domingo, 25 de janeiro de 2026

Aleijões de Deus

 ² "Jornada de onze dias há desde Horebe, pelo caminho da montanha de Seir, até Cades-Barneia."  Deuteronômio 1.

   Os roteiros expressos no Pentaeuco, mormente em Números e Deuteronômio, têm pouca chance de ser históricos, dizem os estudiosos, genericamente assim chamados.

   Mas nenhum deles se chama Raimundo Nonato, Severino Barata, João ou José Silva. Porque seus nomes são, notável e principalmente alemães.

  Nada contra eles. Mesmo porque nem lhes entendo a língua. Mas são cerca de 1500 anos mais velhos do que nós. Basta dizer que, na adolescência destas paragens, apenas 1517, deu-se toda a confusão do Renascimento, embutida a Reforma.

   Daí se dizer que temos complexo de vira-latas. Eu sou um deles.  Por isso, acredito como históricos cada trajeto. Ora, diz-se, também e, talvez, principalmente, a arqueologia não dá sinal nenhum de passagem pelo deserto.

   Por exemplo, dos maias sobram evidências, mas de seu trajetos, pouco se sabe, ainda que pela ajuda dessa ciência. Mas dos hebreus, muito se sabe de seu roteiro, mas não há crédito, porque é Bíblia.

   Ora, será muito difícil se dar credibilidade ao livro sem que sejam verdadeiros esses roteiros. Porque de Deus é aleijado de agir do modo como os autores do livro indicam, vai-se embora a credibilidade deles, do livro e, consequentemente, do que se atribui a Deus que tenha efetivamente feito.

   Talvez seja por isso que vacila a vocação das igrejas evangélicas. Porque acreditava-se na integridade do livro. Acusou-se a antiga igreja, chamada Católica, por desprezá-lo. Ela, que canoniza milhares de santos ao longo de seus alegados 2 mil anos de história, credita-lhes milagres.

   Mas aqueles narrados nas Escrituras, descaredita-os. Eu acho que o problema reside mesmo no livro. Muito incomoda. Eivado de absurdos. A começar pelo princípio, isso mesmo, o Gênesis.

   Afirma que Deus fala. "E disse Deus: haja luz". Afirma que Deus cria: "E houve luz". Ora, a ciência está aí para desmentir. E Deus falar, o homem ouvir, é deveras absurdo. E ainda não abordamos aqui o inverso, que é falarmos e Deus ouvir.

   Deus radicaliza tanto, que o livro vai afirmar que Ele se fez homem. Encarnou-se numa virgem, nascendo homem, saído de dentro dela. E, pelo visto, não são somente os muçulmanos que riem, afirmando ter nosso Deus sido expelido pelo canal de uma mulher.

   Seremos salvos pela mitologia cristã. Basta transformá-la em teologia. Com sobrenomes nórdicos ou anglo-saxões, talvez uns poucos românicos, visto que somos vira-latas.

  Eu sou um deles.  Não acredito nessa mitologia. Não fui resgatado pelo século das luzes. Minha razão vacila. Até provarem a mim o contrário, há uma "jornada de onze dias, desde Horebe, pelo caminho da montanha de Seir, até Cades-Barneia".
   
    Fecho com o Deus da Bíblia, como assim definido, com todas as suas incapacidades e aleijões. Ah, assunto para uma outra escaramuça: também acredito que, da boca desse time de profetas do AT sim, sai palavra autêntica. 

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