terça-feira, 13 de dezembro de 2022

Origem das bem-aventuranças

 
Origem das bem-aventuranças do justo

    A palavra hebraica traduzida por "bem-aventurança", neste primeiro Salmo, significa dizer "todas as alegrias do homem". Já se disse que, segundo Aristóteles, a finalidade da filosofia seria a busca da felicidade.

   Pois esse anônimo Salmo de sabedoria afirma que ela está na leitura meditativa contínua das Escrituras. E, como contraponto, ou seja, o que se opõe ao empenho nessa tarefa será uma opção errada e gradativa por má influência.

   A vida humana medeia entre duas opções, numa crise constante, no entrechoque pelo que penetra, vindo de fora, no entendimento humano, e o que este pode produzir de original. Muitas vezes, sem saber ou admitir, estamos apenas, já despersonalizados, repetindo aquilo a que fomos, inconscientemente, induzidos.

   Aqui o salmista fala em más influências, definindo uma gradação de atitudes: andar, deter-se, assentar-se. Menciona um contexto pré-definido de doutrinação: conselho, caminho, roda. E indica o caráter dos que se apresentam como influenciadores: ímpio, pecadores, escarnecedores.

   O antídoto será o conteúdo da lei do Senhor. O tempo deve ser gasto em sua leitura e meditação diuturna, ou seja, pela sucessão de dias e noites. E o resultado disso se apresenta em uma das mais lindas metáforas das Escrituras.

   As árvores são um milagre de vida. Além de filtrar a atmosfera, absorvendo gás carbônico e devolvendo oxigênio, acolhem aves e demais animais em sua sombra, diminuindo a temperatura em seu entorno. Grande crime ecológico violentá-las.

  E na analogia deste salmo, a fonte corrente supre as raízes da árvore bem plantada, que supre com frutos e com folhagens que nunca murcham. Jesus, em João 7,38-39, afirma como fluem riso de água viva do interior dos que nele creem.

  Na símile de Jesus, como esclarece João, esse rio de água viva é o Espírito, que habita nos que creem. É fácil associar o Espírito à palavra de Deus, neste salmo indicada como aquela que supre a vida de quem a ela se apega.

  O salmista encerra apontando para uma congregação dos justos. Enquanto os ímpios se dispersam, por sua escolha equivocada, os justos se agregam, pela escolha certa que fizeram. Sem dúvida, pode-se afirmar ser a igreja essa congregação. 

   Seja a que, no deserto, pela suficiência de Deus, em torno do tabernáculo, foi formada. Seja a que o próprio Jesus afirmou que edificaria e assim o fez. Este salmo introdutório remete o justo para todo o conteúdo do saltério, assim como o predispõe a ler, meditar e cumprir toda a Escritura.




sábado, 10 de dezembro de 2022

Manoel Marques

  Considerava Gerson, Manoel Marques e Valdemir meus companheiros inseparáveis, nesse tempo em que estive em Curicica, de meados de 1982 até sua emancipação em 1988.

   Aqui vou falar de Manoel Marques, para depois mencionar os outros dois. Ele era presença constante em Curicica, uma vez que, com o "grupo dos 11", egressos da Congregacional de Cascadura, assumiram essa congregação.

    Vinha de mãos em mãos, rejeitada  como um trabalho num lugar remoto, na época um loteamento poeirento e esburacado, na Estrada do Guerenguê, Curicica, recanto da baixada de Jacarepaguá, ao qual se tinha acesso a partir do Largo da Taquara.

   Eu vinha da UERJ, onde iniciei o curso de Letras - Português e Hebraico, em 1982. Eu me matriculava em uma ou duas disciplinas a menos, sobrando assim uma noite na semana, para a reunião de estudo bíblico e oração em Curicica.

   Pelo precário da distância, vinha eu, no Fusca azul-céu, RV 2644, de meu pai, pela Grajaú-Jacarepaguá. Despencaria na Freguesia, acharia o rumo da Taquara e, pelos labirintos aprendidos com o diácono Gerson, que palmilhava cada recanto de Jacarepaguá, eu alcançava a Rua Arália 145.

    Às vezes chovia, como dizia meu pai, torrencialmente. Eu embicava o carro para entrar no terreno, naquela época menor do que o atual, que ocupa toda a esquina, e quem eu via ali, debaixo de um guarda-chuva, primeiro que todos, por ônibus, vindo ali de onde residia, na Vila das Torres, em Magno: Manoel Marques.

   Dali a instantes chegava Emilzair, que trazia pelos braços Rafael, o caçula, ao colo, e Roberto, com uma sombrinha maior do que ele. Ela vinha também com as chaves. A gente entrava, a chuva continuava, torrencial, cantávamos, orávamos, estudávamos a Bíblia.

    Roberto dormia recostado ao colo da mãe, Rafael nesse mesmo colo. Era muito divertido, e aqui o sorriso engraçado de Manoel Marques, quando ouvia Emilzair dizer que, por causa de somente a zeladora, com a chave, o pastor, por obrigação, e o Manoel Marques, por tudo o mais, amor e prontidão, era melhor fechar essa congregação.

   Valia o sorriso de Manoel Marqeus. E o que Emilzair dizia, não quer dizer o que parece. Mulher virtuosa, de senso prático, fé inabalável e operosa. Mas era analítica.

    Porém essas suas palavras foram mais estímulo, tão certo e garantido que, hoje, está lá a igreja que, de um lote espremido, hoje tem toda a esquina ocupada e um templo ampliado construído.

    Manoel Marques contou-me sua conversão, já adulto e depois de casado, assim como o modo como orava, continuamente, pela conversão de todos os filhos e filhas. Descrevia sua vida na juventude, na zona rural onde vivia, suas valentias e a educação recebida dos pais.

    Era valentão de esnobar os rapazes da época, no lugar. Disse que punha na mão deles um porrete, deitava no chão e mandava bater, mas bater mesmo. Antes que conseguissem, já estava de pé, já havia tomado o porrete e já intimidava o agressor.

   Contou também que, nos bailes da roça, ele se alinhava com os paletós de linho da moda, com aquelas golas enormes. Ele disse que, por detrás da gola estilosa, escondia seu punhal. Mas não escondia que seu desejo era, nas brigas ocasionais que sempre havia, poder usar sua arma branca para sangrar alguém.

    Mas Manoel Marques reconheceu sempre, nessas conversas, que a providência de Deus, já nessa época, dele cuidava. E sua obediência foi fundamental. Ele contava que, embora nada soubesse do evangelho, a instrução de seu pai, como a Bíblia sempre recomenda, ele nunca esqueceu.

    O pai, disse ele, um dia o chamou e instruiu sobre três lições que ele nunca esqueceu e nunca deixou de praticar. Segundo ele, o pai o ensinou, dizendo:

    "Meu filho, sempre trabalhe com honestidade, construindo tudo por seu próprio esforço. Mantenha-se afastado da bebida, nunca prove e nunca dependa do seu vício. E quanto a mulheres, tenha sempre somente a sua, sempre respeite a filha dos outros".

   Manoel Marques nunca esqueceu e nunca deixou de praticar essas três lições. Conversando comigo no ônibus Taquara-Cascadura, ele disse:

    "Pastor, hoje reconheço como Deus me guardou na juventude, protegido do meu gênio de valentão. Nunca houve brigas nos bailes que frequentei". E dava seu sorriso celestial, lembrando como se irritava, ainda como não crente, quando sabia que, exatamente no baile que faltou, o pau havia comido.

    E ainda quando jovem, e mesmo depois de casado, sendo assediado por mulheres que gratuitamente o provocaram, sempre fugiu de relações fortuitas. E nunca provou bebida alcoólica, ainda e mesmo antes da conversão, assim como sempre praticou trabalho honesto.

   Sua luta com a quantidade grande de filhos foi dura e difícil, mas sempre leal e honesta. Manoel Marques era assíduo leitor da Bíblia. Um dos fatos mais sofridos que passamos juntos foi a perda de um dos seus filhos.

   Esses dois, Jair e Jadir, e mais a irmã Juremir, eu conheci em Cascadura desde que lá cheguei, em 1966. Certa vez, ele me chamou para conversar com Jair. Estava já adulto, mas seus pais avaliavam que não deveria estar próximo às companhias que escolhia.

   Lembro ter conversado com ele, na Vila das Torres, provavelmente num domingo à tarde, reforçando o que seus pais já o orientavam fazer. Jair me tratou respeitosamente, o seu sorriso em muito lembrava o de seu pai, de poucas palavras, concordou com tudo e foi convidado a retornar à igreja, onde já havia estado, conhecendo todos os benefícios.

    Foi a última em vez que nos vimos. Porque numa noite, eu chegava no Meier, vindo da UERJ. O telefone tocou, era d. Maria, sua mãe, dando notícia que o corpo de Jair jazia na Estda. do Portela, em Madureira.

   Manhã muito cedo cheguei à cada do irmão Manoel Marques, na Vila das Torres. Eu o encontrei de Bíblia aberta, no texto:

     "Honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor , teu Deus, te dá." Êxodo 20:12.

   E ele, então, eu ainda de pé, à porta de sua casa, ouvi-o dizer: "Pastor, Jair ouviu pai e mãe? Ele ouviu o irmão? Se ele não honrou pai e mãe, seus dias na terra não se prolongaram".

   Reconheci essa aplicação clara e direta do texto, feita pelo Pai, de coração cortado, na manhã do dia do sepultamento de seu filho. Indo ao velório, usei esse mesmo texto, soando como exortação e advertência, que a palavra de Deus se cumpre, ainda que doa, quando não atendida.

   Exemplos de orações pelos filhos, atendidas, como no caso da cura de José Batista e no trato amoroso, com Joel, a quem o Pai atribuía aquele temperamento que um dia teve, assim procedia com relação a todos, filhos e filhas. Ele sempre testemunhava a reposta favorável de Deus.

   Manoel Marques não era exibido, orgulhoso, esnobe. Homem simples, de palavra sábia, íntimo de Deus, modelo em sua família, em seu bairro, trabalho, nas igrejas por onde passou: Magno, Cascadura e Curicica.

   Como é precioso, como pastor, deparar ovelhas como essas, que tanto nos ensinam. Elas que nos são modelo. Referenciais na igreja. Igreja, como Jesus idealiza e efetiva, é um local rico em se constatar a obra de Deus realizada na vida de cada um de nós.  

Galeria Heróis da Fé

Da esquerda à direita: Paulo César, atrás, Dagoberto, Manoel Marques, Ricardo, o mais alto, e Jorge Trugilho, este membro em Curicica, como M. Marqeus.

   Falar da gente dessa geração é lembrar igreja. Com ela vamos lidar pra toda a vida. E depois, ainda, desta vida. Pois igreja somos nós, noiva de Cristo. O céu nos espera para as bodas, uma festa que nunca mais vai terminar.

   Neste texto quero falar de Manoel Marques. Eu que pensei que não tinha nenhuma foto dele. Mas seu rosto aparece ao lado de Dagoberto, na foto do texto anterior.

   Menciono minhas experiências com ele. Assim como falei de tantos outros. A gente, que é pastor, automaticamente, para usar este termo, traça um perfil de cada ovelha. Como já mencionado no texto anterior, virtudes e defeitos.

   Mas não pensem que pastores são imunes a defeitos. Aliás, em minha tentativa de fuga, coloquei-os, diante de Deus, como desculpa (esfarrapada) e argumento. Não deu certo.

    Então encarei. Minha ordenação foi solicitada numa das assembleias de Cascadura, a pedido do Presb. Jeconias. A ordenação (há um texto nesse blog sobre ela, link no final) deu-se em 2 de janeiro de 1983 e o primeiro pastorado foi indicação da igreja para a Congregação de Curicica.

Cascadura, como nos anos 60. Provavelmente a senhora seja d. Ana Jardim, mãe dos pastores Amaury e Henrique Jardim.

   Lembro do convite, que foi confirmado pelos irmãos da congregação. A vontade de fugir persistia. Certa vez, sentado no coro, em Cascadura (que ficava por detrás do púlpito), final de culto, avistei o na época diácono Gerson e seu inseparável amigo Valdemir entrando pelo portão.

Aspecto atual do templo, desativado e vendido.

   Vinham cobrar de mim uma resposta ao convite feito, lá em Curicica, no domingo anterior. E comecei lá com eles. Manoel Marques, residente e membro na congregação da Vila das Torres, em Magno, coladinha em Madureira, foi benção por onde passou.

Novo local da igreja, com outro nome. Nesse terreno, em 1972, iniciaram-se as reuniões do Clube Bíblico, posterimente em Bento Ribeiro.

   Família linda e numerosa. Eu acho que são 10 filhos. Ele e sua esposa Maria eram firmes na congregação de Magno, firmes em Cascadura, assim como em Curicica. Um casal de um sorriso celestial, os dois. Ele me contava trechos de sua vida e experiência com o evangelho.

Templo atual da Congregacional de Curicica, agora denominada Congregacional de Jacarepaguá

    Veio da zona rural do Estado para a capital, deixando a vida de agricultor, pela de operário fabril, e residia na Vila das Torres. Esse nome era por causa das linhas de transmissão da Light, que percorriam bairros sucessivos.

   Podiam ser avistadas desde lá da Rua João Romeiro, encostada ao morro do Fubá, onde começava uma horta imensa, que acompanhava o percurso das torres, com suas linhas de transmissão, por ser proibido construir casa por debaixo dessa rede de energia.

Vila das Torres sendo demolida para a construção do Parque de Madureira. Reportagem no link:

    Próximo à estação de Magno, acompanhando a linha férrea, de um lado, e o percurso dessa horta, que ia até os lados de Turiaçu, havia um alinhamento de casas, alguns sobrados, onde residiam Milton e Edinalva, Manoel Marques e Maria e o casal Possidônio e Rita.

Horta que acompanhava o percurso das torres de transmissão. Começava na João Romeiro, próximo ao Morro do Fubá, até os lados de Turiaçu.

   Pois o quilate de fé desses irmãos merece um texto à parte. E vamos detalhar o que a memória nos permitir, certos do eco que vamos reverberar na memória de tantos outros aqui que compartilharam a comunhão com esses irmãos. 

    Benção de ser igreja. Então aguardem. E no link abaixo, leia sobre a história da estação de Magno.


Sobre ordenação:

sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

Porta do céu


  Na verdade, gente, eu queria uma foto do Dagoberto. Como sempre, compartilhar o que essa gente nos traz como recordação. E ficamos à vontade, porque é igreja. E nela, quem faz a escolha não somos nós, mas é o Pastor.

   Esse, com "P", a quem Pedro denomina "Pastor e Bispo de nossa alma", é Jesus. E como foi essa foto que achei (ele com paletó claro e gravata amorenada), resolvi recordarmos juntos todos esses rostos que aí estão. 

    Faltam muitos na foto. Mas esses bastam para que a gente, de novo, enquanto espera o céu, o dia do grande encontro, reviva essa fase tão boa de nossa vida. Creio que há marcadas, em comum, na vivência das experiências, muitas lições decorrentes dessa fase.

  Dagoberto, pelo pouco de que conheço, e que muito mais, com ele, desejaria conversar, converteu-se com o Rev. Porto Filho, em Campo Grande. Seu batismo custou um pouco, segundo um dia me contou, por seu apego ao cigarro.

   Ainda que já novo convertido, lutava contra essa dependência. Mas a paciência do pastor dele nessa época, muito ajudou. Porto Filho não o pressionava e, pelo modo típico de lidar com suas ovelhas, conquistou Dagoberto.

   Mas rápido do que ele pensava, venceu esse vício. Certa vez, também me confidenciou problemas sérios que enfrentou em seu primeiro matrimônio. Porém superou, com o vigor da fé de um agora novo convertido.

  Dagoberto era um bom de bola. Pastor Henrique Jardim, na época ainda presbítero, fosse no CEFAP, em Sulacap, ou no Quartel dos Bombeiros, no Campinho, patrocinava as famosas peladas de futebol de salão.

  Ele era o símbolo da tranquilidade e da conciliação. Seu estilo era bem característico. Pode-se dizer que não era um super craque, mas era inteligente e criativo, sempre com jogadas muito bem trabalhadas.

   Esse mesmo estilo manso, fala macia, jeito amável, um conselheiro de todo o momento, ele demonstrava em sua vida na igreja. Nunca faltava. Caso não fosse visto, ora, podem procurar saber, doença na certa.

   Visitador, amigo, companheiro inseparável do diácono, hoje presbítero Isaías. Aliás, Dagoberto colava com todos. Pedro Régis e Azarias também foram outros dois com quem visitava faltosos, evangelizava pelas ruas, enfim, dava a assistência que fosse requerida.

   De pouca fala, quase que pedindo licença para interfeir, não era de ser ouvido nas assembleias de membros. Mas caso se fizesse necessário, sua voz seria sempre de pacificação. Aliás, esse era um em quem as bem-aventuranças estavam patentes. 

   Quantas vezes compartilhou comigo sua opinião. Fui pastor dele no tempo em que estive nesse encargo em Cascadura, entre 1983 e 1994. Mas o conhecia desde que lá cheguei, em 1966. Fazia gosto ouvir suas sábias intervenções ao meu pé de ouvido.

   Dagoberto era sábio. Tenho certeza de que este texto pode ser muito mais longo, se cada um que o conheceu expuser aqui o bem que seu conselho, ponderação e presença próxima beneficiaram.

   Magno, antiga congregação dos anos 60, e Curicica, já dos anos 70 e 80, contaram com sua ajuda. Os obreiros que por ali passaram podiam contar com o apoio dele. Aliás, ao seu lado, nessa foto, aparece o rosto de outro herói de fé desses anos.

   Manoel Marques (rosto à direita de Dagoberto) esteio forte tanto em Magno, quanto em Curicica. E nessa foto aparece Ricardo (rosto acima de Manoel Marques), irmão de Heloísa, esposa de Roberto, pais de Roberta, amigo meu de infância, no Meier, convertidos e batizados em Cascadura.

   Meus sogro e sogra, que o foram a partir de janeiro de 1993, quando casei com Regina, vindo para o Acre em janeiro de 1995, onde até hoje estamos. 
  
   Minha mãe aparece no cantinho, à esquerda (coladinha a Renata). O hoje pastor (e avô) Eneas (erguendo a Bíblia), com sua irmã caçula, Renata, e Nathalie e seu pai (rosto à esquerda de Dagoberto) que, como outros nessa mesma foto, agora contando com Dagoberto, já estão com Jesus.

   A igreja continua. Ela não tem fim. Juntos todos estaremos um dia. Essa promessa tem a garantia de Jesus. E os traços que aqui, pelo poder do evangelho, marcaram e marcam nossa vida, não vão desaparecer.

   Nosso irmão e amigo vamos encontrar, com esse mesmo jeito manso, cuidadoso em mencionar qualquer assunto, ponderado e sábio em suas abordagens. 

   Havia um salãozinho, lembram, onde ficava aquele cofre enorme, blindado, do qual somente o irmão diácono Isaías, o eterno tesoureiro, e seu regra-dois, Heraldo (também na foto), sabiam o segredo.

   Mais acima, na parede de fundo, havia uma Galeria de Heróis da Fé. Um rosto feminino, de cujo nome não me lembro (acho que era Maria, avó de Marisa, bem na extrema direita da foto, com sua filha ao centro), o esposo de d. Maria Melo, ora, lembrem o nome, por favor, e outra coluna de Magno, este o diácono Guedes.

   Sim. Falta muita gente nessa galeria. Heróis e heroicas mulheres de fé. Gente como a gente. Virtudes e defeitos. Mas alvos do amor de Jesus, escolhidos  que fomos por ele. 

   Lindas marcas. Doce saudade. Saudade do céu. Como disse Jacó, certa vez, porta do céu. A essa porta comparo nossa igreja. Aliás, todas elas. Glória ao Autor de nossa fé.

    Veja no link abaixo um hino que fala de amizade e desse encontro que aguardamos. O autor é de uma geração um pouco à frente de Dagoberto, mas dessa mesma igreja, contexto e pastor que nos legou esse tão precioso irmão.



quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Mania de Maria

   "Respondeu-lhe o Senhor: Marta! Marta! Andas inquieta e te preocupas com muitas coisas. Entretanto, pouco é necessário ou mesmo uma só coisa; Maria, pois, escolheu a boa parte, e esta não lhe será tirada." Lucas 10:41,42.

   Texto clássico, deveras citado para enfatizar o essencial. A crítica à Marta não era porque não se deve ter nenhuma preocupação com os demais afazeres.

   Principalmente os domésticos, tão necessários e tão apreciados, marca positiva de hospitalidade. Mas também é provável que Jesus, como sempre, pretendia ir além com essa exortação a Marta.

   O "preocupada com muitas coisas" ali talvez incluísse outras que Jesus conhecia, ele sempre conhece, e quis aproveitar a chance de ampliar os efeitos de sua palavra, típico dele.

   Provavelmente a ansiedade, tão corriqueira e tão destrutiva, sobre a qual num outro texto, desta vez no chamado Sermão do Monte, sobre os efeitos dela discorreu. Paulo exagera, afirmando que não devemos estar ansiosos de coisa alguma. Dificílimo.

    Mas voltando a Maria, o que mesmo, especificamente, ela escolheu? Jesus chamou de "a melhor parte". E ela correspondia ao que o texto, pouco antes do trecho acima citado, indica, referindo-se a Marta:

   "Tinha ela uma irmã, chamada Maria, e esta quedava-se assentada aos pés do Senhor a ouvir-lhe os ensinamentos." Lucas 10:39. Mania de Maria. A questão é se hoje, quando e como ainda é possível fazer como Maria.

   Jesus tinha, melhor, tem, porque, com relação a Ele, não dá para usar o verbo no pretérito. Tem mania por ensinar. A gente pode até lembrar uma característica antiga das crianças, o gosto por histórias.

   Mas histórias contatadas por adultos, sim, até mesmo por outras crianças, pré ou adolescentes, mas criança gosta de conversa. Muito embora os adultos atuais têm posto smartphones nas mãos delas.

   Também, quem ou quais adultos ensinam coisas de Jesus a elas? O quais adultos têm hoje a mania de Maria? A preferência de Maria. Perguntaríamos, portanto, se hoje ainda é possível ouvir Jesus.

   Ou se chega límpida a nós a voz dele. Com que ruídos ela chega? Ruído, em linguística, é o que atrapalha ouvir, o que distorce a mensagem.

    Talvez seja o Espírito, prometido por Jesus, numa de suas conversas, quem cuide por manter límpido o canal por onde flui qualquer mensagem, neste caso específico, a de Jesus.

   Uma das coisas simples e essenciais é ouvir, atentamente, os ensinos de Jesus. É a melhor parte. Mania de Maria. Não lhe será tirada.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

Alto e nítido

  "Eu sei, respondeu a mulher, que há de vir o Messias, chamado Cristo; quando ele vier, nos anunciará todas as coisas. Disse-lhe Jesus: Eu o sou, eu que falo contigo." João 4:25,26.

   "Eu sei", falou a samaritana, anônima na Bíblia. Pois bem, há quem não saiba, quem não quer nem saber e quem, simplesmente, nem acredita nisso.

   Mas ela sabia que o Messias (hebraico), chamado Cristo (grego) havia de vir. Mal, quer dizer, bem sabia que estava diante dele. Jesus disse a ela: "Eu o sou, eu que falo contigo".

   Nessa altura, após anos, quem sabe, séculos de tradição, a primeira pergunta besta que se faz é se podemos acreditar na literalidade desse diálogo. Eu acredito.

   A segunda pergunta, para ficar só nesta, é se ainda hoje podemos ouvir de Jesus essa mesma afirmativa, ou seja: "Eu o sou, eu que falo contigo".

   Haveria de ser muito místico quem respondesse afirmativamente. Opcional colocar aqui uma interrogação. Porque, talvez, cara a cara, como foi com essa mulher, a resposta é não.

   Mas ouvir Jesus falando hoje, não cara a cara, mas com a mesma precisão, seria possível? Com interrogação. Ora, em nome dessa posse da fala de Jesus muito, na história, já se fez, com toda a estupidez.

   A Igreja, ao longo dos séculos, quis ser dona dessa fala, quis ter a posse dessa palavra. Foi um erro histórico. Em nome da ortodoxia, muito desatino já se cometeu, aliás, ainda se comete.

    Ouvir Jesus e ouvir interpretações sobre Jesus. O primeiro erro é a usurpação da palavra. Alguém achar-se iluminado, revelado ou individualizado no acolhimento da palavra.

   A própria samaritana compartilhou o que ouviu e a autenticidade do que disse foi atestada pelos que ouviram e creram: "Vinde comigo e vede um homem que me disse tudo quanto tenho feito. Será este, porventura, o Cristo?!". João 4:29.

   E os seus companheiros atestaram: "Muitos outros creram nele, por causa da sua palavra, e diziam à mulher: Já agora não é pelo que disseste que nós cremos; mas porque nós mesmos temos ouvido e sabemos que este é verdadeiramente o Salvador do mundo." João 4:41,42.

   Mediadores aqui são João, o autor do evangelho, a samaritana e seus conterrâneos. Assim chegam a nós as palavras de Jesus. Logo no começo da vida da igreja, Lucas, outra testemunha autoral, afirma: "E perseveravam na doutrina dos apóstolos". Atos 2:42.

   Sim, a palavra de Jesus, que veio por sua boca, chega a nós por meio de pessoas como nós, que viveram na época dele, conterrâneos, mas também estranhos, depois gentes de todas as nações, mas todos testemunhas.

   Caso você não acredite em gente como você, porém, diferentemente, testemunha, não tem como ouvir de Jesus "Eu o sou, eu que falo contigo". Ele chamou de igreja, ekklesia, congregação, grei, grupo essa reunião dos que nele creem.

   Podem se reunir nas varandas do templo de Jerusalém, nas areias do Mar de Tiberíades, no jardim das oliveiras. Ou em casas, como com os Kalley, até em túmulos subterrâneos, como na Roma antiga, ou na beira do igarapé, com o casal Rosa, no Acre, em 1984.

   Mas terão ouvido a voz de Jesus. Seguem ouvindo a voz de Jesus. Aloud, como se diz no inglês. Alto e nítido, como se diz no português.

domingo, 4 de dezembro de 2022

O simples ou, mais ou menos, o que fazer do evangelho.

   "Vem e segue-me". Ouvida essa frase curta e basilar do evangelho, a gente talvez sentisse dificuldade para entender e explicar.

  Seguir Jesus. Mas o que hoje se fez desse personagem? Dizer que ele mudou a história, definiu o calendário e foi exemplo de vida, soa dispersivo e superficial.

   Compreender o que significa segui-lo, é essencial. Simples assim. Pois foi tal simplicidade e profundidade a grande perda do que significa seguir Jesus.

   O que fizemos do evangelho? Jesus veio dizendo ser uma boa nova, o sentido desse vocábulo. O sentido dessa mensagem. Que mais tem a dizer?

   Em que sentido segui-lo? Afirmou ser o caminho, a verdade e a vida. Caminho representa as escolhas da vida. Verdade está ligada ao caráter cultivado.

    E vida significa a plenitude do que a existência representa. Seguir Jesus, caso se deseje tomar como pista somente essa afirmação dele, tem, pelo menos, essas implicações.

   Portanto, seguir esse homem é estar atento ao que ele diz. Sim, porque acima de apenas garimpar as palavras ditas por ele, registradas nas Escrituras, é possível e necessário ouvi-lo hoje.

   Porque o ponto sensível de sua história é crer em sua ressurreição e que hoje ele fala. Caso não se acredite em sua ressurreição, de nada adianta buscar suas palavras.

   Porque reside no poder de sua ressurreição a capacidade de se lhe ouvir o que diz. Dar crédito, acolher e praticar. Seguir Jesus é acolher para si sua palavra.

   Mais ainda. Ter comunhão com ele. Há no poder da ressurreição dentre os mortos, esse mesmo poder que opera naquele que crê, a capacidade de se manter comunhão com Jesus.

   E para ser assim, ele ensinou que não é preciso tanto, mas o simples é essencial. A Marta, com a agitação típica de mulher, ele disse:

"Respondeu-lhe o Senhor: Marta! Marta! Andas inquieta e te preocupas com muitas coisas. Entretanto, pouco é necessário ou mesmo uma só coisa; Maria, pois, escolheu a boa parte, e esta não lhe será tirada." Lucas 10:41,42.

   Ao pai, em oração, certa vez destacou que não são a sábios e super entendidos que Deus revela seu simples:

"Por aquele tempo, exclamou Jesus: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos." Mateus 11:25.

   E para escândalo da mentalidade judaica de seu tempo, se já havia enaltecido as mulheres em várias ocasiões, desta vez expôs uma criança como modelo:

"E Jesus, chamando uma criança, colocou-a no meio deles. E disse: Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus." Mateus 18:2,3.

   Difícil aprender com as crianças. Não entendemos o que é ser adulto, de modo pleno e completo. Manter a mesma curiosidade delas. Ser pronto em obedecer, aprendendo a depender dessa obediência.

  E uma vez flagrados no erro, admitir, chorar por ele e pedir perdão. Entre outras qualidade que, nelas, são espontâneas: sinceridade, companheirismo, facilidade de solucionar conflitos e disposição para aprender todo o tempo.

   Jesus foi um menino curioso pela Bíblia de seu tempo, como foram os crentes de Bereia. Hebreus diz que ele aprendeu a obedecer, ainda que seja sofrido. Também afirma Hebreus que em tudo, como nós, foi tentando, vencedor em todas as vezes.

   E como afirma Isaías, o mais experimentado em dores, o que sabe o que é parecer, e, desprezado pelos homens, intercedeu por todos eles. Um homem que era e ainda é o inverso da mídia.

   Tenhamos cuidado para não ficar com ela e rejeitar ele. Tenhamos cuidado para não aderir a ela e rejeitá-lo:

"Porque foi subindo como renovo perante ele e como raiz de uma terra seca; não tinha aparência nem formosura; olhamo-lo, mas nenhuma beleza havia que nos agradasse. Era desprezado e o mais rejeitado entre os homens; homem de dores e que sabe o que é padecer; e, como um de quem os homens escondem o rosto, era desprezado, e dele não fizemos caso." Isaías 53:2,3.

  Mas ele: 1. Tomou sobre Si as nossas enfermidades, ou seja, todo o pecado; 2. Foi traspassado, física, psicológica e espiritualmente, pelas nossas transgressões; 3. Assumiu sobre ele o castigo que nos traz a paz; 4. Foi pisado, para sermos sarados; 5. A gente se desviava no caminho, mas somos agora reunidos porque o peso da iniquidade, nossa antiga personalidade, está sobre Ele.

   6. Oprimido, humilhado, mudo, perante seus torturadores, não reclamou de todo o sofrimento em nosso lugar. Você crê nisso? 7. Foi violentamente cortado da terra pelo rotineiro juízo opressor, prática corriqueira entre os homens; 8. Ferido por minha e tua transgressão; 9. Sem injustiça ou dolo em toda a sua vida, como se fosse um perverso, foi designado à sepultura, embora acolhido por José de Arimateia.

   10. A Deus tudo isso agradou. Jesus é o único sacrifício agradável a Deus. A nossa entrega a Deus, como sacrifício vivo, por meio de Jesus, de modo racional, como diz Paulo, mais do que somente, e enganosamente, emotivo, é que nos permite atentar com o simples, mas essencial, de Deus.