Cid, Dorcas e o recém nascido Cid Mauro, em 1957.
Escrever tornou-se compulsão. Mas também, de certa forma, escrever é uma forma de oxigênio. E direto no sangue.
O que me impulsiona, bem, nem sei o que me impulsiona. Mas o pretexto deste texto é conta inteira, menos 1: 30 anos em que meu pai se foi, abrupto, em 19 de agosto de 1996.
E 10 anos para Dorcas, que também se foi, agora em 6 de junho de 2016. O menos 1 é para mim que, por menos 1, ainda não fiz 70 anos.
Sou o quarto parto de Dorcas. Acho que herdei uma sina, nem culpa minha, nem culpa dela, mas o único que vingou, aliás, verbo este de múltiplos sentidos.
Em 12 de março de 1956, Dorcas completou 26 anos nesse mesmo dia que sepultava Cid Araujo de Oliveira, terceiro parto, único vivo até ali nascido. Deus foi bom para ela, o que, em termos de Deus, é rotina ser bom.
Porque ela engravidou, a tempo de eu nascer em 6 de maio de 1957. Digo sina, porque todo mundo me apontava como o que, enfim, vingou. De novo o verbo. Múltiplos sentidos.
Foram extraordinários. Não mimaram o menino. Um atropelamento brutal em 27 de junho de 1967, na esquina na Ernani Cardoso, em Cascadura, com a Pe Manso, pura ironia, na saída da Escola Paraná.
Mesmo assim vitimado, Cid e Dorcas não aprisionaram o menino. Sequelado, porém de novo livre e solto. Eles acelentaram em amor essa única e máxima, para eles, dádiva de Deus.
Ainda não fiz a terapia, mas au acho que, os arranhões nesta minha fugaz existência, até agora, não devem, com justiça, ser reputados à educação deles recebida. São de minha exclusiva autoria.
E, ora, nessa idade, haja reflexão sobre eles. E fui pela vida a fora, sentença esta, para o meu pai, que sempre a repetia, quando me instruía, uma advertência para aquela continuidade que, hoje, nessa altura, já é estrada já quase toda percorrida.
Já dizia Chico Buarque, desculpem a irreverência (dele), "Deus é um cara gozador, adora brincadeira", além dos pais extraordinários, deu-me esposa outro tanto de especialíssima e filhos o triplo exponencial.
Porque Deus faz tudo por Sua graça. Graça sobre graça. Cid provém da roça, zona rural de Itaocara, e Dorcas da (dita) periferia, Nilópolis (com muita honra), do antigo Estado do Rio. Roça e periferia indicam nível social. A herança do evangelho os enriqueceu.
Se eu fosse melhor, muito melhor do que me fiz, teria herdado e enxergado muito mais os valores desse casal. Vejam bem, não os estou dourando mais do que se deve. Apenas dizendo que foram, para mim, matriz não somente biológica.
Fé é cousa que se vive em simplicidade. Não combina com ostentação. Ser humano não vive sem ostentar. O mais ridículo possível é quando, ainda que sutilmente imperceptível, usa-se fé para ostentação.
Cid me ensinou apego à Bíblia, Dorcas apego à igreja. Não que uma inversão não fosse aqui cabível. É. Cid tinha na igreja, como Jeremias, o profeta, a "estalagem no meio do caminho". E Dorcas preenchia rodapés e margens de textos de sua Bíblia com inúmeras anotações de repetidas leituras.
Amavam e viviam esse livro. E havia coerência entre vida dentro e fora da igreja. E não avaliem que jogo confetes. Evidente que defeitos havia. Mas para isso há a cruz, e atrás dela se escondiam. Melhor, com marca assumida da cruz expunham-se.
Herdei deles apego às Escrituras e vivência na igreja, lendo delas muito menos do que eles e menos ainda coerente no meu proceder. Mas, para isso, existe e também asumi e me exponho carregando "a vergonha da cruz". E veio Regina, mais uma unanimidade de virtudes.
Já disse e não vou repetir de novo, desfilam aqui, neste texto, seres humanos imperfeitos. Mas refiro-me a suas (deles, literalmente) virtudes e como delas fui e sou testemunha, faltoso em incorporá-las, na medida que devia, em meu viver.
E vieram Isaac e Ana Luísa, nessa ordem. Têm a ver com Cid e Dorcas. No dia em que, por uma forma tão estúpida, por lei da física, carro e Cid se encontraram, numa colisão, em 19 de agosto de 1996, Dorcas contou que ele comentou com ela, na que foi sua última oração em vida: "Pedi a Deus uma netinha".
E Isaac já havia sido milagre. Cesariana em 21 de abril de 1994, à qual assisti, menino em sofrimento, oligrodamnia, imperceptivel absorção do líquido amniótico pelo organismo da gestante.
Milagres em minha vida. Em torno dela. Pérolas de pessoas, Deus nos ama, Deus me ama e me empareda cercado, por todos os lados, de crentes virtuosos. Deus não cessa Suas tentativas para comigo. 70 - 1 = 69 anos de tentativas. Reconheço ser conversão algo muito difícil e penoso para mim.
Demoro a entender isso. Por isso anda em (doloroso) curso. E Deus continuou a enriquecer, acrescentando Amanda e Asafe. Graça sobre graça. As contas continuam. Deus ensinando a contar o tempo: a mãe aniversaria agora, 14 de agosto, o menino em 15 de setembro.
Na foto abaixo, Ana Luísa, Amanda com Asafe ao colo, ao lado de Regina, eu e Isaac atrás.
Deus nos ensina a contar o tempo. Alcançarmos coração sábio, ainda é mais por nossa conta. Mas Ele está mais perto do que imaginamos como, certa vez, disse a Moisés:
²¹ "Disse mais o Senhor: Eis aqui um lugar junto a mim; e tu estarás sobre a penha." Êxodo 33.
Mantenha-nos, Senhor junto a Ti e sobre a Rocha.
Na foto abaixo, Cid, Dorcas e Isaac, em 1994.


Maravilhosa história. Deus seja louvado!
ResponderExcluirAleluia! Seja sempre louvado.
ResponderExcluirQue texto lindo. Me trouxe boas recordações a memória ❤️🩹
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