Escrevo sobre Neli por absulta gratidão a Deus por sua vida e de seu esposo. Gerson Coelho conheci ainda em Cascadura, pelos idos de 1966, quando os três irmãos, ele, Josias e Sérgio cerravam fileiras entre o grupo daquela geração. O pai deles, Clauderval, e a mãe, Madalena, nos davam carona, de Cascadura a Ricardo de Albuquerque, onde residiam, todos os domingos que eu e Dorcas, minha mãe, esticávamos para o almoço em Nilópolis, a famosa e charmosa casa da avó.
Neli e Gerson foram fundamentalmente importantes em meu início de ministério, na Congregacional de Curicica, em 1982. Eu ainda não era ordenado, somente o fui a partir de 2 de janeiro de 1983. Mas eles já me conduziam, no heróico e desbravador Fiat 147 de Gerson, por carona, da Magalhães Couto, no Meier, via serra da Grajaú-Jacarepaguá, até a Estrada do Guerenguê, em Curicica.
Somente juntos na eternidade vamos relembrar os assuntos dessas viagens. Mas o substrato que ficou, decorrente dessa parceria, fundamentava, camada por camada minha hesitante vocação. Gerson conduzia-nos por todos os escaninhos de Jacarepaguá, a partir do Largo da Taquara, para visitar pessoas. Fosse na Colônia Juliano Moreira, na Buiuna, enfim, cantos que se perderam nos recantos de minha memória.
Curicica foi herança que Cascadura herdou, quando ninguém mais acreditava que fosse à frente. Exceto Gerson e Neli, com mais uns 10 irmãos. Pastor Maurillo Moreira delegou a eles o desafio. Esse casal sempre foi fagulha. Com eles, nunca deixou de haver braseiro. Convidaram-me, Gerson e Valdemir, em nome do grupo, para segui-los lá em Curicica. Eu fiz como Saul, escondendo-me, tentativa vã. Gerson e Valdemir me acharam, sentado no antigo coral de Cascadura, que ficava por detrás do púlpito do pastor.
Curicica foi uma escola, por causa do traço de personalidade daqueles notáveis, como diz o salmista. Com essa gente, Gerson e Neli ombreavam. Há pouco tempo ela me falou da visita que fez a um desses, Diac. João Pedro, quase centenário, lá por Duque de Caxias, no Rio. O Fiat 147 era incansável no rastro desses operários do reino. Aliás, onde não ia Gerson, mesmo quando ainda tinha o Fusca 1200, antes desse moderno 147? Conheci também.
Certa vez foram, ele contava, à inauguração da Transamazônica, isso mesmo, conduzindo junto com a família, Gielson criança, o velho Cabral, pai de Neli. Por todas e por muitas estradas. Muita gente recebeu os efeitos dos benefícios desse casal. Envolveram-se com Missões. Cascadura, desde 1972, tornou-se uma igreja missionária. Promovia ofertas de maio e julho, lanches missionários, até um hino autoral havia: "Ó, missionários, ide, marchai! Atendei à ordem do Senhor/Jesus Cristo salva, proclamai corajosos, firmes, sem temor./Missionários Cascadurenses, nosso lema consiste em servir./Propalemos que somos crentes, na esperança do eterno porvir."
Isso contagiou a todos. E teve continuidade na disposição desse casal. Certa vez brigamos. Quer dizer, houve um conflito de ideias. Em 1986, numa viagem a Campo Grande, MS, Gercino, mais um desses heróis de fé, e eu espiamos aquela capital e, por providência de Deus, nessa primeira viagem, adquirimos o imóvel onde hoje está a Igreja Evangélica Congregacional de Campo Grande, no bairro Copavila II.
Curicica, Cascadura, Piedade, na época filiada à denominação, e Vicente de Carvalho, hoje responsável por esse campo, juntaram-se para adquirir o imóvel e sustentar o misionário que se sentisse desafiado a ir. Eu sugeri um casal de Curicica, o melhor deles, Valdemir e Elzair. Neli discordou. Ora, Cid Mauro, como você quer enviar nossos melhores obreiros para Campo Grande? Eu contra-argumentei, ora, irmã, temos de enviar os melhores. Ela replicou, mas aqui há poucos. Eu contra-repliquei: mas lá não há ninguém.
Ela então deu xeque-mate: Por que, então, não vai você? Viemos. Todos nós viemos. Neli e Gerson vieram sempre e vieram primeiro. Quem vem para Missões, desde Paulo, membro em Antioquia, vem primeiro. E ele era entre os melhores. Porque anos depois, não para Campo Grande, a 1500 km do Rio, mas para Rio Branco, 2700 km depois, viemos eu e minha família. E por ironia, veio Gielson também, filho único deles. E Neli e Gerson nunca descansaram de missões, nunca se cansaram de missões, enquanto estiveram entre nós. Por isso ela descansa, agora, aqui no Acre, neste chão, de percorrer tantos outros motivando gente a ser missionária.
Por terminar, certo dia preguei na igreja onde filho, nora e netos dela congregam. Cheguei, deparei uma médica, ainda com a farda verde do hospital, e Neli descendo do veículo que as conduzia. Neli, nessa fase, intermitentemente necessitando ser hospitalizada, estava ansiosa lá na internação: ora, haveria de perder o culto na igreja. Então a médica, embora desconhecesse a causa dessa aflição, alegrou Neli com o diagnóstico, a melhora dela permitiria a alta, para ir para casa, é lógico.
Qual não foi a surpresa da médica: não, vou para a igreja. Leve-me para a igreja. Eu asisiti à cena da médica transmitindo umas recomendações de praxe, no estacionamento da igreja. Então fiquei entendendo que ali, naquele momento, Neli vinha direto do hospital para a igreja. Desde 1966 conheço Gerson e os pais dele. Inesquecível o sorriso de Madalena, mãe dele. Refletia a mansidão dela. Neli, na época de Curicica, me levou a Mato Alto, mais de uma vez, para visitar os Cabral, pai e mãe dela. Conduzia-me a visitar os irmãos dela, e muito mais gente, para trazer todos para a igreja.
Toda essa gente privilegiava estar na igreja. Minha mãe também era assim. O último domingo dela, meu último telefonema a Dorcas, foi por teimosia. Eu liguei, daqui do Acre, para dizer que não fosse, naquele domingo, à igreja, não, que não estava bem, que era melhor repousar. Ela disse, na igreja há quem cuide de mim. E foi a última vez que ela esteve na igreja, naquele domingo. Essa gente valoriza igreja. Parece que essa geração que valoriza igreja está indo embora.
Muito mais há para falar desse casal. Eu poderia lembrar outras cenas, como essa da estrada, na foto acima. Mas fica marcada a gratidão a Deus pelo exemplo que deixam. E pela exortação que perdura: não desprezem igreja e sejam plenamente missionários.

%20Sub%201.png)

%20Sub%204.png)
.png)
.png)
Parabéns Pastor
ResponderExcluir.
Gratidão a Deus pela vida de tantas ovelhas que são mestras dos pastores.
ResponderExcluir