domingo, 15 de setembro de 2024

Sentimento de perfeição

 ¹² "Não que eu o tenha já recebido ou tenha já obtido a perfeição; mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus." Fp 3.

   Paulo menciona perfeição, neste trecho da carta aos Filipenses, definindo que ela representa o alvo que Jesus tem para nós.

  Portanto, não se trata de um padrão aleatório, definido por parâmetros voláteis, mas bem específico, pelos critérios do que Cristo estabeleceu, para nós, como alvo.

  O modo como o texto inicia, indica que se trata de uma argumentação em curso. E nessa altura dela, Paulo expõe perfeição como parâmetro.

   E o Apóstolo vinha tratando da autenticidade do ser cristão. Algo para o que devemos atentar, avaliando se há desvios. Porque identidade cristã não é somente mantida por esforço pessoal isolado.

   ² "Acautelai-vos dos cães! Acautelai-vos dos maus obreiros! Acautelai-vos da falsa circuncisão! ³ Porque nós é que somos a circuncisão". Fp 3.

   Nem no AT circuncisão foi mera maquiagem. E a reação judaica à igreja queria forçar esse mascaramento. Paulo reage indicando que nosso batismo em Cristo, pelo Espírito Santo, é que signfica identidade.

  E segue mencionando três características dessa identidade: adoramos a Deus, no Espírito, gloriamo-nos em Cristo e não confiamos na carne.

  Adoração a Deus, como Jesus ensinou à samaritana, em sua aula, é validada por apreciação direta do próprio Deus:

²³ "...os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura para seus adoradores. ²⁴ Deus é espírito; e importa que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade." Jo 4.

     Costumo indicar o texto de Efésios abaixo como sintoma da verdadeira adoração. Já ouvimos de Deus, como Jesus ouviu, "Tu és meu filho, eu hoje te gerei". E sempre devemos ouvir, referente a nós, outra observação de Deus feita a respeito de Jesus: "Este é meu filho amado, em quem me comprazo".

¹ "Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados; ² e andai em amor, como também Cristo nos amou e se entregou a si mesmo por nós, como oferta e sacrifício a Deus, em aroma suave." Ef 5.

   Adoração autêntica, somente provém de imitadores de Deus, como filhos amados, que andam em amor como também Cristo andou e nos amou. Sem isso, não será autêntico: teatro mambembe.

  Quanto a dizer que nossa glória está em Cristo, retornemos a João, para entender como nossa identidade também se define pelo grau em que se manifesta em nós a glória de Cristo.

²² "Eu lhes tenho transmitido a glória que me tens dado, para que sejam um, como nós o somos; ²³ eu neles, e tu em mim, a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade, para que o mundo conheça que tu me enviaste e os amaste, como também amaste a mim." Jo 17.

    Percebe-se o alcance dessa identidade, a partir da transmissão dessa glória. Observe-se esse encadeamento: (1) glória transmitida; (2) ser um com o Pai e o Filho; (3) autenticidade de testemunho no mundo; (4) real consciência do amor do Pai.

   E termina assinalando o maior perigo que corremos, confiar em nós mesmos, ser manipuladores de um falso evangelho, na medida em que o nosso orgulho nos cega, e decidimos inflar como Satanás sempre sugere.

  Então Paulo passa a descrever seu pedigree, como alta liderança do farisaísmo. Na tentação, sem nenhum senso de ridículo, Satanás ofereceu a Jesus o domínio do mundo, supostamente afirmando dele ser dono.

  No mínimo ridícula, qualquer tentativa nossa de vanglória. Mas, repito, facílimo ser (a)traído por essa tentação. Então o Apóstolo passa a descrever como se processa, na conversão, essa perda.

   Para frisar o nível de loucura a que estava submetido, ele afirmou que seu zelo, sua diligência principal era perseguir a igreja de Cristo.

  Não nos iludamos, porque se falsearmos nossa identidade como igreja, seremos, ainda que dentro dela, FakeNews.

   Paulo estão postula perda total. Se permitimos que, pelo Espírito, sejamos despidos do velho homem (ou velha mulher), desse que assimila toda a satânica vanglória, somente então assumimos a "sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus".

   E atentemos que, noutra carta da prisão, desta vez aos Efésios, Paulo indica a que nos conduz o conhecimento de Cristo Jesus:

 ¹⁹ "...e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus". Ef 3.

   Não atingimos a perfeição. Paulo mesmo deixa isso bem claro. Mas prosseguimos, sem cessar, na direção apontada por Cristo. Ele nos conquistou para isso.

  E com o Apóstolo concorda o autor anônimo de Hebreus:

¹ "Portanto, também nós, visto que temos a rodear-nos tão grande nuvem de testemunhas, desembaraçando-nos de todo peso e do pecado que tenazmente nos assedia, corramos, com perseverança, a carreira que nos está proposta, ² olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus, o qual, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia, e está assentado à destra do trono de Deus." Hb 12.

  Todos tenhamos esse sentimento. 

sábado, 14 de setembro de 2024

Sem mágica, faz favor

 ²² "Arrepende-te, pois, da tua maldade e roga ao Senhor; talvez te seja perdoado o intento do coração; ²³ pois vejo que estás em fel de amargura e laço de iniquidade." At 8.

   Se não for pedir muito, ou que traga grande incômodo a seu precioso tempo, estica até a Bíblia e leia Atos 8,14-25. Ah, sim: leia também, paralelo (aprenda e aplique esse costume saudável, Bíblia com Bíblia), At 13,4-12.

  O texto acima é diagnóstico desse entrevero entre Pedro, em sua jornada missionária a Samaria, e Simão, o mágico, assim conhecido. E o paralelo, de Paulo, com outro mágico, desta vez um tal Elimas.

   Muito interessante esse texto, porque muitos "obreiros" da atualidade se encaixam nesse perfil. Devemos ter cuidado com a rotulação, tão fácil de se apor e sempre ao nosso alcance.

   Mas o texto descreve traços marcantes desses manipuladores da fé. Simão cobiçou para si esse talento. Para ele, seria fácil, era só vestir seu discurso com um punhado de terminologia "evangélica".

   Atenção. Estamos lidando, nesse texto, com uma arte e capacidade satânica, por dizer assim, de falsificação. Lembram Paulo Apóstolo aos Gálatas? Não há outro evangelho. Há somente um.

  Mas nós, além da capacidade herdada, como filhos de Adão e Eva que somos, de rotular os outros, fazendo de nós mesmos, como Elimas, "insinuar ser grande coisa", tendemos a aprender, com Satanás, a ser manipuladores.

   Não sejamos ridículos. Satanás nos engana nas mínimas vaidades. Se somos crentes de verdade, há chance de nos tornarmos imunes a elas, caso ouçamos o Espírito.

   Mas se não, seremos iludidos. Não sejamos, nem tente ser manipulador, como esse mágico da história. Não ponha a "terminologia evangélica" ao teu serviço.

   Nem Jesus, nem Satanás se deixam manipular. Este é manipulador por excelência. E se você tentar enganá-lo, sempre vai ocorrer o inverso. Já com Jesus, embora nunca também se deixe manipular, é paciente, misericordioso e perdoa.

   Mas manipulação, com ele, não cola. Há chance de arrependimento. Veja bem, desde o primeiro arrependimento, que é o da conversão, aprendemos a nos arrepender, de novo e de novo, sempre que pecarmos.

  Mas não manipule o arrependimento. Lembre-se da definição dele: ¹⁰ "Porque a tristeza segundo Deus produz arrependimento para a salvação, que a ninguém traz pesar; mas a tristeza do mundo produz morte." 2 Co 7.

   Esse é o autêntico. É Deus quem nos entristece, quem nos sensibiliza para reconhecer o pecado. É o Espírito Santo que convence do pecado. Não existe nem auto e nem alter (pelo outro) convencimento:

⁷ "Mas eu vos digo a verdade: convém-vos que eu vá, porque, se eu não for, o Consolador não virá para vós outros; se, porém, eu for, eu vo-lo enviarei. ⁸ Quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo". Jo 16.

  Por isso, Pedro sugere e intercede pelo seu xará Simão, para que ele deixe de ser mágico e se arrependa. Pelo menos, foi mais condescendente do que Paulo, com outro mágico, desta vez Elimas:

⁹ "Todavia, Saulo, também chamado Paulo, cheio do Espírito Santo, fixando nele os olhos, disse: ¹⁰ Ó filho do diabo, cheio de todo o engano e de toda a malícia, inimigo de toda a justiça, não cessarás de perverter os retos caminhos do Senhor?" At 13.

   Bem, até parecem sócios esses dois. Porque o diagnóstico de um serve bem às intenções do outro. Deixe de ser mágico. Pare de confundir evangelho com magia. Larga essa tua manipulação. Ou vai querer entrar para essa sociedade?

  Bem, se vai manipular de novo, volte ao texto e, pela boca dos dois principais personagens de Atos, Pedro e Paulo, confira o teu diagnóstico.

sexta-feira, 13 de setembro de 2024

Com constrangimento, por favor

14 "Pois o amor de Cristo nos constrange, julgando nós isto: um morreu por todos; logo, todos morreram. 15 E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou." 2 Co 5.

   Ninguém gosta. No mundo de hoje, a não ser quando o interesse é auferir vantagens, ninguém aceita passar por constrangimentos.

   Poderá ser que, por exemplo, pelo dinheiro, sempre haja um preço a sofrer essa desdita. Afinal, gente, trata-se de dinheiro. Sim, a Bíblia fala de amor ao dinheiro: raiz de todos, veja bem, todos os males. 

   Ou valha constrangimento pelo afago ao ego. Oh, o ego! De novo o ego, sempre o ego com sua prioridade, como Satanás lembrou a Jesus, na tentação.

  Literalmente, significa no latim com + stringere, ou seja, com aperto, embaraço, vexame. Ora, talvez seja caso de processo. Para os técnicos no assunto, vai a seguir:

Art. 146 - Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, ou depois de lhe haver reduzido, por qualquer outro meio, a capacidade de resistência, a não fazer o que a lei permite.

   Aqui entra a palavra de Paulo, no grego, que significa comprimir. Algo como "chegar junto", segurando por todos os lados. A ideia é essa mesma, de ficar pouco (ou sem nenhuma) à vontade.

   Mas é assim mesmo. Amor somente é natural e espontâneo em Deus. Porque significa doar, dar-se por inteiro. E nós sempre começamos pelo "quero o meu", "primeiro eu", "eu na frente".

  Claro que aceitamos o evangelho, ora, Jesus morreu por mim, quer dizer, por nós, por cada (mesmo com cacofonia) um. A salvação é individual, repetimos. Eu na frente. E pode deixar que disso (de evangelho) eu entendo. 

   Uma coisa é aceitar o evangelho, outra muito diversa é viver o evangelho, refiro-me ao original. Então o amor vem na frente e só com muito constrangimento, e não pouco, da parte de Deus, com muito aperto, com todo o aperto vamos experimentar.

   Outra fala de Paulo é essa, da dívida. E no original é como se dissesse "nada a ninguém devei". E esse dever, no original, reveste-se de um sentido legal, quer dizer, jurídico, judicial. Trata-se de um superendividamento.

   Deve-se amor a todos. A cada um, na mesma intensidade. Sim. Do mesmo modo que Deus. E sem hipocrisias, por favor. Aparece a palavra hetero, nesse versículo, ou seja, amar a qualquer um. 

   E Paulo acrescenta, como Jesus falou ao "mestre da lei", que isso completa, plenifica tudo o que a lei requer. Lembremos que a lei existe para nos lembrar que, moralmente aleijados que somos, nunca a cumprimos toda.

   E, last, but not least, o amor jamais acaba. Nesse contexto, em 1 Coríntios 13,8, o Apóstolo menciona tudo o que costumamos usar como marca de nossa fútil grandeza.

   Profecias, dom de línguas e ciência já foi muito (continua a ser) marca de vaidade. Status espiritual (caramba, isso existe). Mas têm prazo de validade.

   O amor não. Nesse trecho, o grego amplia, dizendo:  "O amor, objetiva e absolutamente, nunca falha, decai, cai prostrado ou derrotado".

  Viver o evangelho é experimentar o constrangimento divino do amor, superendividado com todos, sem jamais cair frustrado ou prostrado.

   E isso jamais acaba. Ah, sim: refiro-me ao original.

quarta-feira, 11 de setembro de 2024

Deus do povo e povo de Deus

 ¹³ "Agora, pois, se achei graça aos teus olhos, rogo-te que me faças saber neste momento o teu caminho, para que eu te conheça e ache graça aos teus olhos; e considera que esta nação é teu povo. ¹⁴ Respondeu-lhe: A minha presença irá contigo, e eu te darei descanso. ¹⁵ Então, lhe disse Moisés: Se a tua presença não vai comigo, não nos faças subir deste lugar. ¹⁶ Pois como se há de saber que achamos graça aos teus olhos, eu e o teu povo? Não é, porventura, em andares conosco, de maneira que somos separados, eu e o teu povo, de todos os povos da terra?" Ex 33.

   Vamos por etapas: Moisés pede a Deus, com ousadia, uma manifestação dEle fora do padrão de que, pelo menos até ali, ele mesmo fora alvo.

  E afirma que seria como que uma prova, segundo ele diz, de que, verdadeiramente, havia achado graça diante de Deus.

  Então o Altíssimo responde: "A minha presença irá contigo, e eu te darei descanso". Porém, então, Moisés replica, supondo que, talvez, não seguisse com o povo a presença do Senhor.

   Nesta altura, para compreender o texto, é necessário conhecer o contexto. Estamos no meio de uma crise brutal. Havia acabado de ocorrer, no arraial, um confronto entre a tribo de Levi e todas as demais.

  Porque enquanto Moisés estava no monte, para receber as tábuas da lei, os termos da Aliança do Sinai, o povo no arraial, usando a demora dele como pretesto, atirou-se num festival de idolatria, uma verdadeira orgia coletiva.

  Na avaliação dele mesmo, o povo estava desenfreado. Convocou seus irmãos de tribo, enviou-os às suas próprias tendas para pegar das espadas, e ordenou que se atirassem contra as demais tribos.

   O saldo foi a morte de 3.000 mil homens, somente o que bastou para que toda aquela loucura cessasse. Só então eles pararam para ouvir Moisés.

   Deus, em sua sentença, afirmou que não mais seguria no meio do povo, sob risco de que, numa oportunidade dessas ou noutra semelhante, desse cabo de todos eles.

  Então Moisés suplica essas garantias, com sua argumentação. E a mais fantástica vem ao final, quando diz:

¹⁴ "Pois como se há de saber que achamos graça aos teus olhos, eu e o teu povo? Não é, porventura, em andares conosco, de maneira que somos separados, eu e o teu povo, de todos os povos da terra?" Ex 33.

   Só se há de saber que achamos graça aos olhos de Deus pela constatação de que Ele segue conosco, o que nos faz separados, distinguidos como povo de Deus.

  O nome disso é igreja. Deus queria que o povo, no deserto, fosse a congregação do Senhor. Esse povo, desde sua vocação, foi chamado, como numa vitrine, a ser reconhecido, por seus traços de semelhança, povo de Deus.

   Dessa forma o Êxodo já estabelece um padrão, que é a presença de Deus no meio de Seu povo, seguindo com ele e destacando-o como referência, diante de todos os outros povos.

   Israel foi chamado a ser esse povo escolhido. Mas a Bíblia corrige um equívoco, afirmando que não é o DNA, como descendência de Abraão que, automaticamente, define essa geração.

   Mas em Isaque, isto é, pelo milagre e ação de Deus, são chamados descendência de Deus todos os que creem. E creem em Jesus, o descendente por excelência, desde a promessa feita a Abraão.

   Uma crise brutal permite que o diálogo, na relação íntima entre Deus e Moisés, seu servo, defina a identidade, tanto do povo, quanto de Deus que, com ele, segue o rumo.

   Trata-se do povo de Deus. Trata-se do Deus desse povo. Como se há de saber? "Faça-nos saber Teu caminho, para que eu te conheça e alcance graça a Teus olhos."

domingo, 8 de setembro de 2024

Coisas de Pedro - Conhecimento 2 - Parte 5

 O Novo Testamento revela que todo o conhecimento de Deus nos é concedido pela revelação em Jesus Cristo. No final do ministério de Jesus, em suas últimas palavras aos discípulos, uma pergunta de Felipe permite uma afirmação de Jesus que transparece essa realidade:

   ⁸ "Replicou-lhe Filipe: Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta. ⁹ Disse-lhe Jesus: Filipe, há tanto tempo estou convosco, e não me tens conhecido? Quem me vê a mim vê o Pai; como dizes tu: Mostra-nos o Pai?" Jo 14.

  E certamente não seriam os olhos físicos de Felipe que lhe permitiriam ver ou conhecer Jesus e, consequentemente, o Pai. Mas o ver que somente a fé proporciona.

   Teríamos a resposta. Até aqui, concluímos que conhecer o Senhor foi, no Antigo Testamento, um apelo permanente. E continua a ser no Novo Testamento, porém este anuncia que em Jesus se cumpre esse anelo, esse pleno desejo.

   Para ver Jesus: (1) crer nEle, por meio de sua palavra:

³⁵ "Ouvindo Jesus que o tinham expulsado, encontrando-o, lhe perguntou: Crês tu no Filho do Homem? ³⁶ Ele respondeu e disse: Quem é, Senhor, para que eu nele creia? ³⁷ E Jesus lhe disse: Já o tens visto, e é o que fala contigo. ³⁸ Então, afirmou ele: Creio, Senhor; e o adorou." Jo 9

  (2) experimentar, na comunhão da igreja, o conhecimento de Deus:

¹⁶ "... não cesso de dar graças por vós, fazendo menção de vós nas minhas orações, ¹⁷ para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos conceda espírito de sabedoria e de revelação no pleno conhecimento dele, ¹⁸ iluminados os olhos do vosso coração, para saberdes qual é a esperança do seu chamamento, qual a riqueza da glória da sua herança nos santos ¹⁹ e qual a suprema grandeza do seu poder para com os que cremos, segundo a eficácia da força do seu poder; [...] ²² E pôs todas as coisas debaixo dos pés e, para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à igreja, ²³ a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas." Ef 1.

  (3) entender ser a Bíblia, a palavra de Deus, fundamental em todo esse conhecimento:

¹⁶ "Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, ¹⁷ a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra." 2 Tm 3.

   Outros textos há no Novo Testamento que demonstram ser o próprio Jesus, a comunhão como igreja e a palavra de Deus os três principais eixos de crescer no conhecimento de Deus, por meio de Jesus Cristo. 

Por hora, basta compreender esse tripé. Porém podemos lembrar, na carta aos Efésios, a igreja que, segundo revela o Apocalipse, abandonou o amor, o quanto é essencial o conhecimento de Jesus:

 ¹⁷ "... e, assim, habite Cristo no vosso coração, pela fé, estando vós arraigados e alicerçados em amor, ¹⁸ a fim de poderdes compreender, com todos os santos, qual é a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade ¹⁹ e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus." Ef 3.

sexta-feira, 6 de setembro de 2024

O Salmo da palavra

 Curioso, por variadas razões, o Salmo 119, o maior capítulo da Bíblia. Forma um acróstico, ou seja, organiza no começo de cada palavra de um conjunto de 8 versos, todos começados pela mesma letra, as 22 do alfabeto hebraico.

  Faça a conta: 8 X 22 = 176 versículos. E, em cada um deles, aparece a palavra "palavra" e seus diversos equivalentes, como "juízos", testemunhos", "preceitos", "lei" etc.

   Por que esse destaque? Ora, o Salmo pretende demonstrar em que situações práticas do dia a dia a palavra de Deus cumpre, em nosso viver, seu propósito.

  A Bíblia foi inspirada por Deus, por meio do Espírito Santo. Para compreender, é necessário também por esse mesmo Espírito ser iluminado. E para que essa mesma palavra cumpra, no ser humano, o seu propósito, mais uma vez se torna necessária a ação desse mesmo Espírito.

  A finalidade da Bíblia, assim denominada palavra de Deus, não é somente literária oi diletante. Foi escrita para recurso de orientação ao ser humano. Por isso tem um consenso exclusivo de finalidade, entendida como palavra de Deus para esse fim.

   Não se pode julgar infalível em sua compreensão. Por isso que, em nome dela, já se perseguiu e até se matou. Mas também por se acolher seus princípios, foi-se também perseguido.

   Aliás, o próprio Jesus, em nome de quem foi escrita, o mesmo que a referenda, é o personagem principal de sua narrativa, quem ela mesma revela e a quem se refere, todo o tempo, como referencial.

  Jesus é referencial para a Bíblia e esta é referencial para Ele. Jesus, segundo a Bíblia indica, é a "expressão exata de Deus", segundo o autor de Hebreus, "a imagem do Deus invisível", segundo Paulo Apóstolo, "o Verbo (Deus) que se fez carne", segundo João Apóstolo.

   Jesus é a completa e final revelação de Deus. A Bíblia afirma isso. Não é a Bíblia, mas sim Jesus, que revela Deus. O Livro não fala tudo sobre Deus. Mas é suficiente para indicar, de modo preciso e infalível, o que é crer em Deus.

   Não somente crer, mas viver do modo que agrada a Deus, decorrente da fé, reconciliado e em comunhão com Deus. O Livro afirma ser isso possível, por meio de Jesus Cristo, confirmado pela ação do Espírito Santo.

   Pois o Salmo 119, em seu modo peculiar e artístico, descreve esse mosaico de opções de ação da palavra de Deus em quem nela crê. Vale a pena estudar essas opções, refletindo em seus efeitos. 

segunda-feira, 26 de agosto de 2024

"Tu me amas?"

¹⁵ "Depois de terem comido, perguntou Jesus a Simão Pedro: Simão, filho de João, amas-me mais do que estes outros?" Jo 21.

   Triplamente interessante esses texto. Primeiro, pelo fato de João, a quem muito interessa destacar, em Cristo, o amor, tê-lo colocado no final do seu Evangelho.

  Segundo, pela pergunta feita pelo próprio Jesus. Ora, então ele não sabia em que escala ou se, na verdade, havia em Pedro algum amor?

  Terceiro, pela resposta de Pedro. Porque de muito explorada essa passagem, sabemos que Jesus se refere ao amor agape e Pedro responde referindo-se a phileo.

   Agape é o amor autêntico, divino, único que existe. Phileo é o amor humano, seletivo, que escolhe quem "amar", típico da condição humana de repugnância disfarçada. 

   Jesus perguntar, propositadamente, é porque deseja frisar o verdadeiro amor. Aliás, só existe um tipo de amor: qualquer outro é simulacro.

  E o fato de Jesus, como que cobrar, ainda que referindo-se a Pedro, é como se ele (Jesus) perguntasse a todos, a qualquer um de nós: "Cid Mauro (no caso, eu) amas-me mais do que estes outros?".

   Coloque seu nome. A pergunta é para todos e qualquer um. Para ser sinceros (ou sendo hipócritas?), vamos responder como Pedro. Talvez por não haver outra saída.

   Igual aluno matreiro, vamos colar, de Pedro, a resposta. Mas será que no fundo, não achamos, lá no mais recôndito, ou seja, no mais escondido que, na verdade, somos melhores e sim, amamos mais do que os outros?

   Quando Jeeus pergunta "Amas-me?", ele quer ouvir, avaliar e referendar o amor que dEle temos aprendido, reconhecendo que Ele o nutre por nós, que a Ele vamos retornar e com o qual vamos amar a todos, a qualquer um, como Ele ama.

   Por isso João, nessas suas "aulas" sobre amor, nas cartas e no Evangelho, escreve o que segue aqui, abaixo:

²⁰ "Se alguém disser: Amo a Deus, e odiar a seu irmão, é mentiroso; pois aquele que não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê." 1 Jo 4.

   Qualquer sentimento diferente de autêntico amor é simulacro. E tal simulacro será ódio, repugnância, nojo disfarçado. Se não conseguirmos amar do mesmo modo que somos amados por Jesus, não há identidade nossa com ele.

   Jesus é uma personagem histórica. A simples menção de seu nome, pode inspirar vários sentimentos nobres. Aliás, há nas Escrituras um exemplo dessa possibilidade:

¹⁹ "Ele lhes perguntou: Quais? E explicaram: O que aconteceu a Jesus, o Nazareno, que era varão profeta, poderoso em obras e palavras, diante de Deus e de todo o povo". Lc 24.

  Essa fala é de Cleopas, um dos discípulos do caminho de Emaús. Ele relaciona pelo menos três qualidades atribuídas a Jesus: (1) era varão profeta; (2) poderoso em obras e palavras; (3) poderoso diante e Deus e dos homens.

   Ter opiniões elevadas sobre a pessoa de Jesus não torna ninguém de posse do sentimento de Jesus. O que distingue é amar do mesmo modo que Jesus ama.

  Tornar o evangelho uma experiência de milhagem percorrida, como se fossem créditos de uma empresa aérea, ou um conjunto de ortodoxia bem treinada nunca torna alguém autêntico cristão.

   Somente a resposta à pergunta feita a Pedro. Com uma reposta idêntica à de Pedro:

¹⁷ "Pela terceira vez Jesus lhe perguntou: Simão, filho de João, tu me amas? Pedro entristeceu-se por ele lhe ter dito, pela terceira vez: Tu me amas? E respondeu-lhe: Senhor, tu sabes todas as coisas, tu sabes que eu te amo. Jesus lhe disse: Apascenta as minhas ovelhas." Jo 21.

  Jesus sabe que o nosso amor depende do alcance em nós da obra completa que ele realiza. Ele nos batizou em Seu amor. Mas tal sentimento não vai aparecer de modo místico em nossa vida.

   Vamos deixar o simulacro. Muito feia essa hipocrisia. Pode até parecer evangelho, para quem simula ou para quem vê de fora.

  Porém, para o próprio Jesus, sem nenhum efeito. "Tende em vós o mesmo sentimento de Cristo", diz Paulo aos Filipenses em 2,5. "Andai em amor, como também Cristo nos amou", agora aos Efésios, em 5,2.

   "Tu me amas, mas do que estes outros?" Se for simulacro, a reposta será sim. Se for autêntico, teremos de dizer não.

   Preciso, Jesus, do teu amor em mim operante. Para somente então dizer que amo, tanto a Ti, quanto a todos mais, qualquer um. Para quem pensa que é fácil o evangelho autêntico. Ou vive de aparência.