sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Esmirna 1 - tribulação e riqueza da igreja

 Em Esmirna o que se destaca, comparado a Éfeso, que foram as obras, era a tribulação. Para o cristão, elas se configuram de variadas formas. E sempre constituem vitória, segundo Paulo e também Tiago:

³ "E não somente isto, mas também nos gloriamos nas próprias tribulações, sabendo que a tribulação produz perseverança; ⁴ e a perseverança, experiência; e a experiência, esperança." Rm 5.

² "Meus irmãos, tende por motivo de toda alegria o passardes por várias provações, ³ sabendo que a provação da vossa fé, uma vez confirmada, produz perseverança. ⁴ Ora, a perseverança deve ter ação completa, para que sejais perfeitos e íntegros, em nada deficientes." Tiago 1.

     Na época da igreja dos três primeiros  séculos, houve períodos de maior ou menor intensidade de perseguição, devido à fé em Jesus. Esse risco de vida era a principal tribulação.

     Mas em Esmirna Jesus destaca um contraste entre pobreza e riqueza. Mas de que tipo? Certamente, quanto à riqueza, Jesus se refere à herança espiritual.  E quanto à pobreza, certamente incluía a carência econômica.

   Pobreza é tema recorrente. Quando, no colégio apostólico, Judas Iscariotes, que era o tesoureiro, reclamou do desperdício do bálsamo com que a irmã de Lázaro ungiu Jesus, o que disse o Mestre?

⁷ "Jesus, entretanto, disse: Deixa-a! Que ela guarde isto para o dia em que me embalsamarem; ⁸ porque os pobres, sempre os tendes convosco, mas a mim nem sempre me tendes." João 12.

   Jesus não estava desprezando os pobres. E nem Judas sinceramente interessado neles. Porque João já o denunciara como ladrão da bolsa apostólica. Pobreza, como tema recorrente, já se tornou até teologia.

   Nos anos 1960 surgiu a chamada Teologia da Liberação, que propunha engajar cristãos na luta contra a injustiça social. Instrumentalizou-se da ideologia socialista, numa tentativa de engajar a igreja na militância política.

      Mas Jesus faz outra distinção, que afeta essa intenção de engajamento, quando distingue reino de Deus  e reino dos homens. Lucas, descrevendo em Atos a ascensão de Jesus, anota uma cobrança dos discípulos que, como francos e sinceros israelitas, desejam a libertação do jugo romano:

    ⁶ "Então, os que estavam reunidos lhe perguntaram: Senhor, será este o tempo em que restaures o reino a Israel?"  Atos 1.

    Perguntaram pelo reino humano. Não somente a restauração de Israel, mas do mundo inteiro. Não estava incluído na pergunta dos apóstolos, mas estava na resposta de Jesus:

⁷ "Respondeu-lhes: Não vos compete conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou pela sua exclusiva autoridade". Atos 1.

    Essa expressão "tempos e épocas", na resposta de Jesus, é escatológica, assim como afirmar ser essa contagem de tempo é de Sua (de Deus) exclusiva autoridade.

    E Jesus completa: ⁸ "...mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra." Atos 1.

    Aqui Jesus indica o específico da igreja, que é (1) receber poder de Deus, por meio do Espírito, para (2) ser testemunha de Jesus.  Não inclui, para a igreja, militância política, polícia de costumes ou viés teocrático de governo.

     A Esmirna, Jesus também não está afirmando que sejam conformados com sua pobreza. A igreja precisa, sim, como os profetas no Anrtigo Testamento, denunciar injustiça social e se envolver, sim, com as razões do por que existem.

     Mas nenhuma militância ou ideologia política deve rivalizar com a prioridade da igreja, o anúncio do evangelho e a denúncia do pecado, que afeta pobres e ricos. Mesmo porque ela é a única que associa injustiça social ao pecado.

    Virtudes e vícios tanto de regimes capitalistas, quanto de regimes socialistas, têm relação com a condição pecaminosa humana. E somente a igreja aponta essa realidade. 

     Não será apenas uma luta social, por meio de tensões políticas ou ideológicas que vão alterar a índole humana.  Regimes herdeiros dessa filosofia, de que pressões sociais, ditaduras e revoluções forçam mudanças, produziram regimes de exceção, antidemocráticos, opressores e desprovidos de liberdade religiosa.

    A riqueza a que Jesus se refere, que Esmirna possui, é o legado de Cristo, a alavanca da fé, a mensagem do evangelho com suas opções de sadia doutrina. Está, sim, incluído denúncia social e preocupação e ação pelos pobres.  Porém nunca engajada numa opção política ancorada em ideologias puramente humanas.

   Essa riqueza constitui a identidade da igreja, sua missão e finalidade no mundo.

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