segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Vida e experiência de Jó - 2

     Sabedorias, teologias, porém uma única intimidade 

     Na discussão entre Jó e seus amigos divisamos essas duas, no plural e, a terceira, somente uma, fala franca e atrevida, dirigida  a um parceiro de caminhada, como a um velho conhecido. 

     A sabedoria de Jó, destacada e enfatizada na Bíblia, é a que, no início de sua jornada com Deus, o rei Salomão pediu em oração, praticou e registrou por escrito, antes que ele dela se apartasse em sua velhice. 
    A outra de que falam de modo genérico e em terceira pessoa, do mesmo modo que a anterior, é a teologia que os amigos de Jó demonstram e nela são scholars, mas falam como algo distante da real definição, função e prática teológica. 
    Já a teologia de Jó é resultado de sua vivência. Não que somente fosse dela um curioso diletante, mesmo porque nivela-se com os amigos, em competência, até mesmo acima deles, mas porque a sabedoria que demonstra, assim como a teologia que pratica e confessa tem raízes em Deus. 
     A pergunta é se é possível uma teologia em 3a pessoa, ou seja, falar-se a respeito de Deus, porém com relação nula com Ele ou, ainda que fosse, uma relação rala com Deus. 
     Não é possível afirmar que os amigos de Jó sejam desprovidos de fé ou crentes inautênticos, ou mesmo diminuir-lhes o grau de instrução, preparo e experiência. 
     Mas acentua-se a distância entre eles e Jó. Se podem, os quatro, ser comparados em grau de instrução, retórica e conhecimento, em termos de vivência com Deus, confrontados com Jó, os três se distanciam. 
     A intimidade entre Deus e Jó é notável e demarca a distinção entre a sabedoria e teologia dele, em relação às de seus amigos. Com segurança, a partir dos discursos de Jó, podem-se desenvolver tópicos seguros de teologia.
     Mas na fala dos amigos, é necessário todo um cuidado de garimpo, para não se colher pedrinhas em lugar de pepitas. A sabedoria e teologia de Jó são práticas e vivenciais, resultado de uma íntima comunhão, de uma história que não se constrói artificialmente, nem de uma hora para a outra.
     Já a teologia dos amigos é construída a partir de intuições e a sabedoria é suposição ao nível da notabilidade argumentativa dos amigos: trazem tudo fabricado, a partir de pressupostos pré-estabelecidos.
     Como dizia meu velho pai, já na glória, esta uma expressão da geração dele, sabedoria e teologia sem nenhum sentido prático, porém especulativas. Sem contar a tecla desafinada que, vez por outra, insistem em teclar de novo, na insistência de um suposto motivo oculto, na vida de Jó, que justificasse toda a calamidade.
     Para eles o sofrimento existe como punição, e não como corolário do pecado. Enquanto isso, ouvidos os discursos, réplicas e reclamações de Jó, escandalizam-se, sem razão, como testemunhas de tamanha intimidade. 
     Definitivamente são, pelo menos, duas teologias, dois tipos de sabedoria, porém uma só intimidade. Antes mesmo da afirmação final, já está claro que Jó conhece a Deus não somente por ouvir falar. 

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Vida e experiência de Jó

 Suposições 

   O adversário de Jó esperava que a fraqueza dele fosse supor o vazio existencial passível de, por essa abertura, penetrar e devastar a vida do patriarca.
    O que satanás nunca supõe é o grau de intimidade que existia entre Deus e Jó. Entre Deus e o homem ou mulher a quem Deus ama. Sobre o amor, satanás nada supõe. 
     Nesse caso, é às escuras que propõe caso Jó perca, desista de Deus, supondo que a esposa vá acertar no palpite dela, que vai amaldiçoar a Deus e morrer.
    Há uma hierarquia nos bens de Jó e seu inimigo sabe disso. Mesmo com o Altíssimo o apresentando como íntegro, reto, temente a Deus e que errasse o mal, satanás aposta consigo mesmo. 
     Deus conhece Jó. Jó conhece Deus. A sucessão de perdas o abala, perda maior, certamente, foram os filhos, tudo o mais desaba, com a perda dos bens materiais e tudo junto, seu círculo social, pessoal a seu serviço e posses. 
     Até que também desabam sobre ele as dores físicas que, junto com as emocionais, avassalam o homem. Sua fantasia é supor que nunca nacesse, como se pudesse imaginar o não sofrimento. 
    Resolve amaldiçoar uma hipótese. Magistral saída. Nem que, ainda que Deus sondasse seu coração, como a todos faz, encontrou algum traço da sugestão de sua esposa. 
     Nem de leve amaldiçoa a Deus. Mesmo quando os argumentos dos amigos começam a pesar contra ele, e levantam a suposição que vem, de Deus, toda essa punição, por um suposto pecado que Jó, abrigando escondido, nem assim, nunca Jó acusou Deus de ser sentencioso.
     Uma brecha na vida de Jó procurada por satanás. Sabe que temos brechas, falhas, carnalidades. Mas algo que nunca supõe é o grau de intimidade com Deus. 
    Nada entende de amor, da rapidez com que Deus e seus(as) amigos(as) dialogam e nada entende de conhecimento de Deus. Talvez conheça Deus só de ouvir falar. Perdeu, ele sim, a chance da intimidade. Jogou fora. Perdeu para si mesmo.
     Porque não sabe, apenas supõe, o grau com que Deus se revela. Nada sabe disso. Nunca desejou saber. Ainda que se insinue, perde, por ser Deus, sempre, o primeiro a vencer e a ensinar a vencer o mal com o bem. 

terça-feira, 10 de novembro de 2020

Cena comum

    Lucas diz que pastores cuidavam de seu rebanho nos campos, quando uma miríade de anjos advertiram de que o menino havia nascido.

    Um deve ter dito ao outro, cuida, vamos lá. O amigo deve ter respondido, mas com quem deixar as ovelhas? Sim, muito provavelmente eram pastores muito responsáveis. 

    Outros não estariam assim tão ligados e tão na expectativa, que merecessem um anúncio assim tão específico.

    Acharam com quem ficassem as ovelhas. E foi gente de confiança, com certeza. Recomendaram que ficassem atentos. Não dormissem.
  
    Com  certeza, o descampado onde estivessem já havia sido escolha estratégica. Quem sabe, somente raposas fossem assim tão ousadas. 

     Que cantassem, como Davi, salmos ao Senhor. Descansaria as ovelhas, advertiria as raposas. Muito provavelmente nem ursos ou leões, numa Judeia já tão assim urbanizada, estariam por perto.

     Outro pastor deve ter dito vão, que fico por aqui. Mas os primeiros disseram não, o recado foi para nós todos. Mas só disseram que vamos encontrar um menino enrolado em panos, deitado num cocho rústico. 

      Cena por demais comum. Tantas, inúmeras, incontáveis cenas chocantes existem por todo o mundo e em todas as épocas. Não se conhecem todas elas. 

     Mas o seu requinte de crueldade representa as ausentes ou desconhecidas. Sem contar suas repetições. Por que uma cena tão comum, de um menino nascido, enrolado em panos e deitado num cocho rústico sobrepuja a todas as outras cenas?

      Quem é esse menino? Que expectativas se têm posto nesse seu nascimento comum? Em que comum, em que distinto?

     Deixaram o rebanho, convencidos que estavam, de que deveriam seguir esse instinto, ainda por cima que foram advertidos por anjos. Onde está toda a ilusão dessa história?

     Na aparição de anjos que falam e indicam um dado rumo? No lugar comum da cena do menino enrolado em panos e deitado no cocho rústico? Ou foi lenda o que os pastores contaram, desde sempre, e ainda depois quando espalharam o acontecido?

     A gente espera que essa cena feliz, da mulher com seu marido acolhida numa erma hospedaria, que dá à luz um menino enrolado em panos e deitado num cocho rústico se sobreponha a todas as demais cenas tristes de toda a história, que já foram vistas, que estão sendo e ainda serão. 

      Muita expectativa se põe sobre a vida desse menino. 
    

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

Deus e o dilema do amor

   Oseias é o profeta que retrata bem isso. Deus indica que se case com uma mulher infiel. Para que ele sinta, do mesmo modo que Deus sentia, a infidelidade de quem era alvo de seu amor.

     E no caso os infiéis somos nós. Essa ideia de que são eles, no caso, não existem eles: infiéis somos todos nós e também alvo do amor de Deus. 
    O dilema do amor é amar, entre infiéis que reconhecem sua condição, aceitando o amor de Deus, e infiéis que perduram em sua condição e rejeitam o amor.
    A profecia de Oseias mostra como é a reação de Deus diante desse dilema. Começa com os nomes dos filhos do profeta: Jesreel, Lo-ruama e Lo-ami. 
    Cada um, pelo nome recebido, carregava sinais de infidelidade. O sangue do vale de Jesreel, onde morreram pela espada de Jeú os filhos de Acabe, e "Desfavorecida" e "Não meu povo". A identidade dos filhos representava a distorção da identidade do povo. 
     Chamados a ser o povo de Deus, sacerdotes entre as nações, na antiguidade, Deus se empenhava por lhes devolver a identidade perdida. 
     Deus dedicou-se a resgatar seu povo do Egito. No deserto, falava-lhe ao coração. Se por um lado Números mostra as "estações da rebeldia", Oseias chama de namoro esse período. 
    Deus não pode deixar de denunciar as particularidades da infidelidade, mas sua história de amor com o povo perdura e se configura Seu esforço para que prevaleça o amor sobre o pecado. 
    "Irei e voltarei para o meu lugar, até que se reconheçam culpados e busquem a minha face; estando eles angustiados, cedo me buscarão, dizendo: Vinde, e tornemos para o Senhor, porque ele nos despedaçou e nos sarará; fez a ferida e a ligará. Depois de dois dias, nos revigorará; ao terceiro dia, nos levantará, e viveremos diante dele. Conheçamos e prossigamos em conhecer ao Senhor; como a alva, a sua vinda é certa; e ele descerá sobre nós como a chuva, como chuva serôdia que rega a terra".
      Deus espera a conversão. Ela chama à conversão. Conhecer o Senhor é privar de Sua comunhão. É Deus que atrai com cordas de amor. "Quando Israel era menino, eu o amei; e do Egito chamei o meu filho. Quanto mais eu os chamava, tanto mais se iam da minha presença; sacrificavam a baalins e queimavam incenso às imagens de escultura. Todavia, eu ensinei a andar a Efraim; tomei-os nos meus braços, mas não atinaram que eu os curava. Atraí-os com cordas humanas, com laços de amor; fui para eles como quem alivia o jugo de sobre as suas queixadas e me inclinei para dar-lhes de comer".
     Em Seu dilema Deus renega a condição humana, indicando que não se pode deixar dominar por sentimentos que O privem do seu amor: "Como te deixaria, ó Efraim? Como te entregaria, ó Israel? Como te faria como a Admá? Como fazer-te um Zeboim? Meu coração está comovido dentro de mim, as minhas compaixões, à uma, se acendem. Não executarei o furor da minha ira; não tornarei para destruir a Efraim, porque eu sou Deus e não homem, o Santo no meio de ti; não voltarei em ira".
      Vence e prevalece o amor de Deus.  "Volta, ó Israel, para o Senhor, teu Deus, porque, pelos teus pecados, estás caído. Tende convosco palavras de arrependimento e convertei-vos ao Senhor; dizei-lhe: Perdoa toda iniquidade, aceita o que é bom e, em vez de novilhos, os sacrifícios dos nossos lábios".
     Incondicional o amor. Mas não pode prescindir das palavras de arrependimento e da conversão. Oseias deixa claro a necessidade da maior e definitiva demonstração do amor de Deus,  que foi amar como homem, tendo se feito homem, na pessoa de Jesus Cristo para, definitivamente, salvar. 
     "Eu os remirei do poder do inferno e os resgatarei da morte; onde estão, ó morte, as tuas pragas? Onde está, ó inferno, a tua destruição? Meus olhos não veem em mim arrependimento algum".
     Somos chamados a deixar de lado nossa infidelidade. E quanto a Deus, não se arrepende de amar assim.

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

"Contudo, quando vier o Filho do Homem, achará, porventura, fé na terra?" Lucas 18:8.

      Propusemos à igreja a leitura dos Evangelhos nessa semana. Para as duas próximas, a leitura dos profetas menores, assim chamados.

    Cuidado: não são menores na importância e, talvez, nem no tamanho, embora sobre este não temos como saber. A Bíblia não lhes fornece a altura. 
    Mas no tamanho dos livros. Bem, embora Zacarias seja maior do que Daniel, com 14 capítulos, é assim mesmo chamado "menor".
     Os Evangelhos lidos nesta semana que passou, para quem conseguiu ou está em curso, são 89 capítulos, média de 12 a 13 por dia. Pesado, vamos dizer assim.
      Para os profetas, de Oseias a Malaquias, serão 67, o que nos dá de 9 a 10 por dia. Bem, o desafio está lançado. Eu ainda acho que faz diferença, muita diferença na vida do crente a leitura da Bíblia.
      Desejo mencionar um exemplo de leitura em nossa igreja, a nossa irmã Antônia, carinhosamente chamada Bebé. Há outros, certamente. Mas ela é flagrante, vista ao amanhecer no portão de casa, mergulhada sobre o Livro. 
     Se o próprio Jesus, no versículo acima, destacado por Lucas, perguntou-se se, na Sua vinda, encontraria fé na terra, é claro que se referia a nós. Porque fora da igreja não há fé, assim esperamos. 
     Ou dizendo de outra forma, esperamos que, principalmente, fé exista dentro dela e/ou na vida dos crentes que nela estão abrigados, como foi no Egito, na noite da primeira Páscoa, abrigados dentro da casa que tem a marca do sangue.
      Três coisas podem provocar a fé (ou a falta dela). Primeiro, a fé vem pelo ouvir a palavra de Deus, Romanos 10,17. Mais do que somente ouvir o sermão de domingo, emitindo nota de 1 a 10 sobre ele. 
     É fazer como os bereanos, de Atos 17,11, que provocaram em Lucas, tão cuidadoso nos seus comentários, um arrojo de preferência. Ouvir a palavra significa ler a palavra, conferindo tudo por ela.
      Segunda coisa é promover em si os efeitos da fé. Sim, porque pode-se ouvir a palavra de Deus, sem que venha acompanhada pela fé, não por ruído na comunicação, mas por causa de quem a ouve, veja em Hebreus 4,2.
      Neste versículo, o autor anônimo desse livro diz que, quem ouviu (ou leu), não creu e não exercitou, para isso, sua fé. Lembremos da parábola da semente, que aparece nos 3 evangelhos sinóticos, falando sobre 4 tipos de ouvintes. Vale ser o número 4. 
      Veja em Marcos 4,3-9; Lucas 8,4-8; ou Mateus 13,1-9. E, em terceiro lugar, não devemos fazer parte da geração que se estressou de ouvir a palavra de Deus, como ocorreu em Juízes 2,10-13. 
     Em sua vocação, Deus disse a Josué que meditasse em sua contínua leitura da Bíblia, cumprisse tudo nela escrito e somente então pregasse essa mesma palavra, veja Josué 1,7-8. Em seu "discurso de aposentadoria", Josué presta contas, como Samuel, poucas centenas de anos depois, recomendado ler e cumprir a palavra de Deus, veja em Josué 23,6.
     Chegou a ser interpelado, no trecho que está em 24,16-18, pelo que havia dito um pouco antes, em 24,15, quando supôs que aquela geração de seus conterrâneos abandonaria a palavra de Deus. Confira lá, como os de Bereia.
     Não sejamos a geração culpada pelo mau exemplo dado à seguinte de não lermos, com afinco e dedicação, a Bíblia. Nesse tempo de preguiça intelectual, em que poucos vão ler este texto, porque as imagens e vídeos da internet mais cativam a atenção do que o natural e benfazejo exercício da imaginação, ilustrada pela palavra de Deus. 
     Não sejamos como essa geração pós-Josué que decidiu dar seu mau exemplo, desconhecendo a palavra de Deus. Ativa em ignorar o testemunho que a precedeu. Se em Suas palavras Jesus supõe que, próximo à Sua vinda haverá um derrame de incredulidade entre nós, neste planeta, que nós mesmos não sejamos responsáveis por isso.
    Vamos dar aos nossos filhos exemplo de leitores da Bíblia, permitam-me dizer, como fizeram Cid e Dorcas para mim mesmo. Se li e leio menos do que deveria, ou faço menos do que deveria com o que leio ou já li, a culpa não foi deles dois.

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Conheçamos e prossigamos em conhecer o Senhor

"Vinde, e tornemos para o Senhor, porque ele nos despedaçou e nos sarará; fez a ferida e a ligará. Depois de dois dias, nos revigorará; ao terceiro dia, nos levantará, e viveremos diante dele. Conheçamos e prossigamos em conhecer ao Senhor; como a alva, a sua vinda é certa; e ele descerá sobre nós como a chuva, como chuva serôdia que rega a terra". Oséias 6:1-3

       Oseias é o profeta contemporâneo de Isaías, este pregando em Judá, reino do sul, capital Jerusalém, aquele pregando no reino do norte, capital  Samaria.
    Os dois falam do culto que Deus não aceita, por causa da vida dupla do povo, hipócrita no templo e francamente idólatra e imoral fora dele. 
    Oseias nos transmite um lamentável retrato do sacerdócio em Israel, também denominado Efraim,  em que a imoralidade do pai e filho sacerdotes, frequentando a mesma mulher, retratam o nível rasteiro dos levitas da sua época. 
     Por isso no texto acima o profeta faz o apelo ao arrependimento e ao tornar-se ao Senhor. Havia a ameaça da invasão assíria, que vai se cumprir em 722 a. C.
     Daí o profeta dizer que Deus permite que brote a ferida e o povo seja despedaçado, mas o essencial é o arrependimento e a conversão. 
     E o texto é oportunidade para que seja mencionada uma profecia messiânica, porque o símbolo maior da ferida, do fazer-se enfermar, como diz Isaias, no sul, é o que sofreu o "servo sofredor", em referência a Jesus. 
     O texto faz a conta de 2 + 1 dias, dois e três, uma alusão à ressureição de Jesus no terceiro dia. Cristo foi levantado ao terceiro dia e todos nós nEle. E Oseias propõe ao povo, como definitiva cura para as suas mazelas, conhecer e prosseguir conhecendo o Senhor.
    Pelo menos por três maneiras conhecemos o Senhor: 1. por meio de Jesus, revelação completa de Deus; 2. por meio da palavra de Deus, inspirada pelo Espírito para a nossa instrução; 3. e pela vivência, no Espírito, de tudo o que Deus se propõe a cumprir em nós. 
     Como Josué foi instruído, a palavra de Deus é para ser lida, vivida e pregada. O conhecimento de Deus nos vem por meio de Jesus, Verbo de Deus, que nos batiza no Espírito, quando cremos, o qual nos ensina e dá suporte para cumprirmos essa mesma palavra. 
   Não há limite nem plenitude de conhecimento do Altíssimo, que é insondável. Mas em Jesus, como diz Paulo, podemos ser imitadores de Deus, assim como diz Pedro, coparticipantes da natureza divina.
     Conheçamos e prossigamos em conhecer o Senhor. Do mesmo modo que temos certeza de que vai amanhecer, a vinda de Jesus é certa. E não vamos nos afastar envergonhados na Sua vinda ou, como que desavisados, ser pegos de surpresa.

domingo, 18 de outubro de 2020

Evangelho/Evangélico - Parte 2

  3. Evangelho de Lucas: aborda genealogia num contexto diferente em relação a Mateus. Este deseja alinhar, por múltiplos de sete,  14 + 14 + 14, os ascendentes de Jesus, citando nomes-chave de sua genealogia. Lucas vai focá-la somente no cap. 3, dando outra ênfase à abertura de seu livro. 

     Vai priorizar o grupo que aguardava o cumprimento das profecias do Antigo Testamento, na melhor distinção do que Pedro comenta sobre o surpreendente de Deus: 

     "Da qual salvação inquiriram e trataram diligentemente os profetas que profetizaram da graça que vos foi dada, indagando que tempo ou que ocasião de tempo o Espírito de Cristo, que estava neles, indicava, anteriormente testificando os sofrimentos que a Cristo haviam de vir, e a glória que se lhes havia de seguir. Aos quais foi revelado que, não para si mesmos, mas para nós, eles ministravam estas coisas que agora vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho; para as quais coisas os anjos desejam bem atentar. 1 Pedro 1:10-12.

    Por isso encontramos, no início de seu Evangelho, personagens como Zacarias e Isabel, os pais de João Batista, assim como José e Maria, sobre quem Lucas vai concentrar seu foco.

     Dele, reconhecido pelas características que ele mesmo indica, de detalhado investigador de tudo o que escreve, nas palavras dele "acurada investigação de tudo desde sua origem", é que vai nos transmitir o relato da entrevista de Maria com o anjo que lhe anuncia sua gravidez. 

     Maria é a virgem de quem Isaías prontamente profetisa: "Portanto o mesmo Senhor vos dará um sinal: Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e chamará o seu nome Emanuel". Isaías 7:14. Daí dizermos que, nessa entrevista, Maria se assusta três vezes:

1. Com a simples aparição do anjo Gabriel em seus aposentos;

2. Com a distinção de que era agraciada, sem ainda conhecer as razões por quê;

3. E, para finalizar, quando o anjo arremata seu recado, mencionando a gravidez.

     O "como será isso, de Maria", em tom de esclarecimento, e não de contestação, como foi a mesma pergunta feita por Zacarias, permite que conheçamos, com detalhe, pela palavra do médico Lucas, o modo como Jesus foi gerado, gestado e nascido: 

     "E disse Maria ao anjo: Como se fará isto, visto que não conheço homem algum? E, respondendo o anjo, disse-lhe: Descerá sobre ti o Espírito Santo, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso também o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus". Lucas 1:34,35.

     Pelo texto, compreendemos de que depende o evangelho e a que se refere, en função de sua principal personalidade:

1. a presença do Espírito Santo, assim como a virtude do Altruísmo, definem o modelo de geração de Jesus;

2. Por essa razão, ele é autenticamente chamado, uma vez nascido de mulher, porém gerado por Deus, Filho de Deus.

     A personalidade de Jesus está diretamente associada ao evangelho. Somente ele poderia, a um só tempo, anunciar e cumprir a proposta de sua mensagem, uma vez que, como diz a carta aos Hebreus 12,2, Jesus é "autor e consumador" da fé. 

     Lucas, o médico amado, como a ele se refere Paulo, faz questão de mostrar esse lado humano, incluído o relato da manjedoura, a apresentação do bebê no templo, o menino Jesus com os doutores, etapa a etapa o desenvolvimento do homem perfeito, o segundo Adão sem pecado, ao qual Paulo Apóstolo se refere. 

     Uma cena que bem simboliza o foco de Lucas, é como céu e terra, anjos e pastores, juntos celebram a solução divina para a queda hunana e a chance de reconciliação concedida por Deus. 

     A eles foi anunciado que, por um pouco, deixassem o gado nas campinas e corressem a ver o menino enkvolto em panos, de certa forma aceito, de outra forma rejeitado. Convite a crer e a enxergar a glória de Deus. 

4. Evangelho de João: este apóstolo dá um salto acima. Se o três Evangelhos anteriores são chamados sinóticos, ou seja, que veem por uma ótica comum a sucessão da história de Jesus, João avança até antes de Jesus ter nascido, para apresentá-lo como o Verbo de Deus. 

     Como se dissesse que a ação do Pai é somente uma, manifestada na revelação em e por meio de Jesus: "Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou". João 1:18.

       A noção grega do Logos representava um avanço em relação à fase intuitiva de, por exemplo, encarar cada manifestação da natureza como ação de Zeus, o deus supremo do Olimpo, na mitologia.

   O Logos era uma explicação mais racional para a organização do cosmos, na qual estava incluída tanto a sua concepção inteligente, como uma explicação mais definida, mais "científica", dos fenômenos naturais. 

    João, a partir de sua argumentação, assume a definição grega de Logos, Verbo, Palavra, esse princípio ordenador do cosmos, para dizer que, sim, no princípio era o Logos, o Verbo, porém, com uma correção, era propriedade de Deus e, avançando, João diz que não há "um Verbo", ou um Logos, mas que "o" Verbo, o Logos é Deus:

     "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez. João 1:1-3.

     Dessa forma, João inicia seu Evangelho. Indica as origens eternas do Verbo de Deus, identificando-o como Deus e afirmando ser Jesus o Verbo que se fez carne:  "E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade". João 1:14.

     E logo passa a discorrer sobre sua identificação entre nós, por meio de João Batista, que aponta Jesus como o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo, sendo o Batista um sacerdote fora de função, como Ezequiel e Jeremias, que confirma a vinda de Jesus e o indica como quem batiza no Espírito Santo. 

     Foi dessa maneira, enquadrado pela turma de Jerusalém, que veio reprová-lo por praticar o ritual peculiar, com exclusividade, aos sacerdotes, de dentro do templo, para fora, a que chamou "batismo de arrependimento", ele os desafiou a identificar entre eles o Messias prometido, por eles ignorado.

     E ainda foi surpreendido por Jesus, que veio por ele ser támbem batizado, ao mesmo tempo legitimando o batismo de João, quanto, definitivamente, demonstrando que sua identificação com o ser humano é total, exceto no pecado. 

    O evangelho, em João, está associado com a salvação que Deus, em Pessoa, realiza, encarnado  como Filho, que batiza no Espírito Santo. Toda a Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo empenhados em salvar, em Cristo, por meio do evangelho:

    "Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa; o qual é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão adquirida, para louvor da sua glória". Efésios 1:13,14.