Neuróticos Anôninos, mais tarde autodenominados EA - Emocionais Anônimos.

      E no outro dia da semana a gente se reunia para o estudo bíblico. Estabeleceu-se uma integração entre os dois dias, porque um grupo de mulheres, a princípio seguidas por alguns homens, interessou-se por estudar a Bíblia, especificamente o Antigo Testamento, porque a influência da cultura judaica, ali representada, prevaleceu.

     Havia um grupo de mulheres judias que pediu que estudássemos Jô, os Salmos, alguns profetas, enfim, reuníamos em torno de uma mesinha desarmável, daquelas de bar, próprias para o espaço da quitinete. Ali todos nos abrigávamos e logo se estabeleceu um vínculo entre nós, sempre na expectativa do que a Bíblia podia oferecer.

     Não misturávamos EA com Bíblia, absolutamente. Seguíamos estritamente os 12 passos e as 7 tradições, pelas quais balizávamos nossas reuniões, das quais eu participava, autoassumido um neurótico, evidentemente, em maior ou menor grau. Não podemos aqui veicular o que se conversava ali. Nem nomes e nem assuntos.

     Mas vale a pena falar do grau de enfrentamento dos problemas, da variada natureza deles, da coragem, do esforço em enfrentá-los e do que o conforto recíproco de compartilhá-los ali, naquele círculo, representou. Valor. Mais uma vez aparece aqui o termo. Qual o valor? O valor da vida a gente perde e não avalia. Precisamos de Deus para redescobrir isso.

       Um dia houve uma reunião de três. Eu, Dr Fernando Campelo e d. Eunice Spiller. Eram os dois diáconos e eu. A ideia era a prosposta de d. Eunice de comprarmos a sala. O proprietário propunha. Mas como? D. Eunice falou de seu último quilo de ouro. Havia sete, como reserva de investimento, mas haviam sido usados por razões várias, principalmente para suprir as despesas da fábrica de joias, bijuterias e marcassitas que pertencia à família.

     Eu disse que não. Ela era idosa. Que não poderíamos explorar a oferta dela, visto que havia os filhos. Naquela época, o esposo já havia falecido. Não poderíamos aceitar de uma pessoa de sua idade aquela oferta. Meses depois o assunto retornou. Eu perguntei sobre ela ter falado com os filhos se, como foi combinado, anteriormente, ela os havia consultado.

     Não. Não havia falado. Mas aqui entra o diferencial de d. Eunice, que era o temperamento de seus olhos muito azuis. Não falei e nem vou falar. Porque eles fazem as coisas lá, deles, sem falar comigo ou me pedir opinião: não vou falar nada. Vou fazer por minha conta (e risco). Fizemos. Encetamos uma campanha para 22 mil dólares.

     Entrou o quilo do ouro. Peguei-o no apartamento da Tonelero e, embrulhado num saco de plástico de supermercado, no bolso, levei-o ao dono da sala, por ônibus, ao centro da cidade do Rio de Janeiro. A segunda parte do pagamento a gente conseguiria por campanha, da qual participaram o Dr. Campelo e o Pr. José Remígio Fernandes Braga.

     A quitinete, dentro da qual cabia toda Copacabana, foi arrematada por esse valor. Por que valor. Há todo o valor. Há quem reconheça e há quem não reconheça valor. Só Deus para socorrer nessa hora. Nem bem o valor venal. Mas o valor humano. História de igreja é história de valor humano. Só Deus para socorrer nessa hora. Porque ser humano não dá valor. Só Deus, para resgatar no ser humano e para o ser humano o seu valor. 

Certo dia, Limeira

 Certo dia, irrompeu, subitamente, no apartamento da Magalhães Couto, no Meier, Limeira, para falar sobre Copacabana. Ele era o homem de todos os sonhos.

     Para mim ele representa o homem da foto nas obras do Seminário da Pedra de Guaratiba, na década de 40, retirante nordestino, baiano, que alcança o Rio de Janeiro, e se casa com a amiga de infância de minha mãe, as duas desde três anos de idade, por volta de 1930, nos alicerces da ainda nem inaugurada Igreja Evangélica Congregacional de Nilópolis, templo antigo da Gal Mena Barreto.

    Clovelina de Ávila Limeira, filha de Alina e Clóvis, razão de seu nome. Conheci os dois, na casa num dos morros da antiga Nilópolis, rua ainda sem asfalto, carro não chegava à porta, subia-se a pé. Esse Limeira chegou de surpresa, lá no Méier, num dia luminoso de 1991.

     Como luminosas eram as visões e os sonhos de Limeira. Havia posto a família Castro em Boa Vista, Roraima, onde mais ao norte havia chegado. Sem contar Manaus, onde sua própria filha e o genro, um dia, iriam atuar como obreiros, ela seminarista de minha turma nessa mesma unidade do externato, nos fundos da Igreja Evangélica Fluminense, na Alexandre Mackenzie, 60, a partir de 1978.

    E seu futuro noivo, Nelson Sá, no Instituto Palavra da Vida, em Atibaia, São Paulo, a coqueluche da época, onde também estudaram Levi Castro, um dos filhos da família de desbravadores que Limeira convidou para Boa Vista, hoje pastor há mais de 20 anos missionário na Turquia e agora na Bulgária, e mais tarde Thiago, o filho de Paulo Leite, com quem viemos a Rio Branco, Acre, em 1993. O filho é pastor em Roraima.

     Havia colocado Nelson e Josilene Rosa em Rio Branco, Acre, em 1984, onde estou desde 1995. Num dia de 1991, Limeira foi ao Méier me chamar para cuidar de Copacabana. Luminosa também foi a tarde em que, pela primeira vez, vi as luzes que entraram pela janela do kitchenette da Nossa Senhora de Copacabana.

    Porque na década de 80 deslocou-se, de São João de Meriti, para lá, uma família do que eram chamados, na época, "novos ricos", os Spiller, e Limeira nunca perderia a oportunidade de iniciar ali uma igreja congregacional, espírito raro de desbravador ele tinha. Talvez por causa da sua marca de retirante, como alguém ermo e permanentemente peregrino, Limeira queria estar em todos os lugares.

    Pelo menos me lembro de Roraima, Manaus, Rio Branco, Copacabana, estes dois últimos, onde passei, de 1991 a 1994, e Rio Branco, onde estou, desde 1995. Havia luz e o mesmo incômodo no olhar de Eunice Spiller, a alma do quitinete. Ativa, diligente, incomodada todo o tempo com o muito que havia por fazer naquele bairro todo, era minha guia pelos labirintos das ruas, pelas casas de suas amigas, gente de sua geração, que conhecia nome a nome.

     E me levava a todas essas casas, a todas essas reuniões, queria me ver lendo Bíblia com essas pessoas. Como no dia em que avistei a praia, a partir de uma faixa contínua de vidro, por debaixo da janela do apartamento do filho Paulo, para ela o eterno Paulinho, o filho mais velho, residente num dos prédios da Av. Atlântida. Conheci todo o clã, orando com o patriarca Geraldo Spiller, no apartamento da Tonelero, pelo qual também se avistava a rua, com vista do segundo andar, por uma parede de vidro.

    Cláudio, o caçula, Marli, a cantora lírica. Pouco conheço dos filhos dos filhos e filha, quer dizer, dos netos, desta eu destaco Hugo, ainda tenro na idade, e Joelson, esse o escudeiro constante de Eunice. Ela como um Dom Quixote feminino, a desbravar todo aquele bairro, no seu sonho luminoso, contagiada por Limeira, e seu neto o Sancho Pança grudado com ela todo o tempo.

    Limeira é muito mais do que apenas esses lugares aí acima mencionados. E Eunice Spiller não foi a única a quem ele contagiou, como numa epidemia missionária que nunca deveria acabar, para a qual a cegueira subsequente acometida bloqueou essa iniciativa, porque poucos existem como o homem Jesus, conscientes de uma mensagem a compartilhar e que, por ela e em nome dela fazem qualquer loucura, em qualquer lugar.

  Eunice Spiller quando me levava, pelos labirintos de Copacabana, acreditava no sonho luminoso de Limeira e queria que eu lesse Bíblia nessas casas de suas amigas, na casa de seus filhos, ao lado de seu marido e filha, porque acreditava num tipo qualquer de alento que essa mensagem pudesse trazer. Ela era uma mulher, como Jesus, pelas ruas de Copacabana, comigo no início dos anos 90, por si mesma desde a década de 80.

  Contagiada pelo retirante nordestino sem rumo ou, quem sabe, de todos os rumos, que sonhou implantar uma igreja congregacional num bairro incrustado entre mar e montanha, onde as demais denominações tinham todas os seus templos, já há quase 50 anos, e a mais antiga entre elas havia se esquecido desse desafio. Não para Limeira. Para ele, todos e qualquer desafio, a qualquer hora, em qualquer lugar.