terça-feira, 18 de agosto de 2026

Ser (menos) humano

  Deixa ser as Escrituras o referencial para a existência de Deus. Ainda que se negue qualquer possibilidade, o mais aferrado ateu jamais negará que as Escrituras continuem-se nesse referencial, ainda que não acredite numa letra dela.

     E tomada, vêm os textos principais dela, ou seja, os que, pode-se dizer, sem eles todo o restante seria irrisório. Pelo começo, no Gênesis estar escrito: ¹ "No princípio, criou Deus os céus e a terra." Gn 1.

   Se temos Escrituras que não registram que Deus tenha criado céus e terra, com tudo o que lhes compõe, incluídos homem e mulher, não serão Escrituras e não será Deus.

   Isso posto, vamos logo ao crucial, o ponto central das Escrituras, esse sim, sem o qual ela nada seria: a revelação de Deus no Filho Jesus Cristo. Um Deus alienado do homem para nada também serviria. E qual, então, seria a relação Deus-homem?

   O mesmo argumento: se não existe tal relação ou se, existindo, não for íntima, então é blefe. Será um deus inventado para uma relação fictícia. Portanto, tudo o que nas Escrituras define a relação Deus-homem precisa ser, em essência, verdadeiro.

    Agora será necessário, digamos, sair das Escrituras, ou seja, do texto para dentro da realidade. Por outra forma de dizer, o que se constata, a olhos vistos, ser ação de Deus no mundo.

    O mundo está repleto de realizações humanas. Aliás, podemos aqui recorrer ao método do ateu, para dizer que a realidade está aí, está posta, em nada dependendo da existência de Deus. Ela pode ser definida por vários modos, sendo talvez o método científico o mais preciso entre os demais.

    Pois se Deus não ou nunca interfere ou interferiu na história, de nada adianta supostos nem Deus ou Escrituras. Mas elas apontam para a suprema intervenção divina: Deus se fez homem.

   Deus encarnou na virgem de Nazaré. Ainda que se suponha algo comum ou vulgar, similar em tudo a todas as religiões ou desgastadas ideias de encarnações divinas, esse Deus dessa fé monoteísta, plástico de sua história nas Escrituras, torna-se o homem Jesus Cristo, o Filho.

    Essa a ação essencial de Deus. Isso, nas Escrituras, não é  religião.  Deus se encarna no Filho para resgatar a humanidade inteira de sua condição errática, no sentido moral, e entrópica, no sentido existencial.

   Segundo as Escrituras, sempre elas, a ação principal, de Deus, Ele a efetuou e efetivou no Filho e pelo Filho. A restauração de tudo reside nessa definitiva ação. Porque restaurando o ser que criou, a sua imagem e semelhança, "homem e mulher os criou", Deus já começou a tudo restaurar.

   Este é outro ou mesmo o ponto central da história registrada nas Escrituras.  Caso Deus fosse criador, mas a história do ser humano fosse prisioneira da conduta humana degradada ou terminasse na morte, nem Deus seria. Como disse Jesus aos saduceus:

²⁶ "Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó? ²⁷ Ora, ele não é Deus de mortos, e sim de vivos. Laborais em grande erro." Marcos 12.

   Portanto, Deus não é de mortos. Daí as Escrituras atestarem a ressurreição. E por ela, também a reputação da natureza está demarcada. Os impérios humanos, como sempre ocorreu, vão caducar. Nem sua atual ostentação, que se lhes assemelha ser permanente, vai impedir sua derrocada.

¹⁵ "Eis que as nações são consideradas por ele como um pingo que cai de um balde e como um grão de pó na balança; as ilhas são como pó fino que se levanta." Isaías 40.

    Portanto, recapitulando: as Escrituras, e nelas, a criação, a ação de Deus na encarnação no Filho, os efeitos diretos dela na vida de quem crê são dados essenciais. Negue-se um deles, para se desconectar o novelo da revelação de Deus.

      Finalizando, homens (e mulheres) foram autores do livro:

²⁰ "...sabendo, primeiramente, isto: que nenhuma profecia da Escritura provém de particular elucidação; ²¹ porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens [santos] falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo." 2 Pedro 1.

    Se se dissesse "anjos escreveram", seria nada crível.  Homens (e mulheres) como eu e você registraram a ação de Deus. E Deus não é homem. Mas Quem mais torna exequível a ação humana. Exatamente por ser menos divino, desprovido deste adjetivo, por abdicar da ação de Deus em sua vida, esse ser se tem tornado menos humano.

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