quinta-feira, 7 de novembro de 2024

Habacuque e a causa da violência

    Uma das mais frequentes argumentações contra a existência de Deus, segundo afirmam os que não acreditam, reside na existência e na operância da maldade.

  Habacuque, o profeta, de modo franco num diálogo com Deus, denuncia a violência, como se reclamasse contra a indiferença divina: Hc 1:

² "Até quando, Senhor, clamarei eu, e tu não me escutarás? Gritar-te-ei: Violência! E não salvarás?"

  Muito cedo na narrativa bíblica temos encontro marcado com a violência gratuita. Por incrível que pareça, ainda na família do primeiro casal, ela mostra sua força sem argumento.

  Caim, por iniciativa própria, decide ofertar a Deus das primícias da terra. Abel, seu irmão, decide pelo sacrifício de um cordeiro, ambas ofertas legítimas como, posteriormente, instruirá o Levítico.

     Mas Deus, que olha o coração, acolheu a oferta de Abel, mas rejeita a de Caim. Ora, parece estarmos diante do primeiro conflito por motivo religioso, os piores da história. Ah, sim, recheados de violência.

    Deus procura Caim, denuncia um semblante que não esconde intenções e adverte que o mal que ele acolhe, em si mesmo, compete a ele dominar. Gn 4.

⁶ Então, lhe disse o Senhor: Por que andas irado, e por que descaiu o teu semblante? ⁷ Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo."  

  E o trato dado por Deus a essa iniciativa da condição humana nos surprende. Porque, configurada a ameaça da violência, reconhecida  e identificada pelo próprio Deus, vai intervir de modo direto, denunciando suas raízes e chamando à conversão.

   E, de certo modo, antecipa a perplexidade do profeta, porque interpela, como num apelo, o protagonista dessa violência primordial. Deus reconhece a intenção perversa e convida Caim à conversão, a única maneira de anular o sentimento que gera toda a violência: o pecado.

   Mas não procura Abel, para prevenir ou mesmo proteger. Abel revela sua fé, é aceito por Deus, mas não há, por isso, garantia de que a violência não o alcançará. E quanto ao irmão, deve ter saído do diálogo com Deus dizendo, consigo mesmo, inútil, porque vou matar o meu irmão.

  Parece que o caso Caim X Abel reforça a perplexidade de Habacuque, basta reler acima o seu libelo queixoso dirigido a Deus. Como se questionasse, ora, Deus vai encarar o sentimento de violência convocando o potencial violento à conversão?

  E a resposta de Deus à violência será sempre a opção pela fé. Provavelmente, Deus esteja querendo dizer que somente viver por fé será o antídoto contra toda e todo o tipo de violência. Porque o justo vive por e de sua fé, não pratica  violência. Como já diz Jesus, os mansos é que herdarão a terra. Habacuque obteve sua resposta: Hc 2:

² "O Senhor me respondeu e disse: Escreve a visão, grava-a sobre tábuas, para que a possa ler até quem passa correndo. ³ Porque a visão ainda está para cumprir-se no tempo determinado, mas se apressa para o fim e não falhará; se tardar, espera-o, porque, certamente, virá, não tardará. ⁴ Eis o soberbo! Sua alma não é reta nele; mas o justo viverá pela sua fé."

   É definitivo. A soberba afasta da fé. Habacuque precisou reconhecer que a opção de seu povo foi por bastar a si mesmo, escolher o caminho diverso e ao inverso da opção de fé. 

  E a opção pela fé vale, individualmente, como foi proposta a Caim, assim como coletivamente, para toda a nação de Israel, uma vez com ela confrontada, seja para praticá-la ou não.

   Habacuque profetiza num tempo em que a invasão babilônica é latente. O império da hora vai exigir para si a ocupação da Palestina, mais exatamente o reino que restou, no sul, cuja capital era Jerusalém.

  E vai chegar, a principio, exigindo somente tributos, em 605 a.C., provável ano do início do ministério de Jeremias. Retornarão em 597, para coibir o esboço de revolta de Jeioaquim, que quase consegue matar Jeremias, após rasgar e queimar o rolo que esse profeta havia escrito.

   E finalmente, em 586 a.C., virão efetuar o cerco, que vai durar 2 anos, até que toda a cidade seja incendiada, derrubadas as muralhas e o Templo deixado em ruínas. 

   Foi também a escolha de Caim. Quando Deus dá o diagnóstico, é melhor render-se à fé. O diagnóstico é a soberba. E o único antídoto é a fé. Por isso Deus convida à conversão, como fez o próprio Jeremias a todo o povo, pouco tempo após a profecia de seu colega Habacuque:

⁴ "Circuncidai-vos para o Senhor, circuncidai o vosso coração, ó homens de Judá e moradores de Jerusalém, para que o meu furor não saia como fogo e arda, e não haja quem o apague, por causa da malícia das vossas obras." Jr 4.

   Jeremias, certa vez, ainda com o Templo de pé, foi enviado por Deus a confrontar um profeta soberbo. Ele, com a maioria dos demais falsos profetas, contrariava o que Jeremias afirmava sobre o cativeiro babilônico, às portas.

   Era isso que assustava Habacuque. Ele era obrigado, pelas circunstâncias, a concordar com Jeremias. O falso profeta Hananias dizia que o exílio duraria 2 anos. Mas dois anos foi o cerco à cidade, descrito nas Lamentações. O exílio durou 70 anos.

  Mesmo antes, durante e depois do exílio, o justo vive por fé. Ainda que a soberba iluda e derrube por terra, deixe prostrado e humilhado, a fé prevalece. Ela sempre será opção. E quem por ela optar, por ela será justificado. É assim desde o justo Abraão:

¹ "Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo; ² por intermédio de quem obtivemos igualmente acesso, pela fé, a esta graça na qual estamos firmes; e gloriamo-nos na esperança da glória de Deus." Rm 5.
  
  A fé que não justificou Caim. Israel, como nação, seguiu esse mesmo caminho de soberba: todo o crédito a si mesmo, nenhum a Deus, vivendo como se nunca O conhecesse. Jeremias viu mais fidelidade das nações aos ídolos do que de Israel a seu Deus:

¹¹ "Houve alguma nação que trocasse os seus deuses, posto que não eram deuses? Todavia, o meu povo trocou a sua Glória por aquilo que é de nenhum proveito." Jr 2.

   A prisão está dentro. O pecado cativa para si. É Deus que define qual seja a raiz: o pecado está dentro, o desejo dele é homicida e ao homem/mulher cumpre dominar. E somente a conversão ao Senhor concede vitória.

   O justo viverá por fé. Estamos diante da opção, seja a de de Caim ou a de Abel. Este, mesmo depois de morto, ainda fala. Escreve a visão.

terça-feira, 5 de novembro de 2024

Naum: uma aula sobre o juízo de Deus

 Lendo Naum, não há como não lembrar de Jonas, associado ao fato de que este gostaria muito de dar a notícia do outro, agora intitulada "sentença contra Nínive".

  E o livro começa como que, de antemão, indicando o agir de Deus quando se trata de julgar a conduta humana: Na 1:

² "O Senhor é Deus zeloso e vingador, o Senhor é vingador e cheio de ira; o Senhor toma vingança contra os seus adversários e reserva indignação para os seus inimigos." 

   Costuma-se, com frequência, inverter uma ordem básica nas Escrituras. Nelas, Deus se revela. Ao contrário de se avaliar que Ele carece de nossas opiniões a Seu respeito, ou de que, o que nelas está escrito é puramente diletante, ou seja, aleatório sobre Deus ou de autoria duvidosa.

   E um dos itens que mais causa estranheza é uma atribuição específica dEle, que é exercer juízo, talvez a capacidade em Deus a mais negada por direito, que Ele a exerça.

   E Naum avança em seu raciocínio. Aliás, neste início de sua profecia, Naum dá uma aula de exercício do juízo divino à qual, muito infelizmente, Jonas não pôde comparecer: havia falecido mais de 100 anos antes:

³ "O Senhor é tardio em irar-se, mas grande em poder e jamais inocenta o culpado; o Senhor tem o seu caminho na tormenta e na tempestade, e as nuvens são o pó dos seus pés." Na 1.

   Sim. Deus demora a se irar. Mas jamais inocenta o culpado. Não há ninguém mais apto a exercer juízo do que o próprio Deus. E nenhuma culpa deixará isenta.

  Fazendo um parêntese, nenhum/nenhuma são pronomes indefinidos, no caso aqui sinônimo de todos ou de qualquer, signficando que toda e qualquer falta jamais será inocentada.

    As Escrituras registram o versículo que afirma "Deus é amor". Porém Paulo Apóstolo recomenda considerar "a bondade e a severidade de Deus". E o autor de Hebreus afirma que "Horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo".

   Um dos principais, talvez o primeiro sentimento que deve nutrir quem, legítima e verdadeiramente, aproxima-se de Deus é o temor. Paulo chega a mencionar "temor e tremor".

   Alguém já disse que medo é segurança. Não o medo doentio, a fobia, mas a consciência do perigo, o alarme pela preservação da vida, reação à buzina que impede a colisão, que pode ser fatal. Fp 2:

   Paulo afirma: ¹² "Assim, pois, amados meus, como sempre obedecestes, não só na minha presença, porém, muito mais agora, na minha ausência, desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor". 

    E Naum denucia de Nínive: ¹¹ "De ti, Nínive, saiu um que maquina o mal contra o Senhor, um conselheiro vil." Na 1.

    Sim, há quem blasfeme de Deus, supondo ou não que ele exista. Ridicularizando Sua pessoa, existência ou ainda os que nEle creem. Ou quem deseja forjar um deus segundo si mesmo.

   E há quem pensa poder continuar, pela vida em fora, expressão de Cid, meu pai, sem o temor de Deus, sem a Ele obedecer, sem aspirar a Sua glória e santidade, desejar Lhe ser imitador ou alvo específico do Seu amor.

   Melhor que seja assim. Houve um dia arrependimento e oportunidade de Deus para Nínive. Ela não está sozinha. Há nas Escrituras, assim como fora delas, na história, cidades que seguiram ou seguem seu mau exemplo: Na 3:

¹ "Ai da cidade sanguinária, toda cheia de mentiras e de roubo e que não solta a sua presa!"

   Quando se fala de cidades, trata-se do povo dentro delas. Desde o ajuntamento em Babel, quando a intenção muitas vezes não é boa e nem é inocente. 

⁴ "Disseram: Vinde, edifiquemos para nós uma cidade e uma torre cujo tope chegue até aos céus e tornemos célebre o nosso nome, para que não sejamos espalhados por toda a terra." Gn 11.

   Esse desvio prolonga-se pela história afora, em requintes de iniquidade. A elas e a esse povo, por pura misericórdia, Deus envia seus profetas. Que se arrependam, como ocorreu a Nínive nos tempos de Jonas, embora não fosse essa a mensagem que gostaria de ter pregado. Caso não haja arrependimento: Na 3:

¹⁹ Não há remédio para a tua ferida; a tua chaga é incurável; todos os que ouvirem a tua fama baterão palmas sobre ti; porque sobre quem não passou continuamente a tua maldade?"

    São os habitantes. Somos os habitantes. Mas se há uma cidade, é aquela que desce do céu, prometida nas Escrituras, a Nova Jerusalém, onde, como aponta Ezequiel, outro profeta, o Senhor está ali. Onde sempre quis e quer estar, habitando no meio dos louvores de Seu povo, repartindo com eles a Sua glória.

   Ora, como já afirma o salmista:
² "A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo'. E esta é insaciável, porque sempre renovável.

domingo, 3 de novembro de 2024

A luz da candeia e a Estrela da Alva

 ¹⁶ "Porque não vos demos a conhecer o poder e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo seguindo fábulas engenhosamente inventadas, mas nós mesmos fomos testemunhas oculares da sua majestade." 2 Pe 1.

   O poder de Deus dado a conhecer, segundo Pedro atesta ter feito, diz respeito à segurança que vem por meio da fé. As Escrituras não são livros escritos para comprovar que Deus existe.

   Mas foram escritas para conduzir à fé em Deus. Por isso Pedro lembra aos irmãos que não segue "fábulas engenhosamente inventadas".

  As Escrituras, em Gênesis, iniciam com "No princípio, Deus". Portanto, já se trata de um dado assumido. E prossegue afirmando que "criou os céus e a terra".

   Tudo à volta visto é criação de Deus. E o autor de Hebreus já antecipa as descobertas que um dia, com os avanços da ciência, todos iríamos conhecer: ³ "Pela fé, entendemos que foi o universo formado pela palavra de Deus, de maneira que o visível veio a existir das coisas que não aparecem." Hb 11.

¹⁷ "... pois ele recebeu, da parte de Deus Pai, honra e glória, quando pela Glória Excelsa lhe foi enviada a seguinte voz: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo. ¹⁸ Ora, esta voz, vinda do céu, nós a ouvimos quando estávamos com ele no monte santo." 2 Pe 1.

   Por duas maneiras Pedro confirma a si próprio como testemunha: (1) testemunha ocular; (2) ter ouvido a voz vinda do céu. Trata-se de uma evidência específica para os apóstolos.

   Quem, por acaso, achá-la fraca ou incompatível com evidências mais sofisticadas, terá de desacreditar não que tenha ocorrido, mas se o Deus que existe seria capaz de o fazer.

  Ontem se comemorou um dia de tantas crendices e da facilidade com que o ser humano se deixa levar, exatamente, por fábulas engenhosamente (ou nem tanto) inventadas.

  Então, quando Deus concede prova audível e visível, não é encarado como suficiente. Paulo aponta para quão facilmente, nestes últimos dias, as pessoas se deixarão enganar: 2 Tm 4:

² "... prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina. ³ Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos; ⁴ e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas."

¹⁹ "Temos, assim, tanto mais confirmada a palavra profética, e fazeis bem em atendê-la, como a uma candeia que brilha em lugar tenebroso, até que o dia clareie e a estrela da alva nasça em vosso coração." 2 Pe 1.

    Pedro menciona as fábulas, das quais está vacinado, mas há gente desavisada que não dá atenção à palavra de Deus, apta a conceder a "fé que vem pelo ouvir", entregando-se ao engano.

   E essa candeia atravessa a história, por meio das Escrituras. Lutero foi um homem que Deus usou para apontar seus efeitos. Ele desburocratizou a fé.

  Sola Escriptura, deixou somente com a Bíblia a fonte única e legítima da palavra de Deus. A Igreja Católica prescreve Escrituras, Tradição e Magistério. E ainda acrescenta ao AT mais 7 livros não inspirados.

  Sola fide, ou seja, somente pela fé, e Sola Gratia, somente pela graça, reafirmando o que as próprias Escritiras já dizem: ⁸ "Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; ⁹não de obras, para que ninguém se glorie." Ef 2.

  Somente Jesus, porque não há outro mediador entre Deus e os homens e não há salvação em nenhum outro nome:

⁵  "Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem, ⁶ o qual a si mesmo se deu em resgate por todos: testemunho que se deve prestar em tempos oportunos." 1 Tm 2.

¹² "E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos." At 4.

  Somente a Deus glória, porque ele não a reparte com nenhum outro, somente Jesus dela participa, mas concedeu-a à igreja:

²² "Eu lhes tenho transmitido a glória que me tens dado, para que sejam um, como nós o somos; ²³ eu neles, e tu em mim, a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade, para que o mundo conheça que tu me enviaste e os amaste, como também amaste a mim."

  Por isso podemos ter confirmada a palavra profética: das Escrituras:

²⁰ "... sabendo, primeiramente, isto: que nenhuma profecia da Escritura provém de particular elucidação; ²¹ porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens [santos] falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo." 2 Pe 1.

   Não é por diletante escolha que foi escrita. Não foi por iniciativa ou ideia puramente humana que foi escrita. Mas Deus moveu, por seu Espírito, cada autor: 2 Tm 3.

¹⁶ Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, ¹⁷ a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra."

   E Lutero resgatou o entendimento do que Pedro afirma sobre o sacerdócio universal do crentes em Jesus: cada um que crê adminsitra sua própria vida cristã. Nada mais livre, diante de Deus, ao mesmo tempo que total e unicamente responsável. 1 Pe 2:

⁹ "Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz". 

   A candeia inflama nosso coração e a estrela da alva, que é Jesus, nele resplandece:

² "Mas para vós outros que temeis o meu nome nascerá o sol da justiça, trazendo salvação nas suas asas; saireis e saltareis como bezerros soltos da estrebaria." Ml 4.

sexta-feira, 1 de novembro de 2024

Falando sobre a Reforma - 31 de outubro e 509 anos

¹⁹ “Temos, assim, tanto mais confirmada a palavra profética, e fazeis bem em atendê-la, como a uma candeia que brilha em lugar tenebroso, até que o dia clareie e a estrela da alva nasça em vosso coração”. 2 Pe 1.

"Pois quando esta luta estava no auge que um protesto contra um abuso eclesiástico, feito em 31 de outubro de 1517, e de modo nada usual ou maneira espetacular, por um monge professor de recentemente fundada e relativamente obscura universidade alemã, alcançou imediata resposta e provocou a maior revolução na história da Igreja Cristã. Martinho Lutero, autor do protesto, é um dos poucos homens de quem se pode dizer que sua obra alterou profundamente a história do mundo. Não era organizador nem político. Movia os homens pelo poder de profunda fé religiosa resultante de inalterável confiança em Deus e relação direta, imediata e pessoal corri Ele. Isto trazia segura salvação, que não dava lugar à elaborada estrutura hierárquica e sacramentai da Idade Média." (WALKER, 2006)

A Reforma Protestante

Lutero

Lendo sobre Lutero, a gente imagina até onde qualquer pessoa pode ir com Deus. E essa reflexão, em grande escala, somente se tornou possível pela iniciativa desse monge alemão. 

  O ponto de partida, muito embora, hoje, olhando para trás, sua figura seja alvo de polêmicas, muitas vezes indignas, não foi uma falas pretensão de sua pessoalidade.3

  Lutero discutiu e lançou bases para uma das mais assustadoras temeridades de qualquer intenção de controle, que é a prioridade para toda a ambição de poder. 

     Liberdade

 Liberdade. Ele pretendeu conceder autonomia de pensamento às pessoas. E sua sugestão afetou de cheio a seriação que estava na ordem do dia de seu tempo, que era a opção entre o controle de poder antigo e uma sugestão de independência configurada. 

  Houve implicações na escala maior de governança, mas também alcançou o cidadão comum. Nesse sentido, a intenção pessoal de Lutero combinava com a individualidade,  Aliás, a síntese que ficou conhecida como "Cinco Solas" bem expressa a amplitude dessa reação luterana. 

    Os 5 Sola (Somente)

  Sola Fide, Sola Scriptura, Solus Christus, Sola Gratia, Soli Deo Gloria. Por se tratar do latim, nossa língua mãe, a gente percebe estar envolvidas Fé, Escritura, Cristo, Graça e Deus. 

  Pois são esses elementos, em síntese, que conferem a tão perigosa autonomia e liberdade, no caso específico, religiosa, mas que também, no contexto social da época repercutiu por todas as demais categorias da vida.

Breve histórico

A Reforma Protestante teve causas relacionadas a aspectos políticos, econômicos e teológicos, sendo também  resultado da corrupção existente na Igreja Católica. No aspecto teológico, o ponto imediato a ser destacado é a insatisfação com as práticas da Igreja que era, naquele período, a maior autoridade da Europa Ocidental e detinha um imenso poder.

As críticas à Igreja Católica tiveram seu ápice em Martinho Lutero, monge agostiniano e professor de Teologia. Lutero estava insatisfeito com certas condutas da Igreja, sobretudo com as indulgências, prática que acontecia por meio dos dízimos, peregrinações e donativos feitos pelos fiéis em troca do perdão de seus pecados. Além de discordar de aspectos teológico a respeito da salvação.

O monge

Com isso, o monge elaborou um documento conhecido como 95 teses. No qual manifestava sua oposição teológica às práticas da Igreja de Roma. Esse documento foi afixado na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg, na Alemanha, e enviado ao arcebispo de Mainz, Alberto de Brandemburgo, em 31 de outubro de 1517. Sua intenção era levantar um debate e propor reformas dentro da Igreja.

Martinho Lutero defendia, basicamente, que a Bíblia é a única referência de fé e prática e que a salvação não depende da mediação de pessoas, da prática de indulgências ou dos sacramentos. A base teológica de Lutero era o versículo bíblico do livro de Romanos, capítulo 1, verso 17, que afirma: “o justo viverá pela fé”. Aqui, Lutero passou a defender que não são as boas ações que salvam uma pessoa, mas sim a sua fé em Cristo.

Os 5 Solas

A construção teológica iniciada por ele deu origem a um princípio conhecido como Cinco Solas:

1. Sola fide (somente a fé)

2. Sola scriptura (somente a Escritura)

3. Solus Christus (somente Cristo)

4. Sola gratia (somente a graça)

5. Soli Deo gloria (glória somente a Deus)

Outros líderes

Antes de Lutero, já havia casos de cristãos que contestaram princípios e práticas da Igreja Católica. Os historiadores destacam Jan Hus e John Wycliff como nomes de uma pré-reforma. Eles questionavam a riqueza da Igreja, a acumulação de poder temporal e a corrupção existente no clero.

As ideias de Martinho Lutero espelharam-se pela Europa e a Reforma também aconteceu em outros países. A partir de então, surgiu o protestantismo, vertente do cristianismo que rompeu com a Igreja Católica, resultando na conversão de milhares de pessoas e no surgimento de outros reformadores, como João Calvino e Philipp Melanchthon.

Resultados

O protestantismo é caracterizado por:

  • A Bíblia como a única fonte de autoridade divina
  • A salvação pela fé, e não por boas obras
  • Jesus Cristo como o único intermediário entre Deus e os homens
  • A manutenção de duas ordenanças: o batismo e a Santa Ceia.
     Ecclesia semper reformanda est. Esta frase latina signfica "A igreja deve estar sempre em reforma". Este é o sentido e a dinâmica do evangelho. Deus usou Lutero para retonarmos a esse sentido do poder do evangelho e da dinâmica da igreja. Dentro da história, porém na dinâmica da eternidade. Vida plena em Cristo.

Historinha de Lutero:

História do hino Castelo Forte:

segunda-feira, 28 de outubro de 2024

Miqueias e a desburocratização da fé

   Muito linda a amizade e Jesus com os irmãos Maria, Marta e Lázaro. Aliás, com Jesus, toda amizade é linda, possível e verdadeira.

  Possível por tê-la como autor e o Pai como fim último, mas sendo a obediência uma condição bem expressa:
¹⁴ "Vós sois meus amigos, se fazeis o que eu vos mando. ¹⁵ Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho dado a conhecer."

   Numa das visitas, destacou-se a personalidade das irmãs num pequeno incidente. Mas a síntese de Jesus a respeito, tornou-se uma lição permanente.

   Marta, como qualquer dona de casa, já naquela época ativa e super preocupada, desejava dar a Jesus a melhor das hospitalidades. Daí seu ativismo.

⁴⁰ "Marta agitava-se de um lado para outro, ocupada em muitos serviços. Então, se aproximou de Jesus e disse: Senhor, não te importas de que minha irmã tenha deixado que eu fique a servir sozinha? Ordena-lhe, pois, que venha ajudar-me." Lc 10.

   A irmã Maria entendeu que deveria parar tudo e querdar-se ao pé de Jesus para ouvir. Ora essa, diria Marta. Por isso, defendendo sua argumentação, convocava a irmã para a sua azáfama. Jesus exortou-a, expondo sua prioridade:

⁴¹ "Respondeu-lhe o Senhor: Marta! Marta! Andas inquieta e te preocupas com muitas coisas. ⁴² Entretanto, pouco é necessário ou mesmo uma só coisa; Maria, pois, escolheu a boa parte, e esta não lhe será tirada." Lc 8.

   Pois essa filosofia do pouco, da boa parte que nunca será tirada, a síntese inteligente de Jesus também encontramos na percepção de Miqueias, a respeito de sua profecia e ministério. Mq 6:

⁷ "Agradar-se-á o Senhor de milhares de carneiros, de dez mil ribeiros de azeite? Darei o meu primogênito pela minha transgressão, o fruto do meu corpo, pelo pecado da minha alma?⁸ Ele te declarou, ó homem, o que é bom e que é o que o Senhor pede de ti: que pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e andes humildemente com o teu Deus."

   O pouco de Miqueias é a indicação da troca de milhares de sacrifícios, dez mil ribeiros de azeite e a absurda oferta do primogênito pelo que é bom: a prática da justiça, a prioridade pela misericórdia e o assumir a humildade.

   Ele e Isaías, pode-se dizer, foram colegas de seminário. É dedutível, de seus escritos, a condição negativa da avaliação do povo: Is 1:

⁴ "Ai desta nação pecaminosa, povo carregado de iniquidade, raça de malignos, filhos corruptores; abandonaram o Senhor, blasfemaram do Santo de Israel, voltaram para trás. [...] ⁶ Desde a planta do pé até à cabeça não há nele coisa sã, senão feridas, contusões e chagas inflamadas, umas e outras não espremidas, nem atadas, nem amolecidas com óleo." 

   E ambos anunciam a vinda do Messias, sendo Isaías o profeta mais citado no Novo Testamento e, por isso, chamado "profeta evangelista".

    A mais famosa menção do Messias, em Miqueias, soa como provocação a Jerusalém, porque indica a pequena demais Belém, mais uma vez pelo método divino do menor, desbancando o (que se julga) maior:

² "E tu, Belém-Efrata, pequena demais para figurar como grupo de milhares de Judá, de ti me sairá o que há de reinar em Israel, e cujas origens são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade." Mq 5.

   Miqueias mesmo usa de uma síntese, o seu "um pouco", como Jesus indicou ser o melhor, ou seja, sentar e ouvi-lo. Pois a profecia de Miqueias revela em quem reside justiça, misericórdia e humildade. E da possibilidade, ainda em sua espoca, de se antecipar no viver essas bênçãos exclusivas, pela mediação de Jesus.

   O autor de Hebreus indica isso no modo como ocorreu com Moisés, quando este enxerga, por antecipação, o "opróbrio de Cristo": Hb 11.

²⁴  "Pela fé, Moisés, quando já homem feito, recusou ser chamado filho da filha de Faraó, ²⁵ preferindo ser maltratado junto com o povo de Deus a usufruir prazeres transitórios do pecado; ²⁶ porquanto considerou o opróbrio de Cristo por maiores riquezas do que os tesouros do Egito, porque contemplava o galardão."

     E Neemias indica como a ação do Espírito era operante nos que criam, antecipando essas bênçãos somente possíveis pela mediação de Jesus:

²⁰ "E lhes concedeste o teu bom Espírito, para os ensinar; não lhes negaste para a boca o teu maná; e água lhes deste na sua sede." Ne 9.

   A justiça a ela se tem acesso pela fé em Jesus:
¹ "Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo". Rm 5.

  Permanecer no amor de Cristo é o seu principal mandamento. Amor e misericórdia, sinônimos no Antigo Testamento, aqui aparecem juntas num reforço de ênfase:
¹⁰ "Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; assim como também eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e no seu amor permaneço." Jo 15.

   E a humildade é o traço característico da personalidade de Jesus. Sem ela, jamais teria se submetido à cruz:
⁶ "...pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; ⁷ antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, ⁸ a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz." Fp 2.
.
   A síntese de Miqueias antecipa realizações já operantes na fé do Antigo Testamento, indicadoras do sentido de todo o sacerdócio e estrutura da religião, porém não expressos na mera exterioridade do culto vazio.

   Porque justiça, amor e humildade somente são concedidas ao ser humano, que se torna delas participantes, por meio de Jesus. No Antigo Testamento eram possíveis de se constatar, segundo indica o profeta, pela ação do Espírito, antecipando, nos que cressem, as dádivas de Jesus.

    Miqueias assinala a desburocratização da fé, recomendando que não se preste muita atenção ao marketing e à exibição de letreiros de neon, no que diz respeito a exterioridades, porque o que é bom na fé e aceitável, diante do Senhor, será tudo que nos é dado por meio de Jesus: a justiça, o amor e a humildade.

quarta-feira, 23 de outubro de 2024

Jonas e a lógica de Deus

 Há pouco mais de um ano atrás, o Hamas, grupo terrorista que agia em Gaza, uma porção de terra no sudoeste da Palestina, antiga região dos filisteus, invadiu Israel, matou e sequestrou, num total, cerca de 1200 pessoas.

  A força do argumento de Jonas, contra os assírios, em Nínive, é como se hoje um profeta judeu fosse enviado a Gaza, não para invadir, mas como emissário do perdão e da conversão das intenções.

  Por isso o livrinho desse profeta começa com a seguinte contradição: chamado, comissionamento e fuga do profeta: Jn 1:

¹ Veio a palavra do Senhor a Jonas, filho de Amitai, dizendo: ² Dispõe-te, vai à grande cidade de Nínive e clama contra ela, porque a sua malícia subiu até mim. ³ Jonas se dispôs, mas para fugir da presença do Senhor, para Társis".

  A lógica do perdão e do amor perseguem Jonas por toda a narrativa do livro. Nós mesmos, alvo do perdão e do amor de Deus, convidados a perdoar e amar, muitas vezes nos vemos nesse mesmo dilema: resistimos ao perdão e expomos um falso amor.

   É Paulo quem indica a que nível estão postos o perdão e o amor:
¹³ "Suportai-vos uns aos outros, perdoai-vos mutuamente, caso alguém tenha motivo de queixa contra outrem. Assim como o Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós; ¹⁴acima de tudo isto, porém, esteja o amor, que é o vínculo da perfeição." Cl 3.

   Sim, o amor está à frente e acima do perdoar do mesmo modo como Deus perdoa. Então perdoar está no curso de aprendizado do amor. Jonas pressupôs que teria, por obrigação, perdoar e, consequentemente, amar. Por isso, resistiu:

¹ "Com isso, desgostou-se Jonas extremamente e ficou irado. ² E orou ao Senhor e disse: Ah! Senhor! Não foi isso o que eu disse, estando ainda na minha terra? Por isso, me adiantei, fugindo para Társis, pois sabia que és Deus clemente, e misericordioso, e tardio em irar-se, e grande em benignidade, e que te arrependes do mal." Jn 4.

   Jonas desgostou-se porque testemunhou arrependimento, perdão, conversão e amor. A lógica de Jonas não se afina com a lógica de Deus. Porque em Deus reside a lógica do perdão, devido ao amor e ao poder de tornar novo, decorrente do arrependimento: 2 Co 7:

¹⁰ "Porque a tristeza segundo Deus produz arrependimento para a salvação, que a ninguém traz pesar; mas a tristeza do mundo produz morte." 

   A luta interna de Jonas é compreensível. E trata-se de uma das questões de mais complexa solução. Diante da maldade humana gratuita, como não vingar com a mesma intensidade?

   Deus interpela o profeta, como se estivesse diante de um evangelista bem sucedido, que assistiu ao arrependimento e conversão de mais de 120 mil pessoas, mas desgostou-se com isso, a ponto de, morbidamente, desejar morrer.

⁹ "Então, perguntou Deus a Jonas: É razoável essa tua ira por causa da planta? Ele respondeu: É razoável a minha ira até à morte." Jn 4.

  O sol havia fustigado a calva de Jonas. Deprimido, acolhia-se sob uma parreira. Era tão tênue o fio de euforia que o mantinha conformado que, uma vez incomodado, quando findou a sombra da planta que secou, desestruturou-se.

  Porém a cura para ele residia em confrontar a si mesmo, seguindo a lógica proposta por Deus:

¹⁰ "Tornou o Senhor: Tens compaixão da planta que te não custou trabalho, a qual não fizeste crescer, que numa noite nasceu e numa noite pereceu; ¹¹ e não hei de eu ter compaixão da grande cidade de Nínive, em que há mais de cento e vinte mil pessoas, que não sabem discernir entre a mão direita e a mão esquerda, e também muitos animais?" Jn 4.

   Em sua lógica, como lhe revela Deus, que o confrontou, Jonas não se importava com a subversão total de Nínive, como numa Sodoma e Gomorra atualizadas, ou numa Pompeia e Herculano, mais recentes.

  A argumentação de Deus, por sua afirmação: "Não hei eu de ter compaixão" , define-O como soberano em perdão e amor. Não é natural em nós essa dimensão. Somos alvo de Seu amor e perdão e chamados a perdoar e amar como ele.

   É Paulo que nos socorre ensinando o que Jonas, na prática, precisava compreender. E termina o livro sem sabermos se o profeta conseguiu:

¹ "Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados; ² e andai em amor, como também Cristo nos amou e se entregou a si mesmo por nós, como oferta e sacrifício a Deus, em aroma suave." Ef 5.

   Ver escrito e teorizar sobre essa tarefa, como a supomos entender, torna-se fácil. Diante da beleza do texto e da sublimidade dessa proposta, mostramo-nos muito sensíveis.

  Mas na posição de Jonas, que assistiu ao sofrimento de seu povo, perpetrado pelo exército assírio, muito provavelmente com uma torcida positiva por parte daqueles mais de 120 mil, foi doloroso admitir pregar arrependimento e perdão.

   Precisamos nos habilitar para a lógica divina do amor e do perdão. Arrependimento e conversão não implica somente estatística e afago do ego pela quantidade matemática resultante. 

   Mas um diagnóstico preciso da natureza do mal e sua cura, pelo único método possível, que é o anúncio do amor de Deus, na possibilidade de arrependimento e perdão dos pecados.

   É Deus quem diz: "Não hei eu de ter compaixão?" Amor se aprende. E se imita com Deus. 

terça-feira, 22 de outubro de 2024

Amós e a autenticidade

 Autenticidade é tudo. Muito provavelmente, caso não houvessem ratas, ou seja, falhas, a marca da autenticidade fosse desnecessária.

  Mas não. E até para o evangelho está valendo. Aliás, evangelho é autenticidade em curso. Por definição. Paulo afirma aos Efésios:

²⁰ "Mas não foi assim que aprendestes a Cristo, ²² no sentido de que, quanto ao trato passado, vos despojeis do velho homem, que se corrompe segundo as concupiscências do engano, ²³ e vos renoveis no espírito do vosso entendimento, ²⁴ e vos revistais do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade." Ef 4.

  Essa dinâmica, aqui descrita pelo apóstolo, confere autenticidade ao evangelho. Ao mesmo tempo que se despoja do velho homem, renova-se no "espírito do entendimento".

   Ou seja, continuamente nos despimos, despojamo-nos do velho homem, sempre corruptível e se corrompendo, viciado nisto, degradando-se continuamente, mas que somente ocorre se e quando nos revestimos desse novo homem, criado segundo Deus.

   Lembremo-nos de que esse velho homem somos nós, cada um, e não uma parte de nós, nus e fora do paraíso, dominados pelo pecado. O novo homem é resultado da conversão, milagre operado por Deus em nós, se e quando cremos.

¹⁷ "E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas." 2 Co 5.

   Paulo afirma tratar-se do poder de Deus. Como afirma Marcos, o evangelista, Jesus pregava o evangelho de Deus. Daí sua autenticidade. Não se trata de verniz cultural, religião, recitação de uma ortodoxia. É "poder de Deus para a salvação":

¹⁶ "Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego". Rm 1.

    O profeta Amós enfrentou uma polêmica com Amazias, um profeta profissional, que constava na folha de corrupção do rei Jeroboão II (782-753 a.C.). Ele fala precipuamente:

¹² "Então, Amazias disse a Amós: Vai-te, ó vidente, foge para a terra de Judá, e ali come o teu pão, e ali profetiza; ¹³ mas em Betel, daqui por diante, já não profetizarás, porque é o santuário do rei e o templo do reino." Am 7.

   A resposta do profeta atesta autenticidade. Na matemática há uma estratégia de argumentação denominada "redução ao absurdo". Foi exatamente essa que Amos utilizou, começando por dizer: Am 7:

¹⁴ "Respondeu Amós e disse a Amazias: Eu não sou profeta, nem discípulo de profeta, mas boieiro e colhedor de sicômoros. ¹⁵ Mas o Senhor me tirou de após o gado e o Senhor me disse: Vai e profetiza ao meu povo de Israel."

   Se fosse aqui no Acre, ele diria: "Sou boiadeiro e colhedor de castanha". E reforça o argumento do falso profeta: "Não sou e nunca quis ser. Mas o Senhor...". Essa é a suma diferença: a iniciativa é sempre de Deus.

   Desde as páginas iniciais da Bíblia, consta o que Deus fez. E faz. Continua a fazer. Certa vez, criticaram Jesus, mas veja que coisa ridícula, por curar no sábado. A resposta dele foi: Jo 5:

¹⁵ O homem retirou-se e disse aos judeus que fora Jesus quem o havia curado.¹⁶ E os judeus perseguiam Jesus, porque fazia estas coisas no sábado. ¹⁷ Mas ele lhes disse: Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também."

   Deus trabalha. Isaías, contemporâneo de Amós, atesta nos mesmos termos:

⁴ "Porque desde a antiguidade não se ouviu, nem com ouvidos se percebeu, nem com os olhos se viu Deus além de ti, que trabalha para aquele que nele espera." Is 64.

   A marca da autenticidade reside na ação de Deus. No Gênesis, está escrito Deus criou. E viu que era bom o que fez. O autor de Hebreus comenta, sobre isso, que o sábado de Deus foi o descanso de todas as obras feitas.

   Sim, para Deus não existe o tempo. Deus é. Mas existe Deus agir na história. Agir no tempo e na vida daquele que nEle cŕê e dEle espera. E a ação de Deus é autêntica.

⁶ "De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam." Hb 11.

   Amazias não cogitava autenticidade. Era pau mandado de Jeroboão II, campeão de idolatria como todos os demais reis de Israel do Norte:

 ²³ "No décimo quinto ano de Amazias, filho de Joás, rei de Judá, começou a reinar em Samaria Jeroboão, filho de Jeoás, rei de Israel; e reinou quarenta e um anos. ²⁴ Fez o que era mau perante o Senhor; jamais se apartou de nenhum dos pecados de Jeroboão, filho de Nebate, que fez pecar a Israel." 2 Rs 14.

    Daí, muito natural que o "profeta de ocasião" afeito aos gostos e jeitos desse rei, tivesse a dizer: "'Vai-te, ó profeta', disse Amazias." 

   E Amós, por pura autenticidade, responder: "Não sou profeta". Absurdo. Porque o Senhor o tomou de após o gado. Então escolheu, consagrou e enviou. Estamos e somos o que Deus, a nosso respeito, autenticar.