quarta-feira, 16 de junho de 2021

Ensina-nos a contar os nossos dias

9490. Você já multiplicou os seus dias de vida pelos dias que representam? Não. Eu também não. E esse número aí, é o número de dias que estou no Acre, fazendo uma "conta de chegada", aproximada, de janeiro a janeiro, 1995-2021, sem contar fev-jun de agora.

23360. Agora são meus dias de vida. Para descontar o tempo em que não tinha plena consciência de minha existência e, como referencial, vou contar a partir dos 6 anos incompletos, que foi quando, em abril de 1963, portanto, com 6 anos incompletos, eu me decidi por Jesus.

Vai dar 21170 dias. Descontem os anos bissextos. Não sou assim provedor de tanta matemática que me permita organizar uma fórmula que inclua a conta exata desses anos. Em 58 anos de vida, descontados os 6 de idade, se anos bissextos ocorrem de 4 em 4 anos, seriam 14,5 anos, no total que, incluídos na conta, dariam 2 meses a mais.

21170 + 60 = 21230. Contando os dias. Eu me considero com uma dívida de oração de 21230 dias. Hoje ouvia aquele hino "Santo. Santo. Santo" e pensei como seria, hipoteticamente falando, sentir-se como Isaías se sentiu quando se viu no interior do templo, onde nem Moisés e nem Salomão nunca estiveram, o primeiro quando a glória de Deus o preencheu, na Tenda do Deserto, este segundo quando da oração de consagração, na inauguração do Templo que ele mesmo mandou erguer.

Diante da presença de Deus. Isaías disse que as vestes de Deus preenchiam todo o espaço. Aterrorizou-se só de lhes sentir as fímbrias. Serafins revoavam advertindo "Santo, Santo, Santo", para ainda mais super prevenir. Só restou a Isaías balbuciar "Ai de mim, estou perdido".

Perdido estamos todos. Até que Jesus banalizou o acesso. Franqueou a qualquer um a entrada no Santo dos Santos. Pôs todos, por hipótese, no mais interior, tendo profanado, quando o rasgou, de cima abaixo, o véu do santuário. Porque não é esse o santuário, terreno, mas outro, do qual Isaías só viu o esboço. Não passava de uma visão.

Mas o autor anônimo de Hebreus proclama que Jesus nos põe dentro do verdadeiro santuário. Do real lugar da glória do Pai. "Tendo, pois, irmãos, intrepidez para entrar no Santo dos Santos, pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou pelo véu, isto é, pela sua carne, e tendo grande sacerdote sobre a casa de Deus, aproximemo-nos, com sincero coração, em plena certeza de fé, tendo o coração purificado de má consciência e lavado o corpo com água pura". Hebreus 10:19-22.

Diante do Santo, Santo, Santo 24 h por dia, no meu caso, 24 h por 21230 dias, entre os quais 9490 no Acre. E, para mais uma conta, caso esteja neste tabernáculo, como a ele se refere Paulo, em 2 de janeiro de 2023, serão 14600 dias, desde 2 de janeiro de 1983, nos quais decidi que me chamariam "pastor". Se os bissextos estrarem na conta, somem mais 40 dias: 14640.

Se é para contar os dias, pelo menos assim. A dívida só aumenta. Diante de Deus, postos em sua presença real, pelo sangue de Jesus, 24 h por dia, todos os dias, cada dia. Você já pensou nisso? Sente-se assim? Não? É que herdamos a síndrome de Adão e Eva, fugindo da presença de Deus por entre as árvores do jardim. Puro engano. Há muito tempo estamos fora do jardim. E nem a terra é mais um jardim.

Violamos o plano de Deus, tanto para a nossa vida, quanto para a do planeta. Ele continua nos procurando. E definiu, pelo Filho, o caminho para a árvore da vida. Isaías está corretíssimo: "Ai de nós, estamos perdidos". A não ser que se acredite no que Jesus diz: "Eu sou o caminho". Ele também conhece a nossa verdade. Não adianta tentar fugir dela. E Jesus também nos quer dar vida. Se não fora o Espírito sussurrar isso aos nossos ouvidos, ainda estaríamos perdidos, quer dizer, ainda sob outra síndrome, desta vez a de Isaías. 

quinta-feira, 3 de junho de 2021

Memórias de seu Alonso - 3

 

Parece que há duas filhas, Fantina e Lourdes, desse Coronel Cordeiro (ainda bem), que circulava fardado em Brasília (Brasileia, não confunda), nos tempos áureos de seu Alonso, por aquelas bandas, que nasceu, em 1935, bem coladinho à casa dessa personagem pitoresca. E, para completar, era uma rua bem próxima à igreja católica, denominada rua da Encrenca, sendo assim de boa vizinhança.

O Pe. Paulino Baldassari, famoso em Sena, chegou a passar por Brasileia, antes de ficar famoso em Sena, falecido perto dos 90 anos ou mais. Seu Alonso foi sacristão dele, nessa época de sua passagem por lá, e foi casado por ele em 1957, justo no ano de meu nascimento. Houve uma discussão, entre Joaquim e Alonso, se foi esse padre que construiu a Sé, em Brasileia, mas seu Alonso confere que já havia igreja erguida. Bem, pode ter ampliado, quem sabe.

Quando Alonso chegou a Rio Branco, tempo ainda do bispo Dom Giocondo, falecido em desastre aéreo, em 1971, ele auxiliou na construção da Catedral da cidade. Mas era uma antiga, situada onde hoje é a Galeria Meta, ali, a lado da antiga sede do Colégio Meta, na Epaminondas Jácome, na beira do Rio. Houve uma primeira visita dele, em 1954, agora o ano em que meus pais casaram.

Agora, sim, a Catedral, essa que hoje existe, estava sendo erguida, com o Mestre de obras Luiz, projetos do Pe. Andre Sicarelli, sob o episcopado de Dom Giocondo Maria Grotti. Alonso ganhou uma máquina de costura Singer, das melhores, da mesma marca da que minha mãe tinha, da parte do bispo, como ajuda de custos por seu trabalho. Detalhe, era uma máquina de estimação, porque a profissão anterior do bispo era ser alfaiate.

Seu Alonso trabalhava como carpinteiro, mas chegou a efetivamente construir, devido ao seu progresso na profissão. Onde é o Cine Acre, de Waldir Pinheiro, é construção dele. Do mesmo dono, o Rio Branco Hotel, assim como os dois edifícios da cabeça da ponte nova, construções dele, Edifício Pedro Luiz, um deles. Incluam a sede do DerAcre, em meio ao descampado, ponham em sua conta também. Raimundo, João e o mais novo, Manduca, eram sócios no hotel que Alonso também ergueu e filhos do Luiz Pedro, que deu nome ao edifício acima citado.

Havia terminado o Hotel, em 1967, ano que fui morar no Meier (em que nasceu pessoa muito especial, mas cala a boca), estava construindo o edifício, em 1968, ano em que fiz o Admissão, com a Profa Cleuma, com quem frequentemente converso, veio o mais velho deles, seu Raimundo, que morava em Belém, e era sócio da Fábrica Aliança. Ficavam num quarto do Hotel, onde havia uma empregada que os servia, quando, certo dia, o amigo que veio em sua companhia desceu à obra.

Apresentou-se como Engo. Civil, Manoel Nogueira Filho, vindo com o Raimundo, dono da empreitada, para construir o Dpto de Estrada de Rodagem do Estado do Acre. Vendo você trabalhar aqui, falei com o Raimundo, João e Manduca para que, quando for iniciar as obras, levar você comigo, mesmo porque você conhece todos os operários aqui. Está combinado, eu falei com ele e ele libera.

Bem, Alonso respondeu, ele liberando, vou, porque tenho um contrato com ele para erguer o edifício. Mas se ele liberar, eu vou. Assim ficaram amigos, visto que o quarto de hospedagem era bem ali, de onde o engenheiro apreciava o trabalho de seu Alonso, até que certo dia ele sentenciou: vamos começar as obras. Foram à Construacre comprar o material e construíram o Deracre lá, no isolado do descampado.

Terminada a obra, foi quando o Dr. Nogueira lhe ofereceu tomar o livro de assentos dos funcionários, convidando Alonso a integrar o rol, como o primeiro deles, visto que esse próprio engenheiro seria o chefe. Mas Alonso só disse “Não, quero isso nada, doutor: vou voltar e terminar o prédio do homem”, no caso, o Edifício Pedro Luiz, de seu Raimundo. Ora, eu comecei, não vou deixar em meio de viagem. E não adiantou o Nogueira argumentar que já havia solicitado seus serviços ao Raimundo. Rodagem, para seu Alonso, era varar varadouros, de Assis Brasil até Rio Branco. Rodagem em estradas, definitivamente, não era com ele.

 

 

 

Memórias de seu Alonso - 2

 

Como dizíamos, o pai de seu Alonso foi para o seringal em 1945. Era ex-policial da ex-guarda territorial, época da construção simultânea do Palácio, do Quartel da PM, quando a prefeitura atual era ainda uma penitenciária. Ele nasceu em Brasília, que depois passou a Brasileia, em 1935. Quem lutou ao lado de Plácido de Castro, da família de seu Alonso, foi seu avô, o pai de sua mãe, Aurora Umbelina de Lima.

José Bonifácio de Lima, esse o herói, com Plácido de Castro, da guerra acreana de revolução, avô de seu Alonso. Uma tia dele, irmã mais nova de sua mãe, apelidada tia Preta levou, para Manaus, documentos que comprovavam essa milícia do avô. Estão sepultados, pai e filha, em Brasileia, ele falecido em 1952.

Seu Bonifácio era dono de três dos famosos rifles de papo amarelo, tendo morado por muito tempo com o genro, pai do seu Alonso, no seringal, por este ter pedido dispensa da polícia. A maioria dos ex-guardas territoriais foram reaproveitados na PM, quando da emancipação do Estado em 1962. Em 1944, com 9 anos de idade, seu Alonso já começava a cortar seringa com o próprio pai.

Fazendo as contas, começando aos 9 anos e, como ele diz nesta gravação, trabalhando até agora, são cerca de 75 anos ininterruptos de trabalho. Comentou como exorta jovens que ele percebe que não apreciam essa mesma jornada. Seu Alonso passa a narar a jornada que fez, com uma boiada, de Brasileia a Rio Branco, hoje, por estrada, cerca de 280 km, nos tempos áureos, parando para dormir, perguntei onde: ele respondeu, “onde escurecia”.

O caminho era aqueles dos seringais, pelos varadouros, pelos caminhos do escoamento da borracha. Fossem seringais brasileiros, fossem bolivianos, ora, daqui a Cruzeiro do Sul, extremo oeste do Acre (e do Brasil), atuais 670 km de estrada, havia varadouros, comenta Joaquim. Calculava-se o rumo, por esses varadouros, trazendo o gado, de colocação a colocação para que, uma vez declinando a tarde, nela haveriam de pousar.

Vinham serpenteando, ora dentro da Bolívia, ora dentro do Brasil, até que chegassem ao Quinari, apelido do município de Senador Guiomard Santos. No total, 9 dias e nove noites, ainda não existindo, do Quinari a Rio Branco, estrada, mas ainda varadouros. Um dos pontos, dentro da fazenda Palmares, do Engo. Agrônomo Carlos Neves, é a nascente do Iquiri, igarapé este por dentro do qual o gado atravessou, local que hoje abriga a Alcobras, tentativa de uma usina acreana de álcool.

Vinham com burros de carga, aqueles utilizados para puxar a borracha pelos varadouros, e alguns cavalos, tocando o gado, municiados principalmente do rancho, cuja dieta alimentar incluía, é claro, a farinha e a carne seca, fosse de gado, de porco ou ainda galinha frita que, na farofa, durava dias. Vinham Alonso, com dois primos de sua primeira esposa, Pedro Alves, Igor, o irmão, e um cunhado deles, o João Benvindo.

As 11 cabeças eram gado de seu Alonso, e outras restantes dos companheiros, chegando o total a cerca de 25 cabeças. Dessa época, recentemente, seu Alonso encontrou o Sebastião Flores, dos tempo áureos, que conheceu seu Alonso desse tempo em que começou a criar todo esse gado. Seu Alonso lembra e menciona os primeiros patrões, os coronéis dos seringais. Esse, andava fardado, com patente comprada, e contava histórias de uma possível participação na guerra de Plácido.

Memórias de seu Alonso

 

“Eu quando morrer, não vou embora daqui não: vou ser enterrado neste seringal”. Assim, como uma gostosa gargalhada, iniciou-se esse tour de recordações de seu, quer dizer, nosso Alonso sobre sua vida nos seringais.

Contou sobre sua quarta irmã, Alzenir, que, sim, foi sepultada num seringal, possivelmente vitimada por febre amarela. Porque não havia médico no município, somente o farmacêutico, e ninguém soube do que se tratava. Ele trabalhou no seringal Nazaré, colocação Esperança, município de Brasileia.

Era com o Sr. Raimundo Siriaco Braga, que dizia a ele que, já que todos já haviam ido embora, se ele não iria também. Seu Alonso brincava, então, que não, que seria o último a ficar ali, que seria enterrado nesse cemitério aí, lá mesmo, onde Alzenir jazia.

Esse era seu pensamento, comenta, mas logo reafirma que não foi o de Deus. De lá saiu para uma cirurgia do coração, operou e se sentiu bem, retornou para trabalhar no mesmo ritmo mas, como afirmou, uma coisa mínima o afetou: as vistas. Sem visão em uma delas, perdeu a nitidez de poder enxergar com os dois olhos.

As terras que adquiriu, pertenciam ao seringal Barro Alto, de Severino de Souza Oliveira, o gerente (ou comboieiro), e de um seringalista por sobrenome Lopes, de Manaus. Esse Lopes, o velho, foi levado pela esposa, doente, para essa cidade, lá pelos idos de 1926. A esposa escreveu uma carta ao comboieiro, que ficasse gerenciando o seringal até que ela voltasse.

Gerente honesto, em 1928 pagou precatórias ao Banco do Brasil, de umas dívidas do Barro Alto. Com a derrocada dos negócios da borracha, com a Malásia superando o Brasil na produção, assim como pela idade avançada do Severino, este comprou um maquinário e mudou sua atividade.

Acabamos por comentar sobre o primeiro e o segundo ciclos da borracha. O primeiro, de cerca de 1877 a cerca de 1920, com o boom da borracha no mundo. O segundo, devido ao esforço de guerra, encerrado com ela em 1945, quando vieram para o Acre os denominados “soldados da borracha”.

Aqui entra a história do pai de seu Alonso, um soldado da borracha, um ex-militar da ex-polícia territorial do Acre, época da construção do Palácio do Governo, do quartel da PM, da construção da penitenciária, onde é a atual prefeitura, quando foi transferido para Brasília, antigo nome de Brasileia, em 1935.  

 

 

sexta-feira, 21 de maio de 2021

Copacabana e Rio Branco, Acre - com o mesmo Limeira, tudo a ver.

Depoimento de Limeira, Antonio Limeira Neto, que já registrou suas próprias memórias. Conta, numa visita que Regina, Dorcas, eu e as crianças lhe fizemos lá em Nilópolis, RJ, que foi convidado pelo Rev. Daniel Gonçalves Lima, Presidente da Junta Geral da UIECB naqueles dias, para ocupar o DM, antigo Departamento de Missões da UIECB -- União das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil.

Relutou, aquela história toda mas, finalmente, aceitou. A Junta Geral tinha lançado uma campanha especial de Multiplicação de Igrejas. A UIECB reúne o grupo evangélico mais antigo do Brasil, desde 1855, mas também um dos menores: atualmente reúne cerca de 450 Igrejas.

Nesse afã, Limeira aceitou, na expectativa de ampliar a presença denominacional, e a principal meta era alcançar as capitais de Estados onde não havia ainda nenhuma Igreja congregacional. E, no panorama nacional, figurava todo o Norte, com exceção de Belém, onde já havia um trabalho missionário iniciado.

Limeira, então, visitou toda a Região Norte e plantou trabalhos, começando por Manaus, depois Boa Vista e, finalmente, Rio Branco. Especificamente com respeito a Rio Branco, as circunstâncias eram difíceis. A partir de Porto Velho, Rondônia, a 540 km, não havia estrada asfaltada. Levava-se de 5 dias até uma semana, dependendo do regime das chuvas, para se cobrir essa distância que separava as duas cidades. Ou voo pela Varig.

Daso Coimbra, estamos nos anos 80, anos e anos o Deputado Federal evangélico, que conhecia bem essa realidade, advertiu Limeira que seria praticamente impossível aventurar instalar um trabalho naquelas, ou melhor, nestas paragens, naquela época.

"Mas -- esclarece Limeira --, como nós tínhamos em mente lançar a igreja congregacional no Norte do país...", relata, só ficou dependendo de que, numa das reuniões do DM, fosse aprovado e se iniciasse a tarefa. E foram priorizadas as cidades mais difíceis, escolhidas Rio Branco e Boa Vista, esta sim, somente alcançada, naqueles idos, por avião. A BR 174, que liga Manuas a Boa Vista, era inóspita.

Manaus, ainda, até hoje, somente alcançada por voo ou por veículo tracionado, a partir de Porto Velho, pela BR 314, não totalmente asfaltada, foi outro desafio. E não somente o acesso era a dificuldade mas também, e crucialmente, o obreiro a escolher. Limeira entrou em contato com o, na época, seminarista Nelson Rosa, que estudava no Seminário Congregacional do Nordeste, em Tejipió, Recife, convidando-o para o trabalho no Norte.

Criou-se a expectativa: caso ele aceitasse ir para o Acre, naquelas condições, seria o homem melhor indicado. E ele aceitou. Afirmou sua disposição em ir para lá ou para qualquer outro lugar. Missionário nato, ele e a sua futura esposa Josilene. Ficou decidido começar pelo lugar mais difícil. 

terça-feira, 4 de maio de 2021

Ora, como o evangelho chegou ao Antônio - 2

 O que Sérgio queria me dizer foi que jogava no jacaré, ora, sei lá, mas fazia o seu palpite na "roda da fortuna", o popularíssimo jogo do bicho. Isso o impedia de se batizar. Mas que ele queria, isso ele queria. Eu disse aleluia! Ele arregalou os olhos.

Eu repliquei, Sérgio, pensa comigo. Se somente te falta, para o batismo, largar o palpite nessa "roda do infortúnio", isso é o mais fácil: o mais difícil, quer dizer, o impossível, para nós, mas não para Jesus, já está feito. Você é convertido autêntico.

Lembramos juntos do texto do jovem rico. Porque quando os apóstolos, na avaliação deles viram o "gente boa" ser reprovado no teste que Jesus fez, Pedro, exagerado como era, falou, Mestre, se esse cara não é gente boa, ninguém é. Jesus respondeu que conversão não é, somente, difícil: é impossível.

Foi assim que eu e Sérgio, naquela manhã, encerramos a conversa: fica combinado, Sérgio, o impossível, para nós, já ocorreu. Você é crente. Quando largar isso aí, me procura. Largou e não demorou muito. Batizei. Eu acho que batizei (com menos água) aquela família toda.

Os meninos de Solange começavam a vir com a tia Sueli e as primas, Patrícia e Simone. Rafael e Gustavo. Certa vez, coincidiu que eu os visse chegar trazidos pela mãe. Apressada, deixou-os na porta da igreja. Os meninos despediram-se, foi quando o caçula falou fica mãe, vamos entrar. Solange argumentou, hoje não, filho, mamãe não colocou a roupa de domingo e deixou por fazer o almoço em casa.

Mas ela promete que vem. Vai ser outro dia. Por falar em "vai ser outro dia", parecendo letra de música, não esqueço a primeira vez em que Solange havia entrado na igrejinha antiga. Sentou-se bem na frente, no segundo banco. Gustavo, o caçula, dormia em seu colo. Mas o desenho de sua boca se mostrava meio que contrariado. Essa foi a leitura que fiz.

Me parece que era um aniversário de uma das meninas de Sueli, a irmã. Solange veio contrariada. Aquela história de agora serem protestantes era meio descabida. Pelo código de ética que as unia, as três, sim, porque tem a outra de Campo Grande, esse código não permitia que uma falhasse com a outra. Nisso aí tinha o dedo de Alda. Equação rígida. Por isso, jamais faltaria o aniversário da sobrinha, ainda que fosse naquela "igrejinha" (aqui, com aspas).

Solange veio. Gustavo dormindo no colo. Estratégia das meninas de Sueli. A gente convida, o senso ético funciona, ela não vai negar, tem raiva de crente e raiva de igreja, mas o evangelho faz o seu serviço. Há bálsamo do Espírito em Gileade (e em Cascadura, qualquer "cascadura", também).

E um dia, para cumprir a promessa feita ao filho caçula, num outro domingo de sol bem ali, no velho portão da velha igreja, Solange veio. E nunca mais deixou e nem nunca vai deixar de vir. Agora a luta em oração era por Antônio. Diferente de Sérgio, no porte e no tamanho, não menos econômico nos gestos.

Também pouco se ouvia sua voz. Tarimbado (e calibrado) pelo toque especial das filhas de Alda. Ah, as filhas de Alda. Dá assunto de uma série da Netflix. Sueli, já falamos dela, não tinha o porte, digamos assim, a altura assintosa, impositiva, intimidatória de Solqnge. Esta se impunha pelo porte. Mas não se iludam. Tinha o mesmo poder de Sueli. Só que represado.

Sueli era (quer dizer, é) do tipo que, para compensar o porte menor, impõe-se pelo olhar, franzir de todo o rosto, estado de alerta máximo. Já viram aqueles tornados, pelo menos em tela, hurricane, em inglês? Se um deles encarar Sueli, retorna, nem contorna. Já Solange é diferente. Com um rosto de estátua grega, tem um lago de Itaipu represado dentro. Se for necessário, mas só se for necessário, move 8 turbinas de alta tonelagem (ou devo dizer Alda tonelagem) de uma só vez.

E a de Campo Grande? Ha ha ha, a de Campo Grande. Nunca a vi sem sorrir. Vejam bem, não estou dizendo que Sueli e Solange não riem também. Claro que riem. Quando riem, quem conhece as duas, fica sério. É melhor: nunca se sabe por que motivo riram. Mas a de Campo Grande, literalmente só ri. Deve ter feito muita raiva às outras duas, rindo na cara delas, durante toda a vida, todas juntas na mesma companhia. Imagino. Enfrentava rindo (para as duas e das duas) o mau humor (ocasional, é claro) delas.

A força dela, a mesma das outras duas, está no sorriso. Porque o humor que d. Alda tem latente, sutil, enrustido, essa irmã tem patente, explícito, franco. Quando o evangelho chegou na vida das três, tudo mudou. Porque concedeu a capacidade que só ele tem de suprir com força, com a força do Senhor, a vida inteira. A alegria no Senhor é a nossa força. Em cada momento, em cada dificuldade, que não foram poucas. A marca da amizade e da ajuda mútua preencheu a vida dessas mulheres.

Orávamos por Antônio. Eu acho que a conversão dele se deu quando eu já estava a pouco mais de 4.000 km de distância, aqui no Acre. Mas ainda assisti ao despertamento de sua curiosidade lá na antiga igrejinha. Deus começava a mexer no entendimento de Antônio, a despertar seu coração para o evangelho. Eu acho que pregava em Hebreus.

"Tende cuidado, irmãos, jamais aconteça haver em qualquer de vós perverso coração de incredulidade que vos afaste do Deus vivo'. Hb 3,12. O termo bíblico "Deus vivo" bateu e ricocheteou no entendimento de Antônio. Ali onde estava, na fileira predileta de Solange, bem na frente, ele me interrompeu e não se conteve: "Como assim, Deus vivo?".

Aquilo me surpreendeu. Nunca antes ocorrera comigo. Era inusitado mesmo. Mas bem espontâneo. E nisso residia todo o valor da pergunta. Acho até que Solange ensaiou alguma reação. Mas amenizei. Sem constragimemtos.  Seria mais usual uma pergunta assim na escola dominical. Ela já estava experimentada nesse protocolo.

Mas exatamente nessa quebra de protocolo estava assinalado o começo de Antônio andar com Deus. Eu repondi a ele, pego de surpresa, Deus único, não há outro, não existe outro, qualquer outro é invenção. Deu-se por satisfeito. Uma conversa ou outra ainda trocamos após o término daquele culto.

Ali começava a vida de Antônio com Deus. E continua. E nunca vai acabar. Nunca mais. Tão longe assim nos cunduz o evangelho. E assim tão perto, de Deus, com Deus e para Deus. 

Ora, como o evangelho chegou ao Antônio - 1

 Corre um história que minha mãe contou. É como se ouvisse sua voz chamando meu nome. Cid Mauro, Sueli e as duas meninas vão a Cascadura. E foram mesmo, as três mulheres, uma bem miudinha, a outra um pouco maior do que a irmã e a terceira, a mãe, um pouco mais madura.

Parece que houve uma conspiração por parte das irmãs, no sentido de ter aguçada sua curiosidade. A maior das curiosidades, que somente o evangelho provoca. A mãe, sempre muito rigorosa. Professora, como a minha própria mãe. Ora, aliás, foram colegas de como chamavam o Curso Normal, no Nilopolitano, nos idos de 1963, as colegas normalistas.

Bendita curiosidade do evangelho. Queriam conhecer a igreja de tia Dorcas. Ora, mas quantos domingos de sol fomos, minha mãe e eu, a pé, desde os tempos em que morávamos em Cascadura, para a "igrejinha de infância", como diz o hino Igrejinha Antiga, "onde a voz de mamãe a Deus suplicava por mim".

Nessa época das normalistas colegas, eu era da idade da menina mais nova. Encheram-se de curiosidade, querendo sempre mais, sempre muito, sempre muito sério. Era o rigor de d. Sueli. Ah, mas não: nunca admitiria brincadeiras com algo tão sério. Ela era, por tradição, de outra religião. Parece que, nessa santa conspiração, as meninas insistiam em ficar na igrejinha da infância.

Ela dizia, está bem, ficamos, ora, mas se ficamos, porém tem de ser tudo muito sério. E sempre foi. E foi tudo muito rápido e muito urgente. Porque o evangelho não espera. Ele mesmo diz é agora. O dia da salvação é hoje. No hoje de Deus. E foi como num rastilho, que foi alcançando toda aquela família, Sueli e cada irmã dela, e a mais madura de todas, a linda d. Alda, essa, sim, a matriarca de todo o rigor (e todo o bom humor). É muito lindo, é o mais lindo de ver o efeito do evangelho na vida da gente, o modo como cremos, como nele e dele vivemos, o modo como dele testemunhamos.

Vinham as notícias dos efeitos do evangelho no restante da família das três mulheres: a miudinha, a média e a mais madura. Ora, o pai. Para mencionar o pai, fizeram dele, pobre Sergio, outro cúmplice do evangelho. Pobre, não, enriqueceu de vez, não esperou. Há tanta saudade de tanta gente daquela igrejinha. Pois uma delas, ah, meu Pai, como aprendi com aquela gente, uma delas é o rosto do Sérgio, a pessoa do Sérgio, o jeito e os gestos do Sérgio. 

Ora, mas que família! Esses homens que cismam e se apressam logo em ir para casa. Sérgio começou com as filhas e a esposa a não perder, por nada, a igreja. As portas da igreja estão abertas, escancaradas, ara, meu irmão, com o rigor de d. Sueli, com o seu "domínio de turma", não havia atraso.

Não esqueço outra manhã de sol. Oh, meu Pai, aquelas manhãs de sol em Cascadura. Podem achar irônico o nome, sim, podem até achar, mas todo crente já teve Cascadura, só quem amacia é o Espírito, como um óleo milagroso. Como diz Jeremias, o profeta, há médico (e óleo) em Gileade (ou em Cascadura).

Nesa manhã de sol, Sérgio me cercou nos bancos antigos da igrejinha antiga. Fala macia. Também, meu amigo, que homem não tem fala macia com três mulheres em casa, uma miudinha, outra média e aquela mais madura? Diz aí! Pastor, dizia ele, posso lhe falar. Puxa, vindo do Sérgio, qualquer e toda a conversa. Haja curiosidade que o evangelho provoque.

É que eu estou pensando em me batizar. Essa história de batismo eu já conhecia, a mesma conspiração em andamento, quando aquela menina de Sérgio, ela mesma, a de tamanho médio, a mais velha, saiu-se com essa mesma ideia. Enfrentou o rigor de d. Sueli. Meu amigo, para enfrentar o rigor de d. Sueli, só tem duas saídas: ter o mesmo DNA, que era o caso da miudinha e da outra, a média. Ou ser alvo do amor das três, que era o caso do Sérgio.

Sérgio falava baixinho. Era necessário apurar os ouvidos. Com quase ninguém por ali, no velho templo, ele disse: Pastor, é que eu quero me batizar. Sim, eu dizia das meninas. Não me interrompam, que já conto a história de Sérgio. Acho que foi a mais velha, essa que chamo de média, em tamanho, mas Sérgio e Sueli chamaram Simone.

Ela disse, como eu já disse, só com o mesmo DNA para enfrentar Sueli, mãe, eu quero me batizar. Que que isso, menina. Tá pesando que é brincadeira? Não, não estou: por isso mesmo que eu quero. Haja convicção! Pior, quer dizer, melhor foi que a miudinha, que os pais chamaram Patrícia, disse eu também. Pronto, d. Sueli, 2 X 1. Saiu ganhando dessa vez.

Este texto está extenso. Vou contar a história do Sergio no próximo. Mas a conversa de batismo não ficou entre as três, porque vieram me procurar. Prestem atenção: isso tudo ocorreu antes dessa conversa, também miudinha, com Sérgio, sussurrada, com aqueles gestos tímidos, comedidos, desenhando com as mãos, típicos dele. Ora, vocês não sabem como três mulheres com esse DNA domesticam qualquer homem.

Pastor, falou Sueli numa outra manhã de sol bem ali, no corredor entre bancos da igrejinha antiga: Simone me procurou e disse que quer ser batizada. Eu nada falei. Mirei nos olhos das três, primeiro a mãe, a filha média, depois a miudinha. Sim, só falei isso. O que o Sr acha? Só então eu falei, e falei o que diz o manual: é lícito e justo, se ela crê. A menorzinha também falou eu também quero. Sueli, ora, Sueli, só com o olhar sinalizou. Ela se calou (e eu também).

Ficou decidido que batizaríamos a média. A menor, consultei Sueli. O veredito foi que esperasse. O fruto ainda estava meio verde. Não houve nenhuma reclamação, naquela manhã de sol, nem minha e nem da miudinha. Batizamos Simone. Como já preveni, esta história vai longe. Aguardem o segundo texto. Coisas do evangelho. Essa história vai longe e você nem imagina quão longe ela vai.