¹¹ "Naamã, porém, muito se indignou e se foi, dizendo: Pensava eu que ele sairia a ter comigo, pôr-se-ia de pé, invocaria o nome do Senhor, seu Deus, moveria a mão sobre o lugar da lepra e restauraria o leproso." 2 Rs 5.
Pensar, se pensa muito, Naamã. E muito, também, no varejo, ensina-nos a sua história. A começar pela (pré)adolescente anônima que, levada cativa à Síria, proveniente de Israel, não alimentou ressentimentos.
Ela aconselha sua senhora a encaminhar o esposo, Naamã, à sua terra natal, porque lá, como diz o próprio Eliseu, havia profeta.
⁸ "Ouvindo, porém, Eliseu, homem de Deus, que o rei de Israel rasgara as suas vestes, mandou dizer ao rei: Por que rasgaste as tuas vestes? Deixa-o vir a mim, e saberá que há profeta em Israel." 2 Reis 5.
Pois diante de Eliseu, comparece Naamã, um comandante de exército que contraíra hanseníase, para então, finalmente, obter o que lhe fora garantido por depoimento da menina, a tão esperada cura.
Havia criado expectativas de um ritual. Ele anteviu Eliseu, a quem ainda não conhecia, solenemente postado diante dele, erguendo aos céus uma oração e movendo a mão num gesto ritual de santa expressividade.
Decepcionou-se. Apenas recebeu um recado do (mal) aprendiz de profeta, Geazi, dizendo que se deslocasse às margens do Jordão e desse 7 mergulhos.
Muito indignou-se o homem. Deve ter pensado, como toda hora se pratica aqui, ele não sabe com quem está falando. E saiu fora. Seus ajudantes de ordens esperaram um pouco para, logo depois, argumentar com inteligência.
Com permissão, Comandante: o Sr está tão ávido pela cura, que faria qualquer coisa por ela. Veja bem, ele somente indicou esse simples remédio. Por que, então, não fazer?
E Naamã fez e ficou curado. Entre outras lições, aprendeu que não se enquadra Deus numa caixinha de regras. Mergulhar 7 vezes no Jordão não cura hanseníase.
Esperar um jogo de cena, com mover de mãos, presença impositiva e oração farisaica dirigida às alturas, é gesto de contravenção. Por isso Jesus adverte que, um combo de atitudes pré-moldadas de falsa autoridade e espitualidade não têm valor, nem como fantasia de bloco carnavalesco.
²² "Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? ²³ Então, lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade." Mateus 7.
Eliseu não era um blefe. E a cena imaginada pelo bem intencionado Naamã, projetada pelo seu ideário, não se encaixava na permanente, surpreendente e nunca enfadonha maneira de Deus agir. Desculpe aí, meu Comandante.
Não há burocracia no agir de Deus. E nem atravessadores. Por exemplo, o primeiro capítulo da Bíblia já demonstra a praticidade de Deus por ordem direta de sua palavra.
Por isso, confiar na palavra de Deus traz lucidez, consolo e segurança. Naamã saiu dali aprendido. Levou consigo a fé num Deus não burocrático, mas do contato direto, da resposta plena, pura e simples.
Basta acompanhar as jornadas de Jesus nas páginas dos Evangelhos. E ninguém, como ele para, plenipotenciariamente representar Deus. Jesus, por assim dizer, é teologicamente desconcertante.
Há, sim, muita tentativa de enquadrá-lo, estilo Naamã, em regras que, muitas vezes, até primam por desqualificar as narrativas desses mesmos Evangelhos. Ora, não pode ser assim, tão desconcertante. Mas, talvez, haja chance de um resgate à fé, simplicidade e humildade de um Naamã pós encontro com Eliseu e tudo que este profeta representava.
E o representava muito bem. Diga ao rei que "há profeta em Israel". E autorizado. Autêntico. Representa Deus. Mas não tente encaixá-lo no seu modelo pessoal, em sua expectativa assim, tão restrita.
Porque nem fará a oração que você espera, o manjado jogo de cena ou ritual já consagrado (e desgastado). Não será burocrático e, quando disser "Haja luz", haverá. Ah, sim: e será por milagre, muito distante do enquadramento requisitado.
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