sábado, 14 de março de 2026

Culto contínuo

¹ "Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. ² E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus." Rm 12.

  O rogo de Paulo é um pedido pungente, mistura de exortação e profunda súplica de sensibilidade, invocada em troca das misericórdias de Deus.

   É como se dissesse que, diante do tudo de Deus a nosso favor, haja supremo empenho pelo que deles solicita. E o que Paulo pede é que a vida cristã seja culto constante.

  Porque o sacrifício de Cristo que, como diz Hebreus 9, pelo Espírito ofereceu a Si mesmo a Deus, habilitando que façamos o mesmo, então nos ofertemos a Deus.

¹⁴ "...muito mais o sangue de Cristo, que, pelo Espírito eterno, a si mesmo se ofereceu sem mácula a Deus, purificará a nossa consciência de obras mortas, para servirmos ao Deus vivo."

   O apóstolo qualifica essa oferta de nós mesmos, de corpo, alma e espírito, como "sacrifício vivo santo e agradável a Deus" um "culto racional".

   Vivo, porque fomos resgatados da morte, agora, diante de Deus, opera em nós um nova condição de vida. Isso é específico e exclusivo das Escrituras.

  Santo, porque a dádiva do corpo e sangue de Cristo, no qual fomos batizados pelo Espírito, diante de Deus nos torna aceitáveis:

²² "...agora, porém, vos reconciliou no corpo da sua carne, mediante a sua morte, para apresentar-vos perante ele santos, inculpáveis e irrepreensíveis." Cl 1.

    Agradável a Deus porque, pelos critérios de Deus o Filho llHe é agradável, por tudo o que representa. Esse foi o testemunho do próprio Deus por ocasião de seu batismo. Lc 3:

²² "...e ouviu-se uma voz do céu: Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo."

  E racional, porque todos os detalhes dessa oferta, que nos inclui inteiros, diante de Deus, são opção consciente, ilustrada e instruída pelo Espírito, da qual somos ministros.

   Somos o culto, somos a oferta e somos oficiantes de nós mesmos a Deus. Tudo no culto da antiga aliança, agora aperfeiçoado na plenitude da oferta de Jesus, ao Pai, legitima e instrui nossa oferta.

   Paulo em 1 Coríntios ensina, numa aula sobre o Espírito Santo, que temos a mente de Cristo:

¹⁶ "Pois quem conheceu a mente do Senhor, que o possa instruir? Nós, porém, temos a mente de  Cristo". 1 Co 2.

   Esse é o sentido do culto racional. O Espírito que, na Criação, perambulava nesses primórdios, ansiando por habitar em nós, esse instrui para que a dedicação seja completa, total e perfeita.

   Moisés, em sua dedicação ao Senhor, experimentou a ação do Espírito, de modo a dedicar-se ao Senhor de forma exclusiva em seu ministério.

²⁴ "Pela fé, Moisés, quando já homem feito, recusou ser chamado filho da filha de Faraó, ²⁵ preferindo ser maltratado junto com o povo de Deus a usufruir prazeres transitórios do pecado; ²⁶ porquanto considerou o opróbrio de Cristo por maiores riquezas do que os tesouros do Egito, porque contemplava o galardão." Hb 11.

   Neemias, em sua oração de confissão, em favor do povo cativo, em Babilônia, menciona o modo como, no deserto, Deus guia seu povo também por intermédio do Espírito.

²⁰ "E lhes concedeste o teu bom Espírito, para os ensinar; não lhes negaste para a boca o teu maná; e água lhes deste na sua sede." Ne 9.

   Quando Eva não enxerga que, diante do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, deve rejeitar a tentação e não experimentar, é a voz e ação do Espírito, em sua consciência, que está rejeitando.

⁶ "Vendo a mulher que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos e árvore desejável para dar entendimento, tomou-lhe do fruto e comeu e deu ao marido, e ele comeu." Gn 3.

   Não é oferecer-se ao pecado, para dele ser escravo, mas ao Senhor Deus, que nos aceita por inteiro, mediante uma vontade que é boa, santa, agradável e perfeita.

¹⁹ "Falo como homem, por causa da fraqueza da vossa carne. Assim como oferecestes os vossos membros para a escravidão da impureza e da maldade para a maldade, assim oferecei, agora, os vossos membros para servirem à justiça para a  santificação." Rm 6.

   Logo após o seu batismo, ocorreu uma visão em que o Espírito se manifestou descendo para plenitude, na vida de Jesus, como pomba, para logo depois ser conduzido ao deserto, onde foi tentado por Satanás, em pessoa.

   Destacou-se o atrevimento do inimigo, a mentira, sua principal distinção, e a soberba, desde sua queda atitude marcante e sugestivamente compartilhada, a quem por ele se permite subverter.

   Jesus mostra-se plenamente dedicado ao Pai, vence-o pelo poder da palavra do Pai, denuncia dele a mentira e nos ensina de que modo podemos sempre vencer.

    A dedicação nossa é a mesma de Jesus. Nossas armas são a que Ele mesmo sempre usou. A plenitude do Espírito, nossa blindagem diante do mal, venha ele de fora para dentro, ou se insinue, proveniente do mais tenebroso subterrâneo de nossa pecaminosidade.

¹⁶ "Digo, porém: andai no Espírito e jamais satisfareis à concupiscência da carne. ¹⁷ Porque a carne milita contra o Espírito, e o Espírito, contra a carne, porque são opostos entre si; para que não façais o que, porventura, seja do  vosso querer." Gálatas 5.

   Filhos e filhas de Eva, que somos, urge agir de modo inverso ao de nossa mãe.  Não enxergar no pecado, o que de si mesmo nunca é, foi ou será. A vontade de Deus, sim, é boa, agradável e perfeita.

    E viver no evangelho é experimentar renovação constante dessa vontade, vê-la atuante em nós, tomá-la como preferência e contraveneno ao pecado.

³ "...pelo conhecimento completo daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude, ⁴ pelas quais nos têm sido doadas as suas preciosas e mui grandes promessas, para que por elas vos torneis coparticipantes da natureza divina, livrando-vos da corrupção das paixões que há no  mundo". 2 Pe 1.

      Paulo, no trecho abaixo da carta aos Efésios, demonstra como uma razão saneada pelo milagre da conversão, dirige, em Cristo, nosso viver, por meio do poder contínuo do evangelho, atuante em nós.

²⁰ Mas não foi assim que aprendestes a Cristo, ²¹ se é que, de fato, o tendes ouvido e nele fostes instruídos, segundo é a verdade em Jesus, ²² no sentido de que, quanto ao trato passado, vos despojeis do velho homem, que se corrompe segundo as concupiscências do engano, ²³ e vos renoveis no espírito do vosso entendimento, ²⁴ e vos revistais do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade." Efésios 4.

    Esta é uma proposta bíblica, uma indicação de como age o poder de Deus em nós, à qual temos acesso pela fé, sendo uma realidade resultante da comunhão com Deus, que o mundo lá fora desconhece, desacredita e despreza.

   Assim podemos atender ao convite de Paulo, completando seu desejo, nessa guinada de argumentação, no coração de sua carta aos Romanos, e assim assumirmos os aspectos práticos e mui belos da vida cristã.
   
    ² E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus." Rm 12.

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