sexta-feira, 2 de agosto de 2024

Infinitamente mais

 ²⁰ "Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós,21 a ele seja a glória, na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre. Amém!" Ef 3.

   Ora, aqui, neste início de texto, é conjunção. Paulo Apóstolo está falando de oração aqui. Então ora (aqui, substantivo comum. Aliás, quanto mais comum orar (aqui é verbo) melhor.

  Mas deixando de lado os trocadilhos, vamos ao comentário. Esse começo com "ora", conjunção, é porque antes Paulo havia falado um dos maiores exageros constantes no texto bíblico.

   E são por esses exageros bíblicos que eu costumo dizer que essa gente que contesta a Bíblia não está com nada. Porque os absurdos dela, segundo eles mesmos atacam, não está exarado nos milagres.

   Mas em afirmações como esta abaixo:
¹⁹ "...e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus." Ef 3.

   Factível, o que acima está escrito? Se for, a Bíblia é válida. Esse é o nível de propostas desse Livro. Aceite-se ou não, creia-se ou não. Esse é o milagre.

  Explicitamente: 1. Conhecer o amor de Cristo; 2. Que excede todo o entendimento; 3. Para que (finalidade) sejais tomados; 4. De toda (completo) a plenitude de Deus (do que ser tomado).

    Por isso a conjunção "ora", usada por Paulo, após esse sublime padrão indicado, como se afirmasse "ainda se espera mais o quê"? E ele diz o quê:

   Deus pode fazer infinitamente mais do que (1) pedimos ou (2) pensamos. Pedir e pensar, aqui, demanda maturidade e ser reflexivo em sabedoria.

   Particularmente eu acredito que Deus ouve e responde todas as nossas orações. Lembrando que "silêncio de Deus" e "não" também são respostas. Portanto, o que pedir? E o que pensar?

   Paulo pede que Deus lhe afaste o misterioso "espinho da carne". Tão grave, que o apóstolo esclarece ser um "mensageiro de Satanás" a esbofeteá-lo.

   Por mais que as metáforas não definam do que se trata, o pedido era grave e plenamente justificável. Mas a resposta de Deus foi não. E essa resposta manteve o espinho, por um lado, sofrimento e, por outro, exaltação na vida do apóstolo.

  Moisés pediu para entrar na terra prometida. De antemão, já havia palavra de Deus de que não entraria. Era só refletir sobre o que pedia. E ouviu de Deus, na forma de uma exortação:

²⁶ "Basta! Não me fales mais nisto." Dt 3.

   Jefté promete a Deus sacrificar quem primeiro lhe saísse ao encontro, caso vencesse  os amonitas. Faltou pensar. O Espírito do Senhor dava-lhe assistência.

   Parece ser o voto de Jefté reflexo de sua insegurança. Silêncio de Deus. Gideão havia demonstrado insegurança, tendo Deus enviado a ele um anjo, que o confrontou com a sua vocação.

   Sobre pedir a Deus, pode haver silêncio, assistência de Deus até mesmo por meio de anjos. Mas nunca saberemos por que o silêncio, assim como por que houve assistência de anjos a um e a outro não.

   Deus fazer infinitamente mais do que pedimos ou pensamos, signfica Ele ouvir todas as orações. Signfica também refletir para somente orar de modo inteligente. E também signfica que, ainda que não peçamos e nem pensemos, Deus pode fazer infinitamente mais.

sexta-feira, 26 de julho de 2024

Entrevista com Pedro, o pescador

   Pedro. Pedro, não é? Simão. Mais propriamente Simão. Pedro foi o apelido com que ele me batizou, falou, ele mesmo rindo do trocadilho ocasional.

   Jesus? Sim, o Nazareno, como também foi conhecido, entre muitos outros nomes. Sei, sim. Mas, por favor, fale resumidamente, como você o chamaria, mais especificamente?

  Autor da vida. Riu, novamente. Eu o chamaria, definitivamente, Autor da vida. Ele mudou minha vida. Aliás, com ele, o lago de Genesaré nunca mais foi o mesmo.

  Enfim, a Galileia toda. A gente passou a entender por que Isaías, o profeta, a ela assim se referia:

¹ "Mas para a terra que estava aflita não continuará a obscuridade. Deus, nos primeiros tempos, tornou desprezível a terra de Zebulom e a terra de Naftali; mas, nos últimos, tornará glorioso o caminho do mar, além do Jordão, Galileia dos gentios. ² O povo que andava em trevas viu grande luz, e aos que viviam na região da sombra da morte, resplandeceu-lhes a luz."

   Desculpe a citação assim demorada. Esse texto eu decorei. Riu, novamente. Lindo texto. Muito lindo. Como se, de novo, como diz o Gênesis "Haja luz", então houvesse luz.

   Exatamente assim, confirmou Pedro. Diga como foi o seu encontro com ele? Inesquecível. A gente era pescador. A vida toda. Por isso que digo que ele é o Autor da vida.

   Mudou a nossa e a vida de muitos, em nossa colônia de pescadores. Quer dizer, quem dera fossem todos assim atingidos. Mas quantos quiseram, assim o foi.

   Ele apareceu um dia, numa manhã, mais cedo do que esperado, mais cedo do que ninguém que não fosse pescador estivesse por aqui. A gente estava exausto. Exaurido, completamente.

   João estava conosco. Aliás, era o barco do pai dele, Zebedeu. Ele era o dono da embarcação e da própria licença de pesca. Eu e meu irmão André, a gente trabalhava com eles.

   Quem é aquele estranho, a essa hora, pela praia? Olhei. Ele vinha andando, pela beirada, e já estava divisando a gente. Foi quando de lá, gritou: Ei! Aí vocês, no barco: como foi a pesca?

  Péssima, eu gritei. E olhei para João, como meio que contrariado, dizendo com o olhar, "Ora, bolas, afinal, o que que esse estranho tem a ver com isso? Mas João nada falou.

   Nesse meio tempo, encostamos, já empunhando as redes, para descer do barco e lavar. Mas ele veio ao nosso encontro, descalço, com as sandálias nas mãos, fazendo menção de entrar no barco.

   A gente se olhou. Tiago, o irmão de João, reconheceu-o e disse para nós, Gente, esse é Jesus, o filho do carpinteiro José, de Nazaré. Todos nos entreolhanos e olhamos todos para ele. Ele sorria. Eu nunca havia visto um sorriso daqueles.

   Aqui Pedro se emocionou, ao recordar aquele sorriso. Quer dizer, isso agora. Porque no dia, eu já estava ficando nervoso com aquela intromissão. Foi quando a cousa piorou.

  Ele disse, Gente, vamos dar meia volta. Todo mundo parou o que estava fazendo, mais uma vez nos entreolhamos e João, que já me conhecia, de velho, com os olhos, como que me dizendo: "Pedro, se segura".

   Quase que eu dizia, com todo o respeito, Mas, Mestre, para que isso? Estamos chegando. Passamos a noite inteirinha no lago. Não pegamos nada. Será que o Senhor quer passear, a essa hora do dia?

   Mas o que saiu, foi:
⁵ "Mestre, havendo trabalhado toda a noite, nada apanhamos, mas sob a tua palavra lançarei as redes." Lc 5

  Ele disse assim, Isso, podem jogar assim, para aquele lado. Caramba! Pedro agora sorri, mas misturando emoção, riso e lágrimas quando se lembra. Porque no dia, eu olhei de novo, para João, como que a dizer:

   João, cara, o que esse estranho, esse carpinteiro sabe de jogar redes. E depois de uma noite insana dessas? João como que, com gestos, sem palavra nenhuma, fez cena, como que dizendo, numa careta que fez, Joga, Pedro: ele não está mandando?

   Eu me ergui, empunhando as redes com que eu já estava, desde que pensei que iria descer, escorei-me, um pé de apoio no soalho do barco, outro pé na amurada, ladeei os braços para um lado, completei um meio giro e lancei, para o alto, as redes.

   Elas rodopiaram no ar, a bombordo, para o lado bom, como se diz, arquearam-se e caíram circulares, bem do melhor modo, eu acompanhava. Então, olhei para ele, com cara de velho Pedro. Rabugento e incrédulo.

   Até hoje, quando lembram, riem de mim. Oh sujeito bom pra bullying que nem eu, não há outro. Depois eu te conto a noite do fantasma, como a gente diz, quando quase me afoguei. Mas isso é outra história, ele disse, fazendo com a mão sinal de espera.

   A corda guia estava no meu braço. Eu nunca mais vou esquecer. Senti um empuxo. Arregalei olhos, cambaleei, aloprei, se não fosse André, eu me bandeava dentro d'água. Ele me amparou. Escorou o cotovelo em meu peito, para eu me equilibrar, e já distendeu a guia, nós dois juntos, aferrados nela. 

    Começamos eu e ele a puxar. Ajuda todo mundo, eu gritei. E todos eram só todas as mãos. João e Tiago já estavam agachados no barco. E já amarravam as cordas nos grampos da amurada.

   Alguém, acho até que foi Tiago mesmo, ou Natanael, que estava conosco, Ajuda, Ajuda, acode, rápido, acenando para quem estava na praia. Eles avistaram, Natanael acenava, com ênfase, Vamos, vamos, porque o barco pendia, tanta era a força de tanto peixe.

   Vieram logo duas embarcações, ao nosso encontro. Em nossa direção, assim, mostrava Pedro, gesticulando, com as duas mãos em paralelo, revendo a cena.

   Nesa hora eu olhei para Jesus. Ele riu para mim. Levantou-se da amurada, amparou ao nosso lado, no soalho do barco. Então enlaçou, com aquele braço dele, de carpinteiro, o grosso de nossa corda.

   Também tinha mãos grandes e calejadas. Empunhou a corda. Fez como que uma alavanca, com seu próprio corpo, sorriu. Eu sentia um misto de, sei lá, alívio, com ele ali, prazer, mas um certo incômodo, porque eu havia sido contrariado, ora.

   Mas o que me inundava era uma paz, só dele estar ali, no barco, sorrindo para mim. Não era ironia. Ele ampliou o sorriso. Agora todos os olhos estavam nele. Então, ele disse: Vou fazer de todos vocês pescadores de homens.

   Eu senti como se me fosse afrouxar, naquela hora. Tremi e me assustei tanto, que enlacei, com os dois braços, aquela corda. Segura, Pedro, ele disse. Quem riu, meio que sem graça, naquela hora, fui eu.

   Nessa hora os barcos já encostavam. E Pedro, nessa hora, agora, nessa altura de seu depoimento, estava era emocionado, passando pelo rosto e pelos olhos as mãos de pescador.

   Minha vida nunca mais foi a mesma. Autor da vida, Pedro, como você o chamou. Sim, Autor da vida.

quinta-feira, 25 de julho de 2024

Ao entardecer, um convite

 ⁵ "Houve tarde e manhã, o primeiro dia." Gn 1.

   Interessante pensar, mesmo sem entender, como Deus, um ser eterno, agenda os dias da criação. E, artesanalmente, compõe tudo o que, a cada dia, criou, avaliando, ao final, como muito bom.

   Pensar como Deus instaura a história, para que nela a existência humana possa se desenrolar, e o modo como Ele mesmo planeja entrar nessa história, limitar-Se na sequência do tempo, entre outras limitações, tornando-se homem.

  Bem, já que estamos olhando para essa cena daqui, projetando nossa visão a partir da narrativa bíblica do Gênesis, já sabemos que a ideia surpreendente de Deus se fazer homem em Jesus Cristo é que assinala essa entrada na história, na existência e no tempo.

   Aqui somos nós pensando. No Gênesis, trata-se da narrativa de Deus pensando. Deus reflete, planeja e executa. Ele planeja a história, estabelece o tempo, reflete sobre a criação e a executa. E a cada dia, a cada tarde que declina, Deus pensa.

   Ora, mas será que Deus pensa? Como se daria que um Ser eterno, Onisciente, ou seja, que tudo sempre sabe, detenha-se no pensar? Haveria, então, para ele, essa pausa do entardecer? Para Deus, haveria "tarde, manhã, o primeiro dia", isto é, o decorrer dos dias?

   Deus pensa conosco? E nós, por acaso, pensamos com Deus? Há um mediador desse pensamento, para que possamos conhecer o que Deus pensa e para que o próprio Deus conheça a expressividade do que pensamos.

   A Bíblia diz que esse "parácleto", o que caminha junto, ao lado, intermedeia, exerce mentoria, aconselha tem nome. Há um poema, em Provérbios, no qual a Sabedoria insinua-se como essencial para que Deus se conduzisse, em sua criação, com efeito positivo e perfeito.

    E o poema faz este apelo:

³² "Agora, pois, filhos, ouvi-me,  porque felizes serão os que guardarem os meus caminhos. ³³ Ouvi o ensino, sede sábios e não o rejeiteis. ³⁴ Feliz o homem que me dá ouvidos, velando dia a dia às minhas portas, esperando às ombreiras da minha entrada. ³⁵ Porque o que me acha acha a vida e alcança favor do Senhor. ³⁶ Mas o que peca contra mim violenta a própria alma. Todos os que me aborrecem amam a morte." Pv 8 

   Assim, percebemos como somos convidados a refletir sobre o que Deus pensa, do mesmo modo que interessa a Deus pensar sobre como nos sentimos como seres humanos. Ora, então, Deus se autoconvida a ser homem, enquanto nos convida a ser com Ele.

   Deus pensa. Enquanto a tarde declina, a cada dia que se encerra, como se Deus se despedisse com gratidão desse dia ido, consciente de que Sua obra feita, dia a dia, conduziu-se a bom termo, e decorre o tempo, necessário para que Ele conduza a termo sua obra. 

   Como o próprio Jesus afirma:

17 "

E Jesus lhes respondeu: Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também." Jo 5.

  E o autor de Hebreus aborda essa obra de Deus. Ele afirma como Deus a conduz e como nela Se conduz. Destaca que somos dela participantes e, de certa forma, isso nos traz descanso.

³ "Nós, porém, que cremos, entramos no descanso [...] Embora, certamente, as obras estivessem concluídas desde a fundação do mundo. [...] ⁷ de novo, determina certo dia [...] Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração." Hb 4.

   Eu lembro, nas várias viagens feitas entre Rio Branco, Acre, e o outro, o Rio de Janeiro, cerca de 4100 km, o entardecer na estrada. Era sempre um momento de alerta e reflexão. Porque, não mais totalmente dia e bem plenamente noite, os faróis devem ser acendidos, mas não vão iluminar o suficiente.

   Há beleza no céu, quanto à despedida do sol, que declina em mais um dia. Mesmo ao volante, alerta e mais atento, ainda porque todo o cansaço do dia se acumula, tudo então convidava à reflexão. Sempre havia esse momento, nem luz plena, nem trevas advindas, um átimo de reflexão.

    Lembrei Immanuel Kant, um filósofo, não porque o conheça tanto, mas porque ele procura, em sua tarefa, depurar a razão, propor lucidez ao pensar. E coloquei seu nome completo porque, ironicamente, seu nome, segundo menciona Isaías, o profeta, signfica "Deus conosco".

   Paulo afirma que, pelo Espírito Santo, temos a "mente de Cristo". Tudo pelo esforço de pensar como Deus pensa. Pensar junto com Deus, em comunhão com Deus. Enquanto não termina o nosso dia. 

terça-feira, 23 de julho de 2024

Faça a Prova Real

  Tempos idos. Lá na década de 60, do século passado, eu cursei o Primário. E isso me persegue até hoje. Porque me tornou um desajustado no contexto atual da educação.

   A professorinha da 1ª série, ainda no Instituto Filgueiras, ensinava a Prova dos 9 e a Prova Real. Ambas no contexto da matemática, ensinando o aluno a conferir resultados de contas nas quatro operações.

   A Prova dos 9 era falha. Dave certo num montão de tentativas, mas a professorinha sempre mostrava a contraprova: havia pelo menos um exemplo em que falhava.

   Então, a famosa prova dos "nove fora, nada" pelo menos naquele exemplo, falhava. Portanto, não servia para garantir que as operações matemáticas estivessem corretas. E, em matemática, se falha numa, não serve mais para nenhuma.

   Então vinha a Prova Real. Nunca falhava. Porque baseava-se num outro princípio matemático. Para cada operação, havia o seu inverso exato. Bastava, então, inverter a operação e zerar o resultado.

    Sempre equivalia. 2 + 2 = 4, porque 4 - 2 é igual a 2. 4 ÷ 2 = 2, porque sempre 2 X 2 = 4. A Prova Real nos salva. Não sejamos cristãos Prova do Nove. Porque, como dizia meu pai, usando uma sua expressão: sem ir pela vida afora fazendo a Prova dos Nove.

   Numa hora dessas, "noves fora, nada". Vamos duvidar até da nossa "fé". Então, não use a sua "fé". É Fake. Use, como diz Judas, a fé que é de Jesus:

³  "... exortando-vos a batalhardes, diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos." Jd 1.

     Uma vez entregue aos santos, aqui referidos os que creem, trata-se da fé autêntica, da qual Jesus é autor e Consumador:

² "...olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus". Hb 12.

   Trata-se da fé genuína. Caso tenha ocorrido ouvir a palavra de Deus, nela crendo, essa fé autêntica faz efeito:

¹³ "...em quem também vós, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados com o Santo Espírito da promessa". Ef 1.

   Caso não tenha atendido å palavra de Deus:

² "...mas a palavra que ouviram não lhes aproveitou, visto não ter sido acompanhada pela fé naqueles que a ouviram." Hb 4.

   A fé autêntica, promovida pela pregação do evangelho, uma vez acolhida, converte. Prova Real. Paulo adverte aos Coríntios:

⁵ "Examinai-vos a vós mesmos se realmente estais na fé; provai-vos a vós mesmos. Ou não reconheceis que Jesus Cristo está em vós? Se não é que já estais reprovados." 2 Co 13.

   Não faça a Prova dos 9, porque não autentica: noves fora, nada. Faça a Prova Real. Como na matemática do curso Primário, nunca falha.

sexta-feira, 19 de julho de 2024

Coisas em Pedro - Virtude - Parte 4

 ⁵ "...por isso mesmo, vós, reunindo toda a vossa diligência, associai com a vossa fé a virtude". 2 Pe 1.

   Virtude, "toda a essência como pessoa", significa o arrimo moral completo, no contexto bíblico, de quem foi resgatado da condição do pecado, proveniente de uma vida sem Cristo.  

   Mas caso ainda não tenha experimentado essa condição, Paulo, aos Efésios, descreve 4 (quatro) características de alguém não convertido: (1) sem Cristo; (2) separado, afastado da comunhão como igreja; (3) estranho às promessas da palavra de Deus, a Bíblia; (4) sem nenhuma esperança, ou seja, sem raízes em Cristo; (5) sem Deus no mundo. Ef 2,11-12.

   Diligência (σπουδην - no grego spuden), neste texto de 2 Pedro, está intensificada por (παρεισενεγκαντες - pareissenegatês) trazida consigo e (επιχορηγησατε - epirrorigssatê) ricamente suprida.

  Portanto, na tradução, o termo diligência (interesse ou cuidado aplicado na execução de uma tarefa) está modificado pela indicação de reunindo (ricamente suprida) toda a vossa (trazida consigo) virtude.

  Há duas preposições παρα (ao lado de) e επι (por cima de), na formação desses vocábulos agregados a "diligência". Portanto, será algo sempre paralelo, permanente, e acima, ou seja, que supre, sobrevem de cima.

   Verifica-se, além de ser concedida, uma iniciativa de quem a recebe. Essa diligência passa a existir nessa vida de fé. Por isso, Pedro coloca a fé como primeiro passo, esclarecendo que a virtude vem com ela, como continuidade e a ela agregada, associada agora na vida do novo convertido.

   Virtude (αρετην, areten, no grego) vai gerar virtus (latim) e virtude (em português). Em sentido geral, signfica força viril (do ser), porém num sentido amplo, que envolve força moral, social e intelectual.

   Portanto, aplicado ao princípio cristão, a nova (καινη, kainê) criatura (κτισις, ktissis), ou seja, o novo convertido tem, como fruto da conversão, a concreta possibilidade de agir por plena virtude moral em suas escolhas.

   Uma nova moral tem lugar na vida daquele verdadeiramente convertido, agora (re)educado e predisposto a rejeitar tudo da antiga vida:

¹¹ "Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens, ¹² educando-nos para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos, no presente século, sensata, justa e piedosamente". Tito 2

   E ainda, esse mesmo Espírito regenera (gera uma nova vida) e renova (torna nova) a existência:

⁴ "Quando, porém, se manifestou a benignidade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor para com todos, ⁵ não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo sua misericórdia, ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo". Tito 4.

   Haverá outros textos bíblicos que mencionam demais aspectos da modificação do caráter, na ascensão moral a que o novo convertido é chamado.

   E o que lhe dá origem é uma educação para se renegar a herança anterior à conversão, que não sai instantaneamente de nossa vida, porque há vícios e maus hábitos entranhados carentes de enfrentamento. 

   E tal procedência e proceder virtuoso é por ação do Espírito Santo, aqui indicado como quem proporciona ao cristão um lavar regenerador e renovador. Signficam dois aspectos:

1. Ser regenerado é ter nascido de novo;
2. Ser renovado é ser tornado novo.

   Somente válido para quem experimenta verdadeira conversão e tem em si, atuante, o poder do Espírito Santo.

    E Paulo, aos Efésios, indica a medida como, no contexto da igreja, uma vez bem articulada e consolidada, promove o crescimento de si mesma e de cada membro, per si, na comunhão do corpo de Cristo:

   ¹³ "...até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo". Ef 4.

  As medidas são: (1) unidade da fé: efeitos somente agregados em comunhão; (2) pleno conhecimento: concedido pelo Espírito desde a conversão; (3) perfeita varonilidade: resgate da condição pervertida do pecado para a imagem e semelhança originais de Deus; (4) medida: perfeição de Jesus, plenificados no Espírito Santo.

   Pela fé, inicia-se uma vida plena em Jesus, gerada e aperfeiçoada no Espírito, razão por que, associada à fé, floresce, no crente, a virtude desse mesmo Espírito. Por meio dela, efetua-se, como afirma o mesmo apóstolo Paulo, seu próprio crescimento em amor:

¹⁵ "Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, ¹⁶ de quem todo o corpo, bem-ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor." Ef 4.

quarta-feira, 17 de julho de 2024

Coisas em Pedro - Fé - Parte 3

 ⁵ "... por isso mesmo, vós, reunindo toda a vossa diligência, associai com a vossa fé a virtude". 2 Pe 1.


   Pedro inicia com a fé. Aliás, tudo inicia pela fé. É o autor da carta aos Hebreus que ensina:

⁶ "De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam." Hb 11.

  E é pela fé, e somente por fé que somos justificados:

¹ "Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo". Rm 5.

   E o próprio Abraão foi justificado por fé:

³ "Pois que diz a Escritura? Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça." Rm 4.

   E essa fé é dom de Deus: ⁸ "Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus", Ef 2, tendo o próprio Jesus como Autor e Consumador: ² "...olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus". Hb 12.

   E o veículo da fé é a palavra de Deus:

¹⁷ "E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo." Rm 10.

   Porém, mesmo a prontidão dessa pregação pode não fazer efeito em quem ouve, não pela palavra em si, mas pela ausência ou anulação dos efeitos da fé em quem ouve:

²  "...mas a palavra que ouviram não lhes aproveitou, visto não ter sido acompanhada pela fé naqueles que a ouviram." Hb 4.

  E pela fé andamos, passo a passo, de fé em fé, como menciona Habacuque: (citado por Paulo):

   ¹⁷ "...visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: o justo viverá por fé." Rm 1.

   E de novo Paulo, aos Gálatas, esclarece como andar por fé:

²⁰ "...logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim." Gl 2.

   E tão lúcida e refinada é essa opção de viver por fé, que Paulo define como pecado tudo o que não provém de fé:

²³ "...e tudo o que não provém de fé é pecado." Rm 4.

  E na parábola, o próprio Jesus ensina que a fé não tem tamanho porque, se for, comparativamente, do tamanho do grão de mostarda, o menor entre as hortaliças, tudo vai poder:

  ⁵ "Se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a esta amoreira: Arranca-te e transplanta-te no mar; e ela vos obedecerá." Lc 17.

  Essa é a primeira coisa de Pedro. Por ela temos acesso à graça de Deus:

² "...por intermédio de quem (Jesus) obtivemos igualmente acesso, pela fé, a esta graça na qual estamos firmes; e gloriamo-nos na esperança da glória de Deus." Rm 5.

  Quem primeiro prega o evangelho é o próprio Jesus, afirmando ser necessário exercer fé:

   ¹⁴ "Depois de João ter sido preso, foi Jesus para a Galileia, pregando o evangelho de Deus, ¹⁵ dizendo: O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho." Mc 1.

   E é o apóstolo Paulo quem também indica essa mesma necessidade:

¹³ "...em quem também vós, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados com o Santo Espírito da promessa". Ef 1.

   Pois siga o itinerário acima que esclarece sobre a autenticidade, origem, autoria e função da fé. Porta de entrada, por meio do conteúdo do evangelho, na vida em Jesus.

   Fiel é a palavra de Deus, acerca do evangelho de Jesus, consumado na cruz, ao alcance por meio da fé nessa mesma palavra: porque a fé nos vem pela palavra de Cristo.

segunda-feira, 15 de julho de 2024

Coisas em Pedro - Parte 2

   Coparticipação signfica "o que ter em comum com Deus". Essa relação de coisas, primeiramente tem, em comum, ser todas elas concedidas por Deus.

   Em segundo lugar, complementares, ou seja, sequenciais e cumulativas. Caso não identificada uma delas, todas as outras não existem ou são pura simulação.

  E terceiro, não são opcionais. Fazem parte da identidade cristã. Por isso Pedro diz algumas coisas (para usar a palavra) sobre elas:

1. ⁴ "livrando-vos da corrupção das paixões que há no mundo" 2 Pe 1 - somente agindo em conjunto, livram das paixões mundanas. Ei, preste atenção: cuidado para não pensar que o mundo está "lá fora". Pode estar mais dentro de nós do que pensamos...

2. ⁸ "Porque estas coisas, existindo em vós e em vós aumentando, fazem com que não sejais nem inativos, nem infrutuosos no pleno conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo." 2 Pe 1 - conscientemente, acho que são duas coisas (de novo) que não queremos: não inativo e não ser infrutuoso. Não confunda "ativismo" como alternativa, que é quando consideramos uma vida cristã omissa e meia-sola como bastante.

3. ⁹ "Pois aquele a quem estas coisas não estão presentes é cego, vendo só o que está perto, esquecido da purificação dos seus pecados de outrora." 2 Pe 1 - mais um efeito da ausência dessas coisas de Pedro é que, sem elas, cheiramos a cadáver, ao invés de ter o perfume de Cristo (ver 2 Co 2,14-16), ou seja, mantemos em nós "pecados de estimação".

4. ¹⁰ "Por isso, irmãos, procurai, com diligência cada vez maior, confirmar a vossa vocação e eleição; porquanto, procedendo assim, não tropeçareis em tempo algum." 2 Pe 1 - essa associação processual, a que Pedro denomina "coisas" confirmam, autenticam nossa vocação e eleição cristãs. E previnem tropeços, ou seja, recaídas.

5. ¹¹ "Pois desta maneira é que vos será amplamente suprida a entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo." 2 Pe 1 - Puxa, quem não deseja isso? Lembra a fala de Jesus: "Bem está, servo bom e fiel" (Mt 25,21). Ampla entrada no reino e plenamente suprida. Não existe realização maior. (SEGUE)