quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Ora, ponha-se no seu devido lugar

   Clichê desgastado e desatualizado. Gente de minha geração usava frequente e acintosamente, de cima para baixo, para enquadrar um subalterno atrevido.

  Como se diz pela via do "politicamente correto", puramente discriminatório. Mas aqui vamos usar no sentido literal. Ponha-se no seu devido lugar.

   E, metalinguisticamente falando, aqui neste blog já abordamos em que "lugar" é esse. Fizemos isso checando e focando o Salmo de Paulo em Efésios 1,3-14. Recapitulando:

   Ponha-se no seu lugar, ou seja, no lugar onde Deus põe. E nesse Salmo de Ef 3,1-14 fica claro onde Deus põe: (1) predestinados para o Seu amor desde antes da fundação do mundo;

  (2) postos como e para o louvor da Sua glória, revelada de antemão no Amado, Jesus; (3) em quem temos a redenção e a remissão dos pecados, de novo, como refrão, para louvor de Sua glória e segundo o Seu beneplácito, (4) em abundante graça derramada sobre nós;

   (5) Jesus, em quem todos os tesouros de sabedoria estão (Cl 2,3), Deus nos revela todo o mistério (que o deixa de ser) de Sua vontade, Jesus, que se nos torna, da parte de Deus, sabedoria (1 Co 1,30).

   Ponha-se no seu devido lugar (6) nós que agora somos feitos herança (refletiu nisso, se Deus tem uma herança, somos nós) predestinados, sim, nesse amor e por um Deus que tudo faz conforme o conselho de Sua vontade, de novo, refrão, para sermos para louvor de Sua glória;

    (7) tudo para nós convergindo, em Cristo, aliás, para o qual converge tudo e todo o universo em todo o tempo, em quem estamos, depois de ouvir e crer na palavra da verdade do evangelho de nossa salvação e, uma vez tendo crido, sermos selados no Santo Espírito da promessa.

   Ora, ponha-se no seu devido lugar.

Abaixo o passo a passo no Salmo de Paulo:

quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

Haja Natal em você

   Simplesmente Natal. Muitos "Natais" já passamos. Eu lembro Cacadura, Rio, RJ, de onde saímos em 1967, para o Méier. E da mini árvore de Natal, talvez 0,50 cm, que minha mãe montava em cima do móvel negro da sala.

  Havia aquelas bolinhas, frágeis como casca de ovo, guardadas durante todo o ano, acondicionadas com muito zelo, envoltas e jornal, numa caixa de sapatos. Uma delas imitava uma casinha de teto avermelhado e paredes prateadas.

   Era uma arvorezinha que montávamos juntos, eu e minha mãe, do tamanho do orçamento da família. O pai funcionário público do IBGE e a mãe professora contratada no município vizinho, Nilópolis. Vinham os algodõezinhos, para imitar neve, resquícios da colonização cultural.

   Ela ficava ao lado do rádio a válvulas, que tinha no último botão à direita um comutador, que emudecia o som das rádios para que, com um plug RCA, a gente conectasse a vitrola.

   Eram discos ainda 78 rpm, rígidos, de uma fase pré long plays de vinil. Cabia música de uma só faixa. Carmem de Bizet era a minha preferida. Cid ensinava, entre outras coisas, o gosto pelo clássico.

   Menos dinheiro não era impedimento, o zelo de Dorcas em enfeitar o Natal com aquela arvorezinha e do pai para encaminhar o menino em todos os bons gostos. Um refinamento naquela humilde família suburbana.

   E não faltava a história bíblica do Natal. Por isso que, em meio a tantos Natais, de ceias humildes, com poucos coquinhos, quebrados num martelinho médio, até hoje guardado, vinham as rabanadas, sempre mais baratas de consumir.

    A meia na janela. A roupinha de Natal. O presentinho do dinheiro contado. Nada de brinquedos Estrela. Mas aquele carro de bombeiros de madeira, com escada magirus que subia de verdade, a pick-up com reboque, feita de "matéria plástica" e a Caravana, com cowboys e indígenas do Wild Old West os parcos recursos alcançaram.

   Com tudo isso, sempre houve Natal. Esse mesmo, o único, registrado nas Escrituras. Sim, passaria despercebido em meio a tanto consumismo, não fosse a advertência de anjos. Ora, mas terá sido histórica essa aparição angelical? Lc 2:

¹³ "E, subitamente, apareceu com o anjo uma multidão da milícia celestial, louvando a Deus e dizendo: ¹⁴ Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens, a quem ele quer bem." 

   O que é histórico, no Natal, que não sejam apenas os Natais contabilizados na vida? O Natal aparece nas Escrituras. E o Natal se reproduz a cada vez que alguém crê. A fé produz acesso ao Natal.

⁵ "Respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus. ⁶ O que é nascido da carne é carne; e o que é nascido do Espírito é espírito. ⁷ Não te admires de eu te dizer: importa-vos nascer de novo." Jo 3.

   A história da fé aponta para o Natal. Jesus nasceu já pobre e rejeitado. Mas esqueça aqui a ideologia. Porque ele nasceu para ricos e pobres. Porque é possível encontrar ricos humildes e pobres soberbos.

   E a cada dia há Natal, quando alguém, como ensinou Jesus a Nicodemos, acolhe pela fé a salvação e se permite nascer, pelo Espírito Santo, batizado na morte e ressurreição de Jesus Cristo.

   Releia esse parágrafo anterior acima deste. Verifique se há Natal em você. Contabilizados os Natais da vida, entenda que novo nascimento em Cristo, pelo poder de Deus, é o objetivo específico da Bíblia.

   Haja Natal em sua vida.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

Afinal, que é o homem?

 ⁴ "...que é o homem, que dele te lembres? E o filho do homem, que o visites?" Sl 8.

     "Que e o homem?" No sentido genérico, aplicado a homens e mulheres. Mesmo porque o Gênesis indica que um e outra  são feitos à imagem e semelhança de Deus. Ora, já é uma pista para a resposta:

²⁷ "Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou." Gn 1.

    Não é uma pergunta retórica, como se o salmista pretendesse dignificar Deus, ao mesmo tempo que inferiorizar o homem.

   O salmista está fazendo a pergunta à pessoa certa: somente Deus tem essa resposta. Nem o homem é capaz de responder ou aquilatar-se.

  E o salmista prossegue respondendo: ⁵ "Fizeste-o, no entanto, por um pouco, menor do que Deus e de glória e de honra o coroaste." Sl 8.

  Seguindo na "cola" dos textos, respondendo que são homem/mulher criados (1) "à imagem e semelhança de Deus" e (2) "por um pouco menor do que Deus" e (3) "coroado de glória e honra".

  Bem, verifica-se que, na mentalidade do salmista e, por extensão, das Escrituras, a pergunta será retórica, sim, no sentido de que ele como que encaminha a resposta.

  E ela tem relação com o valor que Deus mesmo concede ao homem/mulher (ser humano) criado. Primeiro, porque feitos å Sua imagem e semelhança.

   Perceba-se com toda acuidade: homem E mulher são criados à imagem e semelhança de Deus. O que significa identidade e igualdade dos dois perante Deus, como explícito nas Escrituras, citação acima.

   Porém, o salmista se refere a outro padrão. Que é o homem diante do padrão divino de avaliação? E com que critérios conhecer, para que seja possível ajustar-nos a esse padrão?

   Nossa mente compreende Deus, do modo como Ele se revela. E Deus se revela todo em Jesus Cristo, seu Filho. E o Espírito Santo, que exalta e glorifica o filho, dá-nos esse tesrnunho e ilumina o nosso entendimento.

³² "Ora, nós somos testemunhas destes fatos, e bem assim o Espírito Santo, que Deus outorgou aos que lhe obedecem." At 5.

  É o Espírito Santo que nos concede, tanto a condição de conhecer o Deus que se revela, crer nEle e ser regenerado, de modo completo, o que inclui uma nova mente apta e capaz a compreender tal revelação.

  Assim como proclamar. Como lemos acima, com e pelo Espírito Santo, também somos testemunhas. E além de vislumbrar, por essa iluminação, a luz do evangelho, desfrutando a beleza dessa revelação, falamos dela aos outros.

   E na continuidade do texto, também fica explicitada a referência do salmista ao Filho, como esclarece o exegeta autor anônimo de Hebreus, antecipando a surpreendente revelação bíblica da identidade  de Jesus conosco:

⁵ "Fizeste-o, no entanto, por um pouco, menor do que Deus e de glória e de honra o coroaste." Sl 8.

⁹ ..."vemos, todavia, aquele que, por um pouco, tendo sido feito menor que os anjos, Jesus, por causa do sofrimento da morte, foi coroado de glória e de honra, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todo homem." Hb 2.

  Que é o homem que dele te lembres? Alguém a quem Deus revela o seu propósito. Quem Deus transforma e regenera pela ação do Seu Espírito. E quem acolhe e transmite o evangelho, de modo a  que outros obtenham a mesma bênção.

   Segundo também afirma Paulo Apóstolo, um poema de Deus, quando ele alude sermos criados em Cristo, o que significa uma nova criação, ou seja, Gênesis 2, agora aperfeiçoado com o selo da eternidade:

¹⁰ "Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas." Ef 2.

   Quem é o homem que dele te lembres? Quem pode ouvir Deus repetindo, a seu favor, o mesmo que disse a respeito do Filho: você é filho amado, em quem ponho e tenho meu prazer. 

domingo, 8 de dezembro de 2024

Padrão Maria de escolha

 ⁴¹ "Respondeu-lhe o Senhor: Marta! Marta! Andas inquieta e te preocupas com muitas coisas. ⁴² Entretanto, pouco é necessário ou mesmo uma só coisa; Maria, pois, escolheu a boa parte, e esta não lhe será tirada." Lc 10.

  Maria faz uma escolha e, com ela, demarca uma preferência que Jesus ressalta como ideal. Ele a caracteriza como pouco, uma só coisa e uma boa parte que não será tirada.

  O contexto indica que a escolha de Maria foi "quedar-se assentada aos pés de Jesus, ouvindo-lhe os ensinamentos". Pois é esta escolha de Maria que a define dentro das características descritas por Jesus.

   Vamos ressaltar quatro mulheres das Escrituras que se encaixam, cada uma dentro de sua época e no seu contexto, nos mesmos moldes da escolha de Maria.

   Débora deveria ter sido a única esposa do rei Davi. Caso assim fosse, ele teria cumprido a norma que consta em Deuteronômio 17:

¹⁷ "Tampouco [o rei] para si multiplicará mulheres, para que o seu coração se não desvie; nem multiplicará muito para si prata ou ouro."

  E foi ela que evitou, por sua sabedoria e dependência de Deus uma chacina de todos os homens da fazenda de seu marido, que havia decidido não contribuir com o sustento dos valentes de Davi, a única brigada armada que defendia Israel, no tempo da loucura de Saul: 1 Sm 25:

²⁶ Agora, pois, meu senhor, tão certo como vive o Senhor e a tua alma, foste pelo Senhor impedido de derramar sangue e de vingar-te por tuas próprias mãos. [...] ²⁹ Se algum homem se levantar para te perseguir e buscar a tua vida, então, a tua vida será atada no feixe dos que vivem com o Senhor, teu Deus".

  Rute foi uma mulher que, em segredo, fez uma escolha manifestada no momento certo. Não poderia fazê-lo antes, muito provavelmente pressionada por sua cultura. Mas no momento da despedida de sua sogra Noemi, ela declarou sua fé:

¹⁶ Disse, porém, Rute: Não me instes para que te deixe e me obrigue a não seguir-te; porque, aonde quer que fores, irei eu e, onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus. ¹⁷ Onde quer que morreres, morrerei eu e aí serei sepultada; faça-me o Senhor o que bem lhe aprouver, se outra coisa que não seja a morte me separar de ti. ¹⁸ Vendo, pois, Noemi que de todo estava resolvida a acompanhá-la, deixou de insistir com ela." Rt 1.

   A declaração de Rute não foi uma opção por Noemi, apenas apego ou amizade, não foi pela cultura ou religião de sua sogra, mas foi uma opção consciente por Deus. E tudo o mais em sua vida decorreu dessa opção.

  Aqui aprendemos que não devemos fazer opções "em nome de Deus", numa simulação de consagração, mas devemos fazer as opções de Deus, aquelas que Ele coloca diante de nós. O padrão e a providência de Deus são a melhor escolha.

   Ana também foi animada a fazer a melhor escolha, a escolha decorrente da fé. Era hostilizada por sua companheira de matrimônio, ainda que no contexto do culto do tabernáculo.

   Mas venceu pela oração. A sinceridade do esposo ajudou-a a optar pelo modo divino de enfrentar as provações. Com ela, aprendemos que Deus tem sempre, para nós, a melhor escolha. 1Sm 1:

²⁶ E disse ela: Ah! Meu senhor, tão certo como vives, eu sou aquela mulher que aqui esteve contigo, orando ao Senhor. ²⁷ Por este menino orava eu; e o Senhor me concedeu a petição que eu lhe fizera. ²⁸ Pelo que também o trago como devolvido ao Senhor, por todos os dias que viver; pois do Senhor o pedi. E eles adoraram ali o Senhor."

     E devemos usar os recursos a Sua disponibilidade para superar nossas provações. As decisões de Ana foram todas elas sábias, aos olhos de Deus, deixando-nos lições permanentes.

   Maria, mãe de Jesus, tinha consigo um modo de absorver desafios, analisar situações a sua volta, assim como agir com sinceridade e transparência que marcam a sua personalidade.

   A escolha dela não foi palpite aleatório. Mas o fato dela concordar reflete sua lucidez diante dos desafios de fé. Estava em dia com sua vida de comunhão. Era uma mulher cujo feitio constava nas Escrituras.

   Foi sincera com o anjo, que ouviu dela o mesmo questionamento que ouviu de Zacarias. Mas este falou num tom que revelava incredulidade, enquanto Maria num tom que transparecia sinceridade.

⁵¹ "E desceu com eles para Nazaré; e era-lhes submisso. Sua mãe, porém, guardava todas estas coisas no coração. ⁵² E crescia Jesus em sabedoria, estatura e graça, diante de Deus e dos homens." Lc 2.

   Por isso se tornou cumprimento vivo de profecia. E por isso foi entregue a ela a educação do Filho de Deus. Jesus não nasceu pronto. Como nós, passou por todas as etapas de educação de qualquer criança.

   E Maria foi o melhor modelo de mulher e mãe para esse menino prodígio. Seu modo de "guardar as coisas no coração", como Lucas sempre menciona, revela sua prudência, sabedoria e eficiência no agir.

   Todas essas mulheres agiram com sabedoria em sua vida. Fizeram a melhor escolha. Buscaram em Deus recursos para agir segundo a vontade de dEle.

   Como Maria, irmã de Lázaro, todas tipificam escolher a melhor parte, que nunca lhes será tirada. 

quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

Malaquias e suas altercações - 2

   Malaquias agora denuncia a deslealdade, visando a família. Desde Amós, há 300 anos atrás, profetas denunciam a infidelidade conjugal. Não está fora de foco essa abordagem, porque culto e testemunho exigem integridade de caráter. Ml 2.

¹⁴ E perguntais: Por quê? Porque o Senhor foi testemunha da aliança entre ti e a mulher da tua mocidade, com a qual tu foste desleal, sendo ela a tua companheira e a mulher da tua aliança."

    Malaquias lembra a infidelidade de Abraão. Embora fosse Sara, a esposa, a propor, não lhe competia tomar Agar, a escrava. Paulo Apóstolo classifica por carnalidade esse gesto do patriarca:

²² "Pois está escrito que Abraão teve dois filhos, um da mulher escrava e outro da livre. ²³ Mas o da escrava nasceu segundo a carne; o da livre, mediante a promessa." Gl 4.

   A fidelidade conjugal é termômetro da fidelidade ao Senhor. Não importa grau ou função no reino de Deus, casamento é metáfora da relação com Deus, seja no AT ou NT. Jamais incorrer nesta denúncia, seja esta de Malaquias ou aquela de Amós:

⁷ "Suspiram pelo pó da terra sobre a cabeça dos pobres e pervertem o caminho dos mansos; um homem e seu pai coabitam com a mesma jovem e, assim, profanam o meu santo nome." Am 2.

   Malaquias prossegue em suas altercações, agora denunciando a falsidade na relação com Deus, quando o agir não corresponde ao falar, o homem dobre de Tiago:

¹⁷ "Enfadais o Senhor com vossas palavras; e ainda dizeis: Em que o enfadamos? Nisto, que pensais: Qualquer que faz o mal passa por bom aos olhos do Senhor, e desses é que ele se agrada; ou: Onde está o Deus do juízo?" Ml 2.

²³ "Porque, se alguém é ouvinte da palavra e não praticante, assemelha-se ao homem que contempla, num espelho, o seu rosto natural; ²⁴ pois a si mesmo se contempla, e se retira, e para logo se esquece de como era a sua aparência. Tg 1.

   A única saída é o arrependimento. Aqui o profeta anuncia o "mensageiro do arrependimento", precursor de Jesus, que é por meio de quem provém o sacrifico definitivo e eterno para os que creem:

¹ "Eis que eu envio o meu mensageiro, que preparará o caminho diante de mim; de repente, virá ao seu templo o Senhor, a quem vós buscais, o Anjo da Aliança, a quem vós desejais; eis que ele vem, diz o Senhor dos Exércitos." Ml 3.

⁵ Eis que eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível Dia do Senhor; ⁶ ele converterá o coração dos pais aos filhos e o coração dos filhos a seus pais, para que eu não venha e fira a terra com maldição." Ml 4.

   Nesta parte da profecia, até Ml 3,7, detalha-se em que sentido se dará o resgate e purificação definitiva de Israel, por meio do Messias, anunciado em Ml 4:

² Mas para vós outros que temeis o meu nome nascerá o sol da justiça, trazendo salvação nas suas asas; saireis e saltareis como bezerros soltos da estrebaria."

  Nessa fase, já haviam reconstruido o Templo há quase 100 anos, mas necessitavam destas exortações típicas do ministério deste profeta, com uma advertência a mais, exatamente sobre o sustento e manutenção devidos ao culto, o dízimo veterotestamentário que supria a tribo de Levi.

⁸ "Roubará o homem a Deus? Todavia, vós me roubais e dizeis: Em que te roubamos? Nos dízimos e nas ofertas." Ml 3.

   Não se rouba o Senhor somente no dízimo, que é zelo zero pela da obra de Deus, mas em muito mais.  Porém, esta avareza acrescenta mesquinhez ainda maior, nunca somente um problema contábil. Paulo indica esse vínculo aos Efésios 5:

⁵ "Sabei, pois, isto: nenhum incontinente, ou impuro, ou avarento, que é idólatra, tem herança no reino de Cristo e de Deus." 

   As recomendações finais seguem a legenda típica das exortações do profeta. Caso nos enquademos, haja confissão e arrependimento. ainda que sejam palavras duras. Nossa classificação seja entre os que servem, verdadeiramente, ao Senhor.

¹⁶ Então, os que temiam ao Senhor falavam uns aos outros; o Senhor atentava e ouvia; havia um memorial escrito diante dele para os que temem ao Senhor e para os que se lembram do seu nome. ¹⁷ Eles serão para mim particular tesouro, naquele dia que prepararei, diz o Senhor dos Exércitos; poupá-los-ei como um homem poupa a seu filho que o serve. ¹⁸ Então, vereis outra vez a diferença entre o justo e o perverso, entre o que serve a Deus e o que não o serve." Ml 4.

Malaquias e suas altercações - 1

 A questão é saber o que fazer do evangelho, enquanto o correto seria refletir sobre o que o evangelho deve fazer em nós.

   Somente compreender, processar e falar sobre ele ainda mantém distante do efeito real. Muito embora, evangelho seja para se entender, vivenciar e anunciar.

  Com Malaquias, ainda estamos no Antigo Testamento. Mas autenticidade é o mesmo, neste e naquele tempo. Basta lembrar a instrução a Josué, mais antiga ainda: meditar, fazer e falar:

⁸  "Não cesses de falar deste Livro da Lei; antes, medita nele dia e noite, para que tenhas cuidado de fazer segundo tudo quanto nele está escrito; então, farás prosperar o teu caminho e serás bem-sucedido." Js 1.

   E Malaquias, no AT, é tão pragmático, quanto Tiago, no NT: os dois apontam para um efeito somente possível pela ação do Espírito Santo em nós. Ele começa pelo básico, a lição de amor.

²  "Eu vos tenho amado, diz o Senhor; mas vós dizeis: Em que nos tens amado? Não foi Esaú irmão de Jacó? — disse o Senhor; todavia, amei a Jacó, ³ porém aborreci a Esaú; e fiz dos seus montes uma assolação e dei a sua herança aos chacais do deserto." Ml 1.

   Trata-se de um conflito de interreses. Costumamos calibrar (o que avaliamos ser) o amor de Deus. Meus interesses vão na frente, sou prisioneiro deles. Amor é mandamento, quer dizer, obediência.

   Nem Jacó, o trapaceiro, e nem Esaú, um "nem aí" para o que Deus considerava santo, eram obedientes. Mas o primeiro, também alvo do amor de Deus, converteu-se, a duras penas. Do outro, não sabemos senão a benção que recebeu do Senhor:

³⁹ "Então, lhe respondeu Isaque, seu pai: Longe dos lugares férteis da terra será a tua habitação, e sem orvalho que cai do alto. ⁴⁰ Viverás da tua espada e servirás a teu irmão; quando, porém, te libertares, sacudirás o seu jugo da tua cerviz." Gn 27.

   Em sua segunda fala, o profeta denuncia o desprezo pelas coisas de Deus. Foi o caso de Esaú, menosprezando seu direito de primogenitura, negociado com Jacó. Gn 25.

³³ "Então, disse Jacó: Jura-me primeiro. Ele jurou e vendeu o seu direito de primogenitura a Jacó."

⁶ "O filho honra o pai, e o servo, ao seu senhor. Se eu sou pai, onde está a minha honra? E, se eu sou senhor, onde está o respeito para comigo? — diz o Senhor dos Exércitos a vós outros, ó sacerdotes que desprezais o meu nome. Vós dizeis: Em que desprezamos nós o teu nome?"

   Não sejamos manipuladores da fé. No tempo do profeta, Deus era desonrado, a começar pelo mau exemplo dos sacerdotes. Consideremos esta exortação, como sacerdotes de nossa própria fé.

    Honremos ao Senhor,  sem desprezo ou descaso pelo culto,  sem protocolo de liturgia ou presença burocrática e vazia no templo. Porém, conteúdo e coerência de uma vida cristã autêntica.

⁶ A verdadeira instrução esteve na sua boca, e a injustiça não se achou nos seus lábios; andou comigo em paz e em retidão e da iniquidade apartou a muitos. ⁷ Porque os lábios do sacerdote devem guardar o conhecimento, e da sua boca devem os homens procurar a instrução, porque ele é mensageiro do Senhor dos Exércitos." Ml 2.

   Nesta terceira altercação, o profeta ressalta o referencial da instrução, desprezada pela liderança do tempo de Malaquias. Culto deve ser aula e não entretenimento, com manipulação emocional e arrecadação monetária. Fora coaches da fé, prevaleçam os mestres do ensino.

   Paulo Apóstolo demarca o valor da presença evangélica no mundo. Mas sem instrução, será impossível vivenciar esse sacerdócio:

¹ "Assim, pois, importa que os homens nos considerem como ministros de Cristo e despenseiros dos mistérios de Deus. ² Ora, além disso, o que se requer dos despenseiros é que cada um deles seja encontrado fiel." 1Co 4. (segue...)

terça-feira, 3 de dezembro de 2024

Efésios 1: passo a passo nu, no Salmo de Paulo

 A Bíblia é o livro que nos desnuda. Mesmo querendo pôr, por cima, uma roupagem de folhas de figueira, será necessário sacrificar um cordeiro, para vestir roupa descente.

⁷ "Abriram-se, então, os olhos de ambos; e, percebendo que estavam nus, coseram folhas de figueira e fizeram cintas para si. [...] ²¹ Fez o Senhor Deus vestimenta de peles para Adão e sua mulher e os vestiu." Gn 3.

   E a vida inteira nossa será sobrepor, despojados das vestes rotas do velho homem, premente necessidade de sobrevestir a nudez com as novas vestes, para a renovação do novo homem.

²² "...no sentido de que, quanto ao trato passado, vos despojeis do velho homem, que se corrompe segundo as concupiscências do engano, ²³ e vos renoveis no espírito do vosso entendimento". Ef 4.

   Houve um tempo em que a moda era falar em avivamento, renovação, mover do Espírito, ora, pobre vocabulário e roupa velha. O tempo se encarregou de desgastar esse acervo simplório. Isso porque renovação, avivamento, mover, ou coisa que o valha, é dia a dia na vida cristã.

   Pessoal e intransferível. Está aí acima: "...vos renoveis no espírito do vosso entendimento". Contínua e amorosamente, com toda a paciência que somente a Trindade tem, somos exortados a realizar essa troca do velho pelo novo.

   E somente o poder de Deus nos proporciona esse bê-a-bá da vida em Cristo. Lembro, de novo, Jesus dizendo a Marta que pouco é o necessário e que é sábio escolher a melhor parte, que nunca será tirada.

  O Salmo de Paulo em Efésios 1,3-14 nos coloca, pelo foco de Deus, em nosso exato lugar. Começa por nos informar que somos amados antes mesmo de Gênesis 1.

   Bendito esse Deus, que nos escolheu nele para sermos santos e irrepreensíveis perante Ele. Já parou para pensar o que signfica esse ato divino? E em que condição nos põe?

³  "Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo, ⁴ assim como nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele". Ef 1.

   E a finalidade? Há alguma finalidade nisso? Ora, nesse Salmo é refrão: para louvor da Sua glória. Se há performance, se há no céu um aparato de um show celestial, se anjos vão entoar a Deus louvores, tem a ver com a obra de Deus a nosso respeito.

⁴ "... e em amor ⁵ nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade, ⁶ para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuitamente no Amado". Ef 1.

   Então, no Salmo, aparece o Filho. É o Amado, em quem temos redenção e remissão dos pecados, olha bem, vejam a que preço, no preço do sangue dEle, pela graça derramada em desperdício, por assim dizer.

⁶ "... para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuitamente no Amado, ⁷ no qual temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça". Ef 1.

   Deus não tem segredos: desvendou-nos Seu maior propósito, alimentado, pela eternidade afora, no centro do amor que Ele tem dentro de Si. Expôs Seu beneplácito proposto em Jesus Cristo. E Deus não se frustrou e nem falhou.

⁴ "... e em amor ⁵ nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade, ⁶ para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuitamente no Amado". Ef 1.

   Qual seja, em Jesus fazer convergir tudo a nosso respeito. Paremos para pensar. Desde o Éden, aliás, antes dele, e para nós, na história, desde o dia em que derramou sangue de cordeiro, pela primeira vez, para nos trocar as vestes, sempre teve esse propósito.

⁸ "... (graça) que Deus derramou abundantemente sobre nós em toda a sabedoria e prudência, ⁹ desvendando-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito que propusera em Cristo, ¹⁰ de fazer convergir nele, na dispensação da plenitude dos tempos, todas as coisas, tanto as do céu como as da terra".

   Ora, mas como? Por quê? Para quê? Ora, já foi dito. Repete-se o refrão. Quer saber, quer ouvir de novo? Segue abaixo o que Ele nos fez e para que o fez:

¹¹ " ...nele, digo, no qual fomos também feitos herança, predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade, ¹² a fim de sermos para louvor da sua glória, nós, os que de antemão esperamos em Cristo". Ef 1.

   E o Salmo encerra indicando o modo como o Espírito Santo, conhecido como "terceira pessoa da Trindade", por Seu toque íntimo, por Sua mansidão em amor, abre-nos o entendimento para ouvir, conhecer e aceitar o evangelho.

   Ah, se a igreja de Jesus neste mundo, neste século, nestes (últimos) dias avaliasse o grau de importância do evangelho, sua dimensão, efeito, relevância, poder, enfim, se ela se especializasse só nisto, em proclamar, incessantemente, o evangelho!

¹³ "... em quem também vós, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados com o Santo Espírito da promessa; ¹⁴ o qual é o penhor da nossa herança, até ao resgate da sua propriedade, em louvor da sua glória." Ef 1.

   Lembro de novo da exortação de Jesus a Marta:

⁴¹ "Respondeu-lhe o Senhor: Marta! Marta! Andas inquieta e te preocupas com muitas coisas. ⁴² Entretanto, pouco é necessário ou mesmo uma só coisa; Maria, pois, escolheu a boa parte, e esta não lhe será tirada." Lc 10.

  Sejamos atentos: é o pouco de Jesus que supre o tudo, é sentado aos Seus pés ouvindo Sua instrução, isso é escolher a melhor parte e, da igreja, se essa for a escolha dela, nunca lhe será tirado.