sexta-feira, 21 de maio de 2021

Copacabana e Rio Branco, Acre - com o mesmo Limeira, tudo a ver.

Depoimento de Limeira, Antonio Limeira Neto, que já registrou suas próprias memórias. Conta, numa visita que Regina, Dorcas, eu e as crianças lhe fizemos lá em Nilópolis, RJ, que foi convidado pelo Rev. Daniel Gonçalves Lima, Presidente da Junta Geral da UIECB naqueles dias, para ocupar o DM, antigo Departamento de Missões da UIECB -- União das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil.

Relutou, aquela história toda mas, finalmente, aceitou. A Junta Geral tinha lançado uma campanha especial de Multiplicação de Igrejas. A UIECB reúne o grupo evangélico mais antigo do Brasil, desde 1855, mas também um dos menores: atualmente reúne cerca de 450 Igrejas.

Nesse afã, Limeira aceitou, na expectativa de ampliar a presença denominacional, e a principal meta era alcançar as capitais de Estados onde não havia ainda nenhuma Igreja congregacional. E, no panorama nacional, figurava todo o Norte, com exceção de Belém, onde já havia um trabalho missionário iniciado.

Limeira, então, visitou toda a Região Norte e plantou trabalhos, começando por Manaus, depois Boa Vista e, finalmente, Rio Branco. Especificamente com respeito a Rio Branco, as circunstâncias eram difíceis. A partir de Porto Velho, Rondônia, a 540 km, não havia estrada asfaltada. Levava-se de 5 dias até uma semana, dependendo do regime das chuvas, para se cobrir essa distância que separava as duas cidades. Ou voo pela Varig.

Daso Coimbra, estamos nos anos 80, anos e anos o Deputado Federal evangélico, que conhecia bem essa realidade, advertiu Limeira que seria praticamente impossível aventurar instalar um trabalho naquelas, ou melhor, nestas paragens, naquela época.

"Mas -- esclarece Limeira --, como nós tínhamos em mente lançar a igreja congregacional no Norte do país...", relata, só ficou dependendo de que, numa das reuniões do DM, fosse aprovado e se iniciasse a tarefa. E foram priorizadas as cidades mais difíceis, escolhidas Rio Branco e Boa Vista, esta sim, somente alcançada, naqueles idos, por avião. A BR 174, que liga Manuas a Boa Vista, era inóspita.

Manaus, ainda, até hoje, somente alcançada por voo ou por veículo tracionado, a partir de Porto Velho, pela BR 314, não totalmente asfaltada, foi outro desafio. E não somente o acesso era a dificuldade mas também, e crucialmente, o obreiro a escolher. Limeira entrou em contato com o, na época, seminarista Nelson Rosa, que estudava no Seminário Congregacional do Nordeste, em Tejipió, Recife, convidando-o para o trabalho no Norte.

Criou-se a expectativa: caso ele aceitasse ir para o Acre, naquelas condições, seria o homem melhor indicado. E ele aceitou. Afirmou sua disposição em ir para lá ou para qualquer outro lugar. Missionário nato, ele e a sua futura esposa Josilene. Ficou decidido começar pelo lugar mais difícil. 

terça-feira, 4 de maio de 2021

Ora, como o evangelho chegou ao Antônio - 2

 O que Sérgio queria me dizer foi que jogava no jacaré, ora, sei lá, mas fazia o seu palpite na "roda da fortuna", o popularíssimo jogo do bicho. Isso o impedia de se batizar. Mas que ele queria, isso ele queria. Eu disse aleluia! Ele arregalou os olhos.

Eu repliquei, Sérgio, pensa comigo. Se somente te falta, para o batismo, largar o palpite nessa "roda do infortúnio", isso é o mais fácil: o mais difícil, quer dizer, o impossível, para nós, mas não para Jesus, já está feito. Você é convertido autêntico.

Lembramos juntos do texto do jovem rico. Porque quando os apóstolos, na avaliação deles viram o "gente boa" ser reprovado no teste que Jesus fez, Pedro, exagerado como era, falou, Mestre, se esse cara não é gente boa, ninguém é. Jesus respondeu que conversão não é, somente, difícil: é impossível.

Foi assim que eu e Sérgio, naquela manhã, encerramos a conversa: fica combinado, Sérgio, o impossível, para nós, já ocorreu. Você é crente. Quando largar isso aí, me procura. Largou e não demorou muito. Batizei. Eu acho que batizei (com menos água) aquela família toda.

Os meninos de Solange começavam a vir com a tia Sueli e as primas, Patrícia e Simone. Rafael e Gustavo. Certa vez, coincidiu que eu os visse chegar trazidos pela mãe. Apressada, deixou-os na porta da igreja. Os meninos despediram-se, foi quando o caçula falou fica mãe, vamos entrar. Solange argumentou, hoje não, filho, mamãe não colocou a roupa de domingo e deixou por fazer o almoço em casa.

Mas ela promete que vem. Vai ser outro dia. Por falar em "vai ser outro dia", parecendo letra de música, não esqueço a primeira vez em que Solange havia entrado na igrejinha antiga. Sentou-se bem na frente, no segundo banco. Gustavo, o caçula, dormia em seu colo. Mas o desenho de sua boca se mostrava meio que contrariado. Essa foi a leitura que fiz.

Me parece que era um aniversário de uma das meninas de Sueli, a irmã. Solange veio contrariada. Aquela história de agora serem protestantes era meio descabida. Pelo código de ética que as unia, as três, sim, porque tem a outra de Campo Grande, esse código não permitia que uma falhasse com a outra. Nisso aí tinha o dedo de Alda. Equação rígida. Por isso, jamais faltaria o aniversário da sobrinha, ainda que fosse naquela "igrejinha" (aqui, com aspas).

Solange veio. Gustavo dormindo no colo. Estratégia das meninas de Sueli. A gente convida, o senso ético funciona, ela não vai negar, tem raiva de crente e raiva de igreja, mas o evangelho faz o seu serviço. Há bálsamo do Espírito em Gileade (e em Cascadura, qualquer "cascadura", também).

E um dia, para cumprir a promessa feita ao filho caçula, num outro domingo de sol bem ali, no velho portão da velha igreja, Solange veio. E nunca mais deixou e nem nunca vai deixar de vir. Agora a luta em oração era por Antônio. Diferente de Sérgio, no porte e no tamanho, não menos econômico nos gestos.

Também pouco se ouvia sua voz. Tarimbado (e calibrado) pelo toque especial das filhas de Alda. Ah, as filhas de Alda. Dá assunto de uma série da Netflix. Sueli, já falamos dela, não tinha o porte, digamos assim, a altura assintosa, impositiva, intimidatória de Solqnge. Esta se impunha pelo porte. Mas não se iludam. Tinha o mesmo poder de Sueli. Só que represado.

Sueli era (quer dizer, é) do tipo que, para compensar o porte menor, impõe-se pelo olhar, franzir de todo o rosto, estado de alerta máximo. Já viram aqueles tornados, pelo menos em tela, hurricane, em inglês? Se um deles encarar Sueli, retorna, nem contorna. Já Solange é diferente. Com um rosto de estátua grega, tem um lago de Itaipu represado dentro. Se for necessário, mas só se for necessário, move 8 turbinas de alta tonelagem (ou devo dizer Alda tonelagem) de uma só vez.

E a de Campo Grande? Ha ha ha, a de Campo Grande. Nunca a vi sem sorrir. Vejam bem, não estou dizendo que Sueli e Solange não riem também. Claro que riem. Quando riem, quem conhece as duas, fica sério. É melhor: nunca se sabe por que motivo riram. Mas a de Campo Grande, literalmente só ri. Deve ter feito muita raiva às outras duas, rindo na cara delas, durante toda a vida, todas juntas na mesma companhia. Imagino. Enfrentava rindo (para as duas e das duas) o mau humor (ocasional, é claro) delas.

A força dela, a mesma das outras duas, está no sorriso. Porque o humor que d. Alda tem latente, sutil, enrustido, essa irmã tem patente, explícito, franco. Quando o evangelho chegou na vida das três, tudo mudou. Porque concedeu a capacidade que só ele tem de suprir com força, com a força do Senhor, a vida inteira. A alegria no Senhor é a nossa força. Em cada momento, em cada dificuldade, que não foram poucas. A marca da amizade e da ajuda mútua preencheu a vida dessas mulheres.

Orávamos por Antônio. Eu acho que a conversão dele se deu quando eu já estava a pouco mais de 4.000 km de distância, aqui no Acre. Mas ainda assisti ao despertamento de sua curiosidade lá na antiga igrejinha. Deus começava a mexer no entendimento de Antônio, a despertar seu coração para o evangelho. Eu acho que pregava em Hebreus.

"Tende cuidado, irmãos, jamais aconteça haver em qualquer de vós perverso coração de incredulidade que vos afaste do Deus vivo'. Hb 3,12. O termo bíblico "Deus vivo" bateu e ricocheteou no entendimento de Antônio. Ali onde estava, na fileira predileta de Solange, bem na frente, ele me interrompeu e não se conteve: "Como assim, Deus vivo?".

Aquilo me surpreendeu. Nunca antes ocorrera comigo. Era inusitado mesmo. Mas bem espontâneo. E nisso residia todo o valor da pergunta. Acho até que Solange ensaiou alguma reação. Mas amenizei. Sem constragimemtos.  Seria mais usual uma pergunta assim na escola dominical. Ela já estava experimentada nesse protocolo.

Mas exatamente nessa quebra de protocolo estava assinalado o começo de Antônio andar com Deus. Eu repondi a ele, pego de surpresa, Deus único, não há outro, não existe outro, qualquer outro é invenção. Deu-se por satisfeito. Uma conversa ou outra ainda trocamos após o término daquele culto.

Ali começava a vida de Antônio com Deus. E continua. E nunca vai acabar. Nunca mais. Tão longe assim nos cunduz o evangelho. E assim tão perto, de Deus, com Deus e para Deus. 

Ora, como o evangelho chegou ao Antônio - 1

 Corre um história que minha mãe contou. É como se ouvisse sua voz chamando meu nome. Cid Mauro, Sueli e as duas meninas vão a Cascadura. E foram mesmo, as três mulheres, uma bem miudinha, a outra um pouco maior do que a irmã e a terceira, a mãe, um pouco mais madura.

Parece que houve uma conspiração por parte das irmãs, no sentido de ter aguçada sua curiosidade. A maior das curiosidades, que somente o evangelho provoca. A mãe, sempre muito rigorosa. Professora, como a minha própria mãe. Ora, aliás, foram colegas de como chamavam o Curso Normal, no Nilopolitano, nos idos de 1963, as colegas normalistas.

Bendita curiosidade do evangelho. Queriam conhecer a igreja de tia Dorcas. Ora, mas quantos domingos de sol fomos, minha mãe e eu, a pé, desde os tempos em que morávamos em Cascadura, para a "igrejinha de infância", como diz o hino Igrejinha Antiga, "onde a voz de mamãe a Deus suplicava por mim".

Nessa época das normalistas colegas, eu era da idade da menina mais nova. Encheram-se de curiosidade, querendo sempre mais, sempre muito, sempre muito sério. Era o rigor de d. Sueli. Ah, mas não: nunca admitiria brincadeiras com algo tão sério. Ela era, por tradição, de outra religião. Parece que, nessa santa conspiração, as meninas insistiam em ficar na igrejinha da infância.

Ela dizia, está bem, ficamos, ora, mas se ficamos, porém tem de ser tudo muito sério. E sempre foi. E foi tudo muito rápido e muito urgente. Porque o evangelho não espera. Ele mesmo diz é agora. O dia da salvação é hoje. No hoje de Deus. E foi como num rastilho, que foi alcançando toda aquela família, Sueli e cada irmã dela, e a mais madura de todas, a linda d. Alda, essa, sim, a matriarca de todo o rigor (e todo o bom humor). É muito lindo, é o mais lindo de ver o efeito do evangelho na vida da gente, o modo como cremos, como nele e dele vivemos, o modo como dele testemunhamos.

Vinham as notícias dos efeitos do evangelho no restante da família das três mulheres: a miudinha, a média e a mais madura. Ora, o pai. Para mencionar o pai, fizeram dele, pobre Sergio, outro cúmplice do evangelho. Pobre, não, enriqueceu de vez, não esperou. Há tanta saudade de tanta gente daquela igrejinha. Pois uma delas, ah, meu Pai, como aprendi com aquela gente, uma delas é o rosto do Sérgio, a pessoa do Sérgio, o jeito e os gestos do Sérgio. 

Ora, mas que família! Esses homens que cismam e se apressam logo em ir para casa. Sérgio começou com as filhas e a esposa a não perder, por nada, a igreja. As portas da igreja estão abertas, escancaradas, ara, meu irmão, com o rigor de d. Sueli, com o seu "domínio de turma", não havia atraso.

Não esqueço outra manhã de sol. Oh, meu Pai, aquelas manhãs de sol em Cascadura. Podem achar irônico o nome, sim, podem até achar, mas todo crente já teve Cascadura, só quem amacia é o Espírito, como um óleo milagroso. Como diz Jeremias, o profeta, há médico (e óleo) em Gileade (ou em Cascadura).

Nesa manhã de sol, Sérgio me cercou nos bancos antigos da igrejinha antiga. Fala macia. Também, meu amigo, que homem não tem fala macia com três mulheres em casa, uma miudinha, outra média e aquela mais madura? Diz aí! Pastor, dizia ele, posso lhe falar. Puxa, vindo do Sérgio, qualquer e toda a conversa. Haja curiosidade que o evangelho provoque.

É que eu estou pensando em me batizar. Essa história de batismo eu já conhecia, a mesma conspiração em andamento, quando aquela menina de Sérgio, ela mesma, a de tamanho médio, a mais velha, saiu-se com essa mesma ideia. Enfrentou o rigor de d. Sueli. Meu amigo, para enfrentar o rigor de d. Sueli, só tem duas saídas: ter o mesmo DNA, que era o caso da miudinha e da outra, a média. Ou ser alvo do amor das três, que era o caso do Sérgio.

Sérgio falava baixinho. Era necessário apurar os ouvidos. Com quase ninguém por ali, no velho templo, ele disse: Pastor, é que eu quero me batizar. Sim, eu dizia das meninas. Não me interrompam, que já conto a história de Sérgio. Acho que foi a mais velha, essa que chamo de média, em tamanho, mas Sérgio e Sueli chamaram Simone.

Ela disse, como eu já disse, só com o mesmo DNA para enfrentar Sueli, mãe, eu quero me batizar. Que que isso, menina. Tá pesando que é brincadeira? Não, não estou: por isso mesmo que eu quero. Haja convicção! Pior, quer dizer, melhor foi que a miudinha, que os pais chamaram Patrícia, disse eu também. Pronto, d. Sueli, 2 X 1. Saiu ganhando dessa vez.

Este texto está extenso. Vou contar a história do Sergio no próximo. Mas a conversa de batismo não ficou entre as três, porque vieram me procurar. Prestem atenção: isso tudo ocorreu antes dessa conversa, também miudinha, com Sérgio, sussurrada, com aqueles gestos tímidos, comedidos, desenhando com as mãos, típicos dele. Ora, vocês não sabem como três mulheres com esse DNA domesticam qualquer homem.

Pastor, falou Sueli numa outra manhã de sol bem ali, no corredor entre bancos da igrejinha antiga: Simone me procurou e disse que quer ser batizada. Eu nada falei. Mirei nos olhos das três, primeiro a mãe, a filha média, depois a miudinha. Sim, só falei isso. O que o Sr acha? Só então eu falei, e falei o que diz o manual: é lícito e justo, se ela crê. A menorzinha também falou eu também quero. Sueli, ora, Sueli, só com o olhar sinalizou. Ela se calou (e eu também).

Ficou decidido que batizaríamos a média. A menor, consultei Sueli. O veredito foi que esperasse. O fruto ainda estava meio verde. Não houve nenhuma reclamação, naquela manhã de sol, nem minha e nem da miudinha. Batizamos Simone. Como já preveni, esta história vai longe. Aguardem o segundo texto. Coisas do evangelho. Essa história vai longe e você nem imagina quão longe ela vai.

terça-feira, 27 de abril de 2021

Senão, somente

 

“Então, lhes falou Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que o Filho nada pode fazer de si mesmo, senão somente aquilo que vir fazer o Pai; porque tudo o que este fizer, o Filho também semelhantemente o faz". João 5,19.

    Esta afirmação de Jesus expressa o padrão da relação entre pai e filho. No caso, trata-se da relação entre Pai, Deus, e seu Filho, Jesus Cristo. Mas esta não é um fim em si mesma. Deus deseja compartilhar com toda a humanidade. E, para isso, três aspectos se tornam fundamentais para que esse compartilhamento ocorra.

    O primeiro é que somente filhos de Deus podem pôr em pratica a realidade dessa afirmação, qual seja, “o Filho nada pode fazer de si mesmo, senão somente aquilo que vir fazer o Pai”. João em seu evangelho afirma, com relação a Jesus: “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus. João 1,11-13.

Portanto, o que o autor de Hebreus destaca que Deus afirmou, com relação a Jesus, “Tu és meu Filho, eu hoje te gerei? E outra vez: Eu lhe serei Pai, e ele me será Filho?” Hebreus 1:5, aplica-se a cada um que receber Jesus como salvador. Vai ouvir de Deus: “tu és meu filho, eu hoje te gerei”. Esse tipo de pessoa, na sua nova relação de filho, com o Pai, vai poder, como Jesus, reproduzir em sua vida, o “Filho nada pode fazer de si mesmo, senão somente aquilo que vir fazer o Pai”.

O segundo aspecto consiste no aprendizado do Filho em relação ao Pai. O mesmo autor de Hebreus destaca que Jesus aprendeu a obedecer. Pois então Jesus, na sua relação com o Pai, também é exemplo de aprendizado para nós: “...embora sendo Filho, aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu e, tendo sido aperfeiçoado, tornou-se o Autor da salvação eterna para todos os que lhe obedecem”. Hebreus 5,8-9.

E Jesus também se constitui em exemplo e modelo de aprendizado do amor, porque amor e obediência são indissociáveis. A afirmação de que Jesus aprendeu, com o Pai, a amar, foi feita por ele mesmo: "Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; assim como também eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e no seu amor permaneço". João 15,10.

Como filhos de Deus, precisamos aprender com o Pai o seu amor, desse modo experimentando todas as bênçãos da obediência. Na sociedade em que vivemos, além de não se compreender o que significa amor, ou não vincular a Deus sua origem, outro fator francamente rejeitado, infelizmente até entre muitos que se professam “crentes”, é a obediência. O amor é descaracterizado pela falta do compromisso que lhe é essencial e a obediência encarada como contrariedade, imposição e perda da liberdade. 

O terceiro aspecto consiste no fato de que essa relação é o fundamento da família, conforme Deus a concebeu. A cultura de nosso tempo tem afirmado haver vários outros modelos de família. Pois o modelo bíblico é do casamento heterossexual, monogâmico e indissolúvel. Porque com respeito à criação, a Bíblia afirma: “Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”. Gênesis 1,27. Assim como afirma: “Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne”. Gênesis 2,24.

Tudo o que a Bíblia afirma é voluntário. Ninguém será obrigado, nem por Deus, a fazer o que nela consta como padrão. Pois o modelo bíblico de casamento é voluntário. Ninguém é obrigado a reproduzir. Se o fizer, será precipuamente por amor e obediência, que são duas coisas, diante de Deus, voluntárias. Quando Jesus afirma que “... o Filho nada pode fazer de si mesmo, senão somente aquilo que vir fazer o Pai; porque tudo o que este fizer, o Filho também semelhantemente o faz”, não o diz apenas para a relação entre o pai e filho, ou seja, entre os homens da família. Mas também em relação à mulher, como mãe, em relação aos filhos de ambos os sexos.

No modelo bíblico, homem e mulher são criados ambos à imagem e semelhança de Deus, do mesmo modo, em igualdade diante de Deus. Por isso, no modelo bíblico de família, pai e mãe servem como modelo de amor e obediência, prontos a ser exemplos para os filhos e filhas. Portanto, a firmação de Jesus constitui-se em modelo de relação também no contexto da família.

“O Filho nada pode fazer de si mesmo, senão somente aquilo que vir fazer o Pai” é modelo que se aplica aos filhos que, em Cristo, Deus gerar por meio da fé. Constitui-se no permanente modelo de aprendizado do amor do Pai, em obediência, do modo como Jesus Cristo foi padrão. E se estende à relação dentro da família, não somente tendo o homem como modelo, mas do mesmo modo a mulher, na comunhão do “ser uma só carne”, incluindo a mulher, na mesma relação abençoada com Deus, com seu esposo e com seus filhos.

 

 

sábado, 24 de abril de 2021

No morro de d. Diná

 No caso de Jesus, Maria, mãe dos rapazes, Tiago e João, não obteve sua reivindicação, de dois ajudadores, um à direita e outro à esquerda.

Mas em Copacabana eu tive duas ajudadoras, uma à direita e outra à esquerda. E o ministério que desenvolvemos foi em tudo muito interessante e inusitado.

Simone e Rita, por ordem de idade (e tamanho) conheciam uma amiga que residia num dos morros do Rio de Janeiro. Novamente, razões de privacidade, vamos mudar os nomes. Era Diná, no morro da Corujinha. Essa amiga delas era pessoa influente, como liderança, e residia num lugar estratégico.

Interessou-se por estudarmos juntos a Bíblia. Ficou decidido que dia tal, a tal hora eu estaria sempre lá para estudarmos juntos. O acesso era por uma ladeira curva, de paralelepípedos, e eu poderia deixar o carro até aberto, se quisesse, com chave na ignição, era só falar que iria na casa de d. Diná.

Tinha a maior moral com a rapaziada do pedaço. O maior respeito e a maior responsa. Ninguém mexia com ela. Eu chegava e já dizia, vou na casa de Diná, e todas as portas de abriam. Certa vez, foram até me indicar o rumo. Aguentei firme, como dizia meu pai.

Porque eu já sabia. Mas queria era demonstrar atenção, gentileza e gratidão. Parecido com outras comunidades morro acima, subiam-se degraus, acessava-se uma alameda, com entradas de portões e portas a lado e outro, até chegar numa estratégica testa de esquina, a lado e outro, onde ela residia.

A posição tornava a residência como uma guarita, montando guarda na subida, ponta a ponta da alameda, até avistar-se a rua de passagem, lá embaixo. Tão estratégica que, certa vez, minha chegada coincidiu com os carros da polícia civil. Eu subi, normalmente, previamente sabendo ser rotina e que os moradores, por si, já deveriam estar antecipadamente avisados.

Degraus, acesso à alameda, portas de casas e portões lado a lado, foi quando avistei Diná, a meio caminho, conversando com a vizinha da direita. Coincidentememte, eu subia, ela se virou para me cumprimentar e, por cima de meus ombros, avistou "os homi" subindo, ainda com os pés nos degraus de início da alameda.

Ato contínuo, continuando a tagarelar, sorridente, com a vizinha, adiando o meu boa tarde, olhou à esquerda, na mesma direção, mas no sentido oposto ao da vizinha, para os três rostos masculinos que vinham, de dentro para fora, do imóvel defronte ao da vizinha.

Imediatamente, inventou um nome, Verinha, que seja, menina, você não vai hoje ao salão? Os três rostos estatelaram os corpos, onde estavam embutidos, fizeram-se olhares de espanto, olhos arregalados, eu entendi e me mantive em levitação, os olhos arregalados, agora, recuaram os corpos, dando marcha a ré, ao mesmo tempo em que, sem nenhum som, estivessem inquirindo e, ao mesmo tempo, querendo confirmação.

E ela veio, numa forma cifrada, diríamos hoje, pois estamos em 1992, criptografada, pois é, ela me perguntou se você ia, e eu disse que não sabia. Pois é. Olhos, rostos e corpos ganharam o rumo oposto, sobrancelhas arcadas confirmavam ter entendido o recado cifrado, Diná e eu nos entreolhamos, como sabendo que tínhamos de dar uma olhadinha, rumo abaixo, na alameda, como numa postura dissuasória, um despiste.

Assim o fizemos, com a maior naturalidade, demorando o tempo exato, para não despertar desconfianças, assim, como num olhar de paisagem. Os caras que subiam, todos a paisana, mas com mãos no coldres, outros com as automáticas da época apontadas para o chão, não me lembro, varriam com o olhar seu ângulo de visão, à volta, passaram por nossos olhares, nada viram, e nós também ficamos na nossa conversa.

Claro que enxergaram todo o teatro, aliás, em nome deles encetado, sem que eles mesmos soubessem. Boa tarde, boa tarde, ao passarem por nós, despedimo-nos da vizinha, fui apresentado a ela, foi convidada para o estudo bíblico, agradeceu e falou que sim, qualquer hora aparecia, subimos, entramos, trocamos uns trocados de conversa e não se fala mais nisso. Vamos ao estudo: abram suas Bíblia no livro tal, capítulo tal e versículos tais. E "talecoisa" (tal e coisa), como dizia meu avô... Vamos à nossa reunião, que o assunto daquela outra eu nunca soube.

sexta-feira, 23 de abril de 2021

Uma breve história de Lia

 Já disse que a presença da colônia judaica em Copacabana é bastante acentuada. E como foi prazeroso que um número significativo de mulheres desejassem estudar conosco a Bíblia.

Certa vez uma delas perguntou se eu, como pastor evangélico, iria tentar convertê-las. Essa, noutra vez, também foi a pergunta de Hilede. Eu respondi que somente Deus converte. Que nem eu mesmo me havia convertido. Porque se ocorreu, era falso.

Estudamos Jó. Isaías e Jeremias. Trechos escolhidos dos Salmos. E começamos os profetas menores. Eu somente combinei com elas que, quando esbarrássemos num texto do Antigo Testamento que apontava, claramente, para o Messias, eu afirmaria que é Jesus. Assim eu cria e assim testemunharia. Combinado. Não houve reclamações.

Certa vez uma delas, Lia, nome fictício, para preservar a identidade dela, que tinha nome bíblico, procurou-me. Trazia angustiada a sua alma. Nesse dia, por algum motivo, d. Eunice não estava conosco, portanto essa história ficou entre ela, eu e o Altíssimo, haShem, "o Nome", como eles chamam, ou haHolam, "o Eterno". Somente nós três. E nestes dias de hoje, com certeza, somente eu ainda vivo.

Lia trazia um drama que compartilhou comigo. Viviam, ela e seu esposo, por razões religiosas, éticas ou sociais, no contexto de sua cultura, separados fisicamente, mas residindo havia anos, acho que na época ela disse que chegavam quase a 20, no contexto da mesma família, mas em quartos separados.

Naqueles dias o marido, desesperado a procurara, com um problema extremo. E ela passou a descrever. Pastor, a mulher que é pivô de nossa separação contraiu câncer e não tem quem dela cuide. O senhor acredita que meu marido me procurou, pedindo que eu a receba em nossa casa? Eu acreditei.

Lia fez a pergunta que eu já esperava. O que o senhor me diz? O que devo eu responder a ele? Eu disse que não poderia dar nenhuma orientação nesse caso. Que essa era uma escolha dela. Perguntei se ela entendia o meu dilema. Por alguns instantes repassamos juntos o que fora o problema dela, a manutenção das aparências, mormente em relação aos filhos, e agora, diante do inusitado da situação, a decisão a tomar.

Ela afirmou que já tinha uma decisão. Eu havia dito que ela refletisse, que iríamos orar, que mais tarde poderíamos nos econtrar e compartilhar essa mesma situação. Não. Ela havia decidido. Pastor, eu vou ajudar essa mulher. Ore por mim. Posso orar? Ela disse que sim. Então eu disse que teria de orar em nome de Jesus. Ela me disse que poderia ser desse modo.

Eu falara como provocação. Ela afirmou com convicção. Para minha surpresa, Lia ajoelhou-se, muito incomum, senão inconsequente para um judeu. Mas ela acompanhou minha oração ajoelhada. Depois, surpreendentemente, ela orou também. Isso me deixou extasiado.

Levantou-se, despedimo-nos, e acho que nunca mais eu vi Lia. Talvez uma ou duas vezes muito rápido, numa das reuniões do EA. Se assim o foi. Mas  naquela noite, ali no quitinete, levantou-se convicta de que estava fazendo o que era correto. Uma história de amor.

Notáveis

 As pessoas foram chegando. Hoje são como companheiros de jornada, a maioria, talvez, nem mais entre nós. Uma delas eu visitava constantemente em Copacabana, além da própria Eunice Spiller: Hilede Cantanhede. Na última vez que nos encontramos, ela estava com 89 anos.

Numa outra vez, o porteiro nos informou que havia ido morar com o irmão em Cabo Frio. Ela testemunhou a história, quando morava na rua Tonelero, próxima ao túnel Martim Vaz, assim chamado anos depois do assassinato desse major, na tentativa de atingirem Carlos Lacerda, em 1954.

Contava a história do dia em que cruzou com JK nos elevadores de seu prédio, com aquele sorrisão e toda a simpatia. E também de como eram as recepções no casarão da família, em Botafogo, nos dias de sua infância. Ora, assim vamos alcançar pouco depois de 1925. Chegou a falar de histórias de assombração num desses casarões.

Era católica. Autenticamente católica. Mas assídua aos nossos estados bíblicos. Compartilhávamos as diferenças entre os modos de crer e nossa amizade se aprofundava. Conheceu-me solteiro, foi ao meu casamento, conheceu meus filhos, convivendo juntos ela, eu, Eunice e Jassira.

Essas três me foram fiéis escudeiras, a diáconisa congregacional e as duas outras católicas, sem que a amizade não deixasse de ser profunda. Estiveram no Meier, no culto de apresentação do Isaac, no ap de Dorcas. Essas foram as mulheres. Vamos aos homens.

Com Geraldo Spiller conversávamos no ap da Tonelero. D. Eunice havia contratado duas enfermeiras, uma para a semana inteira e outra para os finais de semana, para dar assistência ao esposo. Eu sentava e líamos a Bíblia, ele bastante incomodado com sua imobilidade, devida ao AVC de que foi vítima.

Era regente do coral em São João de Meriti, época áurea da Igreja Evangélica Congregacional naquele município, pastoreada pelo Limeira. Cláudio, seu caçula, ainda solteiro na época, tocava no conjunto recém-criado, ao estilo banda de rock, uma novidade para aqueles anos, herança do boom dos Beatles, na metade final da década anterior.

Eu dizia a ele, meu caro Geraldo, o seu caso em muito é ainda melhor do que o de Jó, porque ele perdeu tudo: filhos, bens e saúde. O Sr perdeu, sim, sua saúde, mas ainda tem recursos, e muito mais, filhos amorosos e esposa dedicada. A custo conseguíamos amainar seu inconformismo.

Urias e Eneias. O personagem bíblico tinha, na época, ora, lá vão mais de 30 anos, a idade que tenho hoje, 63. E queria ser como um garotão com 40 anos menos. Uma figura esse xará do general amigo de Davi, personagem de triste história. Não com esse Urias que conheci. Lutava, como Eneias, com relação às neuroses de que nós três admitimos ser portadores, participando conosco dos estudos bíblicos e do grupo do NA.

Eneias foi primoroso. Além de me ser guia por Copacabana, certo dia me levando a sua própria residência, juntos tínhamos entrada no sistema prisional, na antiga e hoje já implodida penitenciária da Frei Caneca, 1850-2010. Eneias me levou à pastoral católica, apresentando-me ao responsável, que me assinou uma carteira, a qual me franqueva entrada no Complexo Penitenciário.

Nossa assistência era no Anexo, assim nomeado o setor de ex-policiais apenados. Eles ficavam numa unidade deslocada, pela óbvia impossibilidade de os ter misturados aos demais apenados. Até minha entrada deveria ser por outro portão de acesso, que não o principal, evitando que minha caminhada célere, entre todos os demais presidiários, indicasse exatamente o meu rumo, atiçando uma eventual represália.

Raramente essa regra foi seguida. E também nenhuma represália verificada. Enquanto Eneias, no andar de cima do Anexo, aonde certa vez me conduziu, coordenava com os internos um grupo de NA, encerrando a reunião com sua célebre oração da "energia da luz violeta" eu, no térreo, reunia-me com a turma do estudo bíblico, que incluía figuras notáveis, cono Canabarro, de quem somente guardei o sobrenome, e Baleia, de quem somente guardei o apelido.

As mulheres escudeiras, Eunice, Hilede e Jassira, e os homens de parelha, Geraldo, com semi mobilidade, Urias e Eneias cumpriram esse meu grupo núcleo duro das jornadas por Copacabana e pelos ministérios à parte delas derivados.