terça-feira, 4 de outubro de 2022

Lendo Levítico: detalhes íntimos unisex - 7

    A princípio avaliando meio estranha a linguagem e a seleção de temas ou assuntos focados em Levítico, já comentamos ser um livro à frente de sua época.

   Porém, olhado a partir dos dias atuais, apresenta uma série de costumes e regras estranhos aos dias de hoje. Mas colocando-nos no contexto de sua escrita, é possível extrair lições contextualizadas.

    A primeira neste texto é compreender que, quando o texto de Levítico foca num ponto específico, ainda que nos soe estranha a opção de assunto, ele é prático, vivencial e tem amplo efeito.

   Como exemplo, este capítulo que trata da emissão de sêmen para o homem e de regras referentes ao trato com o fluxo natural e periódico das mulheres, destaca dois aspectos que, desde muito cedo, na formação humana, os pais devem abordar com seus filhos.

    Essa conversa inclui a educação sexual da criança, incluído o asseio íntimo e as regras de pureza não somente corporal, mas também mental e social.

     Explicar cedo ao menino o que será polução noturna, que é o fluxo seminal espontâneo, durante o sono, vai proporcionar, entre pai e filho, a abordagem de um tema sensível na formação do menino.

   Do mesmo.modo que a mãe, equilibrada e intelectualmente preparada para conversar, com sua filha, tudo o que envolve e está relacionado à menstruação, será excelente oportunidade de estabelecer um ponto de contato e apoio numa área delicada da formação que, nos dias atuais, é tratada com nociva distorção.

   Portanto, o Levítico, para além de somente tratar do asseio pessoal, focando na personalidade como um todo, amplia para uma disciplina maior, visando um assunto crucial para o desenvolvimento, tanto do menino, quanto da menina, fazendo uma projeção para o futuro, assim como estabelecendo regras de disciplina, fundamentais na formação de qualquer pessoa.

    A santidade ao Senhor não é somente domingueira e cerimonial, é detalhista e diária. Abarca um conjunto de atitudes e hábitos corriqueiros, que vão determinar, no decorrer e na amplitude de hábitos mais amplos, o perfil de toda uma seriedade de vida cristã.

   A definição bíblica de que somos, individualmente, sacerdotes de nossa fé e, como igreja, vamos preparar novos convertidos para que também sejam sacerdotes, implica transmitirmos hábitos, conceitos e procedimentos padrão, que envolvem toda uma cultura de comportamento.

    Se vivermos de modo largado e relaxado a nossa vida de santidade, vamos comprometê-la, como padrão, o que é a franca proposta bíblica para ser vivida. E isso envolve aprendizado, detalhes internos e externos, formação de hábitos, performance pública e privada.

   E nos dias de hoje, em que a privacidade é posta em cheque, em função do avanço da internet, assim como vida virtual se confunde ou tenta substituir a vida real, refletir sobre a que detalhes aprofundar o conceito de santidade, pureza e perfeição, diante de Deus, constitui-se revolucionário, desafiador e muito oportuno para a personalidade da igreja.

   Hebreus coloca Jesus como alvo. Correr na direção dele, desembaraçando-se de toda a forma de pecado que atazana e assedia. Assim como Paulo aos filpenses sugere uma busca consciente, tenaz e constante por perfeição. Termina com este versículo sua carta:

   "Finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento. O que também aprendestes, e recebestes, e ouvistes, e vistes em mim, isso praticai; e o Deus da paz será convosco", Fp 4:8,9.

    Livrinho bom esse de Levítico. Faz pensar. E sugere profunda e permanente troca e busca por perfeição nos hábitos do dia a dia.

   

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Ceia do Senhor: nem trans- ou con- ou "presença real", mas "em memória de Mim".

   O entendimento a respeito do que ocorre ao participarmos da Ceia do Senhos apresenta, desde a Reforma Protestante, que completará agora em 31 de outubro 505 anos, quatro possibilidades de compreensão.

   A primeira delas, abandonada por todos os reformadores, porém até hoje mantida pela Igreja Católica, é que, no sacramento da eucaristia, que é como chamam a ceia do Senhor, ocorre a transubstanciação.

   Essa palavra provém de trans + substância, que significa dizer que, no ato da consagração, pelo oficiante católico romano, o pão e o vinho se transformam, literalmente, no corpo e no sangue de Jesus Cristo.

    Portanto, os que participaram da eucaristia, lembrando que somente o oficiante toma do vinho, os demais tomam da hóstia molhada no vinho, todos digerem o corpo de Cristo em sua inteireza.

    Lutero não segue essa interpretação. Mas também, visto a partir de nossa época, foca numa posição próxima da anterior, mas nega a transubstanciação. Para ele ocorre o que ficou conhecido como consubstanciação.

   A palavra com + substância quer significar que pão e vinho não se transformam no corpo e sangue de Cristo mas, no momento do ofício da Santa Ceia está, subjacente ao pão e ao vinho a presença do corpo de Cristo, do qual participam e dele se apropriam os comungantes.

     Calvino  o próximo reformador na ordem de aparecimento e destaque de importância,  ao rejeitar essas duas ideias, estabeleceu o que ficou conhecido como presença real de Jesus na Santa Ceia. Para todos os reformadores deixa de ser um sacramento, no sentido de canal restrito da graça de Deus, para ser, junto com o batismo, as duas únicas ordenanças de Jesus.

    Presença real significa que Jesus está presente no ato do ofício, porém nem se transforma no pão e no vinho e nem subjaz a esses elementos mas, pelo Espírito, naquele momento, o comungante é elevado à presença de Jesus. Neste caso há uma elevação à presença de Jesus, glorificado junto ao Pai, e não, por assim dizer, uma descida dEle para se fazer presente "transformado" nos elementos ou subjacente a eles.

    E o quarto modo é como entendemos ocorrer, tratando-se de um memorial. Mas não se trata de uma memória qualquer, por mero capricho ou aleatória e pueril. Mas de referência permanente que o crente possui consigo de sua participação no corpo e no sangue de Jesus Cristo.

    Trata-se de uma memória ativa, ou seja, um ato que, sim, o Espírito Santo realizou no tempo, quando nos batizou em Jesus, literalmente unidos nEle na semelhança de sua morte e ressurreição, quando nossa vida foi transformada ou, se preferirmos dizer, nossa vida surgiu ali.

    Portando, trata-se da memória da primeira ação da palavra salvadora de Deus em nós, do ato que nos tornou igreja, corpo de Cristo, nEle batizados pelo Espírito e, a partir daí edificados sobre Jesus, como "pedras que vivem" (Pedro).

    Não é uma memória qualquer e nem uma memória banal, dispersiva, mas memória presente, ativa, real, permanente e constante testemunho. Carregamos conosco essa memória de nossa identidade. Não é somente no ato da Ceia do Senhor que ela está conosco ou se manifesta.

    Mas ali, reunidos, juntos nos lembramos do ato miraculoso da ação do Espírito Santo em nossas vidas, ato fundante do que reprenta ser igreja, por nossa presença no mundo, pela benção que reprenta a ação de Deus em nós, nesta vida, pelo Seu poder, como nosso Pastor, conduzidos pelo Espírito neste mundo, para glorificarmos e testemunharmos Jesus.

    A Ceia do Senhor nos convida trazer de novo à memória o que jamais saiu e nem vai sair dela, que seja a ação da palavra de Deus em nós, por meio de Jesus Cristo, a Palavra Viva de Deus, o nosso batismo de conversão em Jesus Cristo e a nossa constituição, agora sim, como corpo de Cristo, igreja real, identitária e verdadeiramente presente neste mundo até a volta de Jesus Cristo.

    Não comemos pão e vinho transformados no corpo e o sangue de Cristo,  Não nos apropriamos dEle, subjacente ao pão e vinho que comemos. E nem somos elevados, como se ocorresse somente nesse momento essa elevação ou uma "presença real" dEle entre nós, no ato do ofício. Mesmo porque a presença de Cristo conosco, como Ele prometeu, é sempre real.

    Mas relembramos o que somos, o que já nos ocorreu, em que medida ativa somos esse resultado, corpo de  Cristo, literalmente, na comunhão como igreja, na ação de Jesus como nosso Pastor e na presença do Espírito Santo em nós, para não nos deixar esquecer ou agirmos contrário a todo esse fundamento.

    Tendo a palavra de Deus como referencial em nossa vida, essa mesma palavra que operou em nós a conversão a Jesus, por meio do batismo no e com o Espírito, somos igreja, na comunhão que, como Jesus expressou em Sua oração, é a mesma que Ele sempre teve com o Pai e agora age por termos nEle, do mesmo modo que Ele e por meio dEle, tenhamos com o Pai.

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sexta-feira, 30 de setembro de 2022

Lendo Levítico - Mycobacterium leprae em Levítico - 6

Esta é a lei de toda sorte de praga de lepra, e de tinha, e da lepra das vestes, e das casas, e da inchação, e da pústula, e das manchas lustrosas, para ensinar quando qualquer coisa é limpa ou imunda. Esta é a lei da lepra. Lv 14:54-57.

    O Levítico também estabelece regras com relação a portadores de hanseníase. O designativo "lepra" foi excluído de menção, porque passou a ser associado a preconceito.

   Mais uma vez estamos diante de um contexto de época, refletido no texto bíblico. Mostra-se avançado, para a época, ao mesmo tempo que, visto de nossa época, reflete condicionamentos culturais.

  O avanço, para aquela época, estava na normatização pormenorizada. O sacerdote seria o agente de saúde indicado e preparado para avaliar os sintomas indicadores.

   Quarentena, tratamento, avaliação e indicativo de cura estão normatizados. O problema, devido à aparência repugnante da doença, era sempre associá-la a uma maldição e, em função disso, discriminar seu portador.

   Ainda hoje há doenças, inclusive essa, que despertam nos outros reações indevidas de discriminação. A experiência de Jó ensina, como intitula-se um livro, que "coisas ruins também acontecem com pessoas boas".

     Todo o mal físico, tragédia pessoal, perdas emocionais e materiais de Jó, em circunstância nenhuma, esteve associado ao suposto pecado dele. Philip Yancey, em seu livro Dádiva da dor, em parceria com Paul Brand, torna mais clara a comprensão do dilema de um portador de hanseníase.

   O pai de Brand foi missionário na Índia, numa época avassaladora de propagação dessa doença nesse país, época também do início de descobertas decisivas para o progresso de seu tratamento no mundo todo.

    Aqui no Acre há uma colônia de hansenianos chamada Souza Araújo. Certa vez a visitei, em 2004, e conheci uma interna que havia lá chegado em 1957, no ano em que nasci, e não via nenhum de seus familiares em todo esse tempo.

    Até hoje, há filhos aqui nascidos, que foram separados de seus pais de forma abrupta, traumatizante, porque se desconheciam modelos de tratamento que permitissem a integração social dos portadores sem perigos de contaminação.

    As recomendações de Levítico permitem um padrão cuidadoso de acompanhamento dos portadores e ainda, uma vez restaurados, que se realizasse um ritual meticuloso e simbólico da cura obtida. O detalhe da ave solta indicava a todos o alcance dessa benção.

    Jesus, em seu ministério, não demonstra preconceito contra os portadores desse mal. Vai contra qualquer resquício de visão distorcida, que confunda doença física com maldição supersticiosa.

     Alguém vai mencionar o rei Uzias, amigão do profeta Isaías. Ele ficou instantaneamente hanseniano, porque invadiu o Santo Lugar, no templo, o que não era competência dele. Sim, mas isso não significa dizer que quem é portador dessa bactéria está sob maldição.

    Em Marcos, Jesus chega a tocar num deles, o que não era permitido. Mas respeita a norma do Levítico, recomendado-o apresentar-se ao sacerdote, para o controle de saúde pública. E ainda mais uma recomendação, não divulgar que Jesus fosse um curandeiro de plantão.
   
   E em Lucas 10 deles avistam Jesus de longe, aventuram pedir-lhe cura, são atendidos e um deles professa, num retorno para agradecimento, fé salvadora em Jesus.

    O que também não significa que qualquer e todos afetados serão curados milagrosamente, como falsamente prometido pelas "igrejas" de arrecadação. Meu primo foi acometido e, uma vez em tratamento médico, ofereceu em sua igreja culto de ações de graça por seu restabelecimento.

    Levítico é o livro da pureza ritual, do asseio do corpo, da pureza espiritual, enfim, da santidade ao Senhor. Um refinamento da presença íntima do Espírito Santo no viver, cioso que é de nos tornar aroma agradável, perfume de Cristo, oferta plena de dedicação ao Senhor. Permita-se ser essa benção.

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Lendo Levítico - A última tribo - 5

    O Levítico detalha a consagração, precipuamente, dos chamados levitas. Exatamente os decendentes de Leví, patriarca dessa tribo, razão de ser do nome do livro e dos correspondentes sacerdotes.

   A tribo do culto. O tabernáculo, a tenda do deserto, cuja instrução de construção Moisés recebe no monte, da parte de Deus, ficaria aos cuidados dos membros dessa família.

   Tudo o que estivesse relacionado aos cuidados com o tabernáculo, em todas as suas partes componentes, seria encargo desses auxiliares. Por isso não se preocupariam com qualquer outro ofício que não esse.

   Entre as outras tribos, quando se tornassem sedentários, ocupando a terra prometida a Abraão, teriam espaço entre as demais, por elas cedido, porque, por tempo integral, ocupar-se-iam com tudo o que se relacionasse ao culto.

    Montar e desmontar a tenda do tabernáculo, com todo o cercado em seu entorno, manter limpos os utensílios e seus altares, definir pelo calendário os tipos de sacrifícios e festas litúrgicas.
   
     Orientar de modo preciso seu modo de se efetuar, com todo o sustento proveniente de seus irmãos de sangue, incluído o que era oferecido no próprio tabernáculo.

    Mas a diferença fundamental, distintiva, sempre será entre a mera formalidade do cargo e da investidura, e a real marca da personalidade regida por verdadeira vocação. Chamado, suficiência e desempenho são dons do Espírito, ainda que fossem nessa época da antiga aliança.

   Porque a nova aliança, uma vez confirmada pelo sangue de Jesus Cristo, torna sacerdotes todos os que creem. E, do mesmo modo que os antigos levitas, responsáveis pelo antigo cerimonial, o culto agora se amplia, como ensina Paulo, para todos os dias e todo e em qualquer lugar.

    A cerimônia de consagração dos levitas, suas roupas e perfumes, os rituais de seleção de animais, como oferta, constituíram-se num grande audiovisual profético, simbólico, propedêutico em relação à promessa da manifestação do Filho de Deus, o Messias prometido.

    Agora o chamado é nosso, assim como a função, a regência sábia do culto, a proclamação da palavra. A revelação de Deus a Moisés para que construísse, em meio ao deserto, o tabernáculo, era para que plantasse, no meio do arraial, a tenda-símbolo da presença de Deus.

    "Pois como se há de saber que achamos graça aos teus olhos, eu e o teu povo? Não é, porventura, em andares conosco, de maneira que somos separados, eu e o teu povo, de todos os povos da terra?", Êxodo 33:16.

    Porém, mais do que formal ou somente vista fora, da porta da tenda de cada um, o tabernáculo representava uma presença real, distintiva, identitária. Essa função hoje está configurada na presença da igreja no mundo.

   Somos o edifício no qual Deus habita. Somos sacerdotes e "despenseiros - ao mundo - dos mistérios de Deus". Carregamos conosco a tenda que armamos e desarmamos onde chegamos. Levitas, menos por formalidade, mais por identidade.
  
    Identidade de vocação, chamado, desempenho de ministério, santidade e profecia. Está ao nosso encargo. Restou apenas uma tribo de levitas. Espalhada em meio a este mundo, mas sem pertencer a ele.

   Como diz Jesus, estando no mundo, sem que seja mundo. Como testemunhou Paulo, extraindo dele sustento, como se em nada dele dependesse. Resta uma e essa última tribo que ainda deve preservar seu ministério.

quarta-feira, 28 de setembro de 2022

Lendo Levitico - Texto longo, mas merecido: tem mulher como tema - 4

      A discussão dos papéis da mulher, do modo como a Bíblia os define, coloca-a no mesmo nível do homem.

     Embora, principalmente, no mundo moderno essas discussões estejam afetadas por reivindicações, muitas vezes, desfocadas, não podemos permitir que nosso entendimento bíblico seja afetado.

    Do princípio para o fim, por assim dizer, Gênesis 1,26-27 indica, para homem e mulher, o mesmo status de semelhança com Deus: "Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou", Gn 1:27.

    O entendimento viciado deste texto já confere, de modo distorcido, ao homem, um status que não é seu. Não existe uma hierarquia de degraus, onde Deus está acima, o homem vem em segundo lugar e a mulher em terceiro.

   Deus está acima, enquanto homem e mulher se equivalem em submissão a Ele. Outro texto também mal interpretado, e que afeta o grau de relação entre homem e mulher, é o que a Bíblia expressa como consequência do pecado.

   Ora, se é consequência do pecado, por si adquire uma feição distorcida daquela que, inicialmente, foi plano de Deus. Essa outra distorção decorre do entendimento do texto: 

   "E à mulher disse: Multiplicarei sobremodo os sofrimentos da tua gravidez; em meio de dores darás à luz filhos; o teu desejo será para o teu marido, e ele te governará", Gn 3:16.

   Portanto, a Bíblia não está afirmando que "o desejo da mulher está totalmente submetido ao do marido". O que a Bíblia afirma aqui é que "ter o desejo numa luta constante de uma submissão total ao marido" é resultado da afetação que o pecado promove nessa mesma relação.

     Mesmo porque outro texto, em Gn 2,18, que denomina a mulher de "auxiliadora idônea", não significa dizer que, por ser "auxiliadora", está numa condição menor e abaixo da posição do homem:

    "Disse mais o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea". Se fosse assim, o texto a seguir não poderia ser expresso como se fossem um só: "Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne", Gn 2:24.

    Impossível ser um só se houver subserviência. Portanto, tanto nesse trecho em que a mulher é mencionada como "auxiliadora", quanto no outro texto, desta vez no Novo Testamento, em que se afirma ser ela "submissa" ao marido, não existe, na perspectiva bíblica, diminuição ou posicionamento abaixo daquele indicado para o homem.

    Trata-se de papéis distintos para um e para outro. Outro texto indica, de modo bem explícito e claro, não haver, para Deus, distinção de importância ou hierarquias entre um, o homem, e outra, a mulher: "Dessarte, não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus", Gálatas 3:28.

     Ser um em Cristo não implica hierarquia, a não ser de todos, do "andar de baixo", em relação a Ele, porém todos em igual grau de importância. O nome disto é igreja.

   É um erro incorrer no mesmo erro de época, no qual estava contida a cultura do tempo bíblico que, em alguns reflexos, demonstrava preconceito contra a condição de ser mulher.

    Há na Bíblia dois eixos: um deles refletido nesse preconceito, e o outro eixo o do resgate da condição de mulher que a própria Bíblia indica. Por exemplo, o primoroso texto de Provérbios 31,10-31, em que a mulher ali descrita faz mais e melhor do que muitos homens, e ainda é elogiada por eles.

     "Seu marido é estimado entre os juízes, quando se assenta com os anciãos da terra", Pv 31:23. "Muitas mulheres procedem virtuosamente, mas tu a todas sobrepujas" Pv 31:29. O reconhecimento de tudo o que ela faz é multivalente.

    Não confundir preconceito contra a condição de ser mulher com a concessão de dons que, na Bíblia, em nenhum momento é subdividido por condição sexual. Não há dons do Espírito exclusivos para homens ou exclusivos para mulher.

    A divisão geral em categoria dupla, feita por Pedro, em sua 1 carta, dons de serviço e dons da palavra não se aplica dons de serviço para as mulheres e dons de palavra para os homens.

    Hulda não era menos do que Jeremais porque era mulher. Débora não foi menos do que Samuel, como dois juízes, porque a outra aqui foi mulher. Ester não foi mais do que Rute, diante de Deus, porque uma foi rainha da Pérsia e a outra uma retirante moabita pobre.

    Não diminuir os dons em sua importância. Não diminuir nem a mulher e nem o homem em sua importância. Aliás, diante de Débora, foi Baraque que fraquejou na fé:

    "Então, lhe disse Baraque: Se fores comigo, irei; porém, se não fores comigo, não irei. Ela respondeu: Certamente, irei contigo, porém não será tua a honra da investida que empreendes; pois às mãos de uma mulher o Senhor entregará a Sísera. E saiu Débora e se foi com Baraque para Quedes" Juízes 4:8,9.

    Quanta coisa e como é relevante o livro de Levítico quando aborda questões tão atuais, como o valor da mulher equidistante ao do homem, diante de Deus, nunca menor e não subserviente a ele. Minha costela que falta(va).

    Vamos aprender a dar å mulher o valor que a Bíblia lhe condiz. E proclamar isso ao mundo. E vivenciar como igreja. Ah, sim: em Lv 12 a mulher ter resguardo de 30 dias para menino e 60 para menina, puro preconceito em relação à condição de mulher.

   A lei atual confere 120 dias para qualquer parto. Sábia decisão dela. E quanto a nós, vamos ficar fora do eixo desse preconceito. E ler a Bíblia quando resgata para a mulher o grau e o lugar que, desde a  criação, sempre lhe pertenceu. Discussão dos papéis da mulher, do modo como a Bíblia os define, coloca-a no mesmo nível do homem.

     Embora, principalmente, no mundo moderno essas discussões estejam afetadas por reivindicações, muitas vezes, desfocadas, não podemos permitir que nosso entendimento bíblico seja afetado.

    Do princípio para o fim, por assim dizer, Gênesis 1,26-27 indica, para homem e mulher, o mesmo status de semelhança com Deus: "Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou" Gn 1:27.

    O entendimento viciado deste texto já confere, de modo distorcido, ao homem, um status que não é seu. Não existe uma hierarquia de degraus, onde Deus está acima, o homem vem em segundo lugar e a mulher em terceiro.

   Deus está acima, enquanto homem e mulher se equivalem em submissão a Ele. Outro texto também mal interpretado, e que afeta o grau de relação entre homem e mulher, é o que a Bíblia expressa como consequência do pecado.

   Ora, se é consequência do pecado, por si alqueire uma feição distorcida daquela que, inicialmente, foi plano de Deus. Essa outea distorção decorre do entendimento do texto: 

   "E à mulher disse: Multiplicarei sobremodo os sofrimentos da tua gravidez; em meio de dores darás à luz filhos; o teu desejo será para o teu marido, e ele te governará", Gn 3:16.

   Portanto, a Bíblia não está afirmando que "o desejo da mulher está totalmente submetido ao do marido". O que a Bíblia afirma aqui é que "ter o desejo numa luta constante de uma submissão total ao marido" é resultado da afetação que o pecado promove nessa mesma relação.

     Mesmo porque outro texto, em Gn 2,18, que denomina a mulher de "auxiliadora idônea", não significa dizer que, por ser "auxiliadora", está numa condição menor e abaixo da posição do homem:

    "Disse mais o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea". Se fosse assim, o texto a seguir não poderia ser expresso como se fossem um só: "Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne", Gn 2:24.

    Impossível ser um só se houver subserviência. Portanto, tanto nesse trecho em que a mulher é mencionada como "auxiliadora", quanto no outro texto, desta vez no Novo Testamento, em que se afirma ser ela "submissa" ao marido, não existe, na perspectiva bíblica, diminuição ou posicionamento abaixo daquele indicado para o homem.

    Trata-se de papéis distintos para um e para outro. Outro texto indica, de modo bem explícito e claro, não haver, para Deus, distinção de importância ou hierarquias entre um, o homem, e outra, a mulher: "Dessarte, não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus", Gálatas 3:28.

     Ser um em Cristo não implica hierarquia, a não ser de todos, do "andar de baixo", em relação a Ele, porém todos em igual grau de importância. O nome disto é igreja.

   É um erro incorrer no mesmo erro de época, no qual estava contida a cultura do tempo bíblico que, em alguns reflexos, demonstrava preconceito contra a condição de ser mulher.

    Há na Bíblia dois eixos: um deles refletido nesse preconceito, e o outro eixo o do resgate da condição de mulher que a própria Bíblia indica. Por exemplo, o primoroso texto de Provérbios 31,10-31, em que a mulher ali descrita faz mais e melhor do que muitos homens, e ainda é elogiada por eles.

     "Seu marido é estimado entre os juízes, quando se assenta com os anciãos da terra", Pv 31:23. "Muitas mulheres procedem virtuosamente, mas tu a todas sobrepujas" Pv 31:29. O reconhecimento de tudo o que ela faz é multivalente.

    Não confundir preconceito contra a condição de ser mulher com a concessão de dons que, na Bíblia, em nenhum momento é subdividido por condição sexual. Não há dona do Espírito exclusivos para homens ou exclusivos para mulher.

    A divisão geral em categoria dupla, feita por Pedro, em sua 1 carta, dons de serviço e dons da palavra não se aplica dons de serviço para as mulheres e dons de palavra para os homens.

    Hulda não era menos do que Jeremais porque era mulher. Débora não foi menos do que Samuel, como dois juízes, porque a outra aqui foi mulher. Ester não foi mais do que Rute, diante de Deus, porque uma foi rainha da Pérsia e a outra uma retirante moabita pobre.

    Não diminuir os dons em sua importância. Não diminuir nem a mulher e nem o homem em sua importância. Aliás, diante de Débora, foi Baruque que fraquejou na fé:

    "Então, lhe disse Baraque: Se fores comigo, irei; porém, se não fores comigo, não irei. Ela respondeu: Certamente, irei contigo, porém não será tua a honra da investida que empreendes; pois às mãos de uma mulher o Senhor entregará a Sísera. E saiu Débora e se foi com Baraque para Quedes" Juízes 4:8,9.

    Quanta coisa e cono é atual o livro de Levítico quando aborda questões tão atuais, como o valor da mulher equidistante ao do homem, diante de Deus, nunca menor e não subserviente a ele. Minha costela que falta(va).

    Vamos aprender a dar å mulher o valor que a Bíblia lhe condiz. E proclamar isso ao mundo. E vivenciar como igreja. Ah, sim: em Lv 12 a mulher ter resguardo de 30 dias para menino e 60 para menina, puro preconceito em relação a condição de mulher.

   A lei atual confere 120 dias para qualquer parto. Sábia decisão dela. E quanto a nós, vamos ficar fora do eixo desse preconceito. E ler a Bíblia quando atentos ao resgate para a mulher do grau e do lugar que, desde a  criação, sempre lhe pertenceu.

sábado, 24 de setembro de 2022

Lendo Levítico - Hábito feliz: calculo de leitura da Bíblia - 3

 Por demais exótico, em Levítico, o texto que reclama uma dieta alimentar meticulosa. A mensagem principal da Bíblia está clara. Por isso dissemos que é a partir da congregação que vem o chamado, e este para a salvação.

     Pois na leitura da Bíblia, escrita ao longo de séculos, aliás, milênios, caso haja boa vontade e coerência, dá para se fazer uma ponte com os dias atuais. E livros como Levítico permitem essa relação. Trata-se de recomendações gerais para todas as áreas da vida, relacionadas à higiene, em todos os sentidos.

   Por exemplo, quando o texto de Levítico que, além da pureza ritual e da santidade no caráter, estende a assepsia à dieta alimentar, ainda assim é possível se fazer uma ponte com os dias atuais. 

   Ora, se correu o boato de que a COVID teve a ver com a dieta de degustação de morcegos, independente de ser verdeira essa associação, ninguém negou que haja quem coma. Mas o Levítico também atesta que morcegos estão fora da lista recomendável de alimentos.

   E quanto aos gafanhotos, que constam na lista como recomendáveis, deles se alimentava João Batista, exótico, como já mencionado, sem que saibamos qual exatamente a receita que ele fazia, ainda utilizando mel silvestre.

    Bem, por aqui, na beirada dos rios da Amazônia, ainda se pratica o mujangué, que os seringueiros usavam, misturando ovos crus de tracajás com farinha d'água e açúcar. Está bom para você?

   Não precisamos mais pelejar a fim de demonstrar a atualidade do Levítico. E ainda nem mencionamos, por aqui, a dieta de peixes, subdivididos entre os sem e os com couro, certinho com as recomendações do texto bíblico.

   E a carne de caça? Que tal procurar saber se porquinhos do mato se enquadram na dieta nutricionista levítica? Cobra está de fora, mas certa vez, e nem foi por aqui, ofereceram-me, tendo eu, delicadamente, rejeitado. 

   E, para encerrar, corrigimos a conta que fizemos ainda no primeiro texto desta série, quando dividimos por 100 dias os capítulos da Bíblia e encontramos centenas. Lembram? 1189 capítulos totais da Bíblia.

   Pois a ordem de grandeza é outra. 1189/100, caso desejemos ler em 100 dias. Desejando aproximar para mais, ou seja, 1200 (mesmo porque só o Salmo 119 tem 176 versículos), vai dar 12 capítulos por dia. Agora sim, numa semana, cerca de 84 capítulos da Bíblia lidos.

   Para os que vão tentar em 200 dias, subdivida por 2 e, caso num ano, por 3. Respectivamente, 6 por dia ou 4 por dia. Para ler em 1 ano, fixe sua conta nos 5 capítulos por dia.

   365 X 5 = 1825 que, menos 1189 = 636. Você está entendendo? Caso queira ler a Bíblia em 1 ano, lendo 5 capítulos por dia, ainda fica um saldo de 636. Mas raciocine que:

    Por exemplo, no dia da leitura do Salmo 119, você não vai ler inteiro, porque ele tem 176 versículos. Quando for ler o capítulo 1 de Lucas, que tem 80 versículos, muito provavelmente vai subdividir. O mesmo de outros salmos, como o Salmo 18, com 50 versículos, ou Ezequiel 23, com 49.

    Para tanto, com essas subdivisões, você terá coberto esse saldo de 636, na verdade completando sua leitura até antes do ano fechar em seus 365 dias. Mas o mais importante é adquirir ou retornar ao hábito de ler as Escrituras.  Bem-aventurado o homem e a mulher cujo prazer está na lei do Senhor, diz o Salmo 1.

sexta-feira, 23 de setembro de 2022

Lendo Levítico - A voz que vem da congregação - 2

 "Chamou o Senhor a Moisés e, da tenda da congregação" Levítico 1:1.

   Num mundo como o atual, que valor tem "chamar da tenda da congregação"? De onde, no primeiro versículo de Levítico, é dito que o Senhor chamou Moisés.

   O que se tem a dizer a partir da tenda da congregação? Eu acho que seria errado supor que todas as vozes provém dela. Há vozes fora dela. Na Idade Média a Igreja quis ser a única voz. Puro engodo.

    Porque nem da parte das Escrituras, que deveria ser seu específico, ela falava. Pois aqui já se define um específico por parte da congregação: a voz do Senhor deve proceder dela.

   Inverteu os papéis. E presumiu-se. A partir da congregação ouve-se uma voz que, sim, rege a vida, mas não com a petulância de ser a única ou de ser infalível.

   Mesmo porque a congregação fala da parte de Deus, ou Deus fala por meio dela, mas ela não rege o mundo fora, porque não está posta no mundo para tanto.

   Jesus não teve aportes político-ideológicos, não resolveu mudar traços da cultura de seu tempo, não se envolveu nas lutas por direitos sociais mais urgentes de sua época.

   Não porque não tivesse opinião formada sobre esses assuntos, ou porque não avaliasse que, aos olhos de Deus, mudanças radicais deveriam ocorrer. Mas porque o específico de Jesus era dizer que Deus fala, chama e quer se fazer ouvir.

    Por isso Jesus, embora se dirigisse pessoal e especificamente a pessoas, sempre teve a congregação como referência, fosse na sua ida às festas litúrgicas de Israel, em Jerusalém, no templo, fosse em suas visitas às sinagogas, na Galileia e na Judeia, fosse em sua ida informal a eventuais festas, como o casamento em Caná.

     Mas preveniu que edificaria a sua igreja. Porque Deus chama da congregação. Não. A palavra que vem da congregação não é a única voz. E nem quer abarcar todas as outras vozes, como se fosse tudo governar.

    Em Israel, Deus nunca quis que o rei também reunisse, em si, a autoridade sacerdotal. Mas sempre quis que ele ouvisse Sua voz. Vinde e arrazoemos, diz o Senhor, por meio da profecia de Isaías.

    A partir da congregação Deus fala. É ela que transmite no mundo a palavra de Deus. Guarda consigo a palavra e a transmite com fidelidade.  Mas é voz específica, sem pretensão de calar todas as outras.

   O próprio Jesus não se envolvia em polêmicas que não fossem direcionadas para as prioridades do Reino. E a principal é que Deus pode ser ouvido, enviou o Filho que batiza no Espírito aquele que crê e concede discernimento para se reconhecer o que agrada a Deus.

    A congregação não foi constituída para reger o mundo. Mas para prevenir que Deus fala.