quarta-feira, 9 de outubro de 2024

Hoy, um grito de lamento

 Hoy. Na estampa acima, transliterado para o português, está a palavra hebraica para "Ai". Sim, isso mesmo, nosso "ai" como expressão de dor.

  No hebraico a pronúncia assemelha ao /rói/, do nosso verbo "roer", dito com um /r/ suave. Hoy também refere-se ao gênero lamento, quando qualquer situação suscita esse sentimento.

  Lembre-se de que, no hebraico, a escrita e, consequentemente, a leitura se dá a partir da direita para a esquerda, ao contrário de nosso sentido ocidental.

  Profetas costumam proferir um Hoy ao constatar que a palavra que trazem não encontrará, nos ouvintes, o objetivo aprazado.

   O autor anônimo de Hebreus destaca como é triste que a palavra de Deus anunciada e ouvida não seja acompanhada por fé nos que ouvem:

²  "Porque também a nós foram anunciadas as boas-novas, como se deu com eles; mas a palavra que ouviram não lhes aproveitou, visto não ter sido acompanhada pela fé naqueles que a ouviram." Hb 4.

  Jeremias, por exemplo, escreveu um livro inteiro de poemas que retrataram a maior calamidade enfrentada pelo povo de Israel, como se fosse seu "Êxodo ao inverso": a perda da terra, do rei e do Templo.

   Jeremias, entre outros profetas, era poeta e consta, no livro de 2 Crônicas, que escreveu uma Qinah, ou seja, uma lamentação por ocasião da morte de Josias, o último rei de Israel fiel em sua fé ao Senhor: 

²⁵ "Jeremias compôs uma lamentação sobre Josias; e todos os cantores e cantoras, nas suas lamentações, se têm referido a Josias, até ao dia de hoje; porque as deram por prática em Israel, e estão escritas no Livro de Lamentações. 2 Cr.

  Vejam bem: esse livro acima mencionado, como tradução do hebraico, não se refere às Lamentações de Jeremias. Muito infelizmente esse célebre poema dedicado a Josias não está nelas registrado.

  O tamanho do lamento foi proporcional ao tamanho da personagem, o vazio que deixou, expresso na lamentação escrita por outro grande daquele tempo, o profeta Jeremias.

   Quantos Hoy soam, de uma só vez, mundo afora. Como seria diferente quanto mais houvesse na humanidade quantos dessem ouvidos à palavra de Deus. Quatro filhos de Josias reinaram depois dele.

   Dois deles, Jeioaquim e Zedequias, por 11 anos. Salum e Joaquim, por apenas 3 meses. Um deles levado cativo ao Egito. O outro levado cativo à Babilônia.

  Nenhum deles, como o pai, segundo avaliou Jeremias, praticou "juízo e justiça", com bem fez o pai deles Josias. Lamenta-se e também se chora por sede de justiça.

   Certa vez Josias, ao ouvir as palavras do Livro da Lei de Moisés, a Bíblia de seu tempo, lido em presença de Hulda, a profetisa, chorou:

²⁷ "Porquanto o teu coração se enterneceu, e te humilhaste perante Deus, quando ouviste as suas ameaças contra este lugar e contra os seus moradores, e te humilhaste perante mim, e rasgaste as tuas vestes, e choraste perante mim, também eu te ouvi, diz o Senhor." 2 Cr 34.

    Jesus também, certo dia, chorou desejando que Jerusalém experimentasse paz:
⁴¹ Quando ia chegando, [Jesus] vendo a cidade, chorou ⁴² e dizia: Ah! Se conheceras por ti mesma, ainda hoje, o que é devido à paz! Mas isto está agora oculto aos teus olhos." Lc 19.

   E Tiago entendeu isso, quando escreveu:
¹⁸ "Ora, é em paz que se semeia o fruto da justiça, para os que promovem a paz." Tg 3.

   Sim, bem-avenrurado quem chora por fome e sede de justiça. Jesus sempre teve apurado o senso de justiça. E a justiça vem pela fé. E a fé vem pelo ouvir.

   E como, nesse mundo tão cansado, a toda hora ecoa um legítimo lamento, ouve-se um Hoy por não ser a palavra de Deus acompanhada por fé naqueles que a ouvem.

Presta atenção, Asafe.

   E qual não foi a surpresa, para mim e Edson, ao saber que havia um affair entre nossos filhos. E não era qualquer coisa comum. A gente sabia da responsabilidade deles.

  Que nos surpreenderam. Entre essa distância que há, de um lado, a orientação que damos e, do outro, o que eles mesmos conversam, brota amor. Porque todo esse contexto favorece.

  Amor tem uma única origem. E somente pode ser cultivado de um modo. E se coloca acima de qualquer manipulação humana. Porque, como dádiva aos homens e mulheres, é agir de Deus.

   Amor não se usurpa. Se tentarmos tomar como nosso, propriedade sua, perverte-se, deixa de ser doação, passa a ser egocentrismo. Não somos donos do amor.

  Não pagamos o preço do amor. O mesmo poder que concede o amor, é o que enfrenta e derrota tudo o que se levanta contra. Esse poder derrota, definitivamente, o não amor.

   Sejamos humildes em reconhecer. Amor é o bem do qual somos alvo e, continuamente, aprendizes. Uma vez que ponhamos em prática, será um marca nossa que vai alcançar todos à volta.

   Existe amor e todas as suas manifestações. Não se pode escolher, por exemplo, uma só pessoa que amar. Ou concentrar algo que se pretende ser amor a um só grupo de interesse.

  Amor pros mesmos. Isso não existe. Não é verdadeiro. Com amor, ou melhor, pelo amor, amamos pai e mãe, irmão e irmã, família, amigos, mas pode incluir na lista inimigos, irmão e irmã de outros, outras famílias, gente estranha, gente desconhecida.

   Amor aprende-se. Não eleja um que mais amar. Mas compreenda, no amor, o lugar de cada um. Porque a intensidade do amor sempre será a mesma, para que o efeito em cada um seja igual.

  Pense no amor de Deus. Com que intensidade ele ama. Ama igual a cada um. Num único ato, provou seu amor, concentrando no Filho a dádiva única que promove e até prova o amor.

   Deus não precisa provar que ama. Mas num ato, proveu de amor a quem assim o desejar. Há uma sede de amor em todo ser humano, muitas vezes não reconhecida.

  Mas os que entendem que, na cruz, a mais violenta ofensa, nela todo amor foi manifesto e toda a possibilidade dele foi suprida, saem desse encontro para viver amor.

   Um dia, filha de Edson e Aldione, com filho de Cid Mauro e Regina, resolveram conferir juntos o que Deus reservava para eles, no amor. Aprendizes de amor, começaram a construir juntos sua vida.


  Havia uma escola dessa mesma história, anos atrás, quando pais e mães, sogros e sogras eram namorados. Uma escola de amor. Presta atenção, Asafe. Com esses teus olhinhos tão nítidos. Essa tua atenção tão concentrada. Para você, as aulas já começaram.



sábado, 5 de outubro de 2024

Evangelho de Deus - Carta aos Gálatas 2

 Não há outro evangelho. Paulo, aos Gálatas, vai fundamentar essa afirmação. Vai demonstrar, em síntese, como escreverá aos Romanos, por que evangelho é "poder de Deus".

⁷ "... o qual não é outro (evangelho), senão que há alguns que vos perturbam e querem perverter o evangelho de Cristo." Gl 1.

  Provém de Deus, como dádiva, por Sua graça. É legitimado por ação do Espírito Santo. Temos acesso a ele pela fé. Nesta carta, Paulo explicita os efeitos da fé em sua vida.

² "... Quero apenas saber isto de vós: recebestes o Espírito pelas obras da lei ou pela pregação da fé? ³ Sois assim insensatos que, tendo começado no Espírito, estejais, agora, vos aperfeiçoando na carne?" Gl 3.

  Espõe-se como modelo de conversão. Não teria autoridade de discorrer sobre o evangelho, se nele mesmo não se houvesse operado esse milagre do poder de Deus.

¹⁹ "Porque eu, mediante a própria lei, morri para a lei, a fim de viver para Deus. Estou crucificado com Cristo; ²⁰ logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim." Gl 2.

  O evangelho não é: um conjunto de ideias plenas de virtude que assumimos como nossas; não é um acessório de vaidade pessoal, manipulado por nós para idolatria do ego.

  E também não consta de um aparato doutrinário, valendo como opção religiosa, compreendido e praticado por escolha aleatória.

   Tem origem em Deus, como resultado da ação de Deus, ao qual somos chamados por fé e para experimentar, em nossa vida, o poder de Deus. Enquanto historia, com detalhes, aos Gálatas, Paulo faz uma síntese a Timóteo:
¹² "Sou grato para com aquele que me fortaleceu, Cristo Jesus, nosso Senhor, que me considerou fiel, designando-me para o ministério, ¹³ a mim, que, noutro tempo, era blasfemo, e perseguidor, e insolente. Mas obtive misericórdia, pois o fiz na ignorância, na incredulidade." 1 Tm 1.

   Ele também assinala a origem, tanto do evangelho, quanto da autoridade dele em anunciar: Gl 1:
¹⁰ "Porventura, procuro eu, agora, o favor dos homens ou o de Deus? Ou procuro agradar a homens? Se agradasse ainda a homens, não seria servo de Cristo. ¹¹ Faço-vos, porém, saber, irmãos, que o evangelho por mim anunciado não é segundo o homem, ¹² porque eu não o recebi, nem o aprendi de homem algum, mas mediante revelação de Jesus Cristo."

   Jesus, o primeiro a anunciar o evangelho, quando o faz, segundo indica o evangelista Marcos, é na Galileia. E o evangelista denomina como o "evangelho de Deus":
¹⁴ "Depois de João ter sido preso, foi Jesus para a Galileia, pregando o evangelho de Deus, ¹⁵ dizendo: O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho." Mc 1.

   Sim, trata-se do evangelho de Deus. Tem Jesus Cristo, o Filho, como garantia. É dádiva da graça de Deus. E garantido pelo ministério do Espírito, que nos faz entender e atender o anúncio, e permanentemente habita no que crer:
¹³ "... em quem também vós, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados com o Santo Espírito da promessa; ¹⁴ o qual é o penhor da nossa herança, até ao resgate da sua propriedade, em louvor da sua glória." Ef 1.

sexta-feira, 4 de outubro de 2024

Obadias: o profeta do sentimento ruim (ou um diálogo entre Obadias e Paulo)

 Especialista no assunto, o profeta Obadias denuncia esse sentimento que tentamos, tão polidamente, disfarçar mas que, pela ação do Espírito que nos faz nus, sistematicamente despidos do velho homem (ou mulher, para elas), torna-se explícito.

¹² "Mas tu não devias ter olhado com prazer para o dia de teu irmão, o dia da sua calamidade; nem ter-te alegrado sobre os filhos de Judá, no dia da sua ruína; nem ter falado de boca cheia, no dia da angústia". Obadias.

  Trata-se do menor livro do Antigo Testamento, uma aguda percepção, de um sentimento bem escondido, de que todos nós humanos privamos e que, somente com muito suprimento e exercício espiritual intenso podemos enfrentar.

  Aí acima, onde está escrito Judá, talvez pudéssemos apor o nome de nosso desafeto. Quem sabe até já tenhamos descoberto nele uma desqualificação qualquer, que ansiosamente buscávamos, para que esse nosso desdém por ele tivesse uma justificativa, plausível, em nossa afetada opinião.

   Historicamente, Obadias testemunhou a invasão babilônica de Jerusalém, a queda dos muros, o incêndio do Templo e a escabrosa humilhação de todo o povo, principalmente a "nata" israelita. E seus vizinhos do outro lado do rio Jordão, os edomitas, não por acaso descendência de Esaú, vibraram.

   E o profeta especificamente nos exorta a que, antes mesmo de condenar esses maus vizinhos, nós mesmos não identificaríamos em nós uma atitude semelhante. Nossa repugnância pelo outro carece de uma justificativa plausível para a nossa consciência doente.

   Para esse sentimento tão recôndito, tão íntimo e escondido, somente existe um antídoto, mencionado na carta aos Filipenses. Paulo Apóstolo indica a única alternativa para isso:
⁵ "Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus". Fp 2.

  Nessa carta, a palavra "sentimento" aparece, pelo menos, mais três vezes: (1) sentimento definidor para a relação como igreja:
² "...completai a minha alegria, de modo que penseis a mesma coisa, tenhais o mesmo amor, sejais unidos de alma, tendo o mesmo sentimento." Fp 2.

  (2) sentimento dedinidor para quem se expõe como vocacionado a ser ministro e modelo:
¹⁹ "Espero, porém, no Senhor Jesus, mandar-vos Timóteo [...] ²⁰ Porque a ninguém tenho de igual sentimento que, sinceramente, cuide dos vossos interesses". Fp 2.

  (3) sentimento definidor de quem aspira, pelo Espírito, a ser perfeito em Cristo: Fp 3:
¹⁵ "Todos, pois, que somos perfeitos, tenhamos este sentimento; e, se, porventura, pensais doutro modo, também isto Deus vos esclarecerá.

   Aos Efésios, Paulo ensina que o velho homem continuamente se corrompe:
²² "... no sentido de que, quanto ao trato passado, vos despojeis do velho homem, que se corrompe segundo as concupiscências do engano, ²³ e vos renoveis no espírito do vosso entendimento, ²⁴ e vos revistais do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade". Ef 4.

   Pois nesse "pacote" de iniquidade reside esse sentimento ao inverso, que talvez Tiago tenha definido com precisão no trecho abaixo:
¹³ "Quem entre vós é sábio e inteligente? Mostre em mansidão de sabedoria, mediante condigno proceder, as suas obras. ¹⁴ Se, pelo contrário, tendes em vosso coração inveja amargurada e sentimento faccioso, nem vos glorieis disso, nem mintais contra a verdade. ¹⁵ Esta não é a sabedoria que desce lá do alto; antes, é terrena, animal e demoníaca.¹⁶ Pois, onde há inveja e sentimento faccioso, aí há confusão e toda espécie de coisas ruins." Tg 3.

   Nesse milk-shake maligno, há espaço escondido para esse sentimento ao inverso mal/bem disfarçado. Ora, como nos aconselha Tiago acima, não mintamos contra a verdade. Pode ser ou difícil ou decepcionante admitir, sim, confessemos, já nutri esse sentimento do prazer em identificar no outro algo desqualificante.

  E dizendo, bem no íntimo, bem-feito. Já me vi, confessemos, desejando para esse outro algo de ruim, quem sabe, para meu beneficio. E se for um mal bem aleatório ou ocasional, até um consenso possa se estabelecer e nisso eu descanso: não será só minha a depreciação, porém coletiva.

   Obadias é sutilmente observador. Identifica um traço quase imperceptível de nossa personalidade, qual seja, a facilidade de nos vingarmos a nós mesmos na desdita alheia. Mas há remédio. Poderá ser.

quarta-feira, 2 de outubro de 2024

Esteja tranquilo: "Eu serei contigo"

 Deus fala. Fala? Onde e como? Não seria isso um delírio? Há um livro no qual estão escritas palavras a Ele atribuídas. Ora, sem fé, é impossível agradar a Deus.

  Pois essa é uma história de avanços e recuos entre crer/não crer. Um dos exemplos das muitas falas de Deus foi com Moisés. Um dos maiores líderes do Antigo Testamento.

   Para alguns, figura mitológica. Ou, se histórica, foi cercada de megalomania. Mas para tanto, será necessário admitir que Deus nem falou, e nem agiu como o texto demonstra.

  Crer/não crer. Há Deus(?). A pergunta é opcional. Se existe, é capaz de agir como consta no texto? Ou será um Deus, ou melhor, um deus adaptado aos caprichos do século?

   Assinaladas estão as etapas do diálogo: Ex 3:
⁴ "Vendo o Senhor que ele se voltava para ver, Deus, do meio da sarça, o chamou e disse: Moisés! Moisés! Ele respondeu: Eis-me aqui!"

   Para logo advertir:
⁵ "Deus continuou: Não te chegues para cá; tira as sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é terra santa." Ex 3.

  Deus desperta a atenção, espera a alçada de visão, chama pelo nome e impõe o limite do espaço de santidade. Disso Ele é capaz?

  Esse chamado se dá a um nível puramente místico, como construção subjetiva, legítima somente no arcabouço religioso abstrato? Ou há indubitável consciência do diálogo?

  O diálogo prossegue com Deus dizendo a Moisés quem é: Ex 3:
⁶ "Disse mais: Eu sou o Deus de teu pai, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó. Moisés escondeu o rosto, porque temeu olhar para Deus." 

   De imediato, Deus de Anrão e Joquebede, os pais de Moisés. E logo apresenta-se como o Deus dos ancestrais e da tradição anterior a Moisés. Ele temeu. Não foi Moisés o "inventor" da fé. Aliás, nem foi Abraão seu ancestral:

² "...olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus". Hb 12.

   A cena em si, as palavras ouvidas, a memória de Moisés, o filme sobre si mesmo diante de seus olhos, resumidamente contado nos capítulos iniciais do Êxodo constam na mente dele.

  E a sequência do que vem escrito mais define Deus pela ação que lhe é peculiar:
⁷ "Disse ainda o Senhor: Certamente, vi a aflição do meu povo, que está no Egito, e ouvi o seu clamor por causa dos seus exatores. Conheço-lhe o sofrimento, ⁸ por isso, desci a fim de livrá-lo". Ex 3.

   Certamente: (1) Deus vê, (2) ouve o clamor, (3) conhece o sofrimento, (4) desce para livrar. E não é mística abstração religiosa. A Bíblia não trata de misticismo vazio.

  Deus é agente. Desde o início, quando criou o mundo. E fé não significa acreditar em invencionices. Fé é certeza e convicção. Deus fala e faz. Deus age. 

  Quando Moisés argumenta que não lhe darão ouvidos, Deus fala que será com ele:

¹¹ "Então, disse Moisés a Deus: Quem sou eu para ir a Faraó e tirar do Egito os filhos de Israel?¹² Deus lhe respondeu: Eu serei contigo; e este será o sinal de que eu te enviei: depois de haveres tirado o povo do Egito, servireis a Deus neste monte. Ex 3.

   Deus fala. Deus age. Deus segue com quem nele crê. Deus segue conosco. Fique tranquilo. Isso porque ainda nem falamos sobre o Filho ou do Espírito Santo. Deus ainda mais perto, em comunhão e habitando no que crê.

domingo, 29 de setembro de 2024

Coisas de Pedro - domínio próprio - Parte 6

 Na sequência das "coisas de Pedro", temos fé, virtude, conhecimento e domínio próprio. Fé como porta de acesso, virtude a feição de nova criatura em Jesus e  o conhecimento como consciência racional de todo o processo.

  O domínio próprio, em seguida, refere-se à capacidade de gerir tudo o que a nova vida em Cristo proporciona. Quem é autêntico cristão, desde a consciência do que Deus operou nele, adquire capacidade de administrar a si mesmo.

   Agora pode ser dito que há livre arbítrio, cuja definição é ser capaz de fazer ou não fazer o que agrada a Deus, dizer sim ou não à instrução do Espírito Santo.

   Aliás, domínio próprio é fruto do Espírito Santo. Nesta carta, Pedro indica a que altura e com que antecedentes ele se configura. Na vida sem Cristo, não existe a opção de rejeitar ou dizer não ao pecado.

   Porém, na nova vida em Cristo, como resultado do domínio próprio, passa a existir a condição de dizer não ao pecado. O velho homem agora pode ser governado na parceria com a ação do Espírito Santo no crente.

   Como diz Pedro, essa sequência ordenada e cosentânea de elementos fundamentais da fé crescem e aumentam. Daí a maturidade adquirida no domínio próprio. Por exemplo, não haverá santidade sem ele.

⁸ "Porque estas coisas, existindo em vós e em vós aumentando, fazem com que não sejais nem inativos, nem infrutuosos no pleno conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo." 2 Pe 1.

  Não haverá perfeição, progresso no evangelho, adestramento na luta contra a natureza carnal, vitórias em Cristo e maturidade na fé sem ele.

  Em Gálatas, Paulo o coloca como o externo na lista dos componentes do dom único, compondo com o amor essas duas extremidades. Quem nutre amor, somente o põe em prática, somente confirma sua autenticidade no exercício do domínio próprio.

   A lista que se expõe entre amor, no começo, e domínio próprio, ao final, são características do exercício desse amor.

²² "Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, ²³ mansidão, domínio próprio. Contra estas coisas não há lei." Gl 5.

  Assim como, na carta aos Coríntios, Paulo aponta para as qualidades intrínsecas ao amor, este não existe assim como não as rege sem que o domínio próprio esteja a ele agregado, também como dom do Espírito.

⁴ "O amor é paciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, ⁵ não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal; ⁶ não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade;7 tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta." 1 Co 13.

   Nenhuma dessas manifestações do amor são possíveis sem o freio ao velho homem, imposição contra nós mesmos como resultado do domínio próprio.

  A modelagem do caráter, a construção da semelhança com Cristo, fator principal do ministério, ocorre numa parceria com o Espírito Santo, na qual a função do domínio próprio é essencial.

²⁸ "... a fim de que apresentemos todo homem perfeito em Cristo; ²⁹ para isso é que eu também me afadigo, esforçando-me o mais possível, segundo a sua eficácia que opera eficientemente em mim." Cl 1.

   E nessa lista de Pedro o amor vai estar ao final, demonstrado por esta via o modo como se atinge e todo o esforço pelo qual se mantém.

sexta-feira, 27 de setembro de 2024

Admira-me - Carta aos Gálatas 1

   Admira-me. Esta palavra, que aparece em  Gálatas 1,6, revela a surpresa, na forma de um susto brutal, de um impacto, em Paulo, que gera sua motivação para escrever a carta. 

   Extasia-se da rapidez com que os gálatas, na opinião dele, estavam se deixando levar por influência alheia:

⁶ "Admira-me que estejais passando tão depressa daquele que vos chamou na graça de Cristo para outro evangelho". Gl 1.

  Na verdade, antes de mergulhar no texto da carta, vale a pena refletir sobre essa facilidade humana de ser enredado por um fascínio qualquer. Aliás, essa pergunta é feita pelo apóstolo:

¹ "Ó gálatas insensatos! Quem vos fascinou a vós outros, ante cujos olhos foi Jesus Cristo exposto como crucificado?" Gl 3. 

  É, pois, essa facilidade de que qualquer argumento barato ou qualquer displicência de bom senso distraia a nossa atenção para o evangelho.

  Esse "admira-me" de Paulo deve nos alertar de como é fácil que, vejam bem, nós mesmos, nem são os outros, que nada conhecem do valor do evangelho, mas nós mesmos menosprezarmos e nos deixarmos levar por um fascínio qualquer. Esta palavra, no original, é feitiço, engodo maligno.

 Ora, talvez nem precisa ser assim tão malignamente elaborado, mas a impressão que se tem é que, de um modo geral, uma grande quantidade de crentes, tenho medo de dizer, a maioria, tem conferido ao evangelho uma importância menor, secundária em sua vida, talvez uma reserva supersticiosa.

 Por desinteresse, desconhecimento, ou até mesmo descaso. Presença física na igreja, somente, cumprimento das funções burocráticas, como a tal "equipe de louvor", uma assistência dispersiva ao culto, talvez ensaios nos conjuntos ou grupos corais, mas alimento sólido, nenhum.

 Presença simbólica na Escola Dominical, ausência nos Estudos Bíblicos, distração na hora da mensagem. Em casa, no lhufa-lhufa do dia a dia, Bíblia não entra na agenda e orações, somente se houver uma emergência associada a medo, doença ou um "capricho de oração" incontido.

   Paulo vai detalhar o fenômeno, denunciando ser com rapidez que se deixam demover da graça de Cristo para outro evangelho. Voltará ao assunto da graça. Aqui, ele reafirma a originalidade do evangelho. 

  Há vários "evangelhos". Talvez uma falta de reverência em relação ao verdadeiro, ou o próprio descaso com as Escrituras, a superficialidade e desconhecimento, ou a variada adaptação da tradição cultural cristã aos caprichos deste século.

  Tudo isso predispõe vários "evangelhos". Mas não há outro, adverte Paulo, nenhum outro, mas somente o evangelho de Cristo. A palavra no original lembra um distúrbio que falseia a verdade do evangelho bíblico.

  A carta aos Gálatas foi escrita para suprir essa falta. Daí sua atualidade. Debruçar-se sobre ela traz à tona a originalidade, a identidade e o potencial do evangelho. Como vai afirmar Paulo aos Romanos, "o evangelho é poder de Deus".